sábado, 25 de fevereiro de 2012

Os frutos do meu pomar ( Alma Welt)

"Que imenso privilégio é poder viver neste Pampa, que é onde o Mundo começou, e poder atirar daqui mesmo meus poemas para o mundo! É como se eles estivessem sendo colhidos pelos meus leitores, como eu mesma colho os frutos do meu pomar..." (entrevista com Alma Welt)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A mão para o soneto ( depoimento de Alma Welt)

"Perguntam-me por quê escolhi o soneto como minha forma de expressão poética principal, a ponto de ter escrito mais de dois mil deles, coisa nunca feita por nenhum outro poeta no mundo. Eu respondo que não é somente por que tenho pressa de registrar minhas idéias, mas porque o soneto tem vida própria e se escreve sozinho com uma facilidade misteriosa em minhas mãos, mesmo se atendo às regras de métrica, rima e chave de ouro. Julgaram que minha resposta fosse cabotina, porque o soneto é uma forma clássica de certa dificuldade... mas garanto que como sou preguiçosa, tendo descoberto que tenho mão para o soneto, como os bons cozinheiros têm mão para o sal, quando comecei não pude parar mais. E através deles passei a limpo a minha vida..." (Alma Welt)

domingo, 5 de fevereiro de 2012

PREFÁCIO às CRÔNICAS DA ALMA, de Alma Welt

(por Guilherme de Faria)


Eis-nos aqui a publicar as Crônicas que Alma Welt considerava até a pouco, impublicáveis (pelo menos em jornal ). Aliás, nunca passou pela cabeça da nossa autora, o papel de jornalista. Suas crônicas têm o caráter íntimo e confessional de quase toda a sua produção( excetuadas as “Lendas da Alma”, e os ciclos de poemas “O Circo” e “A Ciranda dos Animais”, editados pelas minhas artesanais “Edições do Pavão Misterioso”.
É perturbador, no entanto, o fato de que quanto mais a nossa autora se expõe, com a sensualidade e explicitude que lhe é característica, em sua obra, mais ela se esconde pessoalmente, mais se reserva, numa condição de verdadeiro exílio social., o que consideramos, sinceramente, no mínimo um desperdício, dada a excepcional beleza física da “guria” ( como ela diz) que descobrimos, vinda do sul, e como que degredada nestes Jardins, de São Paulo, amiúde derramando lágrimas pelo Pampa e sua estância praticamente abandonada. “O casarão batido pelo minuano, recusa-se a afundar...”, ela diz lindamente num poema seu.
Não pensem os leitores que não tenho insistido para a nossa musa sair da toca. Estou começando a ser acusado de ciumento da minha descoberta, e “enrustidor”. Alma tem recusado amáveis convites de casais que se tornaram seus fãs, pela sua literatura, para almoços e jantares em sua homenagem, e que o fazem por meu intermédio. Em vão. Estou quase desistindo: trata-se já de uma fobia.
No entanto ( e isso é surpreendente), nossa autora está longe de ser uma pessoa triste, ou uma poetisa melancólica. Como nos seus textos, que são ela mesma, direta e coloquial, Alma celebra a “Alegria mais profunda do que a dor”, apreendida do Zaratustra de Nietzsche, que seu pai cultuava e que lhe passou tão cedo, dando-lhe essa diretriz filosófica inspiradora, bem como a linguagem simples e direta com que se expressa em prosa e poesia, com tanto lirismo, herdeira que é, legítima, do romantismo alemão, ainda que o faça tardiamente, nesse final caótico de século XX, e início do XXI, em nossa chamada Era Digital. A propósito, estou inclinado a rotular sua literatura de “neo-romântica”, uma vez que Alma Welt vem me provando a validade e a beleza desse verdadeiro movimento de uma autora só, que é ela mesma.
“NEO-ROMANTISMO”, é isso! Está lançado o movimento, se podemos assim dizê-lo. Conte comigo Alma, você já me cooptou, com a profundidade de sua redescoberta da beleza possível, no cotidiano, pelo seu enfoque generoso, desprovido de quaisquer ressentimentos, pela sua escolha da alegria, da liberdade sexual plena, pela capacidade de entrega a suas elevadas paixões por homens e mulheres, com igual intensidade. Pelo seu renovado culto da Arte pela arte, por sua corajosa afirmação da escolha do prazer e da felicidade.
Não esqueço, no entanto, o fato de que, sendo ela uma pintora e poeta, hipersensível, contém, também um componente melancólico, que, aliás, lhe doa seus momentos mais líricos, nos seus ciclos de sonetos que têm aquela característica única no mundo da literatura, de contar estórias, em suas seqüencias corretas. Confesso, pois, que a dor que detecto, sob a bela capa da alegria da nossa musa, me comove mais que tudo.
Alma não esquece, profunda que é, a fugacidade de tudo, a presença constante do fantasma próximo ou longínquo da Morte, a simples dor de existir, coexistente com a alegria e o prazer. Dessa dubiedade nasce o mistério que perpassa as suas narrativas. Uma espécie de suspense difuso, Hoffmanniano, que nos surpreende, uma vez que ela evita o “triller’, e quaisquer mirabolâncias folhetinescas, mantendo-se sempre no terreno da psicologia sutil, de um rico monólogo interior cheio de paradoxos.
A aparente simplicidade de sua linguagem, não esconde, no entanto, os vestígios de uma cultura superior, e mesmo fragmentos de uma erudição, surpreendente, que ela procura disfarçar por discrição, ou para melhor fazer-se entender. É sintomático o fato, contado por ela, da impressão que lhe causou a frase de Nietzsche, citada por seu pai, quando ela era ainda criança: “Há poetas que turvam suas águas para parecerem profundas’’. Essa máxima iria funcionar para ela como uma sábia diretriz, evitando turvar, tanto em sua poesia quanto em sua prosa.
Quanto ao universo em que cresceu, pode-se dizer privilegiado em sua dupla natureza cosmopolita e rural, ao mesmo tempo, naquela estância gaúcha de sua infância e primeira juventude, com o piano de cauda tocado belamente pelo seu pai, filho de alemães, cirurgião e literato, com sua imensa biblioteca clássica, que ele ensinou sua filha predileta a amar. O mundo que ela iria abordar em sua literatura, seria no entanto, o de um cotidiano urbano, paulistano, do seu ateliê nos Jardins, mas dessa perspectiva sutil de quem apreendeu cedo a captar o sentido profundo do dia-a-dia quando desvelado pela visão da esteta, hedonista e humanitária ao mesmo tempo, enfim, humanista.
Comove-nos o seu cândido epicurismo, que procura disfarçar a tendência às lágrimas de amor e dor, de comoção pelo ser humano tão amado por ela, a ponto de privilegiar somente a sua beleza e possibilidade de pureza ideais. Poderíamos dizer que Alma seria ,assim, a última herdeira do Idealismo alemão.
Estou, naturalmente, pensando no conjunto de toda a sua já considerável obra, com trinta livros de poemas e pelo menos cinco de contos e novelas.
Mas voltando a estas Crônicas, percebo que nelas a fronteira do conto é tênue, e embora tratem de acontecimentos e pessoas reais que cruzaram a vida e o universo interior desta Alma, é possível que existam nelas a contribuição da fantasia de caráter insólito e ao mesmo tempo realista desta sonhadora do verossímil, que sempre apostou na poeticidade inerente aos seres e às coisas deste mundo.
E é isso o que mais me comove nesta Alma, sua candura invencível, a coerência de sua visão humanista, pois que segue acreditando sobretudo na beleza e até mesmo na grandeza do ser humano, pelo menos em seus termos ideais, como ela mesma diz.
Mas então, o que é que a afasta da definição precipitada de “naïve”? Sua argúcia (eu responderia), e uma velada ironia que aparece vez por outra, e da qual ela não abusa. E a legitimidade de uma visão profunda, que captura o belo, onde quer que ele se encontre, inclusive em situações eventualmente grotescas, a verdadeira definição de humor. Mas sobretudo pela capacidade suprema, de poeta, de captar a alegoria, o sentido maior, simbólico, dos acontecimentos aparentemente banais do seu cotidiano, que é o de todos nós.

