sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
"Minha varanda é meu observatório da vida. Não me reconheço alienada por ser intrinsecamente romântica. Os livros dos grandes foram e ainda são a minha janela para o mundo. Quem pode negar sua acuidade e sabedoria? E a poesia? Se "quanto mais poético mais verdadeiro", como disse Novalis, quem me poderá cobrar realismo e mesmo "pé na terra"? Os jornais, a televisão, sim, são importantes para quem não lê o que realmente importa. Não me falem de coisas práticas, muito menos de política, esportes, futebol... não estou interessada nas coisas que começam e terminam em si mesmas. Nesse caso prefiro as flores, os pássaros..." (entrevista com Alma Welt)
"Um crítico e filósofo acadêmico me perguntou o que faço pelo próximo, pelos desvalidos, pela educação dos pobres, pela ecologia, etc... Respondi que não sou tão arrogante para acreditar que posso fazer muita coisa além de escrever poemas e tentar dá-los aos meus semelhantes, mas que podia reconhecer em mim mesma um grande respeito e até carinho para com todos e tudo o que me cerca. Mais que isso, realmente, não podia dizer... Talvez eu mereça mesmo o desprezo que esse crítico estava planejando me dar..." (Alma Welt)
“Não tive formação religiosa. Fui criada por meu pai numa espécie de “experiência de paganismo”, em contato com a Natureza e com os mitos gregos, os deuses e os arquétipos, e até mesmo as fadarias germânicas e celtas. Minha formação foi essencialmente literária. Entretanto no final da adolescência descobri o cristianismo e mesmo o catolicismo, através da arte sacra. Tantos grandes artistas pintando com tanta devoção obras magníficas representando a vida de Cristo ou compondo magníficas e poéticas orações e missas, me comoveram e abalaram minha crença nos deuses e nas fadas. Tantas e tão grandes inteligências e sensibilidades não poderiam estar enganadas. E fui me convertendo lentamente, como os séculos do Ocidente o foram...” (entrevista com Alma Welt)
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
Minha mãe, a Açoriana, e Matilde, nossa ex babá, temiam que a dedicação à
Literatura me tornasse uma solteirona, e me ofereciam ostensivamente aos filhos
de estancieiros vizinhos que nos visitavam. Elas elogiavam exageradamente minha
beleza na frente deles, o que me constrangia. Eu percebia que estava à venda. O
que me salvava da revolta e do ressentimento era o senso de humor incentivado
pelo Vati (papai). Tornei-me cínica sem vulgaridade graças a ele, à sua
sabedoria..." (entrevista com Alma Welt)
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
"Sinto que não completei dentro de mim a relação com minha mãe, relação que foi truncada por um trauma. Depois perdi a possiblidade de fechamento do ciclo, com sua perda aos meus 16 anos. Em compensação tive a plenitude de um pai amoroso e culto, incentivador da minha arte. Um verdadeiro esteio da minha poesia. Conversando sobre isso com o Guilherme de Faria, ele me disse que com ele foi exatamente o contrário..." (entrevista com Alma Welt)
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
"Uma jornalista de Porto Alegre veio me entrevistar aqui na estância. Mostrei a ela a biblioteca de meu pai, seu piano Steinway, a varanda, o jardim, o pomar, a macieira do meu exílio e... depois fomos cavalgar na coxilha. Pouco falei. Convidei-a a passar a noite no casarão para ver meus fantasmas. Ao amanhecer ela disse estar apta a escrever um longo artigo, senão uma biografia. Ao despedir-se beijou-me nos lábios. Senti que ela iria escrever poesia. Um pequeno poema que resumiria tudo..." (Alma Welt)
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
"No final dos anos 50 começou a invasão da cultura americana no Brasil, expulsando a cultura francesa que nos dominava. A ponta de lança dessa nova cultura dominante era Hollywood, difícil de resistir. Que crianças resistiriam ao faroeste, ao chicletes, à coca-cola, os quadrinhos e os super-heróis? E aos gangsters, então, com todo aquele glamour?" (Alma Welt)
"Eu prefiro ver o artista um tanto à parte da sociedade, pela isenção que isso lhe acarreta, do que inserido socialmente e portanto comprometido com o Sistema. Sei que isso constitui uma postura "romântica", mas que certamente incorpora os "malditos", esplêndidos artistas marginais e solitários. Eu mesma assim me considero e pago um alto preço por isso com a dificuldade de publicar meus livros e poemas fora da Internet..." (entrevista com Alma Welt)
