"Sempre tive a impressão de que nossos sonhos do sono são a evidência de um mundo real paralelo, tão absurdo, comezinho, ridículo, às vezes "surreal", outras coerente, lógico e banal como o nosso mundo de vigília. A simples existência desse paralelismo real é, em si, espantosa. Pra quê? Pra quê?Tanto mais que os sonhos, por sua multiplicidade de abordagens diversas, sugerem a existência não de um só, mas de muitos ou infinitos mundos paralelos, alguns aparentemente supérfluos ou tolos, outros esclarecedores e até proféticos. Notem que estou excluindo propositalmente, por inútil, a noção freudiana de inconsciente ou subconsciente. A teoria dos mundos ou "universos paralelos" me parece mais verdadeira, conquanto igualmente sem propósito. O mistério aparentemente idiota da nossa existência e seus mundos permanece. É melhor mesmo acreditarmos em Deus para nos darmos um sentido, pelo menos de beleza, a tudo isso..."
(Entrevista com Alma Welt)
terça-feira, 18 de dezembro de 2018
sábado, 8 de dezembro de 2018
De tatuagens
Cristo, com sua morte nos ensinou que nosso corpo é sagrado, um pequeno templo de Deus. Uma pessoa que se tatua, é um pichador de monumentos, um vândalo ou iconoclasta, sem saber. Tenho-lhes piedade e horror... (Alma Welt)
sábado, 1 de dezembro de 2018
Um pequeno depoimento
"Quando, no meu autoexílio escolhido com a morte do Vati (pr. Fáti - Papai) fui viver na Pauliceia, eu só a conhecia através das obras do Mario de Andrade. Foi um choque, eu estava defasada, São Paulo não parecia mais nada daquilo, e eu custei a sintonizar-me com sua nova poesia, mais oculta, menos evidente. Para se conhecer São Paulo era preciso um intérprete, um outro poeta contemporâneo, que fosse paulista e que amasse aquela cidade difícil. O pintor e gravador Guilherme de Faria que me descobriu atarantada, disse não poder fazê-lo, mas me apresentou os sambas de Paulo Vanzolini e Adoniran Barbosa, que a princípio, apesar de nostálgicos me pareceram meio caricatos. Então percebi que o encanto de São Paulo, sua poesia, é essa mesma: uma auto-ironia cheia de saudades do seu passado provinciano, em meio a uma sofreguidão de progresso. Quando desvendei aquela cidade, escrevi meu livro confessional de contos urbanos paulistanos, os Contos da Alma, de Alma Welt, e deixei a cargo do Guilherme lançá-lo. O livro foi saudado pelo poeta Paulo Bomfim e pelo bibliófilo Dr.José Mindlin. Era o suficiente, e corri para o meu Pampa que eu não deixaria nunca mais..."
(ALMA WELT)
"Minha mãe, a Açoriana, como eu a chamava, era anti-intelectual e antifeminista. Ela chegou a dizer uma vez que não gostava de me ver pensando muito porque isso acabaria com a minha beleza, que me causaria rugas e vincos na testa, e deixaria meus olhos vermelhos de tanto ler. Confesso que por um tempo temi essas coisas, até compreender que essas marcas são causadas pelo sofrimento ou pela vivência e experiência, e que a inteligência, a cultura e a sabedoria nada tinham a ver com elas. A beleza é efêmera mas podemos transferi-la e dar-lhe longevidade por nossos atos, pensamentos e obras, isto é, por uma "vontade de beleza" que nada deverá à cosmética. A Arte é essa vontade, a Poesia é esse resultado..."
