quinta-feira, 14 de novembro de 2013

"No meu Pampa casamento para uma mulher ainda significa servir a um homem para o resto da vida. Ainda guria percebi a tempo e para desgosto de minha mãe, a incompatiblidade entre o exercício pleno da literatura e o casamento. Tornei-me para ela uma espécie de perdida, de réproba, de desterrada em nossa própria casa. Não duvido que isso possa ser o que a matou. Sempre se é livre às custas de alguém..., disse Albert Camus.* O desgosto que lhe causei é ainda um grande peso que carrego, e o preço que paguei pela minha liberdade literária e poética. Tenho um pouco de vergonha de dizer: eu seria livre, mas nunca mais feliz..." (entrevista com Alma Welt)

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Nota
* "Sempre se é livre às custas de alguém." - Camus colocou estas palavras na boca do tirano Calígula, na sua peça homônima.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

"Se eu tivesse que revelar um profundo segredo sobre mim mesma, eu começaria por dizer que há algo estranho em meu caráter ou personalidade: eu penso uma coisa e o contrário sobre a mesma coisa, sempre. Assim é sobre tudo o que vejo, sinto ou vivencio. Não terei personalidade alguma? Provavelmente não. Mas me consola pensar, como John Keats, que essa é a natureza do poeta: não ter si mesmo. A identidade demasiado forte das coisas e pessoas me aniquila. Ao olhar uma estrela, sou a estrela; ao olhar uma árvore, sou a árvore, uma criança, a criança; um velho, o velho. Sim, mas o pior é mesmo a ambigüidade, os contrários simultâneos, os paradoxos da visão subjetiva. Como posso então viver em sociedade? Bem... não vivo. Não sou um ser social. Comunico-me com o mundo, isto é, com as pessoas, através da minha poesia. E nos raros momentos de sociabilidade, dissimulo pela astúcia o monstro psicológico que na verdade sou. Só o que me salva do crime é o meu amor pela generosidade e pela beleza. Talvez também pela grandeza, a verdadeira, a interior..." ( entrevista com Alma Welt)