Alma Welt
(Escritora)
08/01/1972, em Novo Hamburgo RS
20/01/2007 Estância Sta Gertrudes, Rosário do Sul RS
ALMA WELT (1972-2007) escritora gaúcha nascida em Novo Hamburgo, poeta lírica, grande sonetista (escreveu cerca de 700 belíssimos sonetos)*, deixou uma obra profícua e numerosa, constando de um romance autobiográfico inédito em quatro tomos denominado "A Herança" (dividido como quarteto com os seguintes títulos: A Herança, A Ara dos Pampas, O Sangue da Terra, A Vinha de Dioniso),e mais o romance entitulado "O Retorno dos Menestréis", ambientado no sertão nordestino de Pernambuco e Paraíba, numa mítica e divertida viagem a bordo do Pavão Misterioso. Tem ainda quatro livros de contos: Contos da Alma, publicado em 2004 pela Editora Palavras & Gestos(de São Paulo) e presente nas livrarias (vide google); Contos Pampianos da Alma, Contos Secretos da Alma, e "Lendas da Alma" (este uma coletânea de lendas poéticas de sua invenção, de caráter europeu, góticas e misteriosas, ilustradas com desenhos a cores por Guilherme de Faria. Além disso tem um livro de crônicas curtas(Crônicas da Alma). Sua obra poética, igualmente prolífica, conta com 49 livros de poesia, sendo 33 de sonetos (perfazendo cerca de 700 sonetos),e vem sendo publicada de maneira semi-artesanal, em folhetos dentro de uma caixa (Kit) de madeira, e ilustrados a cores com desenhos de Guilherme de Faria. As duas últimas obras poéticas que escreveu são: um notável drama lírico formado por 42 sonetos (cenas) encadeados,inspirado por sua paixão por uma aluna e denominado "Sonetos à Mayra"; e os "150 Sonetos Pampianos da Alma" escritos no seu último mês de vida. Parte considerável de sua obra está publicada no site literário "Leia Livro" (da Fundação Padre Anchieta, na Internet).
Alma Welt conseguiu extraordinário sucesso com suas obras na Internet, principalmente no site Recanto das Letras, num período de 7 meses, até a sua morte, com mais de 14.000 leituras e 1.500 comentários elogiosos vindos das mais diversas partes do Brasil e de Portugal. Entretanto, as circunstâncias de sua morte por suicídio no dia 20/01/2007, romanescas, causaram um imenso escândalo nesse site, por equívoco e intrigas, produzindo a suspeita de que se tratasse de um heterônimo, e resultando na sua inusitada e espantosa expulsão póstuma daquele site, e debates no seu Fórum, do tipo "Alma Welt existe? Alma Welt não existe?"
A autora, mulher jovem, belíssima e misteriosa, não se deixava fotografar, somente permitindo a divulgação de seus retratos em desenhos, gravuras e pinturas a óleo de Guilherme de Faria, seu "retatista autorizado", pintor paulista que a ilustrou, prefaciou, e editou, lançando-a no meio artístico paulistano a partir de 2001, quando a descobriu no seu auto-exílio paulistano, num ateliê de pintura estabelecido nos Jardins. As circunstância notáveis desse encontro providencial foram narradas por ela no seu conto entitulado "Anagramas", que pode ser encontrado na sua página no site Leia Livro da Internet.
Alma suicidou-se aos 35 anos por afogamento, na sua estância pampiana, no
auge de seu talento e beleza. Admirada pelo grande poeta Paulo Bomfim (que escreveu um prefácio para o próximo livro dela a ser publicado) e pelo famoso bibliófilo José Mindlin (que possui obras inéditas dela) começa agora a sua trajetória triunfante, como "a última grande lírica do século XX", Poeta e Musa ao mesmo tempo.
Nota da Lucia Welt:
*(escreveu cerca de 700 sonetos) - Depois de encontrada uma arca no sótão do casarão abarrotada de inéditos de minha irmã, a quantidade de sonetos ultrapassou a marca de 1.000)
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Comentários sobre:
Alma Welt Adicionar Comentário :
Alma Welt é, sem dúvida, o maior fenômeno literário das letras femininas deste país, no despontar do século XXI. Seu suicídio romanesco,no começo deste ano, permanece envolto em mistério. Pelo que eu soube, há suspeita de que ela pode ter sido assassinada. Sua sensualidade,apesar de sua pureza, parece tê-la tornado vítima de estupro em mais de uma ocasião.É uma terrível tragédia.O Brasil perdeu este ano a sua maior escritora e poeta surgida em tempos recentes. Felizmente a obra não morre, e podemos continuar a fruir de sua poesia aqui na Internet, no Leia Livro, que parece que sua irmã Lucia Welt está alimentando com textos inéditos da "Musa pampiana".