(Alma Welt)
(Alma Welt)
quarta-feira, 14 de novembro de 2018
Para tornar a vida bela
"Convenhamos: a vida tal qual é... é um horror. Selvageria pura e sem sentido. Para tornar a vida bela e digna temos que fazer um esforço diário de imaginação e ideal. Cabe a nós recriar a vida, de preferência pela Arte e/ou pelo Amor. Imagino que Deus quer isto de nós, e por isso Ele fez a vida assim, cruel e caótica. O "livre arbítrio" não é senão isto: a prerrogativa de sermos também criadores do Bem e da Beleza." (Alma Welt)
A luta de um artista lúcido contra a tristeza e o desalento, é continuar criando beleza e verdade, contra uma maré permanentemente adversa. Nada corrobora o sonho do artista, que, a rigor, parece ingênuo e por vezes "inconveniente". O homem prático por vezes se admira, mas abana a cabeça: "São loucos esses artistas, parecem crianças grandes... Vamos falar de coisas sérias: qual é o "custo benefício" de tudo isso?" Assim fala o homem prático, eternamente contando dinheiro... (Alma Welt
quinta-feira, 28 de junho de 2018
O Condestável Gottfried
Fragmentos do romance O Sangue da Terra, de Alma Welt)
O condestável Gottfried suspendeu a caçada, entregando sua balestra ao seu escudeiro e estendendo a mão enluvada, apanhou o bilhete que lhe trazia um pajem que chegara a galope. Leu, e em seguida amassou o bilhete, e com ele cerrado no punho deu rédeas ao cavalo, que por sua vez galopou de volta ao castelo.
O fidalgo, visivelmente irado, cruzou a ponte levadiça a galope, e apeando do cavalo ainda em movimento, atravessou parte do pátio, espantando as galinhas, e saltando alguns degraus adentrou o amplo portal, e a passos largos, como um furacão, foi direto à cozinha, onde encontrou Lady Margareth, a inglesa que desposara, depois de um tempestuoso caso diplomático que incluíra paixão e intrigas palacianas, e ali em frente aos cozinheiros, copeiras e outros serviçais, homens e mulheres, agarrou brutalmente sua esposa que quis esboçar um sorriso, mas logo assustada e horrorizada, foi virada de costas e inclinada sobre a grande mesa da cozinha, teve sua ampla saia e as suas sete anáguas levantadas e suas brancas nádegas expostas. Retirando seu imenso membro rubro e vibrante, da braguilha estourada, o duque enterrou-o de imediato e brutalmente no ânus rosado de sua mulher, que soltou um imenso grito, sodomizando-a, ali, na frente da criadagem. Depois do violento orgasmo, agarrou-a pelos longos cabelos ruivos e arrastou-a pelo salão e corredores, até o quarto, onde empurrou-a sobre a cama de dossel, desfigurada e em lágrimas, atirando-lhe por cima o bilhete amarfanhado, em seguida retirando-se imediatamente, sem nenhuma palavra, cerrou a porta, trancando-a por fora, à chave.
Lady Margareth engravidou depois daquela noite, e durante toda a sua gestação, corria no palácio, principalmente entre a criadagem, que fora fecundada pelo ânus, coisa que muitos testemunharam, e que a criança seria, portanto, “filha de Sodoma” e nasceria, literalmente “por ali.” Ao nascer, a criança foi arrancada aos braços da mãe e entregue a um casal de camponeses para que a criassem longe dali, mas ainda em terras do duque.
Minha avó Frida, que eu considerava uma espécie de bruxa, contou-me esta estória quando eu tinha doze anos, sem maiores considerações pela minha inocência, para explicar as origens camponesas de nossa família, que seria descendente, assim, de um duque e “condestável”, como ela o designava, justificando nosso retorno à posse de terras, embora tão distantes daquela Alemanha medieval onde estava a origem de tudo. Nunca saberei se ela inventava aquilo, mas o detalhe da sodomia me impressionava sobremaneira e presumo que o grotesco daquela cena se devia a uma necessidade de minha avó de rebaixar tão alta linhagem, para tornar mais verossímil a sua estória. Ela queria dizer que, de qualquer maneira, éramos de linhagem espúria, pois nosso antepassado tinha sido gerado e parido “por trás”, como os criados e camponeses acreditavam.
De qualquer maneira, qualquer que tenha sido a verdadeira história das origens da nossa família, eu não podia deixar de admirar instintivamente o cunho folclórico de tudo aquilo, e sobretudo, a veia satírica de minha avó, seu amor do grotesco, que ela evidenciava entremeando sua narrativa com gargalhadas finas, cacarejantes, que mostravam seus poucos dentes na boca horrenda e murcha. Eu tinha certeza que estava diante de uma bruxa, mas permanecia fascinada.
