domingo, 8 de julho de 2012
"É preciso muita humildade para envelhecer. Não sei se a terei. Mas não pintarei o cabelo, não o cortarei nem prenderei. Não pintarei os lábios de minha boca emurchecida. Prefiro me transformar numa bruxa picaresca como a minha avó Frida, e morrer com uma grande e última casquinada... " (entrevista com Alma Welt)
quarta-feira, 23 de maio de 2012
"Tendo um nome como o meu, não seria necessário nem coerente eu adotar outra religião senão o culto de minha própria anima poética. Assim, erigi-me como Musa de mim mesma e minha religião é o meu ego assumido em plena transcendência literária. Estranho? Não! Todo poeta que se preze deve cultuar a sua alma privilegiada. Não há maior religiosidade, nem humildade..." ( Alma Welt)
segunda-feira, 21 de maio de 2012
"Como pensadora e poeta, sou o contrário de qualquer patrão ou líder: nunca me verão dizendo às pessoas o que elas devem fazer. Meus pensamentos não têm esse teor. Aliás não posso conceber que se faça isso. Cada um que faça de si o que bem lhe aprouver, e arque ou não com as consequências. Neste "ou não" está a minha coerência..." (Alma Welt)
terça-feira, 1 de maio de 2012
A Gula pela Vida
"Vivi intensamente, tanto pelo intelecto como pelos sentimentos. Posso então afirmar que extraí o sumo da vida. Entretanto, como os gulosos, devo confessar que nada me saciou. Quis sempre mais... e a mim mesma me surpreende que não tenha me tornado uma adicta, senão pela vida mesma..." (Alma Welt)
O Patrimônio Imaterial
"Congratulo-me comigo mesma, pois embora eu tenha nascido no seio de uma família abastada, cultivei um patrimônio totalmente imaterial, que é a minha bagagem cultural, literária, e de grande riqueza de memória afetiva. Agora que vejo o expólio material da minha família entrar em decadência, correndo o risco de se perder, vejo que eu estava certa: não me sinto na verdade empobrecer." (entrevista com Alma Welt)
quinta-feira, 26 de abril de 2012
A Idade de Ouro
"Isto pode soar delirante ou mesmo pretensioso, mas considero que vivi dentro de mim, em realidade psíquica e existencial, integralmente as quatro Idades da Humanidade segundo a concepção grega antiga: A Idade do Ouro, da Prata, do Bronze e do Ferro. Mas me detive ao meu bel-prazer na Idade do Ouro, e fiz de mim mesma minha heroína. Esta foi minha prerrogativa de Poeta e Musa de mim mesma. E meu nome é Alma Welt."
domingo, 15 de abril de 2012
O mundo é mágico...
"O mundo é mágico para aqueles que assim o acreditam. Nisto consiste o "pensamento mágico", que dá à luz as melhores criações da mente humana, como as invenções benignas e sobretudo a Arte. Quem não for capaz de pensar magicamente não será capaz de fazer Arte. Não se enganem: somos magos e pagamos alto preço por isso..." (Alma Welt)
segunda-feira, 9 de abril de 2012
A Propósito de Esporas (de Alma Welt)
"Não permiti jamais a presença de esporas nas botas dos "gauchos" aqui da estância. Os que insistiam foram ameaçados de demissão e desistiram. Mas confesso que foi difícil, no começo, fazê-los internalizarem o conceito que há por trás disso, pois eles achavam que mesmo usando esporas eles amavam seus "pingos". A crueldade é quase sempre fruto da ignorância. Se não é... é pior ainda." (Alma Welt)
domingo, 1 de abril de 2012
Os Falsos Sonhos
"Vocês já repararam num tipo de sonho que ocorre com frequência em nosso sono noturno, absolutamente banal, realista, mesquinho, sobre trivialidades muitas vezes técnicas, afinal idiotas, e que parece podermos conduzir sem levar a bom termo? Eu os chamo de "falsos sonhos"... Nitidamente sem nenhum caráter simbólico, somente sua finalidade permanece misteriosa. Entretanto se passam no inconsciente pois vão se evolando também, como os sonhos interessantes, ao acordarmos, e se dissipam. Não conseguimos mais lembrar do que se tratava, restando somente a impressão de sua absoluta falta de propósito. Nunca ouvi menção a eles nos tratados de psicologia, e eu hesitaria, por vergonha, em levá-los a um psicanalista, se o tivesse. Imagino que um analista diria que os estou subestimando e que deveria me esforçar para lembrá-los e trazê-los às sessões, e que os estou recalcando justamente por sua importância... Mas não. Creio que o nosso inconsciente também armazena bobagens, futilidades. Sua riqueza é como ouro no cascalho." (Alma Welt
Os Segredos da História
"A cada um de nós é dado descobrir segredos da História Humana que estão guardados num lugar recôndido de nosso cérebro como uma herança cultural inconsciente. Mas isso teoricamente, pois somente alguns de nós conseguimos acessar esse cofre secreto e precioso, por predisposição ou dom desenvolvido de profundo mergulho interior. Sim, porque alguns desses segredos podem ser fatais ou enlouquecedores. Desconfio que os hospícios estão cheios desses mergulhadores..." (Alma Welt)
Nossa Época
"Pensando bem... a nossa época tem tudo, acumulou o conhecimento de quase toda a História da humanidade, e pela pesquisa vem preenchendo gradativamente as lacunas. Tornamos a comunicação eletrônica imediata e miraculosa, via satélite. Temos a fantástica Internet. Democratizamos a cultura e podemos ouvir e ver toda espécie de shows de música, concertos, óperas, balés, espetáculos. As editoras de livros proliferaram como nunca. Os clássicos ainda são editados. E filmes, filmes espantosos, em que grandes epópeias e mitos se tornaram visíveis e quase verossímeis. Só nos falta a inocência para acreditar nesses mitos arquetípicos, enfim... nos heróis e nos deuses. Isso se perdeu. Estamos mais pobres, cercados de riquezas..." (Alma Welt)
A Nossa Era
As características negativas de nossa Era, tão apontadas, também as enxergo. No entanto não me identifico com nenhuma delas, pois não sou uma pessoa desta época, sou completamente anacrônica: poeta de dois mundos, um tanto atrás e um tanto à frente... (Alma Welt)
quarta-feira, 21 de março de 2012
Realismo
Todo realismo é um tanto pessimista. Eu acho muita graça nas chamadas "Leis de Murphy", justamente por serem criação de um americano, portanto nascidas no seio de uma sociedade que consagrou o Americam Dream e o Happy End. Quanto a mim, sonhadora do real, também acredito que as coisas só dão certo quando não houver a mínima probabilidade de darem errado. Por isso não baseio minha vida em apostas. Se sou poeta é porque não posso deixar de cantar, mesmo sabendo que certamente morrerei arruinada. (entrevista com Alma Welt)
terça-feira, 20 de março de 2012
O Milésimo Soneto
"Quando escrevi o meu milésimo soneto, as coisas começaram a ficar claras para mim. Eu tinha um "corpo de obra", poderia agora prosseguir com o peso de uma bagagem considerável, que me dava um autoridade sobre meu próprio mundo. Eu podia enxergar com nitidez o que eu própria tinha a dizer. E era uma visão de mundo baseada no amor da Natureza através de sua fusão com a cultura clássica, com os acalentados mitos de meu coração, mas também de minha alma. Eu própria tinha me tornado, com legitimidade, a minha anima e minha própria Musa. Eu não era mais o meu simples eu. Como ser humano eu tinha me tornado universal e portanto simbólica. Podia começar a ser lida, sem pudor, sem arrependimentos de amadora. Podia, como se diz, "peitar" o mundo..." (entrevista com Alma Welt)
segunda-feira, 5 de março de 2012
sábado, 3 de março de 2012
Sobre a Mitanálise Junguiana (por Alma Welt)
"A meu ver a chave para o entendimento da Mitanálise Junguiana está no fato de que na verdade não existe uma análise individual. Toda a humanidade está sendo analizada na nossa pessoa no momento da sessão psicanalítica. E é isso que interessa: os arquétipos universais atuantes no nosso "inconsciente coletivo". Toda dor humana só é relevante se tiver uma equivalência simbólica no plano universal. Do contrário é apenas birra, mimo, ou capricho fútil..." (Alma Welt)
Guilherme de Faria disse:
A consequência dessa constatação da Alma é a conclusão de que a "individuação" em Jung é, paradoxalmente, uma "universalização". Eis aí também a chave para o entendimento da poesia da Alma Welt, expressa principalmente nos seus sonetos. Todas as suas experiências pessoais, suas analogias, seus devaneios e anseios, suas angústias principalmente, são universais, simbólicas e arquetípicas. E por isso compartilháveis por todos, homens e mulheres de qualquer parte do mundo. O seu Pampa, sim, é somente uma metáfora para o conceito de "fim de mundo", ou começo dele, nosso território primordial após a expulsão do Paraíso, nosso exílio em solidão no seio da própria Natureza... nosso Leste do Éden.
Guilherme de Faria disse:
A consequência dessa constatação da Alma é a conclusão de que a "individuação" em Jung é, paradoxalmente, uma "universalização". Eis aí também a chave para o entendimento da poesia da Alma Welt, expressa principalmente nos seus sonetos. Todas as suas experiências pessoais, suas analogias, seus devaneios e anseios, suas angústias principalmente, são universais, simbólicas e arquetípicas. E por isso compartilháveis por todos, homens e mulheres de qualquer parte do mundo. O seu Pampa, sim, é somente uma metáfora para o conceito de "fim de mundo", ou começo dele, nosso território primordial após a expulsão do Paraíso, nosso exílio em solidão no seio da própria Natureza... nosso Leste do Éden.
sábado, 25 de fevereiro de 2012
Os frutos do meu pomar ( Alma Welt)
"Que imenso privilégio é poder viver neste Pampa, que é onde o Mundo começou, e poder atirar daqui mesmo meus poemas para o mundo! É como se eles estivessem sendo colhidos pelos meus leitores, como eu mesma colho os frutos do meu pomar..." (entrevista com Alma Welt)
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
A mão para o soneto ( depoimento de Alma Welt)
"Perguntam-me por quê escolhi o soneto como minha forma de expressão poética principal, a ponto de ter escrito mais de dois mil deles, coisa nunca feita por nenhum outro poeta no mundo. Eu respondo que não é somente por que tenho pressa de registrar minhas idéias, mas porque o soneto tem vida própria e se escreve sozinho com uma facilidade misteriosa em minhas mãos, mesmo se atendo às regras de métrica, rima e chave de ouro. Julgaram que minha resposta fosse cabotina, porque o soneto é uma forma clássica de certa dificuldade... mas garanto que como sou preguiçosa, tendo descoberto que tenho mão para o soneto, como os bons cozinheiros têm mão para o sal, quando comecei não pude parar mais. E através deles passei a limpo a minha vida..." (Alma Welt)
domingo, 5 de fevereiro de 2012
PREFÁCIO às CRÔNICAS DA ALMA, de Alma Welt
(por Guilherme de Faria)
Eis-nos aqui a publicar as Crônicas que Alma Welt considerava até a pouco, impublicáveis (pelo menos em jornal ). Aliás, nunca passou pela cabeça da nossa autora, o papel de jornalista. Suas crônicas têm o caráter íntimo e confessional de quase toda a sua produção( excetuadas as “Lendas da Alma”, e os ciclos de poemas “O Circo” e “A Ciranda dos Animais”, editados pelas minhas artesanais “Edições do Pavão Misterioso”.
É perturbador, no entanto, o fato de que quanto mais a nossa autora se expõe, com a sensualidade e explicitude que lhe é característica, em sua obra, mais ela se esconde pessoalmente, mais se reserva, numa condição de verdadeiro exílio social., o que consideramos, sinceramente, no mínimo um desperdício, dada a excepcional beleza física da “guria” ( como ela diz) que descobrimos, vinda do sul, e como que degredada nestes Jardins, de São Paulo, amiúde derramando lágrimas pelo Pampa e sua estância praticamente abandonada. “O casarão batido pelo minuano, recusa-se a afundar...”, ela diz lindamente num poema seu.
Não pensem os leitores que não tenho insistido para a nossa musa sair da toca. Estou começando a ser acusado de ciumento da minha descoberta, e “enrustidor”. Alma tem recusado amáveis convites de casais que se tornaram seus fãs, pela sua literatura, para almoços e jantares em sua homenagem, e que o fazem por meu intermédio. Em vão. Estou quase desistindo: trata-se já de uma fobia.
No entanto ( e isso é surpreendente), nossa autora está longe de ser uma pessoa triste, ou uma poetisa melancólica. Como nos seus textos, que são ela mesma, direta e coloquial, Alma celebra a “Alegria mais profunda do que a dor”, apreendida do Zaratustra de Nietzsche, que seu pai cultuava e que lhe passou tão cedo, dando-lhe essa diretriz filosófica inspiradora, bem como a linguagem simples e direta com que se expressa em prosa e poesia, com tanto lirismo, herdeira que é, legítima, do romantismo alemão, ainda que o faça tardiamente, nesse final caótico de século XX, e início do XXI, em nossa chamada Era Digital. A propósito, estou inclinado a rotular sua literatura de “neo-romântica”, uma vez que Alma Welt vem me provando a validade e a beleza desse verdadeiro movimento de uma autora só, que é ela mesma.
“NEO-ROMANTISMO”, é isso! Está lançado o movimento, se podemos assim dizê-lo. Conte comigo Alma, você já me cooptou, com a profundidade de sua redescoberta da beleza possível, no cotidiano, pelo seu enfoque generoso, desprovido de quaisquer ressentimentos, pela sua escolha da alegria, da liberdade sexual plena, pela capacidade de entrega a suas elevadas paixões por homens e mulheres, com igual intensidade. Pelo seu renovado culto da Arte pela arte, por sua corajosa afirmação da escolha do prazer e da felicidade.
Não esqueço, no entanto, o fato de que, sendo ela uma pintora e poeta, hipersensível, contém, também um componente melancólico, que, aliás, lhe doa seus momentos mais líricos, nos seus ciclos de sonetos que têm aquela característica única no mundo da literatura, de contar estórias, em suas seqüencias corretas. Confesso, pois, que a dor que detecto, sob a bela capa da alegria da nossa musa, me comove mais que tudo.
Alma não esquece, profunda que é, a fugacidade de tudo, a presença constante do fantasma próximo ou longínquo da Morte, a simples dor de existir, coexistente com a alegria e o prazer. Dessa dubiedade nasce o mistério que perpassa as suas narrativas. Uma espécie de suspense difuso, Hoffmanniano, que nos surpreende, uma vez que ela evita o “triller’, e quaisquer mirabolâncias folhetinescas, mantendo-se sempre no terreno da psicologia sutil, de um rico monólogo interior cheio de paradoxos.
A aparente simplicidade de sua linguagem, não esconde, no entanto, os vestígios de uma cultura superior, e mesmo fragmentos de uma erudição, surpreendente, que ela procura disfarçar por discrição, ou para melhor fazer-se entender. É sintomático o fato, contado por ela, da impressão que lhe causou a frase de Nietzsche, citada por seu pai, quando ela era ainda criança: “Há poetas que turvam suas águas para parecerem profundas’’. Essa máxima iria funcionar para ela como uma sábia diretriz, evitando turvar, tanto em sua poesia quanto em sua prosa.
Quanto ao universo em que cresceu, pode-se dizer privilegiado em sua dupla natureza cosmopolita e rural, ao mesmo tempo, naquela estância gaúcha de sua infância e primeira juventude, com o piano de cauda tocado belamente pelo seu pai, filho de alemães, cirurgião e literato, com sua imensa biblioteca clássica, que ele ensinou sua filha predileta a amar. O mundo que ela iria abordar em sua literatura, seria no entanto, o de um cotidiano urbano, paulistano, do seu ateliê nos Jardins, mas dessa perspectiva sutil de quem apreendeu cedo a captar o sentido profundo do dia-a-dia quando desvelado pela visão da esteta, hedonista e humanitária ao mesmo tempo, enfim, humanista.