domingo, 8 de julho de 2012
"É preciso muita humildade para envelhecer. Não sei se a terei. Mas não pintarei o cabelo, não o cortarei nem prenderei. Não pintarei os lábios de minha boca emurchecida. Prefiro me transformar numa bruxa picaresca como a minha avó Frida, e morrer com uma grande e última casquinada... " (entrevista com Alma Welt)
quarta-feira, 23 de maio de 2012
"Tendo um nome como o meu, não seria necessário nem coerente eu adotar outra religião senão o culto de minha própria anima poética. Assim, erigi-me como Musa de mim mesma e minha religião é o meu ego assumido em plena transcendência literária. Estranho? Não! Todo poeta que se preze deve cultuar a sua alma privilegiada. Não há maior religiosidade, nem humildade..." ( Alma Welt)
segunda-feira, 21 de maio de 2012
"Como pensadora e poeta, sou o contrário de qualquer patrão ou líder: nunca me verão dizendo às pessoas o que elas devem fazer. Meus pensamentos não têm esse teor. Aliás não posso conceber que se faça isso. Cada um que faça de si o que bem lhe aprouver, e arque ou não com as consequências. Neste "ou não" está a minha coerência..." (Alma Welt)
terça-feira, 1 de maio de 2012
A Gula pela Vida
"Vivi intensamente, tanto pelo intelecto como pelos sentimentos. Posso então afirmar que extraí o sumo da vida. Entretanto, como os gulosos, devo confessar que nada me saciou. Quis sempre mais... e a mim mesma me surpreende que não tenha me tornado uma adicta, senão pela vida mesma..." (Alma Welt)
O Patrimônio Imaterial
"Congratulo-me comigo mesma, pois embora eu tenha nascido no seio de uma família abastada, cultivei um patrimônio totalmente imaterial, que é a minha bagagem cultural, literária, e de grande riqueza de memória afetiva. Agora que vejo o expólio material da minha família entrar em decadência, correndo o risco de se perder, vejo que eu estava certa: não me sinto na verdade empobrecer." (entrevista com Alma Welt)
quinta-feira, 26 de abril de 2012
A Idade de Ouro
"Isto pode soar delirante ou mesmo pretensioso, mas considero que vivi dentro de mim, em realidade psíquica e existencial, integralmente as quatro Idades da Humanidade segundo a concepção grega antiga: A Idade do Ouro, da Prata, do Bronze e do Ferro. Mas me detive ao meu bel-prazer na Idade do Ouro, e fiz de mim mesma minha heroína. Esta foi minha prerrogativa de Poeta e Musa de mim mesma. E meu nome é Alma Welt."
domingo, 15 de abril de 2012
O mundo é mágico...
"O mundo é mágico para aqueles que assim o acreditam. Nisto consiste o "pensamento mágico", que dá à luz as melhores criações da mente humana, como as invenções benignas e sobretudo a Arte. Quem não for capaz de pensar magicamente não será capaz de fazer Arte. Não se enganem: somos magos e pagamos alto preço por isso..." (Alma Welt)
segunda-feira, 9 de abril de 2012
A Propósito de Esporas (de Alma Welt)
"Não permiti jamais a presença de esporas nas botas dos "gauchos" aqui da estância. Os que insistiam foram ameaçados de demissão e desistiram. Mas confesso que foi difícil, no começo, fazê-los internalizarem o conceito que há por trás disso, pois eles achavam que mesmo usando esporas eles amavam seus "pingos". A crueldade é quase sempre fruto da ignorância. Se não é... é pior ainda." (Alma Welt)
domingo, 1 de abril de 2012
Os Falsos Sonhos
"Vocês já repararam num tipo de sonho que ocorre com frequência em nosso sono noturno, absolutamente banal, realista, mesquinho, sobre trivialidades muitas vezes técnicas, afinal idiotas, e que parece podermos conduzir sem levar a bom termo? Eu os chamo de "falsos sonhos"... Nitidamente sem nenhum caráter simbólico, somente sua finalidade permanece misteriosa. Entretanto se passam no inconsciente pois vão se evolando também, como os sonhos interessantes, ao acordarmos, e se dissipam. Não conseguimos mais lembrar do que se tratava, restando somente a impressão de sua absoluta falta de propósito. Nunca ouvi menção a eles nos tratados de psicologia, e eu hesitaria, por vergonha, em levá-los a um psicanalista, se o tivesse. Imagino que um analista diria que os estou subestimando e que deveria me esforçar para lembrá-los e trazê-los às sessões, e que os estou recalcando justamente por sua importância... Mas não. Creio que o nosso inconsciente também armazena bobagens, futilidades. Sua riqueza é como ouro no cascalho." (Alma Welt
