terça-feira, 9 de julho de 2024

A GUARDIÃ DA PORTA DO INFERNO (crônica de Alma Welt)


Quando guria, na estância, uma vez, conversando com a avó Frida no seu belo jardim, ela me disse:

-Alma, um dia, quando fores moça, como todo mundo sairás de casa. Entâo lembra-te: toma cuidado para não te perderes. Quem se perde, se perde sempre num limbo, senão no próprio Inferno.

E eu, guria curiosa, que questionava tudo, perguntei à minha avó:
-E se eu cair no Inferno, vó, como farei para sair?

Ela respondeu: "Caminha para frente, corajosamente almejando a saída, Alma, não pegue um atalho para voltar. Do Inferno não se sai pela porta de entrada. Ali estão os covardes, eternamente no corredor de entrada, cheio de moscas."

Lembro-me que depois dessa conversa com minha avó, tive pesadelos por mais de uma noite. A Mutti, percebendo, culpou minha avó, dizendo a mim (ela não teria coragem de confrontar a velha alemã, que ela chamava de "bruxa"):

-Alma, essas conversas que tens com tua avó te deixam nesse estado. Vê, frequentemente não dormes direito, tens pesadelos. O que te diz a velha bruxa?

Eu respondi: - Não, não, Mutti, não é culpa dela. A avó Frida só me dá bons conselhos para o futuro, para quando eu for moça e sair de casa. É que eu tenho medo de ter que sair de casa, um dia. O mundo fora daqui, da nossa estância, da Coxilha... me parece muito grande e assustador.

Minha mãe apenas abanou a cabeça, e suspirou. Mas ela continuou vigiando, preocupada, os meus pequenos desvios de uma normalidade que ela queria "obrigatória", como zelosa e inútil guardiã da porta do Inferno, que ela era. Esse cargo eu teria um dia de lhe reconhecer e, mesmo que tardiamente, também lhe ser grata, como à minha avó, a bruxa benfazeja, por alguns cruéis e eficases conselhos que me salvariam a vida...

ALMA WELT
09/07/202