Muitos anos mais tarde, vim a saber que aquilo era possível, senão provável, pois o esperma de um homem corria longe, na sua procura do óvulo, e escorrendo sobre a vulva, a partir do orifício anal, poderia fecundar a mulher, e que isso ocorria mais freqüentemente, até hoje, do que as pessoas supunham. Na adolescência tive um período de medo de sentar-me na banca da privada, pois amiguinhas da escola me diziam que se podia engravidar, se um homem tivesse se sentado ali primeiro, sobretudo se o assento ainda estivesse quente. Tais superstições, todas com uma pequena base real, poderiam ter assombrado a minha infância e pré-adolescência, não fora a sabedoria de meu pai, que desvelava e explicava todos os fenômenos da natureza, sem roubar-lhes a poesia e mesmo a quota de mistério, subjacente a toda vida do homem sobre a terra.
Entretanto, apesar do caráter picaresco daquela estória, minha avó também queria embasar um pequeno mito corrente na família, e estendendo aquela sua mão ossuda, que parecia uma garra de pássaro, e tocando meus cabelos dourados, e minha face muito branca, disse, fechando a narrativa:
—Alma, tu és a prova da parte nobre da nossa linhagem, com tua aparência de princesa, assim como o Werner é a própria imagem do Condestável. Quanto a Solange e Lúcia, são a parte camponesa. O Rudolf, teu Rôdo? Bem, este é um caso à parte, que te contarei outro dia. Agora vai, vai princesinha, brincar no pequeno reino do teu jardim, que te coube, minha querida.
O fidalgo, visivelmente irado, cruzou a ponte levadiça a galope, e apeando do cavalo ainda em movimento, atravessou parte do pátio, espantando as galinhas, e saltando alguns degraus adentrou o amplo portal, e a passos largos, como um furacão, foi direto à cozinha, onde encontrou Lady Margareth, a inglesa que desposara, depois de um tempestuoso caso diplomático que incluíra paixão e intrigas palacianas, e ali em frente aos cozinheiros, copeiras e outros serviçais, homens e mulheres, agarrou brutalmente sua esposa que quis esboçar um sorriso, mas logo assustada e horrorizada, foi virada de costas e inclinada sobre a grande mesa da cozinha, teve sua ampla saia e as suas sete anáguas levantadas e suas brancas nádegas expostas. Retirando seu imenso membro rubro e vibrante, da braguilha estourada, o duque enterrou-o de imediato e brutalmente no ânus rosado de sua mulher, que soltou um imenso grito, sodomizando-a, ali, na frente da criadagem. Depois do violento orgasmo, agarrou-a pelos longos cabelos ruivos e arrastou-a pelo salão e corredores, até o quarto, onde empurrou-a sobre a cama de dossel, desfigurada e em lágrimas, atirando-lhe por cima o bilhete amarfanhado, em seguida retirando-se imediatamente, sem nenhuma palavra, cerrou a porta, trancando-a por fora, à chave.
Lady Margareth engravidou depois daquela noite, e durante toda a sua gestação, corria no palácio, principalmente entre a criadagem, que fora fecundada pelo ânus, coisa que muitos testemunharam, e que a criança seria, portanto, “filha de Sodoma” e nasceria, literalmente “por ali.” Ao nascer, a criança foi arrancada aos braços da mãe e entregue a um casal de camponeses para que a criassem longe dali, mas ainda em terras do duque.
Minha avó Frida, que eu considerava uma espécie de bruxa, contou-me esta estória quando eu tinha doze anos, sem maiores considerações pela minha inocência, para explicar as origens camponesas de nossa família, que seria descendente, assim, de um duque e “condestável”, como ela o designava, justificando nosso retorno à posse de terras, embora tão distantes daquela Alemanha medieval onde estava a origem de tudo. Nunca saberei se ela inventava aquilo, mas o detalhe da sodomia me impressionava sobremaneira e presumo que o grotesco daquela cena se devia a uma necessidade de minha avó de rebaixar tão alta linhagem, para tornar mais verossímil a sua estória. Ela queria dizer que, de qualquer maneira, éramos de linhagem espúria, pois nosso antepassado tinha sido gerado e parido “por trás”, como os criados e camponeses acreditavam.