Os Segredos da História
"A cada um de nós é dado descobrir segredos da História Humana que estão guardados num lugar recôndido de nosso cérebro como uma herança cultural inconsciente. Mas isso teoricamente, pois somente alguns de nós conseguimos acessar esse cofre secreto e precioso, por predisposição ou dom desenvolvido de profundo mergulho interior. Sim, porque alguns desses segredos podem ser fatais ou enlouquecedores. Desconfio que os hospícios estão cheios desses mergulhadores..." (Alma Welt)
Nossa Época
"Pensando bem... a nossa época tem tudo, acumulou o conhecimento de quase toda a História da humanidade, e pela pesquisa vem preenchendo gradativamente as lacunas. Tornamos a comunicação eletrônica imediata e miraculosa, via satélite. Temos a fantástica Internet. Democratizamos a cultura e podemos ouvir e ver toda espécie de shows de música, concertos, óperas, balés, espetáculos. As editoras de livros proliferaram como nunca. Os clássicos ainda são editados. E filmes, filmes espantosos, em que grandes epópeias e mitos se tornaram visíveis e quase verossímeis. Só nos falta a inocência para acreditar nesses mitos arquetípicos, enfim... nos heróis e nos deuses. Isso se perdeu. Estamos mais pobres, cercados de riquezas..." (Alma Welt)
A Nossa Era
As características negativas de nossa Era, tão apontadas, também as enxergo. No entanto não me identifico com nenhuma delas, pois não sou uma pessoa desta época, sou completamente anacrônica: poeta de dois mundos, um tanto atrás e um tanto à frente... (Alma Welt)
quarta-feira, 21 de março de 2012
Realismo
Todo realismo é um tanto pessimista. Eu acho muita graça nas chamadas "Leis de Murphy", justamente por serem criação de um americano, portanto nascidas no seio de uma sociedade que consagrou o Americam Dream e o Happy End. Quanto a mim, sonhadora do real, também acredito que as coisas só dão certo quando não houver a mínima probabilidade de darem errado. Por isso não baseio minha vida em apostas. Se sou poeta é porque não posso deixar de cantar, mesmo sabendo que certamente morrerei arruinada. (entrevista com Alma Welt)
terça-feira, 20 de março de 2012
O Milésimo Soneto
"Quando escrevi o meu milésimo soneto, as coisas começaram a ficar claras para mim. Eu tinha um "corpo de obra", poderia agora prosseguir com o peso de uma bagagem considerável, que me dava um autoridade sobre meu próprio mundo. Eu podia enxergar com nitidez o que eu própria tinha a dizer. E era uma visão de mundo baseada no amor da Natureza através de sua fusão com a cultura clássica, com os acalentados mitos de meu coração, mas também de minha alma. Eu própria tinha me tornado, com legitimidade, a minha anima e minha própria Musa. Eu não era mais o meu simples eu. Como ser humano eu tinha me tornado universal e portanto simbólica. Podia começar a ser lida, sem pudor, sem arrependimentos de amadora. Podia, como se diz, "peitar" o mundo..." (entrevista com Alma Welt)
segunda-feira, 5 de março de 2012
sábado, 3 de março de 2012
Sobre a Mitanálise Junguiana (por Alma Welt)
"A meu ver a chave para o entendimento da Mitanálise Junguiana está no fato de que na verdade não existe uma análise individual. Toda a humanidade está sendo analizada na nossa pessoa no momento da sessão psicanalítica. E é isso que interessa: os arquétipos universais atuantes no nosso "inconsciente coletivo". Toda dor humana só é relevante se tiver uma equivalência simbólica no plano universal. Do contrário é apenas birra, mimo, ou capricho fútil..." (Alma Welt)
Guilherme de Faria disse:
A consequência dessa constatação da Alma é a conclusão de que a "individuação" em Jung é, paradoxalmente, uma "universalização". Eis aí também a chave para o entendimento da poesia da Alma Welt, expressa principalmente nos seus sonetos. Todas as suas experiências pessoais, suas analogias, seus devaneios e anseios, suas angústias principalmente, são universais, simbólicas e arquetípicas. E por isso compartilháveis por todos, homens e mulheres de qualquer parte do mundo. O seu Pampa, sim, é somente uma metáfora para o conceito de "fim de mundo", ou começo dele, nosso território primordial após a expulsão do Paraíso, nosso exílio em solidão no seio da própria Natureza... nosso Leste do Éden.