Comove-nos o seu cândido epicurismo, que procura disfarçar a tendência às lágrimas de amor e dor, de comoção pelo ser humano tão amado por ela, a ponto de privilegiar somente a sua beleza e possibilidade de pureza ideais. Poderíamos dizer que Alma seria ,assim, a última herdeira do Idealismo alemão.
Estou, naturalmente, pensando no conjunto de toda a sua já considerável obra, com trinta livros de poemas e pelo menos cinco de contos e novelas.
Mas voltando a estas Crônicas, percebo que nelas a fronteira do conto é tênue, e embora tratem de acontecimentos e pessoas reais que cruzaram a vida e o universo interior desta Alma, é possível que existam nelas a contribuição da fantasia de caráter insólito e ao mesmo tempo realista desta sonhadora do verossímil, que sempre apostou na poeticidade inerente aos seres e às coisas deste mundo.
E é isso o que mais me comove nesta Alma, sua candura invencível, a coerência de sua visão humanista, pois que segue acreditando sobretudo na beleza e até mesmo na grandeza do ser humano, pelo menos em seus termos ideais, como ela mesma diz.
Mas então, o que é que a afasta da definição precipitada de “naïve”? Sua argúcia (eu responderia), e uma velada ironia que aparece vez por outra, e da qual ela não abusa. E a legitimidade de uma visão profunda, que captura o belo, onde quer que ele se encontre, inclusive em situações eventualmente grotescas, a verdadeira definição de humor. Mas sobretudo pela capacidade suprema, de poeta, de captar a alegoria, o sentido maior, simbólico, dos acontecimentos aparentemente banais do seu cotidiano, que é o de todos nós.
FIM
GUILHERME DE FARIA
São Paulo, 1/07/2004
Eis-nos aqui a publicar as Crônicas que Alma Welt considerava até a pouco, impublicáveis (pelo menos em jornal ). Aliás, nunca passou pela cabeça da nossa autora, o papel de jornalista. Suas crônicas têm o caráter íntimo e confessional de quase toda a sua produção( excetuadas as “Lendas da Alma”, e os ciclos de poemas “O Circo” e “A Ciranda dos Animais”, editados pelas minhas artesanais “Edições do Pavão Misterioso”.
É perturbador, no entanto, o fato de que quanto mais a nossa autora se expõe, com a sensualidade e explicitude que lhe é característica, em sua obra, mais ela se esconde pessoalmente, mais se reserva, numa condição de verdadeiro exílio social., o que consideramos, sinceramente, no mínimo um desperdício, dada a excepcional beleza física da “guria” ( como ela diz) que descobrimos, vinda do sul, e como que degredada nestes Jardins, de São Paulo, amiúde derramando lágrimas pelo Pampa e sua estância praticamente abandonada. “O casarão batido pelo minuano, recusa-se a afundar...”, ela diz lindamente num poema seu.
Não pensem os leitores que não tenho insistido para a nossa musa sair da toca. Estou começando a ser acusado de ciumento da minha descoberta, e “enrustidor”. Alma tem recusado amáveis convites de casais que se tornaram seus fãs, pela sua literatura, para almoços e jantares em sua homenagem, e que o fazem por meu intermédio. Em vão. Estou quase desistindo: trata-se já de uma fobia.
No entanto ( e isso é surpreendente), nossa autora está longe de ser uma pessoa triste, ou uma poetisa melancólica. Como nos seus textos, que são ela mesma, direta e coloquial, Alma celebra a “Alegria mais profunda do que a dor”, apreendida do Zaratustra de Nietzsche, que seu pai cultuava e que lhe passou tão cedo, dando-lhe essa diretriz filosófica inspiradora, bem como a linguagem simples e direta com que se expressa em prosa e poesia, com tanto lirismo, herdeira que é, legítima, do romantismo alemão, ainda que o faça tardiamente, nesse final caótico de século XX, e início do XXI, em nossa chamada Era Digital. A propósito, estou inclinado a rotular sua literatura de “neo-romântica”, uma vez que Alma Welt vem me provando a validade e a beleza desse verdadeiro movimento de uma autora só, que é ela mesma.
“NEO-ROMANTISMO”, é isso! Está lançado o movimento, se podemos assim dizê-lo. Conte comigo Alma, você já me cooptou, com a profundidade de sua redescoberta da beleza possível, no cotidiano, pelo seu enfoque generoso, desprovido de quaisquer ressentimentos, pela sua escolha da alegria, da liberdade sexual plena, pela capacidade de entrega a suas elevadas paixões por homens e mulheres, com igual intensidade. Pelo seu renovado culto da Arte pela arte, por sua corajosa afirmação da escolha do prazer e da felicidade.
Não esqueço, no entanto, o fato de que, sendo ela uma pintora e poeta, hipersensível, contém, também um componente melancólico, que, aliás, lhe doa seus momentos mais líricos, nos seus ciclos de sonetos que têm aquela característica única no mundo da literatura, de contar estórias, em suas seqüencias corretas. Confesso, pois, que a dor que detecto, sob a bela capa da alegria da nossa musa, me comove mais que tudo.
Alma não esquece, profunda que é, a fugacidade de tudo, a presença constante do fantasma próximo ou longínquo da Morte, a simples dor de existir, coexistente com a alegria e o prazer. Dessa dubiedade nasce o mistério que perpassa as suas narrativas. Uma espécie de suspense difuso, Hoffmanniano, que nos surpreende, uma vez que ela evita o “triller’, e quaisquer mirabolâncias folhetinescas, mantendo-se sempre no terreno da psicologia sutil, de um rico monólogo interior cheio de paradoxos.
A aparente simplicidade de sua linguagem, não esconde, no entanto, os vestígios de uma cultura superior, e mesmo fragmentos de uma erudição, surpreendente, que ela procura disfarçar por discrição, ou para melhor fazer-se entender. É sintomático o fato, contado por ela, da impressão que lhe causou a frase de Nietzsche, citada por seu pai, quando ela era ainda criança: “Há poetas que turvam suas águas para parecerem profundas’’. Essa máxima iria funcionar para ela como uma sábia diretriz, evitando turvar, tanto em sua poesia quanto em sua prosa.
Quanto ao universo em que cresceu, pode-se dizer privilegiado em sua dupla natureza cosmopolita e rural, ao mesmo tempo, naquela estância gaúcha de sua infância e primeira juventude, com o piano de cauda tocado belamente pelo seu pai, filho de alemães, cirurgião e literato, com sua imensa biblioteca clássica, que ele ensinou sua filha predileta a amar. O mundo que ela iria abordar em sua literatura, seria no entanto, o de um cotidiano urbano, paulistano, do seu ateliê nos Jardins, mas dessa perspectiva sutil de quem apreendeu cedo a captar o sentido profundo do dia-a-dia quando desvelado pela visão da esteta, hedonista e humanitária ao mesmo tempo, enfim, humanista.
Comove-nos o seu cândido epicurismo, que procura disfarçar a tendência às lágrimas de amor e dor, de comoção pelo ser humano tão amado por ela, a ponto de privilegiar somente a sua beleza e possibilidade de pureza ideais. Poderíamos dizer que Alma seria ,assim, a última herdeira do Idealismo alemão.
Estou, naturalmente, pensando no conjunto de toda a sua já considerável obra, com trinta livros de poemas e pelo menos cinco de contos e novelas.
Mas voltando a estas Crônicas, percebo que nelas a fronteira do conto é tênue, e embora tratem de acontecimentos e pessoas reais que cruzaram a vida e o universo interior desta Alma, é possível que existam nelas a contribuição da fantasia de caráter insólito e ao mesmo tempo realista desta sonhadora do verossímil, que sempre apostou na poeticidade inerente aos seres e às coisas deste mundo.
E é isso o que mais me comove nesta Alma, sua candura invencível, a coerência de sua visão humanista, pois que segue acreditando sobretudo na beleza e até mesmo na grandeza do ser humano, pelo menos em seus termos ideais, como ela mesma diz.
Mas então, o que é que a afasta da definição precipitada de “naïve”? Sua argúcia (eu responderia), e uma velada ironia que aparece vez por outra, e da qual ela não abusa. E a legitimidade de uma visão profunda, que captura o belo, onde quer que ele se encontre, inclusive em situações eventualmente grotescas, a verdadeira definição de humor. Mas sobretudo pela capacidade suprema, de poeta, de captar a alegoria, o sentido maior, simbólico, dos acontecimentos aparentemente banais do seu cotidiano, que é o de todos nós.
FIM
GUILHERME DE FARIA
São Paulo, 1/07/2004
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
"A atitude adversa de minha mãe, Ana Morgado, a Açoriana; da Matilde minha babá e de Solange, minha irmã mais velha, em relação à minha poesia e mesmo à minha liberdade resultaram estimulantes para mim. Ser poeta representava então um desafio, como deve ser. Do contrário, a facilidade, a aprovação e o aplauso do Vati, meu pai, de Rodo meu irmão e de Lucia minha irmã, e até do meu fiel Galdério, meu charreteiro, e factotum aqui da estância, me teriam amolecido, estragado, mimado. Afinal, eu era a princesa, o que por si só é poesia, não se espera das princesas uma obra profunda. O ser supera o fazer. Pensando assim, agora posso compreender meus primeiros adversários, e não mais duvidar do seu amor. Está tudo certo, minha biografia é perfeita. Mas qual biografia não é, se tudo é Destino?" (Entrevista com Alma Welt)
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
" Eu nunca encontrei ninguém que amasse tanto a Poesia quanto eu. Sei que existem essas pessoas, mas por alguma razão não fizeram parte das minhas relações. Eu sentiria uma grande solidão poética, não fossem meus grandes pares do passado. Bem, talvez eu esteja sendo injusta, na verdade teve o Guilherme de Faria, meu descobridor em São Paulo. Mas suspeito que ele, sendo pintor, me amou primeiramente pela minha beleza, me fazendo posar nua para ele a todo momento. Logo ele que nunca precisou de modelo..." (entrevista com Alma Welt)
"Por alguma razão, inexplicável, escolhi desde cedo o soneto para confessar-me, contar tudo, registrar meu dia a dia mental e mesmo circunstancial, para sonhar e até para divertir-me. Sei que houveram grandes sonetistas no mundo, e ainda os há... que também usaram o soneto para fins confessionais, que os quatorze versos muito se prestam para isso. Mas duvido que eles se tenham construido através deles como eu, que já não os distingo de mim mesma. Se queimassem minha Arca, eu deixaria de existir. Creio que cairia fulminada, como uma irreversível Fênix..." (entrevista com Alma Welt)
"Quando eu era guria, minha babá Matilde me dizia que nós morávamos no Fim do Mundo, que aqui o o vento fazia a curva e voltava, que para além do horizonte, lá no fim da coxilha, não havia mais nada. Apesar de aprender Geografia, afetivamente continuei a sentir-me uma espécie de fronteiriça, uma guardião da fronteira do Mundo com o Nada. Sim, eu sempre tive um pé no Abismo, e isso, somente isso, explica a minha poesia..." (Alma Welt)
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
"Que jornada gloriosa é a vida! Sim, a vida comum, a vida de qualquer um! Existirmos e perseverarmos contra toda a expectativa da consciência profunda, que não nos abandona senão aparentemente... Caminharmos firmes, embora lentamente, em direção ao abismo! Que coragem básica é preciso para se estar vivo e caminhar. O ser humano, por ser consciente, é necessariamente um herói. Não falem mal do ser humano na minha frente!" (Alma Welt)
"Fui criada na Antroposofia, corrente humanista adotada por meu pai pelo menos em sua pedagogia. Me lembro que fiquei muito intrigada e divertida quando adolescente, com a afirmação do Dr. Rudolf Steiner no seu livro iniciático "A Crônica do Akasha", de que os macacos são seres humanos que involuiram, e não o contrário. Tenho observado sinais dessa possibilidade no homem em suas piores manifestações de massa..." (entrevista com Alma Welt)
"Aqui em casa, já me diagnosticaram como louca, ou no mínimo, "maluca". Meu entusiasmo pela vida me leva a fazer coisas doidas, a agir às vezes como uma "histérica", por excesso de arrebatamento. Corro, subo nas coisas, nas mesas e nos muros, me desnudo e saio pela coxilha em disparada, a pé ou a cavalo... sim, nua como vim ao mundo! Às vezes grito, de alegria, de pura alegria de beleza! Bem, já me internaram uma vez... Mas foi no polo oposto, estava perdida de mim e vagava no bosque, balbuciando, em farrapos. Sim, às vezes tenho medo de mim..." (Alma Welt)
"Se me sinto muito perdida ou frustrada e uma criança está por perto, estou salva. A criança não é um projeto de adulto, esse é o seu mistério e encanto. É o ser mais completo em si mesmo, que nos ensina a plenitude, a essência e a beleza do momento. Eu a observo brincando, ou simplesmente olho dentro dos seus olhos e... me apaziguo." (Alma Welt)
"Uma vez, num tempo negro de minha vida, subi ao sótão do casarão com um laço de couro cru de vaqueiro e pensei em mim pendurada na viga do telhado. Mas como tenho uma imaginação realista, me vi grotesca, de língua de fora, o pescoço torto e os olhos esbugalhados. Minha vaidade foi maior, joguei o laço num canto. Ao descer a escadinha em caracol, escapou-me um longo suspiro e.... logo uma gargalhada. Eu estava salva!" (entrevista com Alma Welt)
"Desde muito cedo em minha vida, escolhi a Verdade e a Beleza, que no dizer do poeta Keats, são o mesmo. Mas não fiquei impune por isso. Houve conspirações à minha volta para me banalizar. Não conseguiram. E eu pagaria um alto custo, em dores e solidão, pela minha devoção àquela dupla Musa. Mas não me queixo e não lamento nada... as alegrias e mesmo êxtases que experimentei ao dedicar-me de corpo e alma à minha arte foram altamente compensatórias. Eu recomendaria a uma outra jovem uma tal escolha? Não. A grande arte é Destino, não caminho..." (Alma Welt)
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
Depoimento de Alma Welt
"Queria que meus versos ficassem para a posteridade. Desconfio mesmo que tenho alguma chance, a julgar pelos milhares de comentários gratos e aprovativos na rede. Eles me comovem, e quando vejo meus versos transcritos com reverência em outros blogs, me rejubilo até às lágrimas. Não, não foi em vão caminhar pela cochilha contando sílabas nos dedos e escrevendo em cadernetas, para depois passá-los a limpo no plano virtual. Cheguei a cair num córrego uma vez, de tão absorta ao caminhar escrevendo, e estou consciente do lado anedótico ou caricato deste episódio, até mesmo piegas. Mas o que posso fazer? Elegi meu cotidiano como tema dos meus versos e não fui rejeitada... devo estar no caminho certo. Meus sonhos, afinal, são os de todas as mulheres, talvez os de alguns homens sensíveis também..." (Alma Welt)
sexta-feira, 10 de junho de 2011
Autobiografia (de Alma Welt)
Guria, muito amada, conheci
Uma espécie de culto familiar
Por ter nascido ruiva, e cresci
Com uma grande beleza peculiar.
Então fui tratada qual princesa,
Numa vida familiar palaciana,
Pelo Vati e uma irmã, não pela obesa
Nem por minha mãe, a Açoriana.
Matilde, minha babá e o Galdério,
Seu irmão, charreteiro e motorista,
Devotos meus às raias do mistério...
Mas tanto desvelo e amor fiel
Me fizeram acreditar em mim artista
E em fazer da princesa só papel...
Uma espécie de culto familiar
Por ter nascido ruiva, e cresci
Com uma grande beleza peculiar.
Então fui tratada qual princesa,
Numa vida familiar palaciana,
Pelo Vati e uma irmã, não pela obesa
Nem por minha mãe, a Açoriana.
Matilde, minha babá e o Galdério,
Seu irmão, charreteiro e motorista,
Devotos meus às raias do mistério...
