Alma Welt ( Alma Morgado Welt) - escritora gaúcha, poetisa, contista, cronista, romancista, compositora de hai kais e pensadora, nasceu em 8 de janeiro de 1972, a caminho de Novo Hamburgo. Sua mãe Ana Morgado Welt neta de portugueses açorianos deu à luz a Alma, sua terceira filha, no acostamento de uma estrada, na relva, já em terras gaúchas, pelas mãos de seu marido cirurgião médico e músico amador Werner Friedrich Welt, filho de agricultores imigrantes alemães vindos do Sudetos da Tchekoslováquia antes da segunda Guerra Mundial para a colônia alemã do Vale do Itajaí, Santa Catarina, região de Blumenau.
De partos e poentes (de Alma Welt)
929
Varanda, balcão nobre dos poentes,
Que me viu crescer com a reverência
Com que beijava as mãos benevolentes,
Prevendo de meu pai a rubra ausência,
O qual, por cuja força vim ao mundo,
Que era a minha luz, o rei sol vivo
Cujas mãos tiraram-me do fundo
De um ventre açoriano retentivo,
Na estrada deserta, quase selva,
Num anti picnic nada farto,
Minha mãe aberta sobre a relva...
E vem à minha mente, por instantes,
O vermelho do sangue do meu parto
Nas mãos abençoadas, tão distantes...
Alma passou seus primeiros oito anos num casarão adquirido por seu pai na cidade de Novo Hamburgo, RS, de tradicional colônia alemã. Alguns belíssimos contos e crônicas da Alma, reminiscências desses primeiros anos se passam nessa cidade e nesse casarão. Nessas obras já fica evidente a paixão da menina Alma por seu irmão mais novo Rodo (Rudolph Welt) companheiro inseparável de aventuras e descobertas, inclusive a do sexo. Das irmãs da Alma, Solange e Lucia, esta é a preferida e viria a ser a herdeira e divulgadora do espólio da poetisa, descoberto na famosa Arca da Alma, uma arca lotada de manuscritos inéditos da amada irmã, a cuja obra ela seria integralmente dedicada após a trágica morte prematura da Alma em 20/ 01/ 2007, aos 35 anos, na estância da família no Pampa riograndense. Lucia abriu a partir de 2007 e administra os mais de 60 blogs póstumos da extensa obra weltiana, publicando e comentando com grande erudição sobretudo os sonetos, a parte mais prolífica da produção da grande poetisa, que conta com perto de quatro mil sonetos já publicados desde então na Internet...
Aos oito anos da Alma, a família mudou-se para estância dos avós paternos, os agricultores alemães Joachim e Frida, que haviam plantado um vinhedo pioneiro em pleno Pampa, nalgum lugar no imenso triângulo entre Rosário do Sul, Alegrete e Santana do Livramento, numa antiga fazenda tradicional de gado, charque e mate, e mudaram seu nome de Estância Farroupilha para "Santa Gertrudes". Essa mudança geográfica seria decisiva no destino da futura poetisa, que amou tanto essa nova paisagem, o vetusto casarão, o jardim de sua avó, o pomar e o vinhedo, mas sobretudo a coxilha infinita batida pelo minuano, o próprio Pampa que ela incorporaria e mitificaria em sua poesia e prosa como sendo sua legítima raiz espiritual, de maneira espantosa e mesmo comovedora. Ela viria amiúde a se confundir poeticamente com os heróis da grande saga farroupilha, formando em imaginação um triângulo amoroso com Anita e Giuseppe Garibaldi, em sonetos gloriosos...