Guilherme de Faria disse:
A consequência dessa constatação da Alma é a conclusão de que a "individuação" em Jung é, paradoxalmente, uma "universalização". Eis aí também a chave para o entendimento da poesia da Alma Welt, expressa principalmente nos seus sonetos. Todas as suas experiências pessoais, suas analogias, seus devaneios e anseios, suas angústias principalmente, são universais, simbólicas e arquetípicas. E por isso compartilháveis por todos, homens e mulheres de qualquer parte do mundo. O seu Pampa, sim, é somente uma metáfora para o conceito de "fim de mundo", ou começo dele, nosso território primordial após a expulsão do Paraíso, nosso exílio em solidão no seio da própria Natureza... nosso Leste do Éden.
sábado, 25 de fevereiro de 2012
Os frutos do meu pomar ( Alma Welt)
"Que imenso privilégio é poder viver neste Pampa, que é onde o Mundo começou, e poder atirar daqui mesmo meus poemas para o mundo! É como se eles estivessem sendo colhidos pelos meus leitores, como eu mesma colho os frutos do meu pomar..." (entrevista com Alma Welt)
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
A mão para o soneto ( depoimento de Alma Welt)
"Perguntam-me por quê escolhi o soneto como minha forma de expressão poética principal, a ponto de ter escrito mais de dois mil deles, coisa nunca feita por nenhum outro poeta no mundo. Eu respondo que não é somente por que tenho pressa de registrar minhas idéias, mas porque o soneto tem vida própria e se escreve sozinho com uma facilidade misteriosa em minhas mãos, mesmo se atendo às regras de métrica, rima e chave de ouro. Julgaram que minha resposta fosse cabotina, porque o soneto é uma forma clássica de certa dificuldade... mas garanto que como sou preguiçosa, tendo descoberto que tenho mão para o soneto, como os bons cozinheiros têm mão para o sal, quando comecei não pude parar mais. E através deles passei a limpo a minha vida..." (Alma Welt)
domingo, 5 de fevereiro de 2012
PREFÁCIO às CRÔNICAS DA ALMA, de Alma Welt
(por Guilherme de Faria)
Eis-nos aqui a publicar as Crônicas que Alma Welt considerava até a pouco, impublicáveis (pelo menos em jornal ). Aliás, nunca passou pela cabeça da nossa autora, o papel de jornalista. Suas crônicas têm o caráter íntimo e confessional de quase toda a sua produção( excetuadas as “Lendas da Alma”, e os ciclos de poemas “O Circo” e “A Ciranda dos Animais”, editados pelas minhas artesanais “Edições do Pavão Misterioso”.
É perturbador, no entanto, o fato de que quanto mais a nossa autora se expõe, com a sensualidade e explicitude que lhe é característica, em sua obra, mais ela se esconde pessoalmente, mais se reserva, numa condição de verdadeiro exílio social., o que consideramos, sinceramente, no mínimo um desperdício, dada a excepcional beleza física da “guria” ( como ela diz) que descobrimos, vinda do sul, e como que degredada nestes Jardins, de São Paulo, amiúde derramando lágrimas pelo Pampa e sua estância praticamente abandonada. “O casarão batido pelo minuano, recusa-se a afundar...”, ela diz lindamente num poema seu.
Não pensem os leitores que não tenho insistido para a nossa musa sair da toca. Estou começando a ser acusado de ciumento da minha descoberta, e “enrustidor”. Alma tem recusado amáveis convites de casais que se tornaram seus fãs, pela sua literatura, para almoços e jantares em sua homenagem, e que o fazem por meu intermédio. Em vão. Estou quase desistindo: trata-se já de uma fobia.