Por: Solange Lima
Muito bons os textos acima sobre a maravilhosa Alma Welt. Mas sinto que, apesar de fornecerem bastantes dados biográficos, não penetram na área propriamente crítica da literatura da
musa pampiana.
Fui uma das primeiras leitoras a descobrir e comentar os textos da poetisa, ressaltando a grandeza de sua prosa e poesia, principalmente
de seus sonetos, que estilisticamente têm uma grande assimilação do romantismo tanto quanto do parnasianismo, que ela chegou a homenagear como por exemplo no soneto n°9 de seus 150 Soneto s Pampianos, entitulado A Oferenda:
A Oferenda (de Alma Welt)
ou
O que me disse um vagalume
(dedico aos nossos grandes parnasianos,
de Olavo Bilac a Vicente de Carvalho)
9
Noite clara, a natureza em festa
Saúda-me feliz, aqui no meu jardim.
Um vagalume dança em minha testa
Dizendo: “Vem, me siga já, aqui, assim!”
“Vem comigo até o bom caramanchão
Onde podes exibir a tua alvura
Sem seres avistada por algum peão
Que te possa espreitar pra te ver nua...”
“Como num leito deita em teu vestido,
As pernas entreabertas, que na fenda,
Como uma pérola, talvez com um prurido
Pouso eu na concha que o Amor cultua,
Enquanto, minha Alma, em oferenda,
Abres teu corpo para a luz da lua!”
Notem o mesmo estro simbolista eromântico em essência, apresentado pelos melhores momentos do parnasianismo, acrescentado de uma nota erótica graciosa e delicada.
Aliás acho oportuno ressaltar o erotismo peculiar da autora ,que dedicou a esse filão muitas de suas melhores páginas. "Peculiar" porquanto Alma se distingue nessa área pela absoluta ausência de vulgaridade, e podemos dizer: com grande pureza e inocência como “un enfant de la nature” que desconhece o “pecado”, mesmo se ocasionalmente lança mão de uma leve malícia inocente quando quer conferir humor à cena. Vejamos:
Eu e os piratas
(dos 150 Sonetos Pampianos da Alma,
de Alma Welt)
Meu irmãozinho construiu embarcação
Toda de caixotes, pouco destra,
Com um cabo de vassoura e armação
Que pretendia ser a vela mestra.
E a arrastamos juntos ao laguinho
Da cascata, pra com ela navegarmos
Como piratas, eu com bigodinho,
Ele com a venda e os sarcasmos.
Mas eis que me vi numa enrascada,
Pois borrando meu bigode com o dedo
Ele disse: “Descobri o teu segredo!”
“Já que és mulher és cobiçada
E vais ficar pelada e com medo,
Pois serás de toda a marujada!”
Eis aí um bom exemplo dessa “malícia inocente” que capta o humor da cena pueril das lembranças de sua infância pampiana. É verdade que na sua série “Sonetos Luxuriosos”(vide no Leia Livro) Alma pega mais pesado, mas ainda assim, verificamos que tais sonetos derivam de um sentido picaresco só encontrados no período medieval tardio e na Renascença. Mas nada da grosseria de um Pietro Aretino que, esse sim,pornógrafo deslavado, seria um equivalente hoje em dia dos vídeos pornôs, em sua malícia e falta total de sutilezas, na sua obra homônima "Sonetti Lussuriosi”. Mas isso merece um estudo à parte. Quanto aos Sonetos Pampianos, Alma nessa série magistral que coroa a sua obra, parecia estar num surto febril de criatividade e inspiração produzindo de enfiada 150 sonetos primorosos e intensos, no seu último mês que culminou com o seu inesperado(?) suicídio. Na verdade foi uma morte anunciada: Alma deu sinais de alerta ou premeditação, que infelizmente passaram despercebidos por seus familiares, embora ela tivesse já sido internada há um ano atrás, numa
clínica lá no Sul, por surtos periódicos de angústia que chegavam a desorientá-la. Esses sinais me parecem agora detectáveis em sonetos como este:
Soneto de nostalgia
(dos Sonetos Pampianos da Alma, de Alma Welt)
Quanto fui amada em minha infância!...