De qualquer maneira, qualquer que tenha sido a verdadeira história das origens da nossa família, eu não podia deixar de admirar instintivamente o cunho folclórico de tudo aquilo, e sobretudo, a veia satírica de minha avó, seu amor do grotesco, que ela evidenciava entremeando sua narrativa com gargalhadas finas, cacarejantes, que mostravam seus poucos dentes na boca horrenda e murcha. Eu tinha certeza que estava diante de uma bruxa, mas permanecia fascinada.
Muitos anos mais tarde, vim a saber que aquilo era possível, senão provável, pois o esperma de um homem corria longe, na sua procura do óvulo, e escorrendo sobre a vulva, a partir do orifício anal, poderia fecundar a mulher, e que isso ocorria mais freqüentemente, até hoje, do que as pessoas supunham. Na adolescência tive um período de medo de sentar-me na banca da privada, pois amiguinhas da escola me diziam que se podia engravidar, se um homem tivesse se sentado ali primeiro, sobretudo se o assento ainda estivesse quente. Tais superstições, todas com uma pequena base real, poderiam ter assombrado a minha infância e pré-adolescência, não fora a sabedoria de meu pai, que desvelava e explicava todos os fenômenos da natureza, sem roubar-lhes a poesia e mesmo a quota de mistério, subjacente a toda vida do homem sobre a terra.
Entretanto, apesar do caráter picaresco daquela estória, minha avó também queria embasar um pequeno mito corrente na família, e estendendo aquela sua mão ossuda, que parecia uma garra de pássaro, e tocando meus cabelos dourados, e minha face muito branca, disse, fechando a narrativa:
—Alma, tu és a prova da parte nobre da nossa linhagem, com tua aparência de princesa, assim como o Werner é a própria imagem do Condestável. Quanto a Solange e Lúcia, são a parte camponesa. O Rudolf, teu Rôdo? Bem, este é um caso à parte, que te contarei outro dia. Agora vai, vai princesinha, brincar no pequeno reino do teu jardim, que te coube, minha querida.
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quarta-feira, 27 de junho de 2018
"Escrevendo desde muito cedo fui alertada por meu pai, homem muito culto e experiente, a jamais escrever sobre realidades que não conheço. Sem alternativas ou por prudência, resolvi escrever sobre o meu próprio coração, que me parecia conhecer bem. Encantada com o resultado, descobri que era o mundo..." (entrevista com Alma Welt)
terça-feira, 19 de junho de 2018
Um bem intencionado me disse: "És poeta?Tenho muita pena dos poetas. Eles sofrem muito, adoram ser infelizes, ao que parece." Eu fiquei em silêncio por um segundo, talvez chocada. Mas respondi: "Não, não, é um engano! Nós poetas amamos a felicidade. Sofremos contra a vontade. Totalmente à revelia. Por isso dá certo..." (Alma Welt)
sábado, 10 de fevereiro de 2018
Autobiografia breve (de Alma Welt)
Nasci com privilégios e benesses
E por meu pai fui ensinada no meu lar
A bem pronunciar erres e esses
E até mesmo um pouco a solfejar...
Dei-me conta, só mais tarde disso tudo
E que não era geral e normativo,
A língua que eu falava era de estudo
E olhavam-me de esguelha com motivo.
Entre o despeito e a admiração,
Neste caminho estreito de dois pólos,
Eu estaria destinada à solidão
E no mundo a só sorrir, pouco falar,
Escolhendo então os versos, meus tijolos,
Pro meu castelo novamente edificar...
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10/02/2018
E por meu pai fui ensinada no meu lar
A bem pronunciar erres e esses
E até mesmo um pouco a solfejar...
Dei-me conta, só mais tarde disso tudo
E que não era geral e normativo,
A língua que eu falava era de estudo
E olhavam-me de esguelha com motivo.
Entre o despeito e a admiração,
Neste caminho estreito de dois pólos,
Eu estaria destinada à solidão
E no mundo a só sorrir, pouco falar,
Escolhendo então os versos, meus tijolos,
Pro meu castelo novamente edificar...
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10/02/2018
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