No entanto ( e isso é surpreendente), nossa autora está longe de ser uma pessoa triste, ou uma poetisa melancólica. Como nos seus textos, que são ela mesma, direta e coloquial, Alma celebra a “Alegria mais profunda do que a dor”, apreendida do Zaratustra de Nietzsche, que seu pai cultuava e que lhe passou tão cedo, dando-lhe essa diretriz filosófica inspiradora, bem como a linguagem simples e direta com que se expressa em prosa e poesia, com tanto lirismo, herdeira que é, legítima, do romantismo alemão, ainda que o faça tardiamente, nesse final caótico de século XX, e início do XXI, em nossa chamada Era Digital. A propósito, estou inclinado a rotular sua literatura de “neo-romântica”, uma vez que Alma Welt vem me provando a validade e a beleza desse verdadeiro movimento de uma autora só, que é ela mesma.
“NEO-ROMANTISMO”, é isso! Está lançado o movimento, se podemos assim dizê-lo. Conte comigo Alma, você já me cooptou, com a profundidade de sua redescoberta da beleza possível, no cotidiano, pelo seu enfoque generoso, desprovido de quaisquer ressentimentos, pela sua escolha da alegria, da liberdade sexual plena, pela capacidade de entrega a suas elevadas paixões por homens e mulheres, com igual intensidade. Pelo seu renovado culto da Arte pela arte, por sua corajosa afirmação da escolha do prazer e da felicidade.
Não esqueço, no entanto, o fato de que, sendo ela uma pintora e poeta, hipersensível, contém, também um componente melancólico, que, aliás, lhe doa seus momentos mais líricos, nos seus ciclos de sonetos que têm aquela característica única no mundo da literatura, de contar estórias, em suas seqüencias corretas. Confesso, pois, que a dor que detecto, sob a bela capa da alegria da nossa musa, me comove mais que tudo.
Alma não esquece, profunda que é, a fugacidade de tudo, a presença constante do fantasma próximo ou longínquo da Morte, a simples dor de existir, coexistente com a alegria e o prazer. Dessa dubiedade nasce o mistério que perpassa as suas narrativas. Uma espécie de suspense difuso, Hoffmanniano, que nos surpreende, uma vez que ela evita o “triller’, e quaisquer mirabolâncias folhetinescas, mantendo-se sempre no terreno da psicologia sutil, de um rico monólogo interior cheio de paradoxos.
A aparente simplicidade de sua linguagem, não esconde, no entanto, os vestígios de uma cultura superior, e mesmo fragmentos de uma erudição, surpreendente, que ela procura disfarçar por discrição, ou para melhor fazer-se entender. É sintomático o fato, contado por ela, da impressão que lhe causou a frase de Nietzsche, citada por seu pai, quando ela era ainda criança: “Há poetas que turvam suas águas para parecerem profundas’’. Essa máxima iria funcionar para ela como uma sábia diretriz, evitando turvar, tanto em sua poesia quanto em sua prosa.
Quanto ao universo em que cresceu, pode-se dizer privilegiado em sua dupla natureza cosmopolita e rural, ao mesmo tempo, naquela estância gaúcha de sua infância e primeira juventude, com o piano de cauda tocado belamente pelo seu pai, filho de alemães, cirurgião e literato, com sua imensa biblioteca clássica, que ele ensinou sua filha predileta a amar. O mundo que ela iria abordar em sua literatura, seria no entanto, o de um cotidiano urbano, paulistano, do seu ateliê nos Jardins, mas dessa perspectiva sutil de quem apreendeu cedo a captar o sentido profundo do dia-a-dia quando desvelado pela visão da esteta, hedonista e humanitária ao mesmo tempo, enfim, humanista.
Comove-nos o seu cândido epicurismo, que procura disfarçar a tendência às lágrimas de amor e dor, de comoção pelo ser humano tão amado por ela, a ponto de privilegiar somente a sua beleza e possibilidade de pureza ideais. Poderíamos dizer que Alma seria ,assim, a última herdeira do Idealismo alemão.
Estou, naturalmente, pensando no conjunto de toda a sua já considerável obra, com trinta livros de poemas e pelo menos cinco de contos e novelas.
Mas voltando a estas Crônicas, percebo que nelas a fronteira do conto é tênue, e embora tratem de acontecimentos e pessoas reais que cruzaram a vida e o universo interior desta Alma, é possível que existam nelas a contribuição da fantasia de caráter insólito e ao mesmo tempo realista desta sonhadora do verossímil, que sempre apostou na poeticidade inerente aos seres e às coisas deste mundo.
E é isso o que mais me comove nesta Alma, sua candura invencível, a coerência de sua visão humanista, pois que segue acreditando sobretudo na beleza e até mesmo na grandeza do ser humano, pelo menos em seus termos ideais, como ela mesma diz.
