terça-feira, 8 de abril de 2008

A última vez que Alma esteve aqui (crônica de Guilherme de Faria

Estou me tornando um velho solitário. Entre meus livros, telas e papéis, pintura e desenhos, componho os meus cordéis com paixão e assim continuo em contato com o mundo. Continuo ilustrando os poemas que Alma me envia pela Internet e montando seus livrinhos, que apresentamos em kits de madeira, pra leitores especiais, que percebem a preciosidade dessa espécie artesanal de edição da grande poetisa.
Mas, quando Alma Welt se digna a visitar-me, isto é, trazer pessoalmente seus poemas e romances para eu ilustrar e prefaciar, minha solidão se ilumina. Eu renovo meus sonhos por mais muitos meses.
Alma esteve aqui, ontem. Ainda estou embargado. A "guria" está mais bela do que nunca. E como é meiga e carinhosa! Ela chegou no fim da tarde, e depois de um profundo abraço (ah! o abraço perfumado da Alma!) começamos imediatamente a conferir nossas produções (as dela muito superiores e prolíferas) e a fazer planos.
A certa altura Alma pegou o violão e cantou, com sua linda voz macia e sussurrante a composição que a sua nova amiga Kibsel fez para um soneto seu e também a de seu amigo músico, o João Roquer, para um poema seu de verso livre. Coisas lindas!
Ficamos tantas horas conversando e declamando nossos poemas, que ficou tarde e e eu sugeri que ela dormisse aqui. Minha mulher está viajando para Minas e tudo estava muito propício. A guria hesitou, claro, com escrúpulos. Mas exausta aceitou, já que tenho um sumiê no escritório, em que eu poderia dormir, oferecendo-lhe a minha cama.
Vocês, caros leitores do Recanto, já imaginaram a minha tortura. Não preguei o olho a noite toda. Esta mulher magnífica, que já tive o privilégio de ter nos braços há alguns anos atrás, e por um ano inteiro, agora inacessível, por tudo, pelo rumo que a vida tomou...
Levantei-me muitas vezes para ir à cozinha beliscar bolachas doces e beber coca-cola light, para não engordar... ai de mim!
Até que, na alta madrugada, não resisti mais e aproximei-me da porta e abri-a com cuidado, só para observá-la adormecida. Minha alma precisava disso.
Alma estava nua e descoberta (como seu costume no verão) adormecida, eu percebi, pela luz da lua que entrava pela janela semi-aberta. Não resisti, acendi a luz cofiando em que ela não despertaria. E Alma não acordou!
Eu pude, meus amigos, ficar ali por pelo menos quinze minutos, diante do leito, contemplando esta escultura viva do mais puro mármore de Carrara. Sua perfeição inacreditável, seus seios pequenos, redondos, parecendo virginais, de bicos cor de rosa, seu ventre de alabastro, de suave curva terminando num montículo de pelos dourados encimando os lábios descobertos e levemente rosados de sua vulva perfeita como uma concha perfumada(eu confesso que a auri com minhas narinas bem perto). Suas pernas compridas, magníficas, ligeiramente abertas expunham esse tesouro, e eu pude ver que estava úmida de agradáveis sonhos, que escorriam cristalinos para os lençóis (jamais os lavarei). Seus pés delicados, estreitos, compridos, de pura seda, com dedos longos e nobres, o segundo mais comprido que o primeiro como o das estátuas gregas. Seus lábios de rosa, entreabertos, suas pálpebras de seda, seus cabelos dourados, luminosos, esparzidos...

Amigos, eu chorava e... não percebia.

A beleza feminina, nesse nível, comove, e eu creio que me nutro dela desde o nosso primeiro encontro.

Alma parece saber disso. Ela sabe, e veio me presentear, agora eu vejo. Veio alimentar de beleza o amigo que lentamente envelhece...