Na estância pampiana dos avós, Alma agora se encontrava no seu verdadeiro habitat. Sua trajetória poético-existencial pode ser acompanhada desde seu primeiro impacto com o cenário e a visão inicial do casarão num soneto prólogo que abre a sua série memorial que ela chamou de Sonetos Pampianos da Alma, da qual constam nada menos que mil e dois sonetos que lidos em sequência refazem a trajetória interior da poetisa, dos seus oito anos até a sua morte trágica e misteriosa aos 35 anos, no auge de sua beleza e talento. Essa espécie de autobiografia poética reproduz seus anseios, sonhos e devaneios e resulta mais verdadeira que uma biografia linear e circunstancial, tanto mais que existem na série inúmeros sonetos que são verdadeiras crônicas do seu cotidiano na estância, em quatorze versos rimados inclusive com diálogos saborosos e sucintos no espaço de dois tercetos, prodigiosos de habilidade e graça. Entretanto essa é apenas uma das inúmeras séries de sonetos da Poetisa, pois haveria a dos Metafísicos, dos Humorísticos, dos Sonetos Amorosos, dos Sonetos de Mistérios, dos Sonetos da Morte de Alma Welt, dos Sonetos do Rodo, dos Sonetos do Vati, dos Sonetos da Mutti, dos Sonetos da Matilde, dos Sonetos do Galdério (com l mesmo, nome próprio, do seu charreteiro), da Dança Macabra, dos Sonetos Eróticos da Alma... perfazendo um número aproximado de quatro mil sonetos fascinantes, sempre dodecassílabos alexandrinos com chave de ouro, portanto clássicos na forma embora modernos no espírito e extremamente originais como resultado, personalíssimos. Poderíamos atribuir essa modernidade ao fato da Alma ser uma moça do final do século XX e começo do XXI, se não fosse sua imensa cultura literária e o caráter atemporal de sua abordagem da vida, e de sua figura, em que pese um certo lirismo de base ou de fundo, herança do romantismo alemão de seus antepassados..
De partos e poentes (de Alma Welt)
929
Varanda, balcão nobre dos poentes,
Que me viu crescer com a reverência
Com que beijava as mãos benevolentes,
Prevendo de meu pai a rubra ausência,
O qual, por cuja força vim ao mundo,
Que era a minha luz, o rei sol vivo
Cujas mãos tiraram-me do fundo
De um ventre açoriano retentivo,
Na estrada deserta, quase selva,
Num anti picnic nada farto,
Minha mãe aberta sobre a relva...
E vem à minha mente, por instantes,
O vermelho do sangue do meu parto
Nas mãos abençoadas, tão distantes...
Alma passou seus primeiros oito anos num casarão adquirido por seu pai na cidade de Novo Hamburgo, RS, de tradicional colônia alemã. Alguns belíssimos contos e crônicas da Alma, reminiscências desses primeiros anos se passam nessa cidade e nesse casarão. Nessas obras já fica evidente a paixão da menina Alma por seu irmão mais novo Rodo (Rudolph Welt) companheiro inseparável de aventuras e descobertas, inclusive a do sexo. Das irmãs da Alma, Solange e Lucia, esta é a preferida e viria a ser a herdeira e divulgadora do espólio da poetisa, descoberto na famosa Arca da Alma, uma arca lotada de manuscritos inéditos da amada irmã, a cuja obra ela seria integralmente dedicada após a trágica morte prematura da Alma em 20/ 01/ 2007, aos 35 anos, na estância da família no Pampa riograndense. Lucia abriu a partir de 2007 e administra os mais de 60 blogs póstumos da extensa obra weltiana, publicando e comentando com grande erudição sobretudo os sonetos, a parte mais prolífica da produção da grande poetisa, que conta com perto de quatro mil sonetos já publicados desde então na Internet...
Como escritora Alma Welt é essencialmente confessional, isto é, parte de sua experiência pessoal, de suas vivências reais e também devaneios e sonhos, como fonte de suas narrativas conquanto se escore numa cultura universal inegável, de fonte literária clássica beirando a erudição, graças ao fato de ter crescido à sombra da grande biblioteca de seu pai em quatro ou cinco idiomas. Alma se refere inúmeras vezes a essa biblioteca tão amada, que contava ainda com um piano de cauda Steinway onde seu pai, que ela e seus irmãos chamavam de Vati (pr. Fáti, papai em alemão, diminutivo de Vater, pai, pr, Fáter ) tocava muito bem os grandes compositores românticos, como Beethoven, Shumann, Lizst, Chopin, Scriabin, Dvorák, Grieg, etc, que Alma cresceu ouvindo desde pequena, quando se deitava sob o piano num pequeno tapete que seu Vati colocava ali para ela (ela escreveu mais de um soneto sobre isso). Werner Welt, homem de vasta cultura e experiência, sendo segunda geração no Brasil de uma família alemã de agricultores de linhagem antiga mas simples que prosperou no Brasi, foi estudar na Alemanha onde se formou em Medicina e circulou pela Europa antes de regressar a Blumenau com a ascensão do nazismo que lhe causou repugnância instintiva e do qual fugiu a tempo.