Mas tanto desvelo e amor fiel
Me fizeram acreditar em mim artista
E em fazer da princesa só papel...
quinta-feira, 19 de maio de 2011
quinta-feira, 12 de maio de 2011

Assinatura da Musa e seu logotipo
___________________________________
Acabo de encontrar na Arca da Alma este soneto, que apesar de conter algum humor, estarreceu-me , poi trata-se de um testemunho doq ue minha irmã passou, subjetivamente ou não, naquela Clínica em que tivemos que interná-la, em Alegrete:
Em camisa (de Alma Welt)
De tanto amar a vida perturbei-me,
Que uma retirada foi precisa...
Afirmar quisera, que internei-me,
Mas de fato me puseram na camisa.
E até me amarraram numa mesa,
O que foi então meu maior medo
Pois havia uma forma muito tesa
Na bata do enfermeiro logo cedo.
E nunca esquecerei o olhar ardente
Daquele doutor jovem, residente
Que pegava o meu pulso a toda hora
Mais para acarinhar a minha mão,
Até dizer: “Examinar-te vou agora,
Único jeito de saber se foste... ou não.”
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
Fotos inéditas da Arca da Alma





Nota
Ocorreu-me nunca ter publicado até hoje fotos da famosa Arca da Alma. Esta arca antiga medindo 100cm de comprimemto, por 52cm de altura e 50cm de fundo, foi encontrada por nós, sua família, bloqueada entre móveis velhos e trastes no fundo de um dos sótãos do casarão, aqui na nossa estância pampiana. Ao abrí-la pela primeira vez, qual não foi a minha surpresa por encontrá-la abarrotada até a tampa de centenas de cadernos, digitados uns, manuscritos outros e muitos milhares de folhas soltas de textos da Alma em prosa e verso. Pelo que já pude perceber, depois de mais de dois anos de "escavações" neste verdadeiro tesouro, e de ter compilado, digitado e comentado milhares de textos da Alma, publicando-os nos 25 blogs póstumos que abri para ela, com mais de 1.000 sonetos já distribuidos por gêneros nesses blogs, percebo que existem outros mil e tantos sonetos ainda por publicar. É realmente assombroso. Creio que precisarei mais dez anos para fazer a exegese, compilação, digitação e comentários antes de entregar aos leitores e fãs da grande poetisa, as Obras Completas de Alma Welt. (Lucia Welt)
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
O verbete ALMA WELT nas biografias da NETSABER
Alma Welt
(Escritora)
08/01/1972, em Novo Hamburgo RS
20/01/2007 Estância Sta Gertrudes, Rosário do Sul RS
ALMA WELT (1972-2007) escritora gaúcha nascida em Novo Hamburgo, poeta lírica, grande sonetista (escreveu cerca de 700 belíssimos sonetos)*, deixou uma obra profícua e numerosa, constando de um romance autobiográfico inédito em quatro tomos denominado "A Herança" (dividido como quarteto com os seguintes títulos: A Herança, A Ara dos Pampas, O Sangue da Terra, A Vinha de Dioniso),e mais o romance entitulado "O Retorno dos Menestréis", ambientado no sertão nordestino de Pernambuco e Paraíba, numa mítica e divertida viagem a bordo do Pavão Misterioso. Tem ainda quatro livros de contos: Contos da Alma, publicado em 2004 pela Editora Palavras & Gestos(de São Paulo) e presente nas livrarias (vide google); Contos Pampianos da Alma, Contos Secretos da Alma, e "Lendas da Alma" (este uma coletânea de lendas poéticas de sua invenção, de caráter europeu, góticas e misteriosas, ilustradas com desenhos a cores por Guilherme de Faria. Além disso tem um livro de crônicas curtas(Crônicas da Alma). Sua obra poética, igualmente prolífica, conta com 49 livros de poesia, sendo 33 de sonetos (perfazendo cerca de 700 sonetos),e vem sendo publicada de maneira semi-artesanal, em folhetos dentro de uma caixa (Kit) de madeira, e ilustrados a cores com desenhos de Guilherme de Faria. As duas últimas obras poéticas que escreveu são: um notável drama lírico formado por 42 sonetos (cenas) encadeados,inspirado por sua paixão por uma aluna e denominado "Sonetos à Mayra"; e os "150 Sonetos Pampianos da Alma" escritos no seu último mês de vida. Parte considerável de sua obra está publicada no site literário "Leia Livro" (da Fundação Padre Anchieta, na Internet).
Alma Welt conseguiu extraordinário sucesso com suas obras na Internet, principalmente no site Recanto das Letras, num período de 7 meses, até a sua morte, com mais de 14.000 leituras e 1.500 comentários elogiosos vindos das mais diversas partes do Brasil e de Portugal. Entretanto, as circunstâncias de sua morte por suicídio no dia 20/01/2007, romanescas, causaram um imenso escândalo nesse site, por equívoco e intrigas, produzindo a suspeita de que se tratasse de um heterônimo, e resultando na sua inusitada e espantosa expulsão póstuma daquele site, e debates no seu Fórum, do tipo "Alma Welt existe? Alma Welt não existe?"
A autora, mulher jovem, belíssima e misteriosa, não se deixava fotografar, somente permitindo a divulgação de seus retratos em desenhos, gravuras e pinturas a óleo de Guilherme de Faria, seu "retatista autorizado", pintor paulista que a ilustrou, prefaciou, e editou, lançando-a no meio artístico paulistano a partir de 2001, quando a descobriu no seu auto-exílio paulistano, num ateliê de pintura estabelecido nos Jardins. As circunstância notáveis desse encontro providencial foram narradas por ela no seu conto entitulado "Anagramas", que pode ser encontrado na sua página no site Leia Livro da Internet.
Alma suicidou-se aos 35 anos por afogamento, na sua estância pampiana, no
auge de seu talento e beleza. Admirada pelo grande poeta Paulo Bomfim (que escreveu um prefácio para o próximo livro dela a ser publicado) e pelo famoso bibliófilo José Mindlin (que possui obras inéditas dela) começa agora a sua trajetória triunfante, como "a última grande lírica do século XX", Poeta e Musa ao mesmo tempo.
Nota da Lucia Welt:
*(escreveu cerca de 700 sonetos) - Depois de encontrada uma arca no sótão do casarão abarrotada de inéditos de minha irmã, a quantidade de sonetos ultrapassou a marca de 1.000)
Ajude a deixar este site mais completo, compartilhe seu conhecimento.
Comentários sobre:
Alma Welt Adicionar Comentário :
Alma Welt é, sem dúvida, o maior fenômeno literário das letras femininas deste país, no despontar do século XXI. Seu suicídio romanesco,no começo deste ano, permanece envolto em mistério. Pelo que eu soube, há suspeita de que ela pode ter sido assassinada. Sua sensualidade,apesar de sua pureza, parece tê-la tornado vítima de estupro em mais de uma ocasião.É uma terrível tragédia.O Brasil perdeu este ano a sua maior escritora e poeta surgida em tempos recentes. Felizmente a obra não morre, e podemos continuar a fruir de sua poesia aqui na Internet, no Leia Livro, que parece que sua irmã Lucia Welt está alimentando com textos inéditos da "Musa pampiana".
Por: Solange Lima
Muito bons os textos acima sobre a maravilhosa Alma Welt. Mas sinto que, apesar de fornecerem bastantes dados biográficos, não penetram na área propriamente crítica da literatura da
musa pampiana.
Fui uma das primeiras leitoras a descobrir e comentar os textos da poetisa, ressaltando a grandeza de sua prosa e poesia, principalmente
de seus sonetos, que estilisticamente têm uma grande assimilação do romantismo tanto quanto do parnasianismo, que ela chegou a homenagear como por exemplo no soneto n°9 de seus 150 Soneto s Pampianos, entitulado A Oferenda:
A Oferenda (de Alma Welt)
ou
O que me disse um vagalume
(dedico aos nossos grandes parnasianos,
de Olavo Bilac a Vicente de Carvalho)
9
Noite clara, a natureza em festa
Saúda-me feliz, aqui no meu jardim.
Um vagalume dança em minha testa
Dizendo: “Vem, me siga já, aqui, assim!”
“Vem comigo até o bom caramanchão
Onde podes exibir a tua alvura
Sem seres avistada por algum peão
Que te possa espreitar pra te ver nua...”
“Como num leito deita em teu vestido,
As pernas entreabertas, que na fenda,
Como uma pérola, talvez com um prurido
Pouso eu na concha que o Amor cultua,
Enquanto, minha Alma, em oferenda,
Abres teu corpo para a luz da lua!”
Notem o mesmo estro simbolista eromântico em essência, apresentado pelos melhores momentos do parnasianismo, acrescentado de uma nota erótica graciosa e delicada.
Aliás acho oportuno ressaltar o erotismo peculiar da autora ,que dedicou a esse filão muitas de suas melhores páginas. "Peculiar" porquanto Alma se distingue nessa área pela absoluta ausência de vulgaridade, e podemos dizer: com grande pureza e inocência como “un enfant de la nature” que desconhece o “pecado”, mesmo se ocasionalmente lança mão de uma leve malícia inocente quando quer conferir humor à cena. Vejamos:
Eu e os piratas
(dos 150 Sonetos Pampianos da Alma,
de Alma Welt)
Meu irmãozinho construiu embarcação
Toda de caixotes, pouco destra,
Com um cabo de vassoura e armação
Que pretendia ser a vela mestra.
E a arrastamos juntos ao laguinho
Da cascata, pra com ela navegarmos
Como piratas, eu com bigodinho,
Ele com a venda e os sarcasmos.
Mas eis que me vi numa enrascada,
Pois borrando meu bigode com o dedo
Ele disse: “Descobri o teu segredo!”
“Já que és mulher és cobiçada
E vais ficar pelada e com medo,
Pois serás de toda a marujada!”
Eis aí um bom exemplo dessa “malícia inocente” que capta o humor da cena pueril das lembranças de sua infância pampiana. É verdade que na sua série “Sonetos Luxuriosos”(vide no Leia Livro) Alma pega mais pesado, mas ainda assim, verificamos que tais sonetos derivam de um sentido picaresco só encontrados no período medieval tardio e na Renascença. Mas nada da grosseria de um Pietro Aretino que, esse sim,pornógrafo deslavado, seria um equivalente hoje em dia dos vídeos pornôs, em sua malícia e falta total de sutilezas, na sua obra homônima "Sonetti Lussuriosi”. Mas isso merece um estudo à parte. Quanto aos Sonetos Pampianos, Alma nessa série magistral que coroa a sua obra, parecia estar num surto febril de criatividade e inspiração produzindo de enfiada 150 sonetos primorosos e intensos, no seu último mês que culminou com o seu inesperado(?) suicídio. Na verdade foi uma morte anunciada: Alma deu sinais de alerta ou premeditação, que infelizmente passaram despercebidos por seus familiares, embora ela tivesse já sido internada há um ano atrás, numa
clínica lá no Sul, por surtos periódicos de angústia que chegavam a desorientá-la. Esses sinais me parecem agora detectáveis em sonetos como este:
Soneto de nostalgia
(dos Sonetos Pampianos da Alma, de Alma Welt)
Quanto fui amada em minha infância!...
Como viver então sem mais viver
O reino de encanto que era a estância
E alegria e beleza ainda manter
Se a alma deste pampa era o meu Vati
E seu piano mágico, polido,
Agora amargo como o coração do mate
E surdo como o verso com que lido?
Perdida do pomar do paraíso
Não só a inocência mais juízo,
Desço o rio de amor da minha mente
Que me mantém acesa e ainda viva
Nesta mansão que afunda lentamente
Como um barco bêbado à deriva...
Alma percebia os sinais de decadência de sua estância semi-abandonada, endividada e arruinada . Como poeta ela não poderia ser uma boa administradora do patrimônio deixado pelos seus avós. O endividamento já começara com seu pai, também ele artista. Entretanto não acredito ser essa a verdadeira causa da angústia ou depressão da nossa poetisa. A chave da sua tragédia pode ser encontrada nas entrelinhas de versos como este:
Os Sonhos da Razão
(“El sueño de la razón produces monstros” (Goya
Levantam-se na noite os meus sonhos
E me acordam febril e alvoroçada.
Não me embalam, não, não são risonhos
Meus sonhos de Poeta apaixonada!
Paixão da vida, a ânsia dos autores.
Da louca ilusão de eternidade,
Sonhos de grandeza, dos louvores,
Dos vôos sobre os tetos da cidade!
Ah!Ser o ideal que desejei:
Ser a alma aqui do Rio Grande
A musa que de mim me projetei!
Eu que necessito ser amada
E quero ser feliz além de grande,
Tudo quero, tudo, e tenho nada....
Infelizmente, em sua candura anímica Alma não pode perceber que já tinha tudo: beleza, talento, inspiração, grandeza.A insatisfação ou o excesso de sensibilidade a matou... sem que pudesse perceber em que ponto se encontrava, e que a fama já estava chegando, e com ela certamente glória que confessadamente almejava e que deixou para a posteridade.
(Leandra April)
Exertos de um longo ensaio sobre a poetisa Alma Welt a ser publicado.
Por: Leandra April
Alma Welt
1972-2007
Poetisa e escritora gaúcha, grande revelação recente das letras deste país, nasceu, segundo ela conta no seu romance autobiográfico A Herança (2005), num acostamento de estrada, na relva, a caminho de novo Hamburgo, pelas mãos de seu pai o médico, pianista e erudito, Werner Friedrich Welt, que fez ali mesmo o parto de sua esposa Ana Morgado, neta de imigrantes açorianos. Seus avós paternos eram os agricultores alemães Joachin e Frida Welt, que imigrados dos sudetos da Chekoslováquia antes da Segunda Grande Guerra, prosperaram primeiramente em longos anos de colônia agrícola alemã no Vale do Itajaí, região de Blumenau, em Santa Catarina. O avô de Alma iria adquirir uma estância gaúcha no extremo sul do país, onde plantaria um vinhedo pioneiro no Pampa, para produzir vinho, que era o seu sonho. Alma conta a saga de seus avós e de seus pais no seu romance A Herança, em quatro volumes. Quanto à sua avó Frida, vide o trecho “O Condestável Gottfried” nas sua página no Leia Livro.
Alma é a terceira filha do casal Werner e Ana, tendo um irmão mais novo um ano, Rudolf, que ela chamava pelo apelido de Rôdo e que é um personagem importante nos seus romances, contos, crônicas e poemas de caráter memorialístico. A paixão de Alma desde a infância por seu irmão caçula é tão intensa que chega a revelar um fundo incestuoso, todavia sublimado em literatura por um tom lírico que o justifica e mesmo chega a engrandecer. Todavia esse fato acarretaria um primeiro trauma na vida da guria dos pampas, pelo flagrante produzido por sua mãe numa singela cena de descoberta sexual infantil, sob a macieira querida do seu pomar, o que nos faz pensar numa metáfora da perda da inocência sob a arvore do paraíso, ou da Razão (a Ciência do Bem e do Mal). Aliás, toda a obra da escritora gaúcha é perspassada de alegorias, de simbolismos e mitos recorrentes, como esse da macieira primordial, o de Narciso e Eco, o de Perséfone, e o do fio de Ariadne e o Labirinto do Minotauro (vide as suas novelas "Perséfone" (o mito de Adèle D'Affry), "Narciso", e "Ariadne", no Leia Livro.
As duas irmãs de Alma: Solange Motersohn Welt, casada com Alberto (que ela chama o “borracho”) era a mais velha, que morreu assassinada por seu cunhado Geraldo, com quem havia fugido, e que era casado com Lúcia, a segunda irmã de Alma, que está hoje em dia empenhada em dar prosseguimento às publicações de sua irmã e em cuidar de sua herança literária e posteridade.
Alma era profundamente ligada ao seu pai, que ela, como seus irmãos, chamava de “Vati” ( pronuncia-se Fáti, "papai" em alemão) e que ela idolatrava de uma maneira igualmente exaltada, e que após a morte dele, produziu maravilhosos versos nostálgicos (vide o soneto “A carruagem”, que foi o último escrito por Alma (pertence à série "150 Sonetos Pampianos da Alma") e publicado no site Recanto das Letras, causando considerável comoção, com o anúncio de sua morte):
A Carruagem (de Alma Welt)
(150)
Um piano toca no salão!
Ah! e não fui eu que coloquei
Um cd ou um velho long-play,
Talvez seja o Vati, e então...