Como viver então sem mais viver
O reino de encanto que era a estância
E alegria e beleza ainda manter
Se a alma deste pampa era o meu Vati
E seu piano mágico, polido,
Agora amargo como o coração do mate
E surdo como o verso com que lido?
Perdida do pomar do paraíso
Não só a inocência mais juízo,
Desço o rio de amor da minha mente
Que me mantém acesa e ainda viva
Nesta mansão que afunda lentamente
Como um barco bêbado à deriva...
Alma percebia os sinais de decadência de sua estância semi-abandonada, endividada e arruinada . Como poeta ela não poderia ser uma boa administradora do patrimônio deixado pelos seus avós. O endividamento já começara com seu pai, também ele artista. Entretanto não acredito ser essa a verdadeira causa da angústia ou depressão da nossa poetisa. A chave da sua tragédia pode ser encontrada nas entrelinhas de versos como este:
Os Sonhos da Razão
(“El sueño de la razón produces monstros” (Goya
Levantam-se na noite os meus sonhos
E me acordam febril e alvoroçada.
Não me embalam, não, não são risonhos
Meus sonhos de Poeta apaixonada!
Paixão da vida, a ânsia dos autores.
Da louca ilusão de eternidade,
Sonhos de grandeza, dos louvores,
Dos vôos sobre os tetos da cidade!
Ah!Ser o ideal que desejei:
Ser a alma aqui do Rio Grande
A musa que de mim me projetei!
Eu que necessito ser amada
E quero ser feliz além de grande,
Tudo quero, tudo, e tenho nada....
Infelizmente, em sua candura anímica Alma não pode perceber que já tinha tudo: beleza, talento, inspiração, grandeza.A insatisfação ou o excesso de sensibilidade a matou... sem que pudesse perceber em que ponto se encontrava, e que a fama já estava chegando, e com ela certamente glória que confessadamente almejava e que deixou para a posteridade.
(Leandra April)
Exertos de um longo ensaio sobre a poetisa Alma Welt a ser publicado.
Por: Leandra April
Alma Welt
1972-2007
Poetisa e escritora gaúcha, grande revelação recente das letras deste país, nasceu, segundo ela conta no seu romance autobiográfico A Herança (2005), num acostamento de estrada, na relva, a caminho de novo Hamburgo, pelas mãos de seu pai o médico, pianista e erudito, Werner Friedrich Welt, que fez ali mesmo o parto de sua esposa Ana Morgado, neta de imigrantes açorianos. Seus avós paternos eram os agricultores alemães Joachin e Frida Welt, que imigrados dos sudetos da Chekoslováquia antes da Segunda Grande Guerra, prosperaram primeiramente em longos anos de colônia agrícola alemã no Vale do Itajaí, região de Blumenau, em Santa Catarina. O avô de Alma iria adquirir uma estância gaúcha no extremo sul do país, onde plantaria um vinhedo pioneiro no Pampa, para produzir vinho, que era o seu sonho. Alma conta a saga de seus avós e de seus pais no seu romance A Herança, em quatro volumes. Quanto à sua avó Frida, vide o trecho “O Condestável Gottfried” nas sua página no Leia Livro.
Alma é a terceira filha do casal Werner e Ana, tendo um irmão mais novo um ano, Rudolf, que ela chamava pelo apelido de Rôdo e que é um personagem importante nos seus romances, contos, crônicas e poemas de caráter memorialístico. A paixão de Alma desde a infância por seu irmão caçula é tão intensa que chega a revelar um fundo incestuoso, todavia sublimado em literatura por um tom lírico que o justifica e mesmo chega a engrandecer. Todavia esse fato acarretaria um primeiro trauma na vida da guria dos pampas, pelo flagrante produzido por sua mãe numa singela cena de descoberta sexual infantil, sob a macieira querida do seu pomar, o que nos faz pensar numa metáfora da perda da inocência sob a arvore do paraíso, ou da Razão (a Ciência do Bem e do Mal). Aliás, toda a obra da escritora gaúcha é perspassada de alegorias, de simbolismos e mitos recorrentes, como esse da macieira primordial, o de Narciso e Eco, o de Perséfone, e o do fio de Ariadne e o Labirinto do Minotauro (vide as suas novelas "Perséfone" (o mito de Adèle D'Affry), "Narciso", e "Ariadne", no Leia Livro.