Alma teria a vida inteira uma profunda relação de amor com seu pai, que a compreendia e incentivava com orgulho seus dotes artísticos, ao contrário de sua mulher Ana Morgado, a Açoriana (como Alma a chamava com distanciamento) que embora muito bela, era apegada às convenções e tradições da respeitável família brasileira da época. Alma e a "Açoriana" nunca se entenderam e isso, na verdade causava grande dor à menina sensível, futura poetisa, que viria a escrever ínúmeros sonetos sobre essa dolorosa e conturbada relação mãe e filha. Alma conta no seu romance autobiográfico A Herança, que sua mãe a tirou do berço quando ainda bebê, escondida, e tomou uma charrete combinada com o charreteiro para levá-la a batizar em Igreja católica contra a vontade do marido, que, alertado a tempo, a perseguiu a cavalo até alcançá-la no caminho e retirar a criança dos braços da mãe, dizendo: "Esta é minha!" Ele, livre pensador, a criaria (segundo a Alma) como uma "pequena pagã"... "para não inocular-lhe o conceito odioso do pecado original". Alma cresceria cercada pelos mitos da Mitologia greco-romana e também do Walhalla (Thor, Odin e as Valkírias...) de seus ancestrais germânicos. A intenção confessa de seu pai era criar a Alma como uma obra de arte viva, ao mesmo tempo que uma artista. A beleza da menina ruiva, de rasgados olhos verdes, contribuía para essa fantasia logo corroborada por todos da família, e até pelos futuros empregados, os peões gaúchos da estância pampiana que em breve a receberia.Aos oito anos da Alma, a família mudou-se para estância dos avós paternos, os agricultores alemães Joachim e Frida, que haviam plantado um vinhedo pioneiro em pleno Pampa, nalgum lugar no imenso triângulo entre Rosário do Sul, Alegrete e Santana do Livramento, numa antiga fazenda tradicional de gado, charque e mate, e mudaram seu nome de Estância Farroupilha para "Santa Gertrudes". Essa mudança geográfica seria decisiva no destino da futura poetisa, que amou tanto essa nova paisagem, o vetusto casarão, o jardim de sua avó, o pomar e o vinhedo, mas sobretudo a coxilha infinita batida pelo minuano, o próprio Pampa que ela incorporaria e mitificaria em sua poesia e prosa como sendo sua legítima raiz espiritual, de maneira espantosa e mesmo comovedora. Ela viria amiúde a se confundir poeticamente com os heróis da grande saga farroupilha, formando em imaginação um triângulo amoroso com Anita e Giuseppe Garibaldi, em sonetos gloriosos...
Na estância pampiana dos avós, Alma agora se encontrava no seu verdadeiro habitat. Sua trajetória poético-existencial pode ser acompanhada desde seu primeiro impacto com o cenário e a visão inicial do casarão num soneto prólogo que abre a sua série memorial que ela chamou de Sonetos Pampianos da Alma, da qual constam nada menos que mil e dois sonetos que lidos em sequência refazem a trajetória interior da poetisa, dos seus oito anos até a sua morte trágica e misteriosa aos 35 anos, no auge de sua beleza e talento. Essa espécie de autobiografia poética reproduz seus anseios, sonhos e devaneios e resulta mais verdadeira que uma biografia linear e circunstancial, tanto mais que existem na série inúmeros sonetos que são verdadeiras crônicas do seu cotidiano na estância, em quatorze versos rimados inclusive com diálogos saborosos e sucintos no espaço de dois tercetos, prodigiosos de habilidade e graça. Entretanto essa é apenas uma das inúmeras séries de sonetos da Poetisa, pois haveria a dos Metafísicos, dos Humorísticos, dos Sonetos Amorosos, dos Sonetos de Mistérios, dos Sonetos da Morte de Alma Welt, dos Sonetos do Rodo, dos Sonetos do Vati, dos Sonetos da Mutti, dos Sonetos da Matilde, dos Sonetos do Galdério (com l mesmo, nome próprio, do seu charreteiro), da Dança Macabra, dos Sonetos Eróticos da Alma... perfazendo um número aproximado de quatro mil sonetos fascinantes, sempre dodecassílabos alexandrinos com chave de ouro, portanto clássicos na forma embora modernos no espírito e extremamente originais como resultado, personalíssimos. Poderíamos atribuir essa modernidade ao fato da Alma ser uma moça do final do século XX e começo do XXI, se não fosse sua imensa cultura literária e o caráter atemporal de sua abordagem da vida, e de sua figura, em que pese um certo lirismo de base ou de fundo, herança do romantismo alemão de seus antepassados..
