
Folder realizado pelo desenhista Renato Adriano de apresentação do magnífico show Terra Desconhecida, da Banda Risses que inclui um poema da Alma (Quisera um jardim) musicado e cantado pelo compositor e vocalista da banda João Roquer.
____________________________________________________________________
PREFÁCIO AOS “CONTOS DA ALMA”, de ALMA WELT
(por GUILHERME DE FARIA)
Ser convocado pelo destino, a esta altura da vida, para ser o descobridor do fenômeno Alma Welt, e mesmo seu modesto prefaciador, é algo inesperado e honroso demais para mim.
Esta moça gaúcha, (seu nome, verdadeiro, me remete imediatamente a Jung e sua “Anima Mundi” ), neta de alemães, que se fixaram no sul (por parte de pai), e de portugueses açorianos por parte de mãe, pode-se dizer que suas origens são rurais, embora tenha tido uma educação bastante cosmopolita, tendo inclusive estudado na Europa. Seu pai, que era médico, herdou uma estancia na extrema fronteira sul do país, que ainda está na família, hoje administrada pelo seu irmão mais moço, Rodolfo, que ela chama, carinhosamente, Rodo ( vide o conto “O Testamento” ).Órfã de mãe desde a adolescência, percebe-se a extrema importância do pai ( homem culto) em sua infância e em toda a sua formação. Há quatro anos mudou-se, sozinha, para São Paulo, onde montou ateliê nos Jardins, em cujas “passarelas” é vista eventualmente, passeando sua natural elegância, e freqüentemente confundida com alguma modelo. Acontece ela ser muitas vezes abordada por fotógrafos e agentes da moda. Não é preciso dizer que a moça se desvencilha deles, graciosamente. Alma tem horror à futilidade do mundo “fashion”, e cativou-me, simultaneamente, pela sua beleza e por seu talento. Vi nela, imediatamente, aquelas características raras, como, por exemplo, das musas-pintoras do Surrealismo ( Frida Kahlo, Leonor Fini, Leonora Carrington, Valentine Hugo, Remedios Varo, Lee Miller, Kay Sage, Dorothea Tanning, Eileen Agar, e outras): beleza física, mistério, sensualidade contida, um certo hieratismo de presença, e uma grande reserva no trato pessoal, fruto, talvez, de um natural orgulho e consciência de seus dons. Mas, Ah! sua doçura, uma candura mesmo, indisfarçável, nada comum àquelas outras divas, me derrotou completamente. Confesso que tive de fazer um certo esforço inicial para concentrar-me em sua obra, pictórica e literária, pois meus olhos pediam sua beleza e detinham-se, teimosos, neste aspecto, que, aliás me parece importante. Estou convencido, desde sempre, que a beleza física é, não somente um dom, mas uma virtude, a ser cultivada, através não somente do seu culto, tão antigo, mas da disciplina interior, que consiste numa sintonia fina, persistente, na elevação de pensamento, generosidade de coração, e abertura intelectual e anímica. Sim, Alma Welt, minha descoberta (ela me permitiu que assim a ela me refira), tem tudo isso. Seus contos, o revelam e me fascinam cada vez mais, bem como seus poemas, tão femininos. Como não poderia deixar de ser, diriam alguns. Não. Há mulheres escritoras que não são tão femininas.,
No entanto, a despeito de sua ostensiva feminilidade, Alma Welt tem as características básicas da universalidade em sua visão do mundo e do ser humano: uma profunda empatia com os seus personagens, profundidade de captação de seu psicologismo, autenticidade de descrição de atitudes e diálogos, e verossimilhança de situações de cunho realista, apesar da evidente tendência ao simbologismo arquetípico, que, ao meu ver, enriquece seu texto conferindo certa transcendência às suas estórias e ao seus poemas. Seus contos e poesias, sempre de tom confessional, autobiográfico ou memorial, mesmo quando as situações são imaginárias, revelam uma razoável bagagem cultural, literária e mesmo musical, clássica, cujo gosto herdou de seu pai. ( Alma ama a música de câmara e a ópera ), o que não deixa de ser surpreendente, sendo ela uma moça de apenas 28 anos. Suas referências a autores, pintores, músicos, etc., são oportunas e bem fundamentadas, revelando até uma certa originalidade de aproximação. Nesse sentido, há também, verdadeiros “achados” em suas poesias, como aquele: “Arte é isso: milagre atrás do truque”. Ou ainda: “da humanidade presta o que resta”. E mais, aquele quase aforismo: “ O talento faz o que quer, o gênio faz o que pode”.