Ele voltou! Sim, ele me quer!
Vou ao seu encontro e sou mulher!
Sim, ele vai ver que agora sou
Pelo menos a guria que sonhou.
Olha, Vati, há muito não me vias,
Mas de verso em verso muito errei
Pelo mundo, a viajante que querias...
E agora, com toda esta bagagem,
Leva-me contigo, que eu irei
Quietinha, assim, na carruagem!
Depois de uma primeira infância urbana em Novo Hamburgo, Alma se transfere com a família para a estância de seus avós, no Pampa, situada entre Alegrete e Santana do Livramento, próxima a Rosário do Sul. A infância da Alma nos pampas, nessa estância cercada de um vinhedo que ela tornaria mítico em sua literatura (A Vinha de meu Pai, A vinha de Dioniso, etc,) é um dos temas recorrente de sua obra, e adquire um tom de grande lirismo e nostalgia, em que o cenário grandioso da pradaria, com suas coxilhas, um bosque, o seu pomar e uma pequena cascata em cujo poço de águas cristalinas Alma iria encontrar a sua morte, fazem dela também uma escritora pampiana de notável poder sugestivo de paisagem, mais do que descritiva.
Com a morte de seu adorado pai, que foi quem a criou no meio de sua biblioteca clássica em quatro línguas, como uma pequena pagã, longe da influência católica de sua esposa que não compreendia a filha, e que Alma chamava de maneira mítica, talvez subjetivamente pejorativa de “a Açoriana”, Alma profundamente chocada e transtornada, abandona a estância e se "auto-exila" (como ela dizia) estabelecendo um ateliê de pintura em São Paulo, nos Jardins, onde seria descoberta como pintora, mas principalmente como escritora inédita com grande bagagem de textos originais manuscritos que deslumbraram o artista Guilherme de Faria e que o fizeram dedicar-se desde esse dia de Julho de 2001, à sua divulgação nacional, lançando-a, prefaciando e ilustrando seus poemas, com tal entusiasmo e dedicação ( ele a considera sua última e definitiva Musa). Cabe aqui dizer, que por algum pacto entre ele e Alma (vide o conto Anagramas, dela, no site Leia Livro) ela não se deixaria mais fotografar em sua vida pública, somente aceitando a divulgação dos seus retratos feitos em desenho, gravura e óleo pelo artista paulista, o que talvez tenha motivado a suspeita ou o boato de que ela, Alma Welt, seria um heterônimo desse artista. A natureza misteriosa da “guria” produziu uma grande confusão, às raias do escândalo, que acabou por equívoco resultando na espantosa expulsão póstuma da escritora, do conhecido site literário onde ela vinha publicando há quase um ano com imenso sucesso, e já celebrada como uma diva das Letras, com uma legião crescente de admiradores e fãs. No entanto seus textos podem ainda ser acessados no site Leia Livro, que foi o seu berço na Internet. Lucia Welt está publicando ali, como continuidade, textos de sua irmã, inéditos ou já publicados anteriormente no outro site de que ela foi apagada.
Alma começa agora a sua verdadeira trajetória: póstuma, como toda grande arte costuma ser.
Por: Eliana Mattos
(Escritora)
08/01/1972, em Novo Hamburgo RS
20/01/2007 Estância Sta Gertrudes, Rosário do Sul RS
ALMA WELT (1972-2007) escritora gaúcha nascida em Novo Hamburgo, poeta lírica, grande sonetista (escreveu cerca de 700 belíssimos sonetos)*, deixou uma obra profícua e numerosa, constando de um romance autobiográfico inédito em quatro tomos denominado "A Herança" (dividido como quarteto com os seguintes títulos: A Herança, A Ara dos Pampas, O Sangue da Terra, A Vinha de Dioniso),e mais o romance entitulado "O Retorno dos Menestréis", ambientado no sertão nordestino de Pernambuco e Paraíba, numa mítica e divertida viagem a bordo do Pavão Misterioso. Tem ainda quatro livros de contos: Contos da Alma, publicado em 2004 pela Editora Palavras & Gestos(de São Paulo) e presente nas livrarias (vide google); Contos Pampianos da Alma, Contos Secretos da Alma, e "Lendas da Alma" (este uma coletânea de lendas poéticas de sua invenção, de caráter europeu, góticas e misteriosas, ilustradas com desenhos a cores por Guilherme de Faria. Além disso tem um livro de crônicas curtas(Crônicas da Alma). Sua obra poética, igualmente prolífica, conta com 49 livros de poesia, sendo 33 de sonetos (perfazendo cerca de 700 sonetos),e vem sendo publicada de maneira semi-artesanal, em folhetos dentro de uma caixa (Kit) de madeira, e ilustrados a cores com desenhos de Guilherme de Faria. As duas últimas obras poéticas que escreveu são: um notável drama lírico formado por 42 sonetos (cenas) encadeados,inspirado por sua paixão por uma aluna e denominado "Sonetos à Mayra"; e os "150 Sonetos Pampianos da Alma" escritos no seu último mês de vida. Parte considerável de sua obra está publicada no site literário "Leia Livro" (da Fundação Padre Anchieta, na Internet).
Alma Welt conseguiu extraordinário sucesso com suas obras na Internet, principalmente no site Recanto das Letras, num período de 7 meses, até a sua morte, com mais de 14.000 leituras e 1.500 comentários elogiosos vindos das mais diversas partes do Brasil e de Portugal. Entretanto, as circunstâncias de sua morte por suicídio no dia 20/01/2007, romanescas, causaram um imenso escândalo nesse site, por equívoco e intrigas, produzindo a suspeita de que se tratasse de um heterônimo, e resultando na sua inusitada e espantosa expulsão póstuma daquele site, e debates no seu Fórum, do tipo "Alma Welt existe? Alma Welt não existe?"
A autora, mulher jovem, belíssima e misteriosa, não se deixava fotografar, somente permitindo a divulgação de seus retratos em desenhos, gravuras e pinturas a óleo de Guilherme de Faria, seu "retatista autorizado", pintor paulista que a ilustrou, prefaciou, e editou, lançando-a no meio artístico paulistano a partir de 2001, quando a descobriu no seu auto-exílio paulistano, num ateliê de pintura estabelecido nos Jardins. As circunstância notáveis desse encontro providencial foram narradas por ela no seu conto entitulado "Anagramas", que pode ser encontrado na sua página no site Leia Livro da Internet.
Alma suicidou-se aos 35 anos por afogamento, na sua estância pampiana, no
auge de seu talento e beleza. Admirada pelo grande poeta Paulo Bomfim (que escreveu um prefácio para o próximo livro dela a ser publicado) e pelo famoso bibliófilo José Mindlin (que possui obras inéditas dela) começa agora a sua trajetória triunfante, como "a última grande lírica do século XX", Poeta e Musa ao mesmo tempo.
Nota da Lucia Welt:
*(escreveu cerca de 700 sonetos) - Depois de encontrada uma arca no sótão do casarão abarrotada de inéditos de minha irmã, a quantidade de sonetos ultrapassou a marca de 1.000)
Ajude a deixar este site mais completo, compartilhe seu conhecimento.
Comentários sobre:
Alma Welt Adicionar Comentário :
Alma Welt é, sem dúvida, o maior fenômeno literário das letras femininas deste país, no despontar do século XXI. Seu suicídio romanesco,no começo deste ano, permanece envolto em mistério. Pelo que eu soube, há suspeita de que ela pode ter sido assassinada. Sua sensualidade,apesar de sua pureza, parece tê-la tornado vítima de estupro em mais de uma ocasião.É uma terrível tragédia.O Brasil perdeu este ano a sua maior escritora e poeta surgida em tempos recentes. Felizmente a obra não morre, e podemos continuar a fruir de sua poesia aqui na Internet, no Leia Livro, que parece que sua irmã Lucia Welt está alimentando com textos inéditos da "Musa pampiana".
Por: Solange Lima
Muito bons os textos acima sobre a maravilhosa Alma Welt. Mas sinto que, apesar de fornecerem bastantes dados biográficos, não penetram na área propriamente crítica da literatura da
musa pampiana.
Fui uma das primeiras leitoras a descobrir e comentar os textos da poetisa, ressaltando a grandeza de sua prosa e poesia, principalmente
de seus sonetos, que estilisticamente têm uma grande assimilação do romantismo tanto quanto do parnasianismo, que ela chegou a homenagear como por exemplo no soneto n°9 de seus 150 Soneto s Pampianos, entitulado A Oferenda:
A Oferenda (de Alma Welt)
ou
O que me disse um vagalume
(dedico aos nossos grandes parnasianos,
de Olavo Bilac a Vicente de Carvalho)
9
Noite clara, a natureza em festa
Saúda-me feliz, aqui no meu jardim.
Um vagalume dança em minha testa
Dizendo: “Vem, me siga já, aqui, assim!”
“Vem comigo até o bom caramanchão
Onde podes exibir a tua alvura
Sem seres avistada por algum peão
Que te possa espreitar pra te ver nua...”
“Como num leito deita em teu vestido,
As pernas entreabertas, que na fenda,
Como uma pérola, talvez com um prurido
Pouso eu na concha que o Amor cultua,
Enquanto, minha Alma, em oferenda,
Abres teu corpo para a luz da lua!”
Notem o mesmo estro simbolista eromântico em essência, apresentado pelos melhores momentos do parnasianismo, acrescentado de uma nota erótica graciosa e delicada.
Aliás acho oportuno ressaltar o erotismo peculiar da autora ,que dedicou a esse filão muitas de suas melhores páginas. "Peculiar" porquanto Alma se distingue nessa área pela absoluta ausência de vulgaridade, e podemos dizer: com grande pureza e inocência como “un enfant de la nature” que desconhece o “pecado”, mesmo se ocasionalmente lança mão de uma leve malícia inocente quando quer conferir humor à cena. Vejamos:
Eu e os piratas
(dos 150 Sonetos Pampianos da Alma,
de Alma Welt)
Meu irmãozinho construiu embarcação
Toda de caixotes, pouco destra,
Com um cabo de vassoura e armação
Que pretendia ser a vela mestra.
E a arrastamos juntos ao laguinho
Da cascata, pra com ela navegarmos
Como piratas, eu com bigodinho,
Ele com a venda e os sarcasmos.
Mas eis que me vi numa enrascada,
Pois borrando meu bigode com o dedo
Ele disse: “Descobri o teu segredo!”
“Já que és mulher és cobiçada
E vais ficar pelada e com medo,
Pois serás de toda a marujada!”
Eis aí um bom exemplo dessa “malícia inocente” que capta o humor da cena pueril das lembranças de sua infância pampiana. É verdade que na sua série “Sonetos Luxuriosos”(vide no Leia Livro) Alma pega mais pesado, mas ainda assim, verificamos que tais sonetos derivam de um sentido picaresco só encontrados no período medieval tardio e na Renascença. Mas nada da grosseria de um Pietro Aretino que, esse sim,pornógrafo deslavado, seria um equivalente hoje em dia dos vídeos pornôs, em sua malícia e falta total de sutilezas, na sua obra homônima "Sonetti Lussuriosi”. Mas isso merece um estudo à parte. Quanto aos Sonetos Pampianos, Alma nessa série magistral que coroa a sua obra, parecia estar num surto febril de criatividade e inspiração produzindo de enfiada 150 sonetos primorosos e intensos, no seu último mês que culminou com o seu inesperado(?) suicídio. Na verdade foi uma morte anunciada: Alma deu sinais de alerta ou premeditação, que infelizmente passaram despercebidos por seus familiares, embora ela tivesse já sido internada há um ano atrás, numa
clínica lá no Sul, por surtos periódicos de angústia que chegavam a desorientá-la. Esses sinais me parecem agora detectáveis em sonetos como este:
Soneto de nostalgia
(dos Sonetos Pampianos da Alma, de Alma Welt)
Quanto fui amada em minha infância!...
Como viver então sem mais viver
O reino de encanto que era a estância
E alegria e beleza ainda manter
Se a alma deste pampa era o meu Vati
E seu piano mágico, polido,
Agora amargo como o coração do mate
E surdo como o verso com que lido?
Perdida do pomar do paraíso
Não só a inocência mais juízo,
Desço o rio de amor da minha mente
Que me mantém acesa e ainda viva
Nesta mansão que afunda lentamente
Como um barco bêbado à deriva...
Alma percebia os sinais de decadência de sua estância semi-abandonada, endividada e arruinada . Como poeta ela não poderia ser uma boa administradora do patrimônio deixado pelos seus avós. O endividamento já começara com seu pai, também ele artista. Entretanto não acredito ser essa a verdadeira causa da angústia ou depressão da nossa poetisa. A chave da sua tragédia pode ser encontrada nas entrelinhas de versos como este:
Os Sonhos da Razão
(“El sueño de la razón produces monstros” (Goya
Levantam-se na noite os meus sonhos
E me acordam febril e alvoroçada.
Não me embalam, não, não são risonhos
Meus sonhos de Poeta apaixonada!
Paixão da vida, a ânsia dos autores.
Da louca ilusão de eternidade,
Sonhos de grandeza, dos louvores,
Dos vôos sobre os tetos da cidade!
Ah!Ser o ideal que desejei:
Ser a alma aqui do Rio Grande
A musa que de mim me projetei!
Eu que necessito ser amada
E quero ser feliz além de grande,
Tudo quero, tudo, e tenho nada....
Infelizmente, em sua candura anímica Alma não pode perceber que já tinha tudo: beleza, talento, inspiração, grandeza.A insatisfação ou o excesso de sensibilidade a matou... sem que pudesse perceber em que ponto se encontrava, e que a fama já estava chegando, e com ela certamente glória que confessadamente almejava e que deixou para a posteridade.
(Leandra April)
Exertos de um longo ensaio sobre a poetisa Alma Welt a ser publicado.
Por: Leandra April
Alma Welt
1972-2007
Poetisa e escritora gaúcha, grande revelação recente das letras deste país, nasceu, segundo ela conta no seu romance autobiográfico A Herança (2005), num acostamento de estrada, na relva, a caminho de novo Hamburgo, pelas mãos de seu pai o médico, pianista e erudito, Werner Friedrich Welt, que fez ali mesmo o parto de sua esposa Ana Morgado, neta de imigrantes açorianos. Seus avós paternos eram os agricultores alemães Joachin e Frida Welt, que imigrados dos sudetos da Chekoslováquia antes da Segunda Grande Guerra, prosperaram primeiramente em longos anos de colônia agrícola alemã no Vale do Itajaí, região de Blumenau, em Santa Catarina. O avô de Alma iria adquirir uma estância gaúcha no extremo sul do país, onde plantaria um vinhedo pioneiro no Pampa, para produzir vinho, que era o seu sonho. Alma conta a saga de seus avós e de seus pais no seu romance A Herança, em quatro volumes. Quanto à sua avó Frida, vide o trecho “O Condestável Gottfried” nas sua página no Leia Livro.
Alma é a terceira filha do casal Werner e Ana, tendo um irmão mais novo um ano, Rudolf, que ela chamava pelo apelido de Rôdo e que é um personagem importante nos seus romances, contos, crônicas e poemas de caráter memorialístico. A paixão de Alma desde a infância por seu irmão caçula é tão intensa que chega a revelar um fundo incestuoso, todavia sublimado em literatura por um tom lírico que o justifica e mesmo chega a engrandecer. Todavia esse fato acarretaria um primeiro trauma na vida da guria dos pampas, pelo flagrante produzido por sua mãe numa singela cena de descoberta sexual infantil, sob a macieira querida do seu pomar, o que nos faz pensar numa metáfora da perda da inocência sob a arvore do paraíso, ou da Razão (a Ciência do Bem e do Mal). Aliás, toda a obra da escritora gaúcha é perspassada de alegorias, de simbolismos e mitos recorrentes, como esse da macieira primordial, o de Narciso e Eco, o de Perséfone, e o do fio de Ariadne e o Labirinto do Minotauro (vide as suas novelas "Perséfone" (o mito de Adèle D'Affry), "Narciso", e "Ariadne", no Leia Livro.
