sexta-feira, 5 de março de 2021

QUANDO A INTELIGÊNCIA É OBLITERADA (de Alma Welt)

Na sua interessante autobiografia intitulada "Confesso que vivi", o poeta chileno Pablo Neruda 1904-1973 (premio Nobel de Literatura de 1971) tem uma passagem infeliz quando revela com orgulho sua indignação e repulsa durante uma visita a um castelo inglês convidado pelo herdeiro, diante do manuscrito original autografado do célebre poema IF (Se) de Rudyard Kipling 1865-1936 (premio Nobel de 1907). Neruda assim se expressou diante do original emoldurado, numa parede, exibido como preciosidade: "Aquele poema imundo...". A mente revolucionária comunista, como de costume cheia de preconceitos, não conseguia perceber a beleza e a dignidade daquele código de conduta honrosa da mentalidade vitoriana inglesa, cheia da coragem e hombridade que conquistou um Império. Ao ler essa passagem percebi que Neruda via naquele poema apenas a antítese de seu socialismo pretensamente anti-imperialista, sem perceber o contexto histórico e a beleza intrínseca daquela poema apesar de essencialmente conceitual, coisa a que a poesia de Neruda também não escapa no seu marxismo ostensivo ou de entrelinhas.

A propósito: Neruda era stalinista, e admirava o maior genocida daqueles tempos.
Sim, o comunismo oblitera a inteligência até dos melhores...
(Alma Welt)
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Nota
Eis o poema IF (SE) de Rudyard Kipling na excelente tradução do Guilherme de Almeida 1890-1969, chamado o (quarto) "Príncipe dos Poetas Brasileiros".
Se
Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;
Se és capaz de pensar --sem que a isso só te atires,
De sonhar --sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;
Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: "Persiste!";
Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais --tu serás um homem, ó meu filho!
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Por minha vez, apesar de admirar o poema de Kipling, me permiti fazer uma ligeira paródia dele no meu soneto IF:

IF (de Alma Welt)

Se do amor não te sobrou nenhuma flor
E seus acordes já nem soam, de vazios;
Se a lembrança não guardou nem o rancor
No teus vagos sonhos falsos, erradios;

Se teu maestro caiu da platibanda
E fincou-se-lhe a batuta no umbigo;
Se o teu fiel cachorro te debanda
Ou passou-se para o lado do inimigo;

Se tua hora da verdade é só mentira
E te descobres nem corda nem caçamba,
A pensar como o mundo roda e gira...

Então, meu amigo, foste humano:
Colecionas fracassos pra caramba,
E já podes ir pra casa a todo pano...
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22/09/2013







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