Logo no primeiro ano da vida da Alma na Estância, é preciso destacar um evento que marcaria a sua psique e coração para o resto de sua vida. Alma e seu irmãozinho Rodo foram flagrados por sua mãe, a Açoriana, numa experiência sexo-amorosa debaixo de uma árvore do pomar. O casalzinho foi interrompido em sua pratica sexual canhestra, experimental, e nus foram agarrados pelos cabelos pela Mutti e arrastados pela trilha até o casarão, aos gritos e aos prantos, obrigados a cobrirem "suas vergonhas" (o que não fariam espontaneamente) e acompanhados à distância pelas gargalhadas dos peões. Jogados no assoalho do salão, diante do Vati, este, chocado com a atitude de sua esposa, reagiu: "Não os escandalizes, mulher! São crianças, curiosidade infantil, só isso! Nunca leste Freud, sua ignorante! " e voltando-se para a sua guria nuinha e em lágrimas, que soluçava aterrorizada, estendendo os braços disse ternamente: "Vem, minha princesa, com o papai"... enquanto a feroz Açoriana gritava: "Não os toques! Eles estão nús!"
No dia em que a Mutti nos flagrou (de Alma Welt)
(42)
No dia em que a Mutti nos flagrou
A mim e ao irmão em brincadeiras,
Pelos nossos cabelos arrastou
Entre peões e risadas zombeteiras.
Com a mãozinha, obrigada, eu cobria
As “vergonhas” ( o que não me ocorreria)
E fez-nos entrar no casarão
Para mais furibundo e atroz sermão.
Mas eis que o Vati, carinhoso
Disse: —Pára, mulher, assim não vai...
Criança é bichinho só curioso...
-Não a toques, vê, está pelada!
Gritava minha mãe ainda irada...
E ele: “Vem, minha princesa, com teu pai!"
No dia em que a Mutti nos flagrou (de Alma Welt)
(42)
No dia em que a Mutti nos flagrou
A mim e ao irmão em brincadeiras,
Pelos nossos cabelos arrastou
Entre peões e risadas zombeteiras.
Com a mãozinha, obrigada, eu cobria
As “vergonhas” ( o que não me ocorreria)
E fez-nos entrar no casarão
Para mais furibundo e atroz sermão.
Mas eis que o Vati, carinhoso
Disse: —Pára, mulher, assim não vai...
Criança é bichinho só curioso...
-Não a toques, vê, está pelada!
Gritava minha mãe ainda irada...
E ele: “Vem, minha princesa, com teu pai!"
Essa experiência nitidamente arquetípica equivaleria para a Poetisa à expulsão primordial do Éden, o paraíso terrestre que a estância dos avós, seu jardim, o pomar e a coxilha agora representavam para ela. Sua paixão pelo Pampa adquiriu a partir daquele momento a exasperação e a nostalgia da inocência perdida, e um atentado à sua harmonia que fariam dela a maior intérprete de uma poética gauchesca universal em tempos recentes, desde o grande Érico Veríssimo...
A Leste do Éden (de Alma Welt)
A guria que fui me é tão sagrada
Que olhando-a sempre me enterneço
Mas deploro como fui atormentada
Por uma culpa que sei que não mereço...