As duas irmãs de Alma: Solange Motersohn Welt, casada com Alberto (que ela chama o “borracho”) era a mais velha, que morreu assassinada por seu cunhado Geraldo, com quem havia fugido, e que era casado com Lúcia, a segunda irmã de Alma, que está hoje em dia empenhada em dar prosseguimento às publicações de sua irmã e em cuidar de sua herança literária e posteridade.
Alma era profundamente ligada ao seu pai, que ela, como seus irmãos, chamava de “Vati” ( pronuncia-se Fáti, "papai" em alemão) e que ela idolatrava de uma maneira igualmente exaltada, e que após a morte dele, produziu maravilhosos versos nostálgicos (vide o soneto “A carruagem”, que foi o último escrito por Alma (pertence à série "150 Sonetos Pampianos da Alma") e publicado no site Recanto das Letras, causando considerável comoção, com o anúncio de sua morte):
A Carruagem (de Alma Welt)
(150)
Um piano toca no salão!
Ah! e não fui eu que coloquei
Um cd ou um velho long-play,
Talvez seja o Vati, e então...
Ele voltou! Sim, ele me quer!
Vou ao seu encontro e sou mulher!
Sim, ele vai ver que agora sou
Pelo menos a guria que sonhou.
Olha, Vati, há muito não me vias,
Mas de verso em verso muito errei
Pelo mundo, a viajante que querias...
E agora, com toda esta bagagem,
Leva-me contigo, que eu irei
Quietinha, assim, na carruagem!
Depois de uma primeira infância urbana em Novo Hamburgo, Alma se transfere com a família para a estância de seus avós, no Pampa, situada entre Alegrete e Santana do Livramento, próxima a Rosário do Sul. A infância da Alma nos pampas, nessa estância cercada de um vinhedo que ela tornaria mítico em sua literatura (A Vinha de meu Pai, A vinha de Dioniso, etc,) é um dos temas recorrente de sua obra, e adquire um tom de grande lirismo e nostalgia, em que o cenário grandioso da pradaria, com suas coxilhas, um bosque, o seu pomar e uma pequena cascata em cujo poço de águas cristalinas Alma iria encontrar a sua morte, fazem dela também uma escritora pampiana de notável poder sugestivo de paisagem, mais do que descritiva.
Com a morte de seu adorado pai, que foi quem a criou no meio de sua biblioteca clássica em quatro línguas, como uma pequena pagã, longe da influência católica de sua esposa que não compreendia a filha, e que Alma chamava de maneira mítica, talvez subjetivamente pejorativa de “a Açoriana”, Alma profundamente chocada e transtornada, abandona a estância e se "auto-exila" (como ela dizia) estabelecendo um ateliê de pintura em São Paulo, nos Jardins, onde seria descoberta como pintora, mas principalmente como escritora inédita com grande bagagem de textos originais manuscritos que deslumbraram o artista Guilherme de Faria e que o fizeram dedicar-se desde esse dia de Julho de 2001, à sua divulgação nacional, lançando-a, prefaciando e ilustrando seus poemas, com tal entusiasmo e dedicação ( ele a considera sua última e definitiva Musa). Cabe aqui dizer, que por algum pacto entre ele e Alma (vide o conto Anagramas, dela, no site Leia Livro) ela não se deixaria mais fotografar em sua vida pública, somente aceitando a divulgação dos seus retratos feitos em desenho, gravura e óleo pelo artista paulista, o que talvez tenha motivado a suspeita ou o boato de que ela, Alma Welt, seria um heterônimo desse artista. A natureza misteriosa da “guria” produziu uma grande confusão, às raias do escândalo, que acabou por equívoco resultando na espantosa expulsão póstuma da escritora, do conhecido site literário onde ela vinha publicando há quase um ano com imenso sucesso, e já celebrada como uma diva das Letras, com uma legião crescente de admiradores e fãs. No entanto seus textos podem ainda ser acessados no site Leia Livro, que foi o seu berço na Internet. Lucia Welt está publicando ali, como continuidade, textos de sua irmã, inéditos ou já publicados anteriormente no outro site de que ela foi apagada.
Alma começa agora a sua verdadeira trajetória: póstuma, como toda grande arte costuma ser.
Por: Eliana Mattos
segunda-feira, 28 de julho de 2008
Algumas cartas de Lucia Welt ao poeta mineiro Claudio Bento
luciawv@ig.com.br" para poetabento
mostrar detalhes 19/06/07
Não, não, Bento.
Nada se quebrou. Apenas estive muito atarefada, aqui, com a minha hóspede e as crianças. A presença da doutora é muito gratificante, pois ela é sábia e adorável. Ela amava muito a Alma e confidenciou-me que esse amor fora mais do que a de uma médica por sua paciente ou mestra por sua discípula.Eu na verdade já sabia, poi tinha lido a crônica "Minha doutora Jensen", que a Alma publicou no Leia Livro (está lá).Eu aprendi a levar a sério tudo o que a Alma conta nos seus textos, pois ela se propunha a ser confessional, e absolutamente franca. Tudo o que ela conta aconteceu mesmo com ela. E se às vezes parece adquirir um tom mágico é por conta do seu olhar de poeta, e de seu romantismo inerente. Então, para falar francamente, eu sabia que Alma tinha tido um caso com a sua doutora. Mas isso não me surpreende, pois ninguém conseguia ficar imune ao fascínio da nossa musa. Ela dava vontade de pegar, de tocar, de beijar mesmo, de tê- la nos braços. Ela tinha a natureza das ninfas... Mas, Ah! Bento, acho que foi isso mesmo que a vitimou. Sua sensualidade inocente, seu encanto vital, despertava cobiça nos maus. Falamos sobre isso, eu e a doutora. Passeando na campina, até a colina da Alma, onde está o umbu "do enforcado", numa tarde línda, cheia de pássaros, a doutora, dizia que a Alma era a Psiqué rediviva, encarnava a própria Anima arquetípica, no sentido que Jung dava a ela, e que na verdade deriva mesmo da intuição grega. A Jensen dizia:
" Lucia, tua irmã veio à Terra, veio a nós, para exaltar a natureza feminina, para nos fazer mais mulheres, mais naturais e amorosas". Seu legado era claro para quem a visse e se estendeu mais longe pelo poder de sua poesia escrita. Mas ela era poesia viva, e nos comoveu a todos, que a vimos e tocamos. O artista Guilherme a desenhou na capa daquele livro como a própria Psiqué nos braços de Eros, por isso. Ela vivia sob a égide do Amor, e não dissimulava a profunda carnalidade da natureza do amor. Só os hipócritas tentam dissimular ou desvincular essa natureza, querendo sublimá-lo em uma pretensa espiritualidade sem corpo, ascética. Eu me sentiria uma deles, se não me rendesse, se não a tocasse, se não fruisse uma vez ao menos, de seus lábios e de seu corpo maravilhoso, divino".
Apesar, Bento, de eu saber daquela crônica e dela provavelmente presumir que eu a tinha lido, seu discurso não tinha o tom de auto-justificativa. A doutora está acima disso. Ela não arrepende de ter tocado e amado sua paciente, e chegou a dizer que isso a sustenta ainda hoje, e até retarda o seu envelhecimento, pois sonha eroticamente com a Alma todas as noite. Eu fiquei pasma, mas comovida, Bento, de ouvir isso, da doutora, de uma psiquiatra e uma mulher madura. Num momento uma borboleta pousou sobre seu ombro enquanto ela falava, e ela parou, comovida, e a colocou no seu dedo sem que ela fugisse e ficou olhando intensamente, com um brilho molhado nos olhos, e eu entendi que ela acreditou que era a Alma que viera tocá-la, beijá-la, de certa forma, pois isso aconteceu no momento em que ela fechava o seu discurso amoroso. Nós voltamos silenciosas e e emocionadas para o casarão e avistávamos de longe as crianças brincando no jardim da Alma, e a vida me pareceu tão bela... Bento, apesar... Patrícia com toda sua beleza de "ninfeta" correu para nós e nos abraçou a mim e à doutora com o mesmo carinho, que nós tivemos certeza de que Psiqué continua viva.
Não sei portanto, meu Bento, se devo continuar aquela investigação. Tenho medo de estragar este sentido da vida, que se fez tão claro ontem, naqueles momentos divinos.
Em breve te contarei mais.
Beijos
da tua Lucita
mostrar detalhes 19/06/07
Não, não, Bento.
Nada se quebrou. Apenas estive muito atarefada, aqui, com a minha hóspede e as crianças. A presença da doutora é muito gratificante, pois ela é sábia e adorável. Ela amava muito a Alma e confidenciou-me que esse amor fora mais do que a de uma médica por sua paciente ou mestra por sua discípula.Eu na verdade já sabia, poi tinha lido a crônica "Minha doutora Jensen", que a Alma publicou no Leia Livro (está lá).Eu aprendi a levar a sério tudo o que a Alma conta nos seus textos, pois ela se propunha a ser confessional, e absolutamente franca. Tudo o que ela conta aconteceu mesmo com ela. E se às vezes parece adquirir um tom mágico é por conta do seu olhar de poeta, e de seu romantismo inerente. Então, para falar francamente, eu sabia que Alma tinha tido um caso com a sua doutora. Mas isso não me surpreende, pois ninguém conseguia ficar imune ao fascínio da nossa musa. Ela dava vontade de pegar, de tocar, de beijar mesmo, de tê- la nos braços. Ela tinha a natureza das ninfas... Mas, Ah! Bento, acho que foi isso mesmo que a vitimou. Sua sensualidade inocente, seu encanto vital, despertava cobiça nos maus. Falamos sobre isso, eu e a doutora. Passeando na campina, até a colina da Alma, onde está o umbu "do enforcado", numa tarde línda, cheia de pássaros, a doutora, dizia que a Alma era a Psiqué rediviva, encarnava a própria Anima arquetípica, no sentido que Jung dava a ela, e que na verdade deriva mesmo da intuição grega. A Jensen dizia:
" Lucia, tua irmã veio à Terra, veio a nós, para exaltar a natureza feminina, para nos fazer mais mulheres, mais naturais e amorosas". Seu legado era claro para quem a visse e se estendeu mais longe pelo poder de sua poesia escrita. Mas ela era poesia viva, e nos comoveu a todos, que a vimos e tocamos. O artista Guilherme a desenhou na capa daquele livro como a própria Psiqué nos braços de Eros, por isso. Ela vivia sob a égide do Amor, e não dissimulava a profunda carnalidade da natureza do amor. Só os hipócritas tentam dissimular ou desvincular essa natureza, querendo sublimá-lo em uma pretensa espiritualidade sem corpo, ascética. Eu me sentiria uma deles, se não me rendesse, se não a tocasse, se não fruisse uma vez ao menos, de seus lábios e de seu corpo maravilhoso, divino".
Apesar, Bento, de eu saber daquela crônica e dela provavelmente presumir que eu a tinha lido, seu discurso não tinha o tom de auto-justificativa. A doutora está acima disso. Ela não arrepende de ter tocado e amado sua paciente, e chegou a dizer que isso a sustenta ainda hoje, e até retarda o seu envelhecimento, pois sonha eroticamente com a Alma todas as noite. Eu fiquei pasma, mas comovida, Bento, de ouvir isso, da doutora, de uma psiquiatra e uma mulher madura. Num momento uma borboleta pousou sobre seu ombro enquanto ela falava, e ela parou, comovida, e a colocou no seu dedo sem que ela fugisse e ficou olhando intensamente, com um brilho molhado nos olhos, e eu entendi que ela acreditou que era a Alma que viera tocá-la, beijá-la, de certa forma, pois isso aconteceu no momento em que ela fechava o seu discurso amoroso. Nós voltamos silenciosas e e emocionadas para o casarão e avistávamos de longe as crianças brincando no jardim da Alma, e a vida me pareceu tão bela... Bento, apesar... Patrícia com toda sua beleza de "ninfeta" correu para nós e nos abraçou a mim e à doutora com o mesmo carinho, que nós tivemos certeza de que Psiqué continua viva.
Não sei portanto, meu Bento, se devo continuar aquela investigação. Tenho medo de estragar este sentido da vida, que se fez tão claro ontem, naqueles momentos divinos.
Em breve te contarei mais.
Beijos
da tua Lucita
"luciawv@ig.com.br" para poetabento
mostrar detalhes 25/06/07
Bento querido
Que gratificante saber que amaste o livro da Alma! E tens razão, sempre achei que daria um filme. E teria que ser filmado aqui mesmo no Pampa, e a locação de preferência a nossa estância, e este casarão assombrado... A propósito, é tudo verdade o que a Alma escreveu: ela encontrou mesmo a adega de nossos avós debaixo do casarão e é de dar medo, uma antiga senzala, que ficou oculta até de nossos pais, por capricho do avô Joachin que esperava deixar a safra para os netos ou bisnetos. Quanto à sua existência e aspecto, que história cruel e escabrosa essa do passado do nosso Brasil! E eu assisti ao julgamento da Alma! Sim, só que ela não colocou no livro o meu depoimento, por causa do meu marido que me chantageou com meus filhos para eu ficar fora do processo. Mas eu a apoiei por fora, de diversas maneiras. Tu notaste que a minha presença no livro é muito discreta? A Alma quiz poupar-me, sua intenção era boa, mas eu quase fiquei despeitada pois eu queria aparecer mais e melhor no livro dela (risos). Não, na verdade aquilo tudo foi terrível, pois culminou no assassinato de minha irmã Solange. No segundo volume do romance entitulado O Sangue da Terra, Alma conta coisas mais espantosas ainda ocorridas aqui. Ah! Bento, tu não imaginas: ela foi estuprada pelo meu ex-marido Geraldo, o assassino de nossa irmã! Não sei como a Alminha sobreviveu a isso tudo ainda por tanto tempo, lutando heroicamente para manter sua beleza e alegria... até que sucumbiu à depressão e foi internada. Mas ainda teve forças para se reerguer e fugir da clínica nas vésperas do Ano Novo, numa saga por essas estradas, de carona de caminhão para juntar-se às suas queridas crianças . Isso ela contou nas suas cartas à Andrea, das quais ela publicou algumas no Leia Livro e no Recanto. Mas eu encontrei, depois de sua morte, as cópias impressas de toda essa correspondência, que consiste em mais de cem e.mails, de parte a parte, produzindo um verdadeiro romance epistolar, espantoso, que se publicado comoveria o mundo. O problema é que é às vezes demasiado erótico e muito íntimo. Lendo, às vezes eu ruborisava até à raiz dos cabelos. Outras vezes chorava de emoção e pena pelo sofrimentos da minha amada irmã, naquela clínica (nossa intenção era boa) e naquelas estradas (descalça e vestida com o camisolão das internas) onde sua integridade física correu grandes perigos. Bento, tu não imaginas as coisas que minha irmãzinha viveu, e sofreu só por ser tão bela e desejável.Por ser tão cândida, apesar de uma suposta lucidez de intelectual. Ela no fundo era ingênua, na sua pureza intacta diante de um mundo mau. Ah! como eu queria protegê-la, como a uma filhinha... mas era impossível: ela estava atirada à vida e ao mundo.
Sabe, Bento, essa pureza, que era percebida pelo povo daqui do pampa, apezar dos episódios de nudez da Alma ao ar livre, foi transformada em uma espécie de nudez de Lady Godiva, a cavalo, mas galopante por aí afora, de noite. E para muitos, para além de um espectro assombrante, de uma pobre alma penada, começou a surgir uma corrente que quer fazer dela uma santinha, pois a notícia de sua suposta violação e assassinato vazou e começa a correr por aí. A primeira a incentivar essa visão e crença foi a própria Matilde, que fez um altar para a Alma no seu quarto, cheio de velas.
Ai, Bento! Eu só queria colocar a Alma no lugar que lhe cabe: a de grande escritora e poeta entre os maiores nomes das letras brasileiras. Só isso (e sei que um sonho imenso). Bem Bento, aqui estou eu a escrever um romance. Paro por aqui. Estou emocionada. Depois te conto mais sobre aquele delegado... agora não poderia.
