luciawv@ig.com.br" para poetabento
mostrar detalhes 19/06/07
Não, não, Bento.
Nada se quebrou. Apenas estive muito atarefada, aqui, com a minha hóspede e as crianças. A presença da doutora é muito gratificante, pois ela é sábia e adorável. Ela amava muito a Alma e confidenciou-me que esse amor fora mais do que a de uma médica por sua paciente ou mestra por sua discípula.Eu na verdade já sabia, poi tinha lido a crônica "Minha doutora Jensen", que a Alma publicou no Leia Livro (está lá).Eu aprendi a levar a sério tudo o que a Alma conta nos seus textos, pois ela se propunha a ser confessional, e absolutamente franca. Tudo o que ela conta aconteceu mesmo com ela. E se às vezes parece adquirir um tom mágico é por conta do seu olhar de poeta, e de seu romantismo inerente. Então, para falar francamente, eu sabia que Alma tinha tido um caso com a sua doutora. Mas isso não me surpreende, pois ninguém conseguia ficar imune ao fascínio da nossa musa. Ela dava vontade de pegar, de tocar, de beijar mesmo, de tê- la nos braços. Ela tinha a natureza das ninfas... Mas, Ah! Bento, acho que foi isso mesmo que a vitimou. Sua sensualidade inocente, seu encanto vital, despertava cobiça nos maus. Falamos sobre isso, eu e a doutora. Passeando na campina, até a colina da Alma, onde está o umbu "do enforcado", numa tarde línda, cheia de pássaros, a doutora, dizia que a Alma era a Psiqué rediviva, encarnava a própria Anima arquetípica, no sentido que Jung dava a ela, e que na verdade deriva mesmo da intuição grega. A Jensen dizia:
" Lucia, tua irmã veio à Terra, veio a nós, para exaltar a natureza feminina, para nos fazer mais mulheres, mais naturais e amorosas". Seu legado era claro para quem a visse e se estendeu mais longe pelo poder de sua poesia escrita. Mas ela era poesia viva, e nos comoveu a todos, que a vimos e tocamos. O artista Guilherme a desenhou na capa daquele livro como a própria Psiqué nos braços de Eros, por isso. Ela vivia sob a égide do Amor, e não dissimulava a profunda carnalidade da natureza do amor. Só os hipócritas tentam dissimular ou desvincular essa natureza, querendo sublimá-lo em uma pretensa espiritualidade sem corpo, ascética. Eu me sentiria uma deles, se não me rendesse, se não a tocasse, se não fruisse uma vez ao menos, de seus lábios e de seu corpo maravilhoso, divino".
Apesar, Bento, de eu saber daquela crônica e dela provavelmente presumir que eu a tinha lido, seu discurso não tinha o tom de auto-justificativa. A doutora está acima disso. Ela não arrepende de ter tocado e amado sua paciente, e chegou a dizer que isso a sustenta ainda hoje, e até retarda o seu envelhecimento, pois sonha eroticamente com a Alma todas as noite. Eu fiquei pasma, mas comovida, Bento, de ouvir isso, da doutora, de uma psiquiatra e uma mulher madura. Num momento uma borboleta pousou sobre seu ombro enquanto ela falava, e ela parou, comovida, e a colocou no seu dedo sem que ela fugisse e ficou olhando intensamente, com um brilho molhado nos olhos, e eu entendi que ela acreditou que era a Alma que viera tocá-la, beijá-la, de certa forma, pois isso aconteceu no momento em que ela fechava o seu discurso amoroso. Nós voltamos silenciosas e e emocionadas para o casarão e avistávamos de longe as crianças brincando no jardim da Alma, e a vida me pareceu tão bela... Bento, apesar... Patrícia com toda sua beleza de "ninfeta" correu para nós e nos abraçou a mim e à doutora com o mesmo carinho, que nós tivemos certeza de que Psiqué continua viva.
Não sei portanto, meu Bento, se devo continuar aquela investigação. Tenho medo de estragar este sentido da vida, que se fez tão claro ontem, naqueles momentos divinos.
Em breve te contarei mais.
Beijos
da tua Lucita
segunda-feira, 28 de julho de 2008
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