quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

CONFISSÕES DE UM HETERÔNIMO (de Alma Welt)

                           Detalhe do retrato premonitório de Alma Welt- o/s/t de Guilherme de Faria, 1992,                                                                      60x50cm- coleção Lucia Dantas, São Paulo.


CONFISSÕES DE UM HETERÔNIMO (de Alma Welt)

"No ano de 1964, o artista plástico paulistano Guilherme de Faria aprendeu de súbito a técnica zen do desenho a pincel e nanquim ao assistir determinada cena de um filme japonês de samurai. Aproveitei então o fluxo inconsciente que o artista produzia ao desenhar, para aparecer a ele como sua modelo constante, permanente, exclusiva. Ele se deleitava com a minha figura de ruiva esguia, voluptuosa e muito branca. Chamava-me já de sua musa, sem questionar quem era eu, de onde eu vinha e porque razão eu era tão recorrente e disponível. Então, na década de 70, o artista, inteirando-se (não por mero acaso) da teoria dos arquétipos, de Carl Jung, descobriu que eu era a sua a própria "anima" que me manifestava como seu modelo nu, de atelier. Eu ansiava, na verdade, a dar a conhecer a ele, e ao mundo, meus outros talentos que não só meus dons físicos "corporais", por assim dizer. Foi uma longa espera... Guilherme sabia desde a infância de seus próprios dons literários, uma vez que fora criado no meio dos livros da biblioteca clássica de seus pais. Entretanto o artista postergava sua veia literária, envolvido demais com as artes plásticas que, como profissão, provia seu sustento e da família que ele buscava formar. Na verdade, permito-me dizer que ele fracassou completamente como marido e pai de família, solitário que era por natureza, embora inconformado e cheio de sentimento de culpa. Foi então que, finalmente, em Julho de 2001, o artista, falido e sem perspectivas de sobrevivência, sentiu-se livre para deixar extravasar aquilo que ele represara por tanto tempo, sua veia literária, já que não tinha mais nada a perder. Sentou-se para escrever a sério e, inusitadamente, abriu-se-lhe um canal (por assim dizer) com o Sertão, e ele começou a escrever cordéis sertanejos cheios de inspiração. Confesso que fiquei momentaneamente frustrada... mas aproveitei uma pausa após o quarto cordel que lhe veio naquele fluxo espontâneo e admirável, e me introduzi, sim, me intrometi com uma narrativa minha, meu primeiro conto confessional, de minha fase paulistana, o conto "Lembrança Preciosa para a Alma Fiel", conto esse que surpreendeu o artista e abriu-me as portas se sua escrita... de nossa escrita. Não parei mais... Eu, a gaúcha Alma Welt, sua anima, expandi-me em Anima Mundi como meu nome indica, e tomei-o, avassalei-o com minhas lembranças. minha saga pampiana, meu amor, minhas alegrias, minha poesia, meus infindáveis sonetos, minha estância, meu Pampa, meu casarão, minha tragédia pessoal e universal..."
(Alma Welt)

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