Beijos
da Lucia
mostrar detalhes 25/06/07
Bento querido
Que gratificante saber que amaste o livro da Alma! E tens razão, sempre achei que daria um filme. E teria que ser filmado aqui mesmo no Pampa, e a locação de preferência a nossa estância, e este casarão assombrado... A propósito, é tudo verdade o que a Alma escreveu: ela encontrou mesmo a adega de nossos avós debaixo do casarão e é de dar medo, uma antiga senzala, que ficou oculta até de nossos pais, por capricho do avô Joachin que esperava deixar a safra para os netos ou bisnetos. Quanto à sua existência e aspecto, que história cruel e escabrosa essa do passado do nosso Brasil! E eu assisti ao julgamento da Alma! Sim, só que ela não colocou no livro o meu depoimento, por causa do meu marido que me chantageou com meus filhos para eu ficar fora do processo. Mas eu a apoiei por fora, de diversas maneiras. Tu notaste que a minha presença no livro é muito discreta? A Alma quiz poupar-me, sua intenção era boa, mas eu quase fiquei despeitada pois eu queria aparecer mais e melhor no livro dela (risos). Não, na verdade aquilo tudo foi terrível, pois culminou no assassinato de minha irmã Solange. No segundo volume do romance entitulado O Sangue da Terra, Alma conta coisas mais espantosas ainda ocorridas aqui. Ah! Bento, tu não imaginas: ela foi estuprada pelo meu ex-marido Geraldo, o assassino de nossa irmã! Não sei como a Alminha sobreviveu a isso tudo ainda por tanto tempo, lutando heroicamente para manter sua beleza e alegria... até que sucumbiu à depressão e foi internada. Mas ainda teve forças para se reerguer e fugir da clínica nas vésperas do Ano Novo, numa saga por essas estradas, de carona de caminhão para juntar-se às suas queridas crianças . Isso ela contou nas suas cartas à Andrea, das quais ela publicou algumas no Leia Livro e no Recanto. Mas eu encontrei, depois de sua morte, as cópias impressas de toda essa correspondência, que consiste em mais de cem e.mails, de parte a parte, produzindo um verdadeiro romance epistolar, espantoso, que se publicado comoveria o mundo. O problema é que é às vezes demasiado erótico e muito íntimo. Lendo, às vezes eu ruborisava até à raiz dos cabelos. Outras vezes chorava de emoção e pena pelo sofrimentos da minha amada irmã, naquela clínica (nossa intenção era boa) e naquelas estradas (descalça e vestida com o camisolão das internas) onde sua integridade física correu grandes perigos. Bento, tu não imaginas as coisas que minha irmãzinha viveu, e sofreu só por ser tão bela e desejável.Por ser tão cândida, apesar de uma suposta lucidez de intelectual. Ela no fundo era ingênua, na sua pureza intacta diante de um mundo mau. Ah! como eu queria protegê-la, como a uma filhinha... mas era impossível: ela estava atirada à vida e ao mundo.
Sabe, Bento, essa pureza, que era percebida pelo povo daqui do pampa, apezar dos episódios de nudez da Alma ao ar livre, foi transformada em uma espécie de nudez de Lady Godiva, a cavalo, mas galopante por aí afora, de noite. E para muitos, para além de um espectro assombrante, de uma pobre alma penada, começou a surgir uma corrente que quer fazer dela uma santinha, pois a notícia de sua suposta violação e assassinato vazou e começa a correr por aí. A primeira a incentivar essa visão e crença foi a própria Matilde, que fez um altar para a Alma no seu quarto, cheio de velas.
Ai, Bento! Eu só queria colocar a Alma no lugar que lhe cabe: a de grande escritora e poeta entre os maiores nomes das letras brasileiras. Só isso (e sei que um sonho imenso). Bem Bento, aqui estou eu a escrever um romance. Paro por aqui. Estou emocionada. Depois te conto mais sobre aquele delegado... agora não poderia.
Beijos
da Lucia
"luciawv@ig.com.br" para poetabento
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Caro Bento
Obrigada. Na verdade eu escrevo um pouco, esporadicamente, poemas e contos, que nunca me animei a tirar da gaveta. Alma é que era a artista da família. Aqui em casa todos e em casa todos a víamos como grande poeta desde a infância e ela era cultuada por nós por sua beleza e talento. Ah! Bento, tu não sabes o que era A Alma: a mais bela criança, depois a adolescente e então a mulher mais deslumbrante que jamais vi nesta vida. Eu cresci à sua idolatrada sombra, feliz por ser simplesmente a sua irmã mais velha e protetora contra Solange(quando podia) sua inimiga e perseguidora. No momento da morte da nossa irmã mais velha, nos braços de Alma, ela lhe pediu afinal perdão...
Ela era a preferida do Vati (nosso pai) que tomou a si o encargo de criá-la longe, até certo ponto, da influência católica de nossa mãe, que Alma chamava mítica e poeticamente de “a Açoriana”. Ele queria e conseguiu fazer de nossa irmã (caçula entre as mulheres) uma obra de arte viva, e começou, por alguma razão por educá-la como uma pequena pagã, sem o senso de pecado. O cristianismo só entrou em Alma pela via folklórica.
Quanto a mim eu era um tanto apagada em minha infância e adolescência, pois minha adoração me fazia somente observá-la e cultuá-la como uma pequena deusa. Ah! Bento, só de lembrar dela me vem lágrimas aos olhos, pois são memórias de tocante beleza, pois nossa Alminha era uma criatura predestinada, uma verdadeira princesa, nosso pai tinha razão... Ela nos comovia a todos, pois conseguia unir beleza e talento, candura e inteligência, meiguice e humor. E que poeta! Ai! Bento, choro e chorarei sempre a sua perda e me devotarei à grande obra que ela deixou, até o fim dos meus dias, compilando, digitando seus manuscritos inéditos e os organizando em livros que tentarei publicar. Não é fácil, pois não tenho conhecimento em editoras e sou um tanto inepta para coisas práticas. Sou apenas uma professora de História e Português. Além disso crio sozinha meus quatro filhos ( dois eram da Solange e eu fiquei com os orfãzinhos de pai e mãe, que agora são meus como os outros). Alma adorava seus sobrinho e era adorada por eles. Mas ela era como uma criança perto deles, companheira encantadora de brincadeiras e contadora de histórias e estórias. Eles ainda choram a sua morte, quando vêem algo que a evoca sua figura, sua memória. E me perguntam onde ela realmente está, pois lhes parece que ela está só encantada, temporariamente desaparecida, e que voltará um dia. E olha que já são adolescentes e pré-adolescentes! Mas eu mesma acho, às vezes, com o coração, que isso vai acontecer. Na verdade esta estância que ela tanto amava, permanece assombrada por ela. Bento, eu a vejo! Eu já vi várias vezes vagando pelo jardim de nossa mãe, pelo pomar de sua macieira sagrada, pelo bosque e pelo poço da cascata, onde ela morreu. Ela anda, pára e me olha tristemente e como se quisesse dizer algo. Mas segue e desaparece. Não posso contar isso para qualquer pessoa, pois poderão querer me internar também. Matilde também a viu, e as crianças parecem guardar um segredo e parecem sempre conspirando alguma coisa quando estão juntas aqui na estância nos fins de semana. Só não tenho medo porque Alma era um verdadeiro anjo, incapaz de fazer mal a quem que fosse, embora ela se achasse culpada (involuntarimente) do suicídio de um jovem padre em Rosário do Sul, na sua adolescência, numa fase em que experimentou ser católica sem conseguir sê-lo devido à sua formação. Ela contou isso em duas crônicas ( “O Padre”, e “A absolvição da Alma” (vide no Leia Livro).
Alma era hiper-sensível, e temo, à vezes que suas culpas imaginárias a tenham levado ao gesto extremo. Ou então, que a decadência de nossa estância, com seu abandono progressivo e suas dívidas imensas, que se acumulam desde o tempo do Vati, tenham lhe produzido uma angústia imensa pela perspectiva de perdermos sua terra amada e este casarão de nossa infância. Rôdo, nosso irmão é na verdade o nômade entre nós. E agora que saiu da internação pouco ficou por aqui e logo partiu novamente, nas suas andanças pelo mundo. Ele não suportou ficar aqui, algo me disse que ele também a viu vagando e que ela lhe falou algo que não quis revelar a mim. Bem ele está muito estranho, nunca mais será o mesmo, pois ele amava Alma acima de tudo,prativamente enlouqueceu, e quase não voltou a si após a morte de Alma.
Caro Bento estou tentando manter a obra da Alma presente, alimentando as páginas dela no Leia livro, mas está difícil, pois parece estar desorganizado e atrasado o setor Poesia, ali. Quero publicar ali os seus 150 sonetos Pampianos de três em três até o último poema “A Carruagem”, sua despedida deste mundo e que tanto comoveu os leitores do Recanto (300 leituras
em quatro dias) O conjunto, obra magistral e final da Alma, composta inteira no seu último mês de vida e que ela publicou no Recanto e foi apagada, com a sua estranhíssima expulsão póstuma daquele site. Meu sonho é publicar esta , e todas as obras da Alma em livro, de preferência, como obras completas de Alma Welt.
Hei de conseguir um dia, nem que leve o o resto dos meus dias. Alma bem o merece pois era um gênio literário, que só de sonetos deixou 700 e primorosos, Sua vida está ali,
em todos eles, como em tudo o que escrevia. Mas, ah! a síntese do soneto é
incomparável, no seu caso.
Bem ... Cláudio Bento, estendi-me de mais. Por ora fico por aqui. Vamos conversando.
Um abraço da Lucia.
PS. Alma tem um belíssimo livro de contos publicado no afinal de 2004, em São Paulo, entitulado
“Contos da Alma”, e que o grande poeta paulista Paulo Bomfim, de oitenta anos,
telefonou para o nosso amigo o grande artista plástico paulista Guilherme de Faria, que descobriu a Alma ( e a prefaciou lançou, e ilustrou) dizendo que foi “o mais belo livro que leu nas últimas décadas”, e que não parecia um livro escrito numa época como a nossa, de decadência literária. Que parecia escrito numa época de apogeu literário como o começo do século vinte” (palavras dele). Se quiseres eu enviarei a ti, de presente, pois encontrei vários exemplares no baú da Alma. Tu bem o mereces pois és um bom poeta e igualmente um intérprete da tua terra, que pareces tanto amar. Basta que me envies teu endereço e CEP, que o remeterei por correio comum. Sempre chega.
Responder Encaminhar
23/05/07
Caro Bento
Enviei a ti o livro da Alma, ontem pelo correio comum. Pode demorar uns dias a chegar.Estou em São Paulo para tratar de possíveis futuras edições dos textos da Alma com o Guilherme de Faria , que está ilustrando lindamente e publicando de forma artesanal os "Sonetos Pampianos da Alma" (há já um exemplar na Livraria Teixeira da alameda Lorena). Os livrinhos vem dentro de uma caixinha linda de madeira e têm ilustração a cores na capa de cada um (são doze) perfazendo os 150 ultimos escritos por ela e outros mais antigos, num total de mais de 200 sonetos que tem o pano de fundo do nosso Pampa. São uma riqueza, e não posso lê-los sem chorar (pela beleza e pela saudade). Gostaria que tu os conhecesse.
Quanto aos Contos da Alma, gostaria que tu acusasse recebimento quando chegar, e depois de teres lido me comunicasse as tuas impressões. Eu considero o livro belíssimo, e muitas pessoas que os leram também. São os contos da experiência paulistana de minha irmã, com exceção de um deles: "Na trilha dos Menestréis", lindo e emocionante, passado no nordeste, numa viagem que Alma fez a Olinda, quando já estava morando em São Paulo. Descobri que ela valorizava tanto esse conto ( que foi o que motivou o editor, que o leu, a publicar o livro) que escreveu um romance, "O Retorno dos Menestréis", muito erótico, belíssimo e divertido, e que é uma continuação do conto. Descobri que Alma o publicou inteiro em capítulos no Recanto das Letras, mas que foi apagado junto com suas páginas e seu Site de Escritor. Felizmente eu descobri um exemplar digitado e encadernado em espiral, na escrivaninha abarrotada da Alma. Li, chorei e ri muito.
Espero, caro poeta, que te encantes, comovas e te divirtas com as obras da tua colega, nossa querida Alma. Estando com seus livros eu a sinto perto de mim, e por isso os ando carregando para todo lado. É impressionante como ela está viva nos seus textos e poemas. Ela realmente pôs sua alma, sua beleza e seu coração neles.
Até mais
um abraço da Lucia
Cara Lúcia, bonito relato, acredito sim que uma pessoa amada mesmo pós-morte possa surgir no nosso campo de visão fazendo valer a força do espírito. Tente sim publicar as obras da Alma, sei que é difícil editoras que publicam poesia, mas tente, arrume uma maneira de publicar independente de editoras, meus livros são publicados assim, às próprias custas e em pequenas tiragens, essa é a luta do poeta no contexto literário atual. Gostaria muito de receber o livro de contos da Alma, meu endereço : Rua Buenópoles 33/306 - Cep. 31015-120 - Bairro Floresta - Belo Horizonte - MG. Ficarei esperando a beleza que deve ser o livro da Alma. Beijos do Bento.
mostrar detalhes 19/05/07
Caro Bento
Obrigada. Na verdade eu escrevo um pouco, esporadicamente, poemas e contos, que nunca me animei a tirar da gaveta. Alma é que era a artista da família. Aqui em casa todos e em casa todos a víamos como grande poeta desde a infância e ela era cultuada por nós por sua beleza e talento. Ah! Bento, tu não sabes o que era A Alma: a mais bela criança, depois a adolescente e então a mulher mais deslumbrante que jamais vi nesta vida. Eu cresci à sua idolatrada sombra, feliz por ser simplesmente a sua irmã mais velha e protetora contra Solange(quando podia) sua inimiga e perseguidora. No momento da morte da nossa irmã mais velha, nos braços de Alma, ela lhe pediu afinal perdão...
Ela era a preferida do Vati (nosso pai) que tomou a si o encargo de criá-la longe, até certo ponto, da influência católica de nossa mãe, que Alma chamava mítica e poeticamente de “a Açoriana”. Ele queria e conseguiu fazer de nossa irmã (caçula entre as mulheres) uma obra de arte viva, e começou, por alguma razão por educá-la como uma pequena pagã, sem o senso de pecado. O cristianismo só entrou em Alma pela via folklórica.
Quanto a mim eu era um tanto apagada em minha infância e adolescência, pois minha adoração me fazia somente observá-la e cultuá-la como uma pequena deusa. Ah! Bento, só de lembrar dela me vem lágrimas aos olhos, pois são memórias de tocante beleza, pois nossa Alminha era uma criatura predestinada, uma verdadeira princesa, nosso pai tinha razão... Ela nos comovia a todos, pois conseguia unir beleza e talento, candura e inteligência, meiguice e humor. E que poeta! Ai! Bento, choro e chorarei sempre a sua perda e me devotarei à grande obra que ela deixou, até o fim dos meus dias, compilando, digitando seus manuscritos inéditos e os organizando em livros que tentarei publicar. Não é fácil, pois não tenho conhecimento em editoras e sou um tanto inepta para coisas práticas. Sou apenas uma professora de História e Português. Além disso crio sozinha meus quatro filhos ( dois eram da Solange e eu fiquei com os orfãzinhos de pai e mãe, que agora são meus como os outros). Alma adorava seus sobrinho e era adorada por eles. Mas ela era como uma criança perto deles, companheira encantadora de brincadeiras e contadora de histórias e estórias. Eles ainda choram a sua morte, quando vêem algo que a evoca sua figura, sua memória. E me perguntam onde ela realmente está, pois lhes parece que ela está só encantada, temporariamente desaparecida, e que voltará um dia. E olha que já são adolescentes e pré-adolescentes! Mas eu mesma acho, às vezes, com o coração, que isso vai acontecer. Na verdade esta estância que ela tanto amava, permanece assombrada por ela. Bento, eu a vejo! Eu já vi várias vezes vagando pelo jardim de nossa mãe, pelo pomar de sua macieira sagrada, pelo bosque e pelo poço da cascata, onde ela morreu. Ela anda, pára e me olha tristemente e como se quisesse dizer algo. Mas segue e desaparece. Não posso contar isso para qualquer pessoa, pois poderão querer me internar também. Matilde também a viu, e as crianças parecem guardar um segredo e parecem sempre conspirando alguma coisa quando estão juntas aqui na estância nos fins de semana. Só não tenho medo porque Alma era um verdadeiro anjo, incapaz de fazer mal a quem que fosse, embora ela se achasse culpada (involuntarimente) do suicídio de um jovem padre em Rosário do Sul, na sua adolescência, numa fase em que experimentou ser católica sem conseguir sê-lo devido à sua formação. Ela contou isso em duas crônicas ( “O Padre”, e “A absolvição da Alma” (vide no Leia Livro).
