segunda-feira, 28 de julho de 2008

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mostrar detalhes 25/06/07

Bento querido

Que gratificante saber que amaste o livro da Alma! E tens razão, sempre achei que daria um filme. E teria que ser filmado aqui mesmo no Pampa, e a locação de preferência a nossa estância, e este casarão assombrado... A propósito, é tudo verdade o que a Alma escreveu: ela encontrou mesmo a adega de nossos avós debaixo do casarão e é de dar medo, uma antiga senzala, que ficou oculta até de nossos pais, por capricho do avô Joachin que esperava deixar a safra para os netos ou bisnetos. Quanto à sua existência e aspecto, que história cruel e escabrosa essa do passado do nosso Brasil! E eu assisti ao julgamento da Alma! Sim, só que ela não colocou no livro o meu depoimento, por causa do meu marido que me chantageou com meus filhos para eu ficar fora do processo. Mas eu a apoiei por fora, de diversas maneiras. Tu notaste que a minha presença no livro é muito discreta? A Alma quiz poupar-me, sua intenção era boa, mas eu quase fiquei despeitada pois eu queria aparecer mais e melhor no livro dela (risos). Não, na verdade aquilo tudo foi terrível, pois culminou no assassinato de minha irmã Solange. No segundo volume do romance entitulado O Sangue da Terra, Alma conta coisas mais espantosas ainda ocorridas aqui. Ah! Bento, tu não imaginas: ela foi estuprada pelo meu ex-marido Geraldo, o assassino de nossa irmã! Não sei como a Alminha sobreviveu a isso tudo ainda por tanto tempo, lutando heroicamente para manter sua beleza e alegria... até que sucumbiu à depressão e foi internada. Mas ainda teve forças para se reerguer e fugir da clínica nas vésperas do Ano Novo, numa saga por essas estradas, de carona de caminhão para juntar-se às suas queridas crianças . Isso ela contou nas suas cartas à Andrea, das quais ela publicou algumas no Leia Livro e no Recanto. Mas eu encontrei, depois de sua morte, as cópias impressas de toda essa correspondência, que consiste em mais de cem e.mails, de parte a parte, produzindo um verdadeiro romance epistolar, espantoso, que se publicado comoveria o mundo. O problema é que é às vezes demasiado erótico e muito íntimo. Lendo, às vezes eu ruborisava até à raiz dos cabelos. Outras vezes chorava de emoção e pena pelo sofrimentos da minha amada irmã, naquela clínica (nossa intenção era boa) e naquelas estradas (descalça e vestida com o camisolão das internas) onde sua integridade física correu grandes perigos. Bento, tu não imaginas as coisas que minha irmãzinha viveu, e sofreu só por ser tão bela e desejável.Por ser tão cândida, apesar de uma suposta lucidez de intelectual. Ela no fundo era ingênua, na sua pureza intacta diante de um mundo mau. Ah! como eu queria protegê-la, como a uma filhinha... mas era impossível: ela estava atirada à vida e ao mundo.

Sabe, Bento, essa pureza, que era percebida pelo povo daqui do pampa, apezar dos episódios de nudez da Alma ao ar livre, foi transformada em uma espécie de nudez de Lady Godiva, a cavalo, mas galopante por aí afora, de noite. E para muitos, para além de um espectro assombrante, de uma pobre alma penada, começou a surgir uma corrente que quer fazer dela uma santinha, pois a notícia de sua suposta violação e assassinato vazou e começa a correr por aí. A primeira a incentivar essa visão e crença foi a própria Matilde, que fez um altar para a Alma no seu quarto, cheio de velas.

Ai, Bento! Eu só queria colocar a Alma no lugar que lhe cabe: a de grande escritora e poeta entre os maiores nomes das letras brasileiras. Só isso (e sei que um sonho imenso). Bem Bento, aqui estou eu a escrever um romance. Paro por aqui. Estou emocionada. Depois te conto mais sobre aquele delegado... agora não poderia.

Beijos

da Lucia

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