Por quê, meu Deus, escandalizam os guris
Sob a mais pura macieira do pomar
Como se acaso houvessem feito coisas vis
Quando estavam tão somente a brincar?
Falta aos adultos o verdadeiro humor,
É isso que lhes falta, me perdoem,
Se simplesmente não lhes faltar amor.
Quanto a mim, para abrandar a agonia
Dos gritos que na alma ainda me doem,
Vou-me ao leste do Éden da poesia...
Entretanto, esse incidente traumático aguçou a paixão dos dois irmãos, que agora se encontravam às escondidas, até que, finalmente denunciados por Solange, a irmã mais velha, na pré-adolescência foram separados pela Açoriana que convenceu seu marido a colocar Rodo num colégio interno, bem longe da irmã, em Porto Alegre. Alma sofreria intensamente com isso, e se poria, a partir de então num modo de espera romântico e de perpétua nostalgia. É quando começa a vagar diariamente pela coxilha, fortalecendo seus laços com a terra, seu amado pampa, escrevendo versos que a fariam uma legítima representante desse cenário especial, teatro de tanto sangue, de tantas guerras passadas e de uma nostalgia infinita de liberdade. Alma se revela desde então uma sonetista instintiva, se posso dizer assim, toda em dodecassílabos alexandrinos, mas nada parnasiana e sim original, moderna, conquanto de fundo romântico (um paradoxo), confessional e com notável pendor para a crônica, mesmo em quatorze versos.
Quanto ao Rodo, o menino voltaria sempre nas férias de Julho e de fim de ano, para a alegria e êxtase da Alma, quando então retomavam sua intensa e apaixonada relação, agora mais furtiva e hábil para despistar a vigilância da Açoriana. Entretanto, Rodo, que sempre demonstrara coragem e determinação, mais evidenciava seu espírito aventureiro. O casarão com seus cantos, porão e sótão, o jardim da avó Frida, o pomar e a coxilha, as proezas de laço e boleadeira dos peões gaúchos, os fandangos de galpão com suas eventuais rixas e peleias de faca, seus duelos de chula, as bravatas no fogo de chão e de mateio já não eram suficientes para ele que ansiava por aventuras maiores. Ele haveria de se tornar um cidadão do mundo, jogador profissional de pôquer, apaixonado por carros esporte e velocidade, circulando pelos cassinos da Europa e também da América do Sul, jogando sempre a dinheiro, às vezes em mesas perigosas, correndo grandes riscos. Sobre isso a Alma reservaria uma grande filão de sua poética, os "Sonetos do Rodo", desde 2007 num blog especial, onde ela se coloca poeticamente como uma "Penélope do Pano Verde" (como ela diz), sempre esperando a volta de seu Ulisses jogador, que, inescrupuloso, certa feita acabado seu dinheiro, cometeu um "descalabro": chegou a jogar numa mesa de gangsters, o casarão, a estância e o vinhedo, e depois a própria irmã, beldade ruiva da qual ele carregava consigo uma foto na carteira. Todavia sabemos que ele ganhou o jogo e ainda lucrou, livrando a Alma (cujos pais e avós já tinha morrido) de um destino desesperador. Sabemos disso pelo notável soneto que transcrevo aqui:
Quanto ao Rodo, o menino voltaria sempre nas férias de Julho e de fim de ano, para a alegria e êxtase da Alma, quando então retomavam sua intensa e apaixonada relação, agora mais furtiva e hábil para despistar a vigilância da Açoriana. Entretanto, Rodo, que sempre demonstrara coragem e determinação, mais evidenciava seu espírito aventureiro. O casarão com seus cantos, porão e sótão, o jardim da avó Frida, o pomar e a coxilha, as proezas de laço e boleadeira dos peões gaúchos, os fandangos de galpão com suas eventuais rixas e peleias de faca, seus duelos de chula, as bravatas no fogo de chão e de mateio já não eram suficientes para ele que ansiava por aventuras maiores. Ele haveria de se tornar um cidadão do mundo, jogador profissional de pôquer, apaixonado por carros esporte e velocidade, circulando pelos cassinos da Europa e também da América do Sul, jogando sempre a dinheiro, às vezes em mesas perigosas, correndo grandes riscos. Sobre isso a Alma reservaria uma grande filão de sua poética, os "Sonetos do Rodo", desde 2007 num blog especial, onde ela se coloca poeticamente como uma "Penélope do Pano Verde" (como ela diz), sempre esperando a volta de seu Ulisses jogador, que, inescrupuloso, certa feita acabado seu dinheiro, cometeu um "descalabro": chegou a jogar numa mesa de gangsters, o casarão, a estância e o vinhedo, e depois a própria irmã, beldade ruiva da qual ele carregava consigo uma foto na carteira. Todavia sabemos que ele ganhou o jogo e ainda lucrou, livrando a Alma (cujos pais e avós já tinha morrido) de um destino desesperador. Sabemos disso pelo notável soneto que transcrevo aqui:
O Rei dos Descalabros (de Alma Welt)
Acendam luzes, velas, candelabros,
Quero a casa em festa nesta noite!