Alma era hiper-sensível, e temo, à vezes que suas culpas imaginárias a tenham levado ao gesto extremo. Ou então, que a decadência de nossa estância, com seu abandono progressivo e suas dívidas imensas, que se acumulam desde o tempo do Vati, tenham lhe produzido uma angústia imensa pela perspectiva de perdermos sua terra amada e este casarão de nossa infância. Rôdo, nosso irmão é na verdade o nômade entre nós. E agora que saiu da internação pouco ficou por aqui e logo partiu novamente, nas suas andanças pelo mundo. Ele não suportou ficar aqui, algo me disse que ele também a viu vagando e que ela lhe falou algo que não quis revelar a mim. Bem ele está muito estranho, nunca mais será o mesmo, pois ele amava Alma acima de tudo,prativamente enlouqueceu, e quase não voltou a si após a morte de Alma.
Caro Bento estou tentando manter a obra da Alma presente, alimentando as páginas dela no Leia livro, mas está difícil, pois parece estar desorganizado e atrasado o setor Poesia, ali. Quero publicar ali os seus 150 sonetos Pampianos de três em três até o último poema “A Carruagem”, sua despedida deste mundo e que tanto comoveu os leitores do Recanto (300 leituras
em quatro dias) O conjunto, obra magistral e final da Alma, composta inteira no seu último mês de vida e que ela publicou no Recanto e foi apagada, com a sua estranhíssima expulsão póstuma daquele site. Meu sonho é publicar esta , e todas as obras da Alma em livro, de preferência, como obras completas de Alma Welt.
Hei de conseguir um dia, nem que leve o o resto dos meus dias. Alma bem o merece pois era um gênio literário, que só de sonetos deixou 700 e primorosos, Sua vida está ali,
em todos eles, como em tudo o que escrevia. Mas, ah! a síntese do soneto é
incomparável, no seu caso.
Bem ... Cláudio Bento, estendi-me de mais. Por ora fico por aqui. Vamos conversando.
Um abraço da Lucia.
PS. Alma tem um belíssimo livro de contos publicado no afinal de 2004, em São Paulo, entitulado
“Contos da Alma”, e que o grande poeta paulista Paulo Bomfim, de oitenta anos,
telefonou para o nosso amigo o grande artista plástico paulista Guilherme de Faria, que descobriu a Alma ( e a prefaciou lançou, e ilustrou) dizendo que foi “o mais belo livro que leu nas últimas décadas”, e que não parecia um livro escrito numa época como a nossa, de decadência literária. Que parecia escrito numa época de apogeu literário como o começo do século vinte” (palavras dele). Se quiseres eu enviarei a ti, de presente, pois encontrei vários exemplares no baú da Alma. Tu bem o mereces pois és um bom poeta e igualmente um intérprete da tua terra, que pareces tanto amar. Basta que me envies teu endereço e CEP, que o remeterei por correio comum. Sempre chega.
Responder Encaminhar
23/05/07
Caro Bento
Enviei a ti o livro da Alma, ontem pelo correio comum. Pode demorar uns dias a chegar.Estou em São Paulo para tratar de possíveis futuras edições dos textos da Alma com o Guilherme de Faria , que está ilustrando lindamente e publicando de forma artesanal os "Sonetos Pampianos da Alma" (há já um exemplar na Livraria Teixeira da alameda Lorena). Os livrinhos vem dentro de uma caixinha linda de madeira e têm ilustração a cores na capa de cada um (são doze) perfazendo os 150 ultimos escritos por ela e outros mais antigos, num total de mais de 200 sonetos que tem o pano de fundo do nosso Pampa. São uma riqueza, e não posso lê-los sem chorar (pela beleza e pela saudade). Gostaria que tu os conhecesse.
Quanto aos Contos da Alma, gostaria que tu acusasse recebimento quando chegar, e depois de teres lido me comunicasse as tuas impressões. Eu considero o livro belíssimo, e muitas pessoas que os leram também. São os contos da experiência paulistana de minha irmã, com exceção de um deles: "Na trilha dos Menestréis", lindo e emocionante, passado no nordeste, numa viagem que Alma fez a Olinda, quando já estava morando em São Paulo. Descobri que ela valorizava tanto esse conto ( que foi o que motivou o editor, que o leu, a publicar o livro) que escreveu um romance, "O Retorno dos Menestréis", muito erótico, belíssimo e divertido, e que é uma continuação do conto. Descobri que Alma o publicou inteiro em capítulos no Recanto das Letras, mas que foi apagado junto com suas páginas e seu Site de Escritor. Felizmente eu descobri um exemplar digitado e encadernado em espiral, na escrivaninha abarrotada da Alma. Li, chorei e ri muito.
Espero, caro poeta, que te encantes, comovas e te divirtas com as obras da tua colega, nossa querida Alma. Estando com seus livros eu a sinto perto de mim, e por isso os ando carregando para todo lado. É impressionante como ela está viva nos seus textos e poemas. Ela realmente pôs sua alma, sua beleza e seu coração neles.
Até mais
um abraço da Lucia
Cara Lúcia, bonito relato, acredito sim que uma pessoa amada mesmo pós-morte possa surgir no nosso campo de visão fazendo valer a força do espírito. Tente sim publicar as obras da Alma, sei que é difícil editoras que publicam poesia, mas tente, arrume uma maneira de publicar independente de editoras, meus livros são publicados assim, às próprias custas e em pequenas tiragens, essa é a luta do poeta no contexto literário atual. Gostaria muito de receber o livro de contos da Alma, meu endereço : Rua Buenópoles 33/306 - Cep. 31015-120 - Bairro Floresta - Belo Horizonte - MG. Ficarei esperando a beleza que deve ser o livro da Alma. Beijos do Bento.
domingo, 4 de maio de 2008
Carta (e.mail) de Lucia de 4 de Maio de 2007 ao poeta Claudio Bento

"Ofélia" ou A morte de Alma Welt (I) - óleo s/ tela de Guilherme de Faria, 100x140cm, coleção Elisa Nazarian, São Roque, SP, Brasil
(Rememorando, publico aqui a primeira carta que escrevi ao grande poeta mineiro do Vale do Jequitinhonha, Cláudio Bento, em resposta à sua primeira mensagem à Alma por pensá-la ainda viva, e que deu início a nossa intensa amizade e correspondência que dura até hoje.
É necessário esclarecer, por outro lado, que alguns meses depois dessa carta, começaram investigações da parte de um delegado, aqui na nossa estância, que apontavam para uma outra interpretação sobre a a morte de minha irmã, com indícios de um possível assassinato, o que certamente não nos consola...
(Lucia Welt)
Caro poeta Bento
Tragicamente minha irmã suicidou-se no dia 20/01 deste ano, afogando-se no laguinho da cascata da nossa estância aqui no Rio Grande (Alma nadava muito bem). Era um sábado ela saiu de manhãzinha e não voltou para o almoço. Eu estava em Alegrete
onde moro com meus quatro filhos. Nosso irmão Rôdo, Matilde nossa cozinheira e governanta, antiga babá de Alma, seu irmão Galdério, nosso charreteiro, jardineiro e "faz-tudo", e a doutora Jensen, psiquiatra e amiga da Alma, que estava aqui pela segunda vez, de férias, preocupados saíram para procurá-la nos lugares que ela mais amava, aqui na estância. Afinal encontraram seu vestido branco sobre uma pedra, nas margens do "poço" (como ela dizia) da cascata. Como Alma tinha o hábito desde guria de banhar-se nua ali, pensaram estar ela por perto ou mergulhada. Chamara-na diversas vezes, e nada. Então Rôdo subiu numa pedra mais alta e avistou na água cristalina, flutuando como um espectro, há dois palmos da superfície, ancorada por uma grande pedra amarrada ao seu pescoço, o corpo alvo de minha irmã e seus longos cabelos louros esparzidos. Rôdo gritou o seu nome, mergulhou vestido e tirando a corda de seu pescoço voltou com ela, nadando e gritando, gritando ( tudo isso me foi contado depois pela Matilde em grande desconsolo). Rôdo a colocou sobre uma pedra e tentou fazer respiração boca a boca, mas era tarde. Diante da realidade ele deu um imenso grito e desmaiou, quando voltou a si estava como louco e está desde então internado ( eu o visito três vezes por semana, ele chora, delira, monologa poeticamente seu amor pela Alma, e eu saio arrasada) na mesma clínica onde Alma esteve duas vezes, a última há um ano, quando conheceu a doutora Jensen que se afeiçoou a ela e a admirava como todos nós. A doutora chorou e até hoje chora, como senão fosse uma médica. Ah! Bento, minha irmã era mais bela e poética pessoa que conheci nesta vida. Era mesmo uma princesa. O Vati (papai) a criou desde guriazinha como uma obra de arte viva (como ele dizia), como uma pequena pagã, sob a égide dos deuses e deusas da Mitologia grega, da germânica (do Walhalla) e dos numes do pampa (Alma dizia que era devota do Negrinho do Pastoreio... Ai! ), e longe da influência católica de nossa mãe decendente de açorianos. Matilde que é também muito católica acha que isso tudo é que foi a desgraça da sua guria, enchendo a sua cabeça de sonhos, devaneios e delírios. Mas eu sei que minha irmã era visceralmente poeta,
e ela nos encantava desde pequena com seu talento e sua beleza. Ela era bela por dentro e por fora de uma maneira extrema. Ela nos comovia, e olhá-la e ouvi-la freqüentemente me deixava com os olhos marejados. Rôdo a adorava.
Ele a amava de uma maneira exaltada, e agora temo por ele. Alma era uma romântica e me fazia pensar numa guria do século retrasado, apesar de ser moderna em muitas coisas, principalmente em sua liberdade sexual, que ela celebrou nos seus textos eróticos que a principio me chocavam. Agora eu os admiro pela sua beleza e... pureza.
Mas recentemente eu venho encontrando verdadeiras chaves nos seus textos, que se não justificam, pelo menos explicam o seu gesto extremo.
Alma anunciou ou anteviu a sua morte. Percebe-se isso na seqüência dos seus magníficos Sonetos Pampianos que ela compôs num surto espantoso de inspiração, 150 num único mês que culminou com a sua morte. Eu os estou republicando no Leia Livro, de três em três, já que eles foram apagados do Recanto das Letras onde elas os publicou todos à medida que os ia compondo, com grande repercussão entre os poetas. Mas, pasme: Alma foi expulsa daquele site e seu cadastro cancelado, por intriga de "poetas" invejosos, que lançaram o boato de que Alma Welt seria o pseudônimo de alguém, e que por isso a notícia (chocante para muitos) de sua morte seria falsa.
Veja que absurdo, Bento. Houve um enorme escândalo, com gente mesquinha e falsa vociferando contra a "impostora". Houve até um debate no Fórum daquele site, do tipo: "Alma Welt existe? Alma Welt não existe?" A verdade é que minha irmã estava ( e está famosa pelo menos na Internet)e isso é o começo de sua glória póstuma, que ela bem merece.
Outra coisa: descobri recentemente um trecho de um romance inédito da Alma, "A Ara dos Pampas" em que ela revela algo que me estarreceu: a violência por ela sofrida em São Paulo, por ocasião da desmontagem de seu ateliê, para vir com Aline definitivamente de volta para a estância. Acabo de publicar esse trecho chocante, denominado "O estupro", porque encontrei uma anotação a lápis nessa página do original revelando a sua intençãode publicá-lo no site Recanto das Letras, sem tê-lo feito, entretanto. Alma era uma escritora confessional e achava que não deveria esconder nada de seus leitores. Agora eu a compreendo e admiro também por essa coragem. Mas por outro lado esse fato escabroso e traumatizante pode estar também na base do desesperado gesto de minha pobre irmã. Teria ela sido marcada em sua alma ou em seu coração por essa violência revoltante? Teria a sua violação produzido uma seqüela de depressão persistente? Não sei... Quanto a mim, não sou poeta, e nem sequer escritora, mas como tenho consciência da grandeza do talento da minha amada e sofrida irmã, estou disposta a dedicar-me cada vez mais à sua glória póstuma, na medida dos meus parcos e limitados recursos, correspondendo-me com os poetas amigos fiéis da Alma, que não a renegaram como alguns, e com os novos admiradores, poetas como tu. E tratando de compilar, digitar manuscritos da Alma e publicá-los no Leia Livro, enquanto não consigo uma editora que se interesse por suas "obras completas". Hei de conseguir um dia...
Bah! Guri! Estendi-me muito. Será que estou querendo ser um dia uma escritora também? Nunca chegaria aos pés da nossa Alminha, poeta predestinada, que certamente foi perdoada pelo bom Deus, que deve amar os Artistas...
Por ora, e sempre à sua disposição para esclarecimentos
um abraço
da Lucia
_________________________________
CARTA DO POETA CLAUDIO BENTO À LUCIA:
Lúcia, fico consternado com o que aconteceu com tão grande poeta, poetas não morrem, estão sempre eternizados nos seus versos, nas suas palavras, sua alma e seu espírito estarão sempre junto a nós. E você também é poeta ? O que aconteceu com a Alma ?
Espero tornar-se seu amigo para que possamos externar tudo de bom que o coração mandar. Um grande abraço.
Claudio Bento
terça-feira, 8 de abril de 2008
A última vez que Alma esteve aqui (crônica de Guilherme de Faria
Estou me tornando um velho solitário. Entre meus livros, telas e papéis, pintura e desenhos, componho os meus cordéis com paixão e assim continuo em contato com o mundo. Continuo ilustrando os poemas que Alma me envia pela Internet e montando seus livrinhos, que apresentamos em kits de madeira, pra leitores especiais, que percebem a preciosidade dessa espécie artesanal de edição da grande poetisa.
Mas, quando Alma Welt se digna a visitar-me, isto é, trazer pessoalmente seus poemas e romances para eu ilustrar e prefaciar, minha solidão se ilumina. Eu renovo meus sonhos por mais muitos meses.
Alma esteve aqui, ontem. Ainda estou embargado. A "guria" está mais bela do que nunca. E como é meiga e carinhosa! Ela chegou no fim da tarde, e depois de um profundo abraço (ah! o abraço perfumado da Alma!) começamos imediatamente a conferir nossas produções (as dela muito superiores e prolíferas) e a fazer planos.
A certa altura Alma pegou o violão e cantou, com sua linda voz macia e sussurrante a composição que a sua nova amiga Kibsel fez para um soneto seu e também a de seu amigo músico, o João Roquer, para um poema seu de verso livre. Coisas lindas!
Ficamos tantas horas conversando e declamando nossos poemas, que ficou tarde e e eu sugeri que ela dormisse aqui. Minha mulher está viajando para Minas e tudo estava muito propício. A guria hesitou, claro, com escrúpulos. Mas exausta aceitou, já que tenho um sumiê no escritório, em que eu poderia dormir, oferecendo-lhe a minha cama.
Vocês, caros leitores do Recanto, já imaginaram a minha tortura. Não preguei o olho a noite toda. Esta mulher magnífica, que já tive o privilégio de ter nos braços há alguns anos atrás, e por um ano inteiro, agora inacessível, por tudo, pelo rumo que a vida tomou...
Levantei-me muitas vezes para ir à cozinha beliscar bolachas doces e beber coca-cola light, para não engordar... ai de mim!
Até que, na alta madrugada, não resisti mais e aproximei-me da porta e abri-a com cuidado, só para observá-la adormecida. Minha alma precisava disso.