Mas então, o que é que a afasta da definição precipitada de “naïve”? Sua argúcia (eu responderia), e uma velada ironia que aparece vez por outra, e da qual ela não abusa. E a legitimidade de uma visão profunda, que captura o belo, onde quer que ele se encontre, inclusive em situações eventualmente grotescas, a verdadeira definição de humor. Mas sobretudo pela capacidade suprema, de poeta, de captar a alegoria, o sentido maior, simbólico, dos acontecimentos aparentemente banais do seu cotidiano, que é o de todos nós.
FIM
GUILHERME DE FARIA
São Paulo, 1/07/2004
Eis-nos aqui a publicar as Crônicas que Alma Welt considerava até a pouco, impublicáveis (pelo menos em jornal ). Aliás, nunca passou pela cabeça da nossa autora, o papel de jornalista. Suas crônicas têm o caráter íntimo e confessional de quase toda a sua produção( excetuadas as “Lendas da Alma”, e os ciclos de poemas “O Circo” e “A Ciranda dos Animais”, editados pelas minhas artesanais “Edições do Pavão Misterioso”.
É perturbador, no entanto, o fato de que quanto mais a nossa autora se expõe, com a sensualidade e explicitude que lhe é característica, em sua obra, mais ela se esconde pessoalmente, mais se reserva, numa condição de verdadeiro exílio social., o que consideramos, sinceramente, no mínimo um desperdício, dada a excepcional beleza física da “guria” ( como ela diz) que descobrimos, vinda do sul, e como que degredada nestes Jardins, de São Paulo, amiúde derramando lágrimas pelo Pampa e sua estância praticamente abandonada. “O casarão batido pelo minuano, recusa-se a afundar...”, ela diz lindamente num poema seu.
Não pensem os leitores que não tenho insistido para a nossa musa sair da toca. Estou começando a ser acusado de ciumento da minha descoberta, e “enrustidor”. Alma tem recusado amáveis convites de casais que se tornaram seus fãs, pela sua literatura, para almoços e jantares em sua homenagem, e que o fazem por meu intermédio. Em vão. Estou quase desistindo: trata-se já de uma fobia.
No entanto ( e isso é surpreendente), nossa autora está longe de ser uma pessoa triste, ou uma poetisa melancólica. Como nos seus textos, que são ela mesma, direta e coloquial, Alma celebra a “Alegria mais profunda do que a dor”, apreendida do Zaratustra de Nietzsche, que seu pai cultuava e que lhe passou tão cedo, dando-lhe essa diretriz filosófica inspiradora, bem como a linguagem simples e direta com que se expressa em prosa e poesia, com tanto lirismo, herdeira que é, legítima, do romantismo alemão, ainda que o faça tardiamente, nesse final caótico de século XX, e início do XXI, em nossa chamada Era Digital. A propósito, estou inclinado a rotular sua literatura de “neo-romântica”, uma vez que Alma Welt vem me provando a validade e a beleza desse verdadeiro movimento de uma autora só, que é ela mesma.
“NEO-ROMANTISMO”, é isso! Está lançado o movimento, se podemos assim dizê-lo. Conte comigo Alma, você já me cooptou, com a profundidade de sua redescoberta da beleza possível, no cotidiano, pelo seu enfoque generoso, desprovido de quaisquer ressentimentos, pela sua escolha da alegria, da liberdade sexual plena, pela capacidade de entrega a suas elevadas paixões por homens e mulheres, com igual intensidade. Pelo seu renovado culto da Arte pela arte, por sua corajosa afirmação da escolha do prazer e da felicidade.
Não esqueço, no entanto, o fato de que, sendo ela uma pintora e poeta, hipersensível, contém, também um componente melancólico, que, aliás, lhe doa seus momentos mais líricos, nos seus ciclos de sonetos que têm aquela característica única no mundo da literatura, de contar estórias, em suas seqüencias corretas. Confesso, pois, que a dor que detecto, sob a bela capa da alegria da nossa musa, me comove mais que tudo.
Alma não esquece, profunda que é, a fugacidade de tudo, a presença constante do fantasma próximo ou longínquo da Morte, a simples dor de existir, coexistente com a alegria e o prazer. Dessa dubiedade nasce o mistério que perpassa as suas narrativas. Uma espécie de suspense difuso, Hoffmanniano, que nos surpreende, uma vez que ela evita o “triller’, e quaisquer mirabolâncias folhetinescas, mantendo-se sempre no terreno da psicologia sutil, de um rico monólogo interior cheio de paradoxos.