Alguns o chamam “rei dos descalabros”,
Mas peço, não me impeçam que me afoite.
Quero a casa em festa nesta noite!
Alguns o chamam “rei dos descalabros”,
Mas peço, não me impeçam que me afoite.
Jogou a nossa estância... mas ganhou!
Até este casarão trocou em fichas.
Com sua própria irmã ele dobrou
E uma fortuna fez, de velhas rixas...
Até este casarão trocou em fichas.
Com sua própria irmã ele dobrou
E uma fortuna fez, de velhas rixas...
Para saudar o aventureiro, acenderei!
Vou esperá-lo na varanda com champanhe,
Não o censurarei... Deus me acompanhe!
Vou esperá-lo na varanda com champanhe,
Não o censurarei... Deus me acompanhe!
Para não ser comedida com o sortudo,
Ao abraçá-lo forte, esquecerei
Ter jogado minha carne, alma, e tudo...
..............................................
Chegou a vez da Alma estudar fora e a adolescente foi estudar Literatura na Alemanha, permanecendo na Europa por seis anos. Por suas cartas sabemos que Alma viajou por inúmeros países, visitando sobretudo museus de Arte e monumentos históricos, casa de artistas, bibliotecas e castelos. Entretanto, estranhamente não temos registro de nenhum poema ou texto literário de seu período europeu. Uma curiosidade: em toda a obra da Alma só consta uma novela que se passa em Paris, de um período da Alma já adulta e como pintora. Trata-se da novela Marcello, da trilogia Mítica de Alma Welt, correspondente ao mito de Perséfone que rege essa emocionante relato, cheio de suspense, inspirado pela visão de uma escultura de bronze da belle-époque que Alma descobriu num nicho do Grand Foyer do Opéra de Paris. Fora esse exemplo tardio, não temos mais nenhuma história, conto, crônica ou romance dela que se passe fora do Brasil. Temos sim obras que se passam em outros estados que não o Rio Grande do Sul. É particularmente notável o seu período paulistano, e o conto e romance que se passam em Olinda e depois no Sertão de Pernambuco e também da Paraíba ( Na trilha dos Menestréis) seguido de um retorno a esses sertões no romance humorístico O Retorno dos Menestréis.
Dos notáveis doze contos publicados em 2004 com o título CONTOS DA ALMA, de Alma Welt (pela Editora Palavras & Gestos, de São Paulo), do seu período paulistano, há uma curiosidade: o conto esotérico Anagramas, em que a Alma conta como nos conhecemos, no seu apartamento nos Jardins da Paulicéia, quando a visitei para conhecê-la e para que fizesse o anagrama de meu nome, depois de ter visto o fantástico anagrama que ela fez do nome da grande gravadora minha amiga Renina Katz, que revela uma teogonia órfica secreta que desvenda o significado arquetípico das obras aparentemente abstratas daquela grande artista gráfica. Entretanto esse conto, encontrável no Google, foi retirado da coletânea pela editora por ter sido considerado tão erudito e obscuro na sua primeira parte, a análise da teogonia surgida, que assustaria os leitores. Todavia, considero esse conto a chave para um futuro entendimento da relação da Alma Welt comigo, seu descobridor e lançador em São Paulo, e agora seu biógrafo.