FIM

GUILHERME DE FARIA
São Paulo, 1/07/2004

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

"A atitude adversa de minha mãe, Ana Morgado, a Açoriana; da Matilde minha babá e de Solange, minha irmã mais velha, em relação à minha poesia e mesmo à minha liberdade resultaram estimulantes para mim. Ser poeta representava então um desafio, como deve ser. Do contrário, a facilidade, a aprovação e o aplauso do Vati, meu pai, de Rodo meu irmão e de Lucia minha irmã, e até do meu fiel Galdério, meu charreteiro, e factotum aqui da estância, me teriam amolecido, estragado, mimado. Afinal, eu era a princesa, o que por si só é poesia, não se espera das princesas uma obra profunda. O ser supera o fazer. Pensando assim, agora posso compreender meus primeiros adversários, e não mais duvidar do seu amor. Está tudo certo, minha biografia é perfeita. Mas qual biografia não é, se tudo é Destino?" (Entrevista com Alma Welt)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

" Eu nunca encontrei ninguém que amasse tanto a Poesia quanto eu. Sei que existem essas pessoas, mas por alguma razão não fizeram parte das minhas relações. Eu sentiria uma grande solidão poética, não fossem meus grandes pares do passado. Bem, talvez eu esteja sendo injusta, na verdade teve o Guilherme de Faria, meu descobridor em São Paulo. Mas suspeito que ele, sendo pintor, me amou primeiramente pela minha beleza, me fazendo posar nua para ele a todo momento. Logo ele que nunca precisou de modelo..." (entrevista com Alma Welt)
"Por alguma razão, inexplicável, escolhi desde cedo o soneto para confessar-me, contar tudo, registrar meu dia a dia mental e mesmo circunstancial, para sonhar e até para divertir-me. Sei que houveram grandes sonetistas no mundo, e ainda os há... que também usaram o soneto para fins confessionais, que os quatorze versos muito se prestam para isso. Mas duvido que eles se tenham construido através deles como eu, que já não os distingo de mim mesma. Se queimassem minha Arca, eu deixaria de existir. Creio que cairia fulminada, como uma irreversível Fênix..." (entrevista com Alma Welt)
"Quando eu era guria, minha babá Matilde me dizia que nós morávamos no Fim do Mundo, que aqui o o vento fazia a curva e voltava, que para além do horizonte, lá no fim da coxilha, não havia mais nada. Apesar de aprender Geografia, afetivamente continuei a sentir-me uma espécie de fronteiriça, uma guardião da fronteira do Mundo com o Nada. Sim, eu sempre tive um pé no Abismo, e isso, somente isso, explica a minha poesia..." (Alma Welt)