terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Dos sonhos do sono

"Sempre tive a impressão de que nossos sonhos do sono são a evidência de um mundo real paralelo, tão absurdo, comezinho, ridículo, às vezes "surreal", outras coerente, lógico e banal como o nosso mundo de vigília. A simples existência desse paralelismo real é, em si, espantosa. Pra quê? Pra quê?Tanto mais que os sonhos, por sua multiplicidade de abordagens diversas, sugerem a existência não de um só, mas de muitos ou infinitos mundos paralelos, alguns aparentemente supérfluos ou tolos, outros esclarecedores e até proféticos. Notem que estou excluindo propositalmente, por inútil, a noção freudiana de inconsciente ou subconsciente. A teoria dos mundos ou "universos paralelos" me parece mais verdadeira, conquanto igualmente sem propósito. O mistério aparentemente idiota da nossa existência e seus mundos permanece. É melhor mesmo acreditarmos em Deus para nos darmos um sentido, pelo menos de beleza, a tudo isso..."
(Entrevista com Alma Welt)

sábado, 8 de dezembro de 2018

De tatuagens

Cristo, com sua morte nos ensinou que nosso corpo é sagrado, um pequeno templo de Deus. Uma pessoa que se tatua, é um pichador de monumentos, um vândalo ou iconoclasta, sem saber. Tenho-lhes piedade e horror... (Alma Welt)

sábado, 1 de dezembro de 2018

Um pequeno depoimento

"Quando, no meu autoexílio escolhido com a morte do Vati (pr. Fáti - Papai) fui viver na Pauliceia, eu só a conhecia através das obras do Mario de Andrade. Foi um choque, eu estava defasada, São Paulo não parecia mais nada daquilo, e eu custei a sintonizar-me com sua nova poesia, mais oculta, menos evidente. Para se conhecer São Paulo era preciso um intérprete, um outro poeta contemporâneo, que fosse paulista e que amasse aquela cidade difícil. O pintor e gravador Guilherme de Faria que me descobriu atarantada, disse não poder fazê-lo, mas me apresentou os sambas de Paulo Vanzolini e Adoniran Barbosa, que a princípio, apesar de nostálgicos me pareceram meio caricatos. Então percebi que o encanto de São Paulo, sua poesia, é essa mesma: uma auto-ironia cheia de saudades do seu passado provinciano, em meio a uma sofreguidão de progresso. Quando desvendei aquela cidade, escrevi meu livro confessional de contos urbanos paulistanos, os Contos da Alma, de Alma Welt, e deixei a cargo do Guilherme lançá-lo. O livro foi saudado pelo poeta Paulo Bomfim e pelo bibliófilo Dr.José Mindlin. Era o suficiente, e corri para o meu Pampa que eu não deixaria nunca mais..." 
(ALMA WELT)
"Minha mãe, a Açoriana, como eu a chamava, era anti-intelectual e antifeminista. Ela chegou a dizer uma vez que não gostava de me ver pensando muito porque isso acabaria com a minha beleza, que me causaria rugas e vincos na testa, e deixaria meus olhos vermelhos de tanto ler. Confesso que por um tempo temi essas coisas, até compreender que essas marcas são causadas pelo sofrimento ou pela vivência e experiência, e que a inteligência, a cultura e a sabedoria nada tinham a ver com elas. A beleza é efêmera mas podemos transferi-la e dar-lhe longevidade por nossos atos, pensamentos e obras, isto é, por uma "vontade de beleza" que nada deverá à cosmética. A Arte é essa vontade, a Poesia é esse resultado..." 
(Alma Welt)