A aparente simplicidade de sua linguagem, não esconde, no entanto, os vestígios de uma cultura superior, e mesmo fragmentos de uma erudição, surpreendente, que ela procura disfarçar por discrição, ou para melhor fazer-se entender. É sintomático o fato, contado por ela, da impressão que lhe causou a frase de Nietzsche, citada por seu pai, quando ela era ainda criança: “Há poetas que turvam suas águas para parecerem profundas’’. Essa máxima iria funcionar para ela como uma sábia diretriz, evitando turvar, tanto em sua poesia quanto em sua prosa.
Quanto ao universo em que cresceu, pode-se dizer privilegiado em sua dupla natureza cosmopolita e rural, ao mesmo tempo, naquela estância gaúcha de sua infância e primeira juventude, com o piano de cauda tocado belamente pelo seu pai, filho de alemães, cirurgião e literato, com sua imensa biblioteca clássica, que ele ensinou sua filha predileta a amar. O mundo que ela iria abordar em sua literatura, seria no entanto, o de um cotidiano urbano, paulistano, do seu ateliê nos Jardins, mas dessa perspectiva sutil de quem apreendeu cedo a captar o sentido profundo do dia-a-dia quando desvelado pela visão da esteta, hedonista e humanitária ao mesmo tempo, enfim, humanista.
Comove-nos o seu cândido epicurismo, que procura disfarçar a tendência às lágrimas de amor e dor, de comoção pelo ser humano tão amado por ela, a ponto de privilegiar somente a sua beleza e possibilidade de pureza ideais. Poderíamos dizer que Alma seria ,assim, a última herdeira do Idealismo alemão.
Estou, naturalmente, pensando no conjunto de toda a sua já considerável obra, com trinta livros de poemas e pelo menos cinco de contos e novelas.
Mas voltando a estas Crônicas, percebo que nelas a fronteira do conto é tênue, e embora tratem de acontecimentos e pessoas reais que cruzaram a vida e o universo interior desta Alma, é possível que existam nelas a contribuição da fantasia de caráter insólito e ao mesmo tempo realista desta sonhadora do verossímil, que sempre apostou na poeticidade inerente aos seres e às coisas deste mundo.
E é isso o que mais me comove nesta Alma, sua candura invencível, a coerência de sua visão humanista, pois que segue acreditando sobretudo na beleza e até mesmo na grandeza do ser humano, pelo menos em seus termos ideais, como ela mesma diz.
Mas então, o que é que a afasta da definição precipitada de “naïve”? Sua argúcia (eu responderia), e uma velada ironia que aparece vez por outra, e da qual ela não abusa. E a legitimidade de uma visão profunda, que captura o belo, onde quer que ele se encontre, inclusive em situações eventualmente grotescas, a verdadeira definição de humor. Mas sobretudo pela capacidade suprema, de poeta, de captar a alegoria, o sentido maior, simbólico, dos acontecimentos aparentemente banais do seu cotidiano, que é o de todos nós.