Entre outras tantas, tais coisas me causam admiração, vindas de uma mulher (perdoem-me o machismo) mas é realmente inesperado tal tipo de pensamento vindo do seu sexo. Mas é preciso voltar à realidade da absoluta igualdade potencial dos sexos quanto à profundidade intelectual e até mesmo quanto à possível psique comum aos dois sexos. Há mesmo quem nunca acreditou em qualquer diferença dos sexos nesse campo. Mas ironicamente, não são justamente, os autores mais citados por Alma Welt, como Nietzsche, por exemplo, um notório misógeno intelectual, apesar de sua paixão por sua irmã e por Lou Andreas Salomé . Mas a autora não está preocupada com esse aspecto do pensamento do filósofo alemão. Percebe-se que Alma elegeu sobretudo a sua afirmação da Alegria, “mais profunda que a dor”, contraface da melancolia do Romantismo alemão, que é o aspecto mais simpático de sua doutrina, tão desvirtuada pelo nazismo com a colaboração justamente de sua irmã, Elizabeth Foster Nietzsche. Mas não cabe aqui uma crítica ao grande filósofo. Cabe ressaltar a ausência de postura política nas obras de Alma Welt, se é que isso é possível em qualquer autor. Em compensação enxergo nela posturas filosóficas, o que é um pouco diferente. Em certos momentos ela elege o Tao, com sua filosofia do eterno fluir, e da não intervenção no fluxo natural das coisas. Noutros momentos, como na “A Harpia”, a meu ver a sua obra-prima, nota-se o seu horror à violência contraposto a aceitação da existência de “atavismos” ( como ela diz ) cruéis, que nitidamente a fascinam. Mas justamente em certas contradições e ambigüidades repousa o elemento de mistério que se insinua sutilmente na obra desta autora. Por trás de todas as suas atitudes de heroína, ou protagonista de suas próprias estórias, imaginárias ou não (certos contos têm nitidamente um caráter de crônica, enquanto outros são quase delirantes, e outros ainda, romanescos, quase de folhetim ), nota-se a presença dominante de uma libido poderosa impulsionando os atos e os pensamentos da autora-personagem.
Mulher tremendamente sensual, livre, pela sua alma de artista, a autora tem aquelas características de Anima, apontadas por Jung em certas mulheres. Mas, como esse campo é enigmático e até mesmo perturbador! Onde reside o mistério da feminilidade, daquilo que Goethe chamava “o eterno feminino”, e que Jung julgou desvendar, com a sua teoria da Anima?
A propósito, uma das coisas mais intrigantes a esse respeito está na afirmação do próprio Jung, de que a Anima pode ser encontrada, ou melhor dizendo, projetada, não só em musas sublimes como Beatriz, de Dante, e Laura, de Petrarca, quanto na mais vulgar heroína de novela de TV, por ser uma natureza básica de certas mulheres, que possuem “às vezes, por causa do seu próprio vazio” esta capacidade de absorver a projeção. Mas, não. Aqui trata-se de uma escritora-poeta-pintora. Musa no velho estilo, clássico, da palavra, Alma Welt permite um aprofundamento em seu pensamento poético, em camadas, substratos, entrelinhas, ilações, muito simbolismo, e sobretudo, uso apropriado de arquétipos gregos, oportuno como recurso expressivo. Oriundos, alguns, da Odisséia de Homero ( como , por exemplo a teia de Penélope, no seu conto “A Teia de Guarnerius”, e recorrente também em vários de seus poemas. Certos temas obsessivos, como esse, bem como o de Narciso, dão o que pensar, pelo menos no tocante à psique da própria autora.