A propósito, eu não poderia deixar de expor aqui a minha impressão pessoal da mulher Alma Welt, de sua pessoa e figura física. Devo dizer que antes de visitá-la, eu estava muito inquieto, apesar de Renina estranhamente não ter feito nenhum comentário sobre sua figura (logo eu saberia porquê). Quando, tremendamente impressionado pelo anagrama que ela fizera da Renina e que esta me mostrara em sua caderneta de esboços, durante uma conversa na gráfica Ymagos sobre anagramas, por ensejo de um comentário meu sobre o irônico anagrama de Salvador Dali, "Avida Dollars", feito por André Breton, pedi a ela o telefone da anagramista, e dias depois ao ligar, ouvindo uma voz muito doce, aveludada, baixa, com ligeiro sotaque gaúcho, nada exuberante, discreta, eu não podia fazer idéia do que me esperava. Eu disse a ela que vira o espantoso anagrama que ela fizera do nome da Renina e que há dias eu tinha tido um sonho enigmático em que me vira numa situação inusitada e em outra época, séculos atrás, e não me sentindo apto a decifrar eu mesmo as intrigantes imagens, me ocorrera pedir a ela que fizesse o anagrama de meu nome, o qual, eu intuía, desvelaria o significado do meu sonho. Alma foi reticente, parecia não querer me conhecer, muito menos se comprometer em fazer o anagrama de um estranho. Após uns minutos de conversa ela baixou a guarda e aceitou me receber, marcando dia e hora para o encontro em seu apartamento-ateliê nos Jardins. No dia e hora marcados estava eu na portaria de seu prédio (por incrível coincidência na minha mesma rua Oscar Freire, uns quarteirões adiante) tendo o porteiro se comunicado com ela pelo interfone, e com sua permissão de subir fui me enchendo de expectativa. Quando no seu andar a porta do elevador se abriu e me deparei com ela com a porta aberta na soleira do seu ap me esperando, tive um choque e meus olhos se encheram de água... EU ESTAVA DIANTE DA MULHER MAIS BELA DO MUNDO! Helena de Tróia rediviva!
Vendo-me paralisado, embargado de emoção, ela pegou-me pela mão e me introduziu ao seu ateliê que era a grande sala de sua residência, vazia, muito branca, sem móveis mas com inúmeras telas encostadas nas paredes, um cavalete bastante manchado de tinta e uma mesinha rolante com as tintas, uma paleta saturada e pincéis. No meio da sala havia uma pilha de cadernos espiralados e álbuns e apenas uma cadeira de lona dessas de diretor de cinema. Ela mansamente me fez sentar e com seu vestido indiano longo e descalça ajoelhou-se aos meus pés enquanto acariciava minha mão. Demorei um pouco a perceber que ela me perguntava se eu queria um copo d'água, um suco de laranja ou um café, enquanto me olhava com um olhar terno mas no qual eu percebi um longínquo fio de ironia...
CONTINUA
Ao abraçá-lo forte, esquecerei
Ter jogado minha carne, alma, e tudo...
..............................................
Chegou a vez da Alma estudar fora e a adolescente foi estudar Literatura na Alemanha, permanecendo na Europa por seis anos. Por suas cartas sabemos que Alma viajou por inúmeros países, visitando sobretudo museus de Arte e monumentos históricos, casa de artistas, bibliotecas e castelos. Entretanto, estranhamente não temos registro de nenhum poema ou texto literário de seu período europeu. Uma curiosidade: em toda a obra da Alma só consta uma novela que se passa em Paris, de um período da Alma já adulta e como pintora. Trata-se da novela Marcello, da trilogia Mítica de Alma Welt, correspondente ao mito de Perséfone que rege essa emocionante relato, cheio de suspense, inspirado pela visão de uma escultura de bronze da belle-époque que Alma descobriu num nicho do Grand Foyer do Opéra de Paris. Fora esse exemplo tardio, não temos mais nenhuma história, conto, crônica ou romance dela que se passe fora do Brasil. Temos sim obras que se passam em outros estados que não o Rio Grande do Sul. É particularmente notável o seu período paulistano, e o conto e romance que se passam em Olinda e depois no Sertão de Pernambuco e também da Paraíba ( Na trilha dos Menestréis) seguido de um retorno a esses sertões no romance humorístico O Retorno dos Menestréis.