FIM
GUILHERME DE FARIA
São Paulo, 1/07/2004
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
"A atitude adversa de minha mãe, Ana Morgado, a Açoriana; da Matilde minha babá e de Solange, minha irmã mais velha, em relação à minha poesia e mesmo à minha liberdade resultaram estimulantes para mim. Ser poeta representava então um desafio, como deve ser. Do contrário, a facilidade, a aprovação e o aplauso do Vati, meu pai, de Rodo meu irmão e de Lucia minha irmã, e até do meu fiel Galdério, meu charreteiro, e factotum aqui da estância, me teriam amolecido, estragado, mimado. Afinal, eu era a princesa, o que por si só é poesia, não se espera das princesas uma obra profunda. O ser supera o fazer. Pensando assim, agora posso compreender meus primeiros adversários, e não mais duvidar do seu amor. Está tudo certo, minha biografia é perfeita. Mas qual biografia não é, se tudo é Destino?" (Entrevista com Alma Welt)
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
" Eu nunca encontrei ninguém que amasse tanto a Poesia quanto eu. Sei que existem essas pessoas, mas por alguma razão não fizeram parte das minhas relações. Eu sentiria uma grande solidão poética, não fossem meus grandes pares do passado. Bem, talvez eu esteja sendo injusta, na verdade teve o Guilherme de Faria, meu descobridor em São Paulo. Mas suspeito que ele, sendo pintor, me amou primeiramente pela minha beleza, me fazendo posar nua para ele a todo momento. Logo ele que nunca precisou de modelo..." (entrevista com Alma Welt)
"Por alguma razão, inexplicável, escolhi desde cedo o soneto para confessar-me, contar tudo, registrar meu dia a dia mental e mesmo circunstancial, para sonhar e até para divertir-me. Sei que houveram grandes sonetistas no mundo, e ainda os há... que também usaram o soneto para fins confessionais, que os quatorze versos muito se prestam para isso. Mas duvido que eles se tenham construido através deles como eu, que já não os distingo de mim mesma. Se queimassem minha Arca, eu deixaria de existir. Creio que cairia fulminada, como uma irreversível Fênix..." (entrevista com Alma Welt)
"Quando eu era guria, minha babá Matilde me dizia que nós morávamos no Fim do Mundo, que aqui o o vento fazia a curva e voltava, que para além do horizonte, lá no fim da coxilha, não havia mais nada. Apesar de aprender Geografia, afetivamente continuei a sentir-me uma espécie de fronteiriça, uma guardião da fronteira do Mundo com o Nada. Sim, eu sempre tive um pé no Abismo, e isso, somente isso, explica a minha poesia..." (Alma Welt)
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
"Que jornada gloriosa é a vida! Sim, a vida comum, a vida de qualquer um! Existirmos e perseverarmos contra toda a expectativa da consciência profunda, que não nos abandona senão aparentemente... Caminharmos firmes, embora lentamente, em direção ao abismo! Que coragem básica é preciso para se estar vivo e caminhar. O ser humano, por ser consciente, é necessariamente um herói. Não falem mal do ser humano na minha frente!" (Alma Welt)
"Fui criada na Antroposofia, corrente humanista adotada por meu pai pelo menos em sua pedagogia. Me lembro que fiquei muito intrigada e divertida quando adolescente, com a afirmação do Dr. Rudolf Steiner no seu livro iniciático "A Crônica do Akasha", de que os macacos são seres humanos que involuiram, e não o contrário. Tenho observado sinais dessa possibilidade no homem em suas piores manifestações de massa..." (entrevista com Alma Welt)
"Aqui em casa, já me diagnosticaram como louca, ou no mínimo, "maluca". Meu entusiasmo pela vida me leva a fazer coisas doidas, a agir às vezes como uma "histérica", por excesso de arrebatamento. Corro, subo nas coisas, nas mesas e nos muros, me desnudo e saio pela coxilha em disparada, a pé ou a cavalo... sim, nua como vim ao mundo! Às vezes grito, de alegria, de pura alegria de beleza! Bem, já me internaram uma vez... Mas foi no polo oposto, estava perdida de mim e vagava no bosque, balbuciando, em farrapos. Sim, às vezes tenho medo de mim..." (Alma Welt)
"Se me sinto muito perdida ou frustrada e uma criança está por perto, estou salva. A criança não é um projeto de adulto, esse é o seu mistério e encanto. É o ser mais completo em si mesmo, que nos ensina a plenitude, a essência e a beleza do momento. Eu a observo brincando, ou simplesmente olho dentro dos seus olhos e... me apaziguo." (Alma Welt)
"Uma vez, num tempo negro de minha vida, subi ao sótão do casarão com um laço de couro cru de vaqueiro e pensei em mim pendurada na viga do telhado. Mas como tenho uma imaginação realista, me vi grotesca, de língua de fora, o pescoço torto e os olhos esbugalhados. Minha vaidade foi maior, joguei o laço num canto. Ao descer a escadinha em caracol, escapou-me um longo suspiro e.... logo uma gargalhada. Eu estava salva!" (entrevista com Alma Welt)
"Desde muito cedo em minha vida, escolhi a Verdade e a Beleza, que no dizer do poeta Keats, são o mesmo. Mas não fiquei impune por isso. Houve conspirações à minha volta para me banalizar. Não conseguiram. E eu pagaria um alto custo, em dores e solidão, pela minha devoção àquela dupla Musa. Mas não me queixo e não lamento nada... as alegrias e mesmo êxtases que experimentei ao dedicar-me de corpo e alma à minha arte foram altamente compensatórias. Eu recomendaria a uma outra jovem uma tal escolha? Não. A grande arte é Destino, não caminho..." (Alma Welt)
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