Mas devo evitar a tentação da psicanálise. Trata-se aqui da obra e seu resultado artístico bem como de sua estrutura técnica. À propósito, ela recorre a metáforas de sentido geral nos poemas e nos contos e nunca a metáforas de linguagem, tão comuns na poesia moderna, e freqüentemente tão vazias, como herança espúria do pior aspecto do Surrealismo, o non-sense arrogante e obrigatório do automatismo. Alma Welt, não. Usa, ao contrário, uma linguagem direta, coloquial, embora elevada (quando recorre a uma vulgaridade, ela o faz por graça, autodenunciando-se em seguida com o charme do falso pudor deliberado, deixando pois ressoar aquele “deslize” de conduta. Nesses pequenos momentos ela revela sua contemporaneidade, do contrário poderíamos localizar sua personalidade e suas estórias em qualquer século, do XIX para trás. E isso é o que mais me intriga numa autora tão jovem: sua atemporalidade numa época tão datável como a nossa, de cujo pano de fundo caótico, de misérias e horrores sociais, ela consegue passar ao largo, sem dar, no entanto, a sensação de qualquer alienação. É que a moça parece estar preocupada somente com o essencial da condição humana, como a dor de existir, a alegria redentora, a paixão pela beleza, a fidelidade à arte, o amor, o erotismo, a sujeição erótica voluntária , a crueldade inconsciente, a atração intelectual pelo grotesco, a paixão visceral, o medo insidioso e difuso, a repulsa (por omissão) à vulgaridade do homem comum, e o reconhecimento implícito da sacralidade da vida Estas são as características de sua personalidade literária, portanto, suponho, da sua alma. É bem sintomática a sua frase no conto “O Testamento” : “...salva por princípio, livre do pecado original do dinheiro, eternamente criança e feliz na minha suave dor de viver amando a vida e a beleza”. Eis aí, a meu ver uma belíssima e cândida profissão de fé. Não é a toa que ela cita num outro conto, as últimas belas palavras de Corot, no seu leito de morte: “Espero que no Céu haja pintura”. Todas as suas escolhas revelam a sua visão afinal positiva, da vida, eu diria mesmo, seu invencível otimismo. Quem poderia convencer a essa criatura tão dotada, no alto de sua beleza física e anímica, de que a vida não é bela , ou que isto aqui é um vale de lágrimas? Eu não quereria fazer isso, pois a sua alegria é justamente pagã, e sintomaticamente ela não invoca senão “ meu Deus da arte e da Vida”, o que soa como um deus pessoal, misterioso e invejável. Alma fez a escolha da alegria, com inabalável fé na Arte, que essa sim, nitidamente ela erige em religião. Possui uma candura nada simplória, e uma ironia sutil, nada sarcástica. Quando atacada ou espicaçada por algum eventual adversário, ela se vale de um curioso recurso: faz-se passar por ingênua, mas adicionando uma pitada de ambigüidade, o que confunde o contendor, que “já não sabe se está diante uma simplória total ou de uma irônica mais sutil que ele próprio.” Em seguida ela mesma, modestamente, lembra o leitor de que “a ironia é a arma dos fracos.”
Dum modo geral ela mantém uma constante nobreza de postura, que lhe é inata ( há pessoas que são naturalmente nobres, e isso nada tem a ver com condição social ou econômica, e outras, que infelizmente são pangarés da alma...)
Na sua obra prima “A Harpia”, a meu ver, Alma revela-se em toda a sua profundidade e na riqueza de significados simbólicos inerentes não só aos personagens, que sob um ponto de vista junguiano, poderiam , por exemplo, ser associados à Anima ( a própria Alma Welt), como personagem narradora e protagonista), à persona ou Ego (Antônio), à mediação Ego-Self (o negro Jeová ), à Sombra (a Harpia), e finalmente, à decomposição da Anima em duas de suas naturezas: Anima-Sofia (mulher sábia, ela mesma, Alma) e Anima-Helena (de Tróia), mulher belíssima, ou mesmo Eva (mulher primordial ), na figura da personagem Chiara.
Mas, isso é matéria de especulação e precisaria ser melhor desenvolvida. Deixo portanto aos analistas jungianos de plantão, a quem gostaria de poder convocar e que poderiam eventualmente corrigir-me em meu esboço de análise, um tanto intuitiva.
Mas aproveito para alertá-los de que a verdadeira obra de arte , como disse uma vez um psicanalista artista, é da natureza do analista, e não do analisando. Ela, a obra de arte, é que analisa a vida, o homem e as relações humanas, e não o contrário. A tentativa demasiado empenhada em dissecá-la em sua estrutura e significados, e até mesmo truques técnicos, seria portanto uma usurpação. Mas, na verdade, não precisamos nos preocupar: as obras de arte sempre sobreviveram ao bisturi dos críticos e dos cientificistas que acreditam ser ela uma espécie de ciência que se pode aprender ou ensinar, decodificando-a.
O mistério continua. Alma Welt é agora esse mistério. Confiram-lhe a aparente simplicidade, e o encanto dessa heroína-narradora que surgiu nessa nossa época de caos espiritual, senão de decadência. Impávida em sua pureza inata e ao mesmo tempo escolhida, ela restaura, a meu ver, valores da beleza, da sensualidade plena, mas elevada, e sobretudo da inteligência sensível. “Hay que ser inteligente, pero sin perder la candura jamás” eu diria, parafraseando o Che, e pensando nesta Alma.
São Paulo, 12 de Dezembro de 2002
GUILHERME DE FARIA
Nenhum comentário:
Postar um comentário