Guilherme de Faria
08/11/2006

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Prefácio aos Contos Pampianos, de Alma Welt, por Guilherme de Faria

Eis aqui uma recolha de contos de Alma Welt, que são propriamente pampianos, isto, é cujas estórias, tramas e pensamentos se originaram no cenário natural, ou “habitat’ desta bela gaúcha, muitos deles referentes a períodos de sua infância e adolescência. Foram pinçados por mim, do conjunto do que ela denominou seus “Contos Secretos”, e alguns, dos chamados “Contos Proibidos de Alma Welt”, estórias que poderiam ser escabrosas, pelo seu teor erótico muito íntimo, contendo pequenas perversões sexuais da autora, que não sabemos realmente se imaginárias ou reais, mas às quais ela consegue tornar atraentes, com a sua candura e liberdade encantadoras. Me refiro aos contos sodomitas, e aos urofílicos. Alma, no entanto, a despeito de suas extremas confissões, ou por isso mesmo, permanece essa figura enigmática, pelo conjunto raro e riquíssimo de dons, a começar pela sua sensibilidade delicada, de mulher-artista, ao mesmo tempo de grande amorosa. Não podemos esquecer de sua condição de poetisa de grande estro lírico, capaz de sonetos primorosos, alguns dos mais belos da nossa língua portuguesa, a meu ver. Vejam por exemplo isto, um soneto quase camoniano pelas oposições e paradoxos como no famoso soneto do mestre (“Amor é chama que arde sem se ver...”), uma bela profissão de fé que se encontra no ciclo narrativo que ela denominou “Sonetos Secretos”:

2

Quando criança, o amor já desejava
E sonhando construía meus enredos;
Tornar-me escritora eu almejava,
Ser poeta e espalhar os meus segredos.

Ser pura, secreta e desbragada:
Confessional pelo mais puro pudor,
Abrir o coração, e, alargada,
Conter o essencial do meu amor:

Aquilo que devora e me conserva
Jovem para sempre enquanto morro
Um pouco a cada dia que percorro.

E assim, da Natureza alegre serva
Manter do coração a chama eterna,
Heróica, ao sol acesa a vã lanterna.