Dos notáveis doze contos publicados em 2004 com o título CONTOS DA ALMA, de Alma Welt (pela Editora Palavras & Gestos, de São Paulo), do seu período paulistano, há uma curiosidade: o conto esotérico Anagramas, em que a Alma conta como nos conhecemos, no seu apartamento nos Jardins da Paulicéia, quando a visitei para conhecê-la e para que fizesse o anagrama de meu nome, depois de ter visto o fantástico anagrama que ela fez do nome da grande gravadora minha amiga Renina Katz, que revela uma teogonia órfica secreta que desvenda o significado arquetípico das obras aparentemente abstratas daquela grande artista gráfica. Entretanto esse conto, encontrável no Google, foi retirado da coletânea pela editora por ter sido considerado tão erudito e obscuro na sua primeira parte, a análise da teogonia surgida, que assustaria os leitores. Todavia, considero esse conto a chave para um futuro entendimento da relação da Alma Welt comigo, seu descobridor e lançador em São Paulo, e agora seu biógrafo.
A propósito, eu não poderia deixar de expor aqui a minha impressão pessoal da mulher Alma Welt, de sua pessoa e figura física. Devo dizer que antes de visitá-la, eu estava muito inquieto, apesar de Renina estranhamente não ter feito nenhum comentário sobre sua figura (logo eu saberia porquê). Quando, tremendamente impressionado pelo anagrama que ela fizera da Renina e que esta me mostrara em sua caderneta de esboços, durante uma conversa na gráfica Ymagos sobre anagramas, por ensejo de um comentário meu sobre o irônico anagrama de Salvador Dali, "Avida Dollars", feito por André Breton, pedi a ela o telefone da anagramista, e dias depois ao ligar, ouvindo uma voz muito doce, aveludada, baixa, com ligeiro sotaque gaúcho, nada exuberante, discreta, eu não podia fazer idéia do que me esperava. Eu disse a ela que vira o espantoso anagrama que ela fizera do nome da Renina e que há dias eu tinha tido um sonho enigmático em que me vira numa situação inusitada e em outra época, séculos atrás, e não me sentindo apto a decifrar eu mesmo as intrigantes imagens, me ocorrera pedir a ela que fizesse o anagrama de meu nome, o qual, eu intuía, desvelaria o significado do meu sonho. Alma foi reticente, parecia não querer me conhecer, muito menos se comprometer em fazer o anagrama de um estranho. Após uns minutos de conversa ela baixou a guarda e aceitou me receber, marcando dia e hora para o encontro em seu apartamento-ateliê nos Jardins. No dia e hora marcados estava eu na portaria de seu prédio (por incrível coincidência na minha mesma rua Oscar Freire, uns quarteirões adiante) tendo o porteiro se comunicado com ela pelo interfone, e com sua permissão de subir fui me enchendo de expectativa. Quando no seu andar a porta do elevador se abriu e me deparei com ela com a porta aberta na soleira do seu ap me esperando, tive um choque e meus olhos se encheram de água... EU ESTAVA DIANTE DA MULHER MAIS BELA DO MUNDO! Helena de Tróia rediviva!
Vendo-me paralisado, embargado de emoção, ela pegou-me pela mão e me introduziu ao seu ateliê que era a grande sala de sua residência, vazia, muito branca, sem móveis mas com inúmeras telas encostadas nas paredes, um cavalete bastante manchado de tinta e uma mesinha rolante com as tintas, uma paleta saturada e pincéis. No meio da sala havia uma pilha de cadernos espiralados e álbuns e apenas uma cadeira de lona dessas de diretor de cinema. Ela mansamente me fez sentar e com seu vestido indiano longo e descalça ajoelhou-se aos meus pés enquanto acariciava minha mão. Demorei um pouco a perceber que ela me perguntava se eu queria um copo d'água, um suco de laranja ou um café, enquanto me olhava com um olhar terno mas no qual eu percebi um longínquo fio de ironia...
CONTINUA