Na vida cada um faz o que pode,
Não adianta fazer comparação;
para uns o diabo é aquele bode,
para outros o diabo é o coração.
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Plantei um girassol no meu jardim
esperando ele crescer para girar.
Cresceu, girou, olhou pra mim,
Surpresa, com vontade de chorar.
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Minha vida é um eterno retornar
à minha casa perfeita de menina,
e nisso está longe de acabar,
pois a perfeição nunca termina.
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Tenho dois namorados em disputa,
entre os dois meu coração balança.
Um perto de mim cede e amansa,
o outro simplesmente me diz puta.
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Meu pai me levava pra pescar...
Não que eu goste de peixe tanto assim,
mas eu preferia os ver nadar
ninguém merece de um anzol o triste fim.
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Para evitar depois de morta ser inútil,
comprei bilhete de poeta, de saída,
porque o resto me parecia fútil
com suas passagens só de ida.
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Minha bússola o Sul somente aponta
E houve quem comigo a quis trocar
Recusei por ser honesta ao lhe contar
que ela, de girar me deixa tonta.
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Monto no poente o meu cavalo
Mesmo sem sair da minha varanda.
Da cadeira de balanço o leve embalo
Cessa quando a estrela Dalva manda.
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ALMA WELT
sexta-feira, 30 de outubro de 2020
terça-feira, 8 de setembro de 2020
O guri tímido (das Memórias de Alma Welt)
Quando eu tinha quinze anos entrei numa fase de grande timidez social e insegurança. Eu, que tinha sido muito desenvolta e até espevitada na infância, agora o convívio com guris e gurias da minha idade me era quase insuportável. Entretanto eu disfarçava bem, o que me fazia parecer o contrário, aparentando uma segurança que eu não tinha mais. De noite, no meu quarto, exausta pelo esforço dispendido durante o dia, chorava na cama, me odiando.
Um dia, me lembro bem, durante uma visita que fiz com meus pais a um nosso vizinho estancieiro que tinha filhos adolescentes, fomos deixados sozinhos pelos adultos numa sala ao lado para que confraternizássemos, conversássemos, brincássemos, sei lá. Eu, como sempre, afetava desenvoltura a ponto de intimidar alguns dos outros adolescentes. Havia um deles, um guri muito bonito, magro, com o cabelo amarrado em rabo de cavalo, que permanecia calado com os olhos ora pregados em mim, ora abaixados (depois eu soube ser o filho do nosso vizinho). Ele não abria a boca e eu não tinha ouvido o sequer o som de sua voz desde que entrara naquele cômodo. Os outros eram apenas gurias que palravam, me interpelavam e me ouviam curiosas, embora eu não me lembre do que eu falava. Os guris tinham se enturmado e saído daquele cômodo para jogar uma pelada no gramado, ou coisa assim. Entretanto tinha permanecido entre nós o tal garoto quieto, de olhos fixados em mim, ora abaixados como para disfarçar. De repente me cansei daqueles adolescentes e de todo aquele esforço e anunciei a minha partida. A ideia era ir para a sala dos adultos pedir aos meus pais para irmos embora. Comecei a me levantar de onde estava sentada, quando o guri demonstrando grande aflição de me ver prestes a partir, também se levantou, gaguejando e quase estendendo os braços como para me deter, balbuciou: "Como vo.. vo.. cê se... se chama? Qual... é... s ssseu nome? "
Eu fiquei furiosa. Falei num tom um pouco mais alto do que desejaria: "Como você não sabe o meu nome? Estou aqui há uma hora... estas gurias me interpelam, falam meu nome e você não sabe? Sou Alma!"
O guri, com lágrimas nos olhos fez um enorme esforço e disse: " Eu... sou tímido. Não consegui... Você é... tão linda .. não..." E deu um soluço, lutando visivelmente com o choro, enquanto as as gurias abafavam risinhos e exclamações.
Subitamente abrandada e enternecida ergui a mão e toquei a face do guri, e também desatei a chorar,dizendo: "Eu sei... Eu sei.. Está tudo bem... eu compreendo, eu também sou... tímida. E aproximando meu rosto sempre com a mão na sua face beijei-o nos lábios, levemente, docemente, e o abracei. Saímos dali, de mãos dadas, lentamente, agora sob o silêncio perplexo das gurias, em que julguei discernir alguns suspiros...
Querem que eu continue? Não sei se devo... pois isto foi apenas o prólogo de uma tragédia.
(Alma Welt)
Um dia, me lembro bem, durante uma visita que fiz com meus pais a um nosso vizinho estancieiro que tinha filhos adolescentes, fomos deixados sozinhos pelos adultos numa sala ao lado para que confraternizássemos, conversássemos, brincássemos, sei lá. Eu, como sempre, afetava desenvoltura a ponto de intimidar alguns dos outros adolescentes. Havia um deles, um guri muito bonito, magro, com o cabelo amarrado em rabo de cavalo, que permanecia calado com os olhos ora pregados em mim, ora abaixados (depois eu soube ser o filho do nosso vizinho). Ele não abria a boca e eu não tinha ouvido o sequer o som de sua voz desde que entrara naquele cômodo. Os outros eram apenas gurias que palravam, me interpelavam e me ouviam curiosas, embora eu não me lembre do que eu falava. Os guris tinham se enturmado e saído daquele cômodo para jogar uma pelada no gramado, ou coisa assim. Entretanto tinha permanecido entre nós o tal garoto quieto, de olhos fixados em mim, ora abaixados como para disfarçar. De repente me cansei daqueles adolescentes e de todo aquele esforço e anunciei a minha partida. A ideia era ir para a sala dos adultos pedir aos meus pais para irmos embora. Comecei a me levantar de onde estava sentada, quando o guri demonstrando grande aflição de me ver prestes a partir, também se levantou, gaguejando e quase estendendo os braços como para me deter, balbuciou: "Como vo.. vo.. cê se... se chama? Qual... é... s ssseu nome? "
Eu fiquei furiosa. Falei num tom um pouco mais alto do que desejaria: "Como você não sabe o meu nome? Estou aqui há uma hora... estas gurias me interpelam, falam meu nome e você não sabe? Sou Alma!"
O guri, com lágrimas nos olhos fez um enorme esforço e disse: " Eu... sou tímido. Não consegui... Você é... tão linda .. não..." E deu um soluço, lutando visivelmente com o choro, enquanto as as gurias abafavam risinhos e exclamações.
Subitamente abrandada e enternecida ergui a mão e toquei a face do guri, e também desatei a chorar,dizendo: "Eu sei... Eu sei.. Está tudo bem... eu compreendo, eu também sou... tímida. E aproximando meu rosto sempre com a mão na sua face beijei-o nos lábios, levemente, docemente, e o abracei. Saímos dali, de mãos dadas, lentamente, agora sob o silêncio perplexo das gurias, em que julguei discernir alguns suspiros...
Querem que eu continue? Não sei se devo... pois isto foi apenas o prólogo de uma tragédia.
(Alma Welt)
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