Escolhi transcrever aqui este soneto, para sublinhar a notável auto-consciência de vocação e missão, que emergiu muito cedo nesta guria gaúcha que consegue ser autora e protagonista, criadora e criatura ao mesmo tempo; personagem e construtora de uma obra que se constitui do progressivo registro “secreto e público” de sua vida de amorosa às raias do erótico, e de notável lirismo freqüentemente sáfico. Estamos, a meu ver, diante de um fenômeno raro.
Mas voltemos aos contos deste volume. O amor que a autora dedica à sua terra, o Pampa gaúcho, chega a ser comovente e nos faz lembrar a Cathy Earnshaw (depois Cathy Linton), do “Morro dos Ventos Uivantes” da grande Emily Brönte, cuja paixão por sua charneca parecia superar até mesmo o amor por seu Heathcliff .
Trata-se de uma nobre estirpe essa, de artistas que conseguem cantar o seu cenário, o amor ao seu habitat natural, ao berço, à terra de suas raízes. Lembro-me, por exemplo, o quanto o aspecto mais interessante(sempre achei) da obra de Salvador Dali, a despeito de sua grande imaginação, é justamente o pano de fundo, o cenário de Port-Ligat, de sua Cataluña natal, que isso sim, pode nos comover na sua obra, em que Freud detectou sobretudo “consciente”, enquanto via na grande arte dos renascentistas e clássicos, a verdadeira pulsão inconsciente.
Assim também, comecei a perceber a importância do Pampa, dessa peculiar pradaria, com suas coxilhas e seus ventos (o pampeiro, o minuano e o haragano), e seus mitos fascinantes, na obra desta poetisa, embora isso não seja nada raro nos autores gaúchos, a começar pelo grande Érico Veríssimo. Uma paisagem poderosa como essa, cenário de célebres batalhas revolucionárias e da saga inesquecível de Anita e Giuseppe Garibaldi, paixão também desta nossa Alma, como de todos os gaúchos, escritores ou não. Essa paixão pela terra atinge até mesmo grandiosidade, entretanto, no romance “A Herança” de Alma Welt, que permanece inédito até o momento da escrita deste prefácio.
Todavia, o elemento inquietante, que chega a constituir um “pathos” na obra desta gaúcha, é sem dúvida a conotação sexual de tudo, a avassaladora libido que a move, que ela consegue justificar pela fusão com uma estética amorosa altamente legitimada pelo bom gosto, pela harmonia de sua escrita espontânea, sem rebuscamentos. Curiosamente, para uma mulher, quando sua narrativa esbarra numa situação de sexo, de “transa” como dizemos hoje em dia, ela prefere não se desviar ou simplesmente “sugerir” pudicamente, e detectamo-lhe um verdadeiro prazer na explicitude, na descrição pormenorizada dos lances até mesmo “performáticos” dessas relações. O singular, é que Alma, a despeito do seu próprio prazer quase masturbatório, consegue ser refinada, e talvez por ser pintora, altamente visualizável nestas cenas, mas sem mau gosto ou vulgaridade, conferindo a elas um certo encanto e, portanto, prazer literário e estético no leitor. Congratulo-me com ela, por essa capacidade, pois sempre me irritou, por exemplo, a hipocrisia do cinema americano que parece ter uma verdadeira ojeriza, ou temor pânico, da simples visão dos pêlos púbicos, masculinos e femininos, que eles jamais filmaram frontalmente em toda a história de Hollywood, embora sejam capazes de sugerir violentos estupros, frontais ou traseiros. Para mim, como para Alma Welt, chega a ser um mistério essa idiossincrasia dos americanos quanto aos pubic hair, os maravilhosos “pentelhos” que gostamos de exprimir assim, com ligeira vulgaridade desafiadora. A propósito, a própria Alma já se referiu, nalgum lugar de sua obra, aos seus próprios “pentelhos louros’’, creio que no magnífico conto “A Harpia”, do seu “Contos da Alma”, já publicado. Mas é fácil explicar esse timbre específico das cenas de sexo explícito na literatura de Alma Welt. Trata-se da absoluta falta de sentimento de culpa, portanto de malícia em relação ao sexo, que parece ser uma detestável herança judaico-cristã, que Alma não contém em sua alma, que me parece ser a da última “pagã” sobre a terra, desde que seu pai assim a criou, a despeito da mãe da guria, que era descendente açoriana e católica.