As duas irmãs de Alma: Solange Motersohn Welt, casada com Alberto (que ela chama o “borracho”) era a mais velha, que morreu assassinada por seu cunhado Geraldo, com quem havia fugido, e que era casado com Lúcia, a segunda irmã de Alma, que está hoje em dia empenhada em dar prosseguimento às publicações de sua irmã e em cuidar de sua herança literária e posteridade.
Alma era profundamente ligada ao seu pai, que ela, como seus irmãos, chamava de “Vati” ( pronuncia-se Fáti, "papai" em alemão) e que ela idolatrava de uma maneira igualmente exaltada, e que após a morte dele, produziu maravilhosos versos nostálgicos (vide o soneto “A carruagem”, que foi o último escrito por Alma (pertence à série "150 Sonetos Pampianos da Alma") e publicado no site Recanto das Letras, causando considerável comoção, com o anúncio de sua morte):
A Carruagem (de Alma Welt)
(150)
Um piano toca no salão!
Ah! e não fui eu que coloquei
Um cd ou um velho long-play,
Talvez seja o Vati, e então...
Ele voltou! Sim, ele me quer!
Vou ao seu encontro e sou mulher!
Sim, ele vai ver que agora sou
Pelo menos a guria que sonhou.
Olha, Vati, há muito não me vias,
Mas de verso em verso muito errei
Pelo mundo, a viajante que querias...
E agora, com toda esta bagagem,
Leva-me contigo, que eu irei
Quietinha, assim, na carruagem!
Depois de uma primeira infância urbana em Novo Hamburgo, Alma se transfere com a família para a estância de seus avós, no Pampa, situada entre Alegrete e Santana do Livramento, próxima a Rosário do Sul. A infância da Alma nos pampas, nessa estância cercada de um vinhedo que ela tornaria mítico em sua literatura (A Vinha de meu Pai, A vinha de Dioniso, etc,) é um dos temas recorrente de sua obra, e adquire um tom de grande lirismo e nostalgia, em que o cenário grandioso da pradaria, com suas coxilhas, um bosque, o seu pomar e uma pequena cascata em cujo poço de águas cristalinas Alma iria encontrar a sua morte, fazem dela também uma escritora pampiana de notável poder sugestivo de paisagem, mais do que descritiva.
Com a morte de seu adorado pai, que foi quem a criou no meio de sua biblioteca clássica em quatro línguas, como uma pequena pagã, longe da influência católica de sua esposa que não compreendia a filha, e que Alma chamava de maneira mítica, talvez subjetivamente pejorativa de “a Açoriana”, Alma profundamente chocada e transtornada, abandona a estância e se "auto-exila" (como ela dizia) estabelecendo um ateliê de pintura em São Paulo, nos Jardins, onde seria descoberta como pintora, mas principalmente como escritora inédita com grande bagagem de textos originais manuscritos que deslumbraram o artista Guilherme de Faria e que o fizeram dedicar-se desde esse dia de Julho de 2001, à sua divulgação nacional, lançando-a, prefaciando e ilustrando seus poemas, com tal entusiasmo e dedicação ( ele a considera sua última e definitiva Musa). Cabe aqui dizer, que por algum pacto entre ele e Alma (vide o conto Anagramas, dela, no site Leia Livro) ela não se deixaria mais fotografar em sua vida pública, somente aceitando a divulgação dos seus retratos feitos em desenho, gravura e óleo pelo artista paulista, o que talvez tenha motivado a suspeita ou o boato de que ela, Alma Welt, seria um heterônimo desse artista. A natureza misteriosa da “guria” produziu uma grande confusão, às raias do escândalo, que acabou por equívoco resultando na espantosa expulsão póstuma da escritora, do conhecido site literário onde ela vinha publicando há quase um ano com imenso sucesso, e já celebrada como uma diva das Letras, com uma legião crescente de admiradores e fãs. No entanto seus textos podem ainda ser acessados no site Leia Livro, que foi o seu berço na Internet. Lucia Welt está publicando ali, como continuidade, textos de sua irmã, inéditos ou já publicados anteriormente no outro site de que ela foi apagada.
Alma começa agora a sua verdadeira trajetória: póstuma, como toda grande arte costuma ser.
Por: Eliana Mattos
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
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