Mas voltando aos contos deste volume, uma delicadeza feminina num universo muito mais amplo que o que se convencionou chamar de feminino, se faz presente nesta autora, que nos parece, antes mesmo de ser mulher, ser artista e portanto universal por definição. Suas preocupações nunca são propriamente “domésticas ou maternais”, e muito menos “cosméticas”. Ela aborda a força do apelo da terra, de suas raízes telúricas, o amor cotidiano por sua própria arte, fruto de sua visão altamente poética da vida, e um tanto idealista também, derivando, suponho, do próprio “idealismo alemão” de sua herança cultural por via da estirpe paterna dos Welt, que apropriadamente simboliza o Mundo. Quanto à vertente materna, temos de Portugal e sua saudade, uma melancolia intermitente,e mais raramente algumas paixões dolorosas como os seus fados (vide o conto “Aline”, dos “Contos da Alma”). Não podemos, entretanto, esquecer que a descrição mais dolorosa de uma paixão infeliz jamais escrita na história da literatura, se encontra num livro exemplar do romantismo alemão, o maravilhoso e doentio “Os sofrimentos do jovem Werther”, de Goethe.
No entanto, e nisso consiste o fenômeno, dum modo geral a nossa autora é uma mulher alegre e feliz, possuidora até mesmo de um sutil senso de humor que aparece aqui e ali nos seu textos, que já foram compilados por mim, com sua autorização, é claro, num volume que denominamos justamente “Contos Humorísticos da Alma”.
Por ora, esta específica recolha contém os contos que se passam na “estância” pampiana da família, e mais raramente, no casarão natal de Alma em Novo Hamburgo onde Alma viveu até os nove anos, quando então mudou-se com os pais para a fazenda dos avós, no extremo sul, quase na fronteira com o Uruguai, entre Alegrete e Santana do Livramento. O cenário maravilhoso é visualizável nas rápidas pinceladas do texto sugestivo de Alma, como boa pintora-escritora. A propósito, parece existir um absurdo preconceito (como todos os preconceitos ) em nosso país, sobre pintores-escritores, ou escritores-pintores. O público parece não saber que são artes muito afins e que essa conjunção é muito mais comum na história das artes do que se pensa. Não cabe citar aqui a centena de exemplos célebres que me ocupei em colecionar por puro prazer. Na falarei sequer do grande William Blake, autor do célebre poema “The Tyger”, dos mais amados da literatura inglesa, exemplo clássico de poeta, gravador e aquarelista fenomenal e sui generis. Só quero citar no momento uma das belas páginas de pura literatura mágica, no único romance de Salvador Dalí, denominado “Faces Ocultas”, onde ele descreve magistralmente uma máscara ortopédica de couro, de reconstrução facial, sobre um rosto de piloto, destruído por um desastre aéreo, na primeira guerra, com suas primorosas costuras e cadarços, produzindo no leitor um prazer estético e literário indelével. Poucas vezes vi páginas assim tão bem escritas em qualquer escritor. Citarei, somente mais um exemplo: as páginas magistrais de descrição de uma súbita chuva à saída de uma festa, no começo do grande romance “O Amor nos Tempos do Cólera”, de Gabriel Garcia Marques, onde os convivas abrem seus guarda-chuvas protegendo seus pares numa espécie de coreografia cinematográfica de um verdadeiro Kurosawa latino e literário.
Quanto à Alma, já detectei páginas assim, magistrais, em sua prosa. São inúmeras, mas quero mencionar, deste volume, a página de diálogo da Alma com o padre fanático, no confessionário, no conto “O padre”; também a página final do conto “O adolescente”, bem como as do conto “A professora belga”, dos “Contos Secretos”, que me parece maravilhosamente hoffmaniano. Devo também frisar a persistência recorrente de sua paixão maior, confessada, ou melhor, cantada e celebrada, por seu próprio irmão Rôdo, paixão essa de caráter evidentemente incestuoso, da qual Alma não se compunge e parece mesmo se orgulhar. O amor de Alma por seu irmão, cantado assim por ela, chega a se universalizar, pela beleza de seu respaldo lírico, mais do que psicanalítico.
Prosseguindo, eu poderia citar inúmeros momentos de perfeição formal, nas páginas de Alma Welt. Mas serei eu suspeito? Eu me orgulho, como muitos já sabem, de ser o descobridor da obra da “guria”, e o nosso encontro providencial foi descrito por ela no conto “Anagramas”, que publiquei de forma artesanal, em folheto ilustrado por mim, conto criptológico e anagramático verdadeiramente iniciático, e que sugere a natureza misteriosa e providencial do nosso encontro, já no século XVII. Mas vou deixar essas referências para o leitor descobrir na leitura direta da própria Alma. É ela a “star”, cabe a ela as honras. E os holofotes.
Venha, Alma, mostre-se para nós, passeie e dispa-se para nós, no seu jardim, no pomar e nas pradarias do seu amado pampa. Dê-nos a sua branca beleza loura, austral ou nórdica, desnude-se, cavalgue, dance, pinte e ame, ofertando-nos sua intimidade com tanta generosidade, para nós fruirmos... e voltarmos a reverenciar o belo, o puro e o melhor do humano.
_______________________________________


30/10/2005