Alma estava nua e descoberta (como seu costume no verão) adormecida, eu percebi, pela luz da lua que entrava pela janela semi-aberta. Não resisti, acendi a luz cofiando em que ela não despertaria. E Alma não acordou!
Eu pude, meus amigos, ficar ali por pelo menos quinze minutos, diante do leito, contemplando esta escultura viva do mais puro mármore de Carrara. Sua perfeição inacreditável, seus seios pequenos, redondos, parecendo virginais, de bicos cor de rosa, seu ventre de alabastro, de suave curva terminando num montículo de pelos dourados encimando os lábios descobertos e levemente rosados de sua vulva perfeita como uma concha perfumada(eu confesso que a auri com minhas narinas bem perto). Suas pernas compridas, magníficas, ligeiramente abertas expunham esse tesouro, e eu pude ver que estava úmida de agradáveis sonhos, que escorriam cristalinos para os lençóis (jamais os lavarei). Seus pés delicados, estreitos, compridos, de pura seda, com dedos longos e nobres, o segundo mais comprido que o primeiro como o das estátuas gregas. Seus lábios de rosa, entreabertos, suas pálpebras de seda, seus cabelos dourados, luminosos, esparzidos...
Amigos, eu chorava e... não percebia.
A beleza feminina, nesse nível, comove, e eu creio que me nutro dela desde o nosso primeiro encontro.
Alma parece saber disso. Ela sabe, e veio me presentear, agora eu vejo. Veio alimentar de beleza o amigo que lentamente envelhece...
Guilherme de Faria
08/11/2006
Mas, quando Alma Welt se digna a visitar-me, isto é, trazer pessoalmente seus poemas e romances para eu ilustrar e prefaciar, minha solidão se ilumina. Eu renovo meus sonhos por mais muitos meses.
Alma esteve aqui, ontem. Ainda estou embargado. A "guria" está mais bela do que nunca. E como é meiga e carinhosa! Ela chegou no fim da tarde, e depois de um profundo abraço (ah! o abraço perfumado da Alma!) começamos imediatamente a conferir nossas produções (as dela muito superiores e prolíferas) e a fazer planos.
A certa altura Alma pegou o violão e cantou, com sua linda voz macia e sussurrante a composição que a sua nova amiga Kibsel fez para um soneto seu e também a de seu amigo músico, o João Roquer, para um poema seu de verso livre. Coisas lindas!
Ficamos tantas horas conversando e declamando nossos poemas, que ficou tarde e e eu sugeri que ela dormisse aqui. Minha mulher está viajando para Minas e tudo estava muito propício. A guria hesitou, claro, com escrúpulos. Mas exausta aceitou, já que tenho um sumiê no escritório, em que eu poderia dormir, oferecendo-lhe a minha cama.
Vocês, caros leitores do Recanto, já imaginaram a minha tortura. Não preguei o olho a noite toda. Esta mulher magnífica, que já tive o privilégio de ter nos braços há alguns anos atrás, e por um ano inteiro, agora inacessível, por tudo, pelo rumo que a vida tomou...
Levantei-me muitas vezes para ir à cozinha beliscar bolachas doces e beber coca-cola light, para não engordar... ai de mim!
Até que, na alta madrugada, não resisti mais e aproximei-me da porta e abri-a com cuidado, só para observá-la adormecida. Minha alma precisava disso.
Alma estava nua e descoberta (como seu costume no verão) adormecida, eu percebi, pela luz da lua que entrava pela janela semi-aberta. Não resisti, acendi a luz cofiando em que ela não despertaria. E Alma não acordou!
Eu pude, meus amigos, ficar ali por pelo menos quinze minutos, diante do leito, contemplando esta escultura viva do mais puro mármore de Carrara. Sua perfeição inacreditável, seus seios pequenos, redondos, parecendo virginais, de bicos cor de rosa, seu ventre de alabastro, de suave curva terminando num montículo de pelos dourados encimando os lábios descobertos e levemente rosados de sua vulva perfeita como uma concha perfumada(eu confesso que a auri com minhas narinas bem perto). Suas pernas compridas, magníficas, ligeiramente abertas expunham esse tesouro, e eu pude ver que estava úmida de agradáveis sonhos, que escorriam cristalinos para os lençóis (jamais os lavarei). Seus pés delicados, estreitos, compridos, de pura seda, com dedos longos e nobres, o segundo mais comprido que o primeiro como o das estátuas gregas. Seus lábios de rosa, entreabertos, suas pálpebras de seda, seus cabelos dourados, luminosos, esparzidos...
Amigos, eu chorava e... não percebia.
A beleza feminina, nesse nível, comove, e eu creio que me nutro dela desde o nosso primeiro encontro.
Alma parece saber disso. Ela sabe, e veio me presentear, agora eu vejo. Veio alimentar de beleza o amigo que lentamente envelhece...
Guilherme de Faria
08/11/2006
segunda-feira, 7 de abril de 2008
Prefácio aos Contos Pampianos, de Alma Welt, por Guilherme de Faria
Eis aqui uma recolha de contos de Alma Welt, que são propriamente pampianos, isto, é cujas estórias, tramas e pensamentos se originaram no cenário natural, ou “habitat’ desta bela gaúcha, muitos deles referentes a períodos de sua infância e adolescência. Foram pinçados por mim, do conjunto do que ela denominou seus “Contos Secretos”, e alguns, dos chamados “Contos Proibidos de Alma Welt”, estórias que poderiam ser escabrosas, pelo seu teor erótico muito íntimo, contendo pequenas perversões sexuais da autora, que não sabemos realmente se imaginárias ou reais, mas às quais ela consegue tornar atraentes, com a sua candura e liberdade encantadoras. Me refiro aos contos sodomitas, e aos urofílicos. Alma, no entanto, a despeito de suas extremas confissões, ou por isso mesmo, permanece essa figura enigmática, pelo conjunto raro e riquíssimo de dons, a começar pela sua sensibilidade delicada, de mulher-artista, ao mesmo tempo de grande amorosa. Não podemos esquecer de sua condição de poetisa de grande estro lírico, capaz de sonetos primorosos, alguns dos mais belos da nossa língua portuguesa, a meu ver. Vejam por exemplo isto, um soneto quase camoniano pelas oposições e paradoxos como no famoso soneto do mestre (“Amor é chama que arde sem se ver...”), uma bela profissão de fé que se encontra no ciclo narrativo que ela denominou “Sonetos Secretos”:
2
Quando criança, o amor já desejava
E sonhando construía meus enredos;
Tornar-me escritora eu almejava,
Ser poeta e espalhar os meus segredos.
Ser pura, secreta e desbragada:
Confessional pelo mais puro pudor,
Abrir o coração, e, alargada,
Conter o essencial do meu amor:
Aquilo que devora e me conserva
Jovem para sempre enquanto morro
Um pouco a cada dia que percorro.
E assim, da Natureza alegre serva
Manter do coração a chama eterna,
Heróica, ao sol acesa a vã lanterna.
Escolhi transcrever aqui este soneto, para sublinhar a notável auto-consciência de vocação e missão, que emergiu muito cedo nesta guria gaúcha que consegue ser autora e protagonista, criadora e criatura ao mesmo tempo; personagem e construtora de uma obra que se constitui do progressivo registro “secreto e público” de sua vida de amorosa às raias do erótico, e de notável lirismo freqüentemente sáfico. Estamos, a meu ver, diante de um fenômeno raro.
Mas voltemos aos contos deste volume. O amor que a autora dedica à sua terra, o Pampa gaúcho, chega a ser comovente e nos faz lembrar a Cathy Earnshaw (depois Cathy Linton), do “Morro dos Ventos Uivantes” da grande Emily Brönte, cuja paixão por sua charneca parecia superar até mesmo o amor por seu Heathcliff .
Trata-se de uma nobre estirpe essa, de artistas que conseguem cantar o seu cenário, o amor ao seu habitat natural, ao berço, à terra de suas raízes. Lembro-me, por exemplo, o quanto o aspecto mais interessante(sempre achei) da obra de Salvador Dali, a despeito de sua grande imaginação, é justamente o pano de fundo, o cenário de Port-Ligat, de sua Cataluña natal, que isso sim, pode nos comover na sua obra, em que Freud detectou sobretudo “consciente”, enquanto via na grande arte dos renascentistas e clássicos, a verdadeira pulsão inconsciente.
Assim também, comecei a perceber a importância do Pampa, dessa peculiar pradaria, com suas coxilhas e seus ventos (o pampeiro, o minuano e o haragano), e seus mitos fascinantes, na obra desta poetisa, embora isso não seja nada raro nos autores gaúchos, a começar pelo grande Érico Veríssimo. Uma paisagem poderosa como essa, cenário de célebres batalhas revolucionárias e da saga inesquecível de Anita e Giuseppe Garibaldi, paixão também desta nossa Alma, como de todos os gaúchos, escritores ou não. Essa paixão pela terra atinge até mesmo grandiosidade, entretanto, no romance “A Herança” de Alma Welt, que permanece inédito até o momento da escrita deste prefácio.
Todavia, o elemento inquietante, que chega a constituir um “pathos” na obra desta gaúcha, é sem dúvida a conotação sexual de tudo, a avassaladora libido que a move, que ela consegue justificar pela fusão com uma estética amorosa altamente legitimada pelo bom gosto, pela harmonia de sua escrita espontânea, sem rebuscamentos. Curiosamente, para uma mulher, quando sua narrativa esbarra numa situação de sexo, de “transa” como dizemos hoje em dia, ela prefere não se desviar ou simplesmente “sugerir” pudicamente, e detectamo-lhe um verdadeiro prazer na explicitude, na descrição pormenorizada dos lances até mesmo “performáticos” dessas relações. O singular, é que Alma, a despeito do seu próprio prazer quase masturbatório, consegue ser refinada, e talvez por ser pintora, altamente visualizável nestas cenas, mas sem mau gosto ou vulgaridade, conferindo a elas um certo encanto e, portanto, prazer literário e estético no leitor. Congratulo-me com ela, por essa capacidade, pois sempre me irritou, por exemplo, a hipocrisia do cinema americano que parece ter uma verdadeira ojeriza, ou temor pânico, da simples visão dos pêlos púbicos, masculinos e femininos, que eles jamais filmaram frontalmente em toda a história de Hollywood, embora sejam capazes de sugerir violentos estupros, frontais ou traseiros. Para mim, como para Alma Welt, chega a ser um mistério essa idiossincrasia dos americanos quanto aos pubic hair, os maravilhosos “pentelhos” que gostamos de exprimir assim, com ligeira vulgaridade desafiadora. A propósito, a própria Alma já se referiu, nalgum lugar de sua obra, aos seus próprios “pentelhos louros’’, creio que no magnífico conto “A Harpia”, do seu “Contos da Alma”, já publicado. Mas é fácil explicar esse timbre específico das cenas de sexo explícito na literatura de Alma Welt. Trata-se da absoluta falta de sentimento de culpa, portanto de malícia em relação ao sexo, que parece ser uma detestável herança judaico-cristã, que Alma não contém em sua alma, que me parece ser a da última “pagã” sobre a terra, desde que seu pai assim a criou, a despeito da mãe da guria, que era descendente açoriana e católica.
Mas voltando aos contos deste volume, uma delicadeza feminina num universo muito mais amplo que o que se convencionou chamar de feminino, se faz presente nesta autora, que nos parece, antes mesmo de ser mulher, ser artista e portanto universal por definição. Suas preocupações nunca são propriamente “domésticas ou maternais”, e muito menos “cosméticas”. Ela aborda a força do apelo da terra, de suas raízes telúricas, o amor cotidiano por sua própria arte, fruto de sua visão altamente poética da vida, e um tanto idealista também, derivando, suponho, do próprio “idealismo alemão” de sua herança cultural por via da estirpe paterna dos Welt, que apropriadamente simboliza o Mundo. Quanto à vertente materna, temos de Portugal e sua saudade, uma melancolia intermitente,e mais raramente algumas paixões dolorosas como os seus fados (vide o conto “Aline”, dos “Contos da Alma”). Não podemos, entretanto, esquecer que a descrição mais dolorosa de uma paixão infeliz jamais escrita na história da literatura, se encontra num livro exemplar do romantismo alemão, o maravilhoso e doentio “Os sofrimentos do jovem Werther”, de Goethe.
No entanto, e nisso consiste o fenômeno, dum modo geral a nossa autora é uma mulher alegre e feliz, possuidora até mesmo de um sutil senso de humor que aparece aqui e ali nos seu textos, que já foram compilados por mim, com sua autorização, é claro, num volume que denominamos justamente “Contos Humorísticos da Alma”.
Por ora, esta específica recolha contém os contos que se passam na “estância” pampiana da família, e mais raramente, no casarão natal de Alma em Novo Hamburgo onde Alma viveu até os nove anos, quando então mudou-se com os pais para a fazenda dos avós, no extremo sul, quase na fronteira com o Uruguai, entre Alegrete e Santana do Livramento. O cenário maravilhoso é visualizável nas rápidas pinceladas do texto sugestivo de Alma, como boa pintora-escritora. A propósito, parece existir um absurdo preconceito (como todos os preconceitos ) em nosso país, sobre pintores-escritores, ou escritores-pintores. O público parece não saber que são artes muito afins e que essa conjunção é muito mais comum na história das artes do que se pensa. Não cabe citar aqui a centena de exemplos célebres que me ocupei em colecionar por puro prazer. Na falarei sequer do grande William Blake, autor do célebre poema “The Tyger”, dos mais amados da literatura inglesa, exemplo clássico de poeta, gravador e aquarelista fenomenal e sui generis. Só quero citar no momento uma das belas páginas de pura literatura mágica, no único romance de Salvador Dalí, denominado “Faces Ocultas”, onde ele descreve magistralmente uma máscara ortopédica de couro, de reconstrução facial, sobre um rosto de piloto, destruído por um desastre aéreo, na primeira guerra, com suas primorosas costuras e cadarços, produzindo no leitor um prazer estético e literário indelével. Poucas vezes vi páginas assim tão bem escritas em qualquer escritor. Citarei, somente mais um exemplo: as páginas magistrais de descrição de uma súbita chuva à saída de uma festa, no começo do grande romance “O Amor nos Tempos do Cólera”, de Gabriel Garcia Marques, onde os convivas abrem seus guarda-chuvas protegendo seus pares numa espécie de coreografia cinematográfica de um verdadeiro Kurosawa latino e literário.
Quanto à Alma, já detectei páginas assim, magistrais, em sua prosa. São inúmeras, mas quero mencionar, deste volume, a página de diálogo da Alma com o padre fanático, no confessionário, no conto “O padre”; também a página final do conto “O adolescente”, bem como as do conto “A professora belga”, dos “Contos Secretos”, que me parece maravilhosamente hoffmaniano. Devo também frisar a persistência recorrente de sua paixão maior, confessada, ou melhor, cantada e celebrada, por seu próprio irmão Rôdo, paixão essa de caráter evidentemente incestuoso, da qual Alma não se compunge e parece mesmo se orgulhar. O amor de Alma por seu irmão, cantado assim por ela, chega a se universalizar, pela beleza de seu respaldo lírico, mais do que psicanalítico.
Prosseguindo, eu poderia citar inúmeros momentos de perfeição formal, nas páginas de Alma Welt. Mas serei eu suspeito? Eu me orgulho, como muitos já sabem, de ser o descobridor da obra da “guria”, e o nosso encontro providencial foi descrito por ela no conto “Anagramas”, que publiquei de forma artesanal, em folheto ilustrado por mim, conto criptológico e anagramático verdadeiramente iniciático, e que sugere a natureza misteriosa e providencial do nosso encontro, já no século XVII. Mas vou deixar essas referências para o leitor descobrir na leitura direta da própria Alma. É ela a “star”, cabe a ela as honras. E os holofotes.
Venha, Alma, mostre-se para nós, passeie e dispa-se para nós, no seu jardim, no pomar e nas pradarias do seu amado pampa. Dê-nos a sua branca beleza loura, austral ou nórdica, desnude-se, cavalgue, dance, pinte e ame, ofertando-nos sua intimidade com tanta generosidade, para nós fruirmos... e voltarmos a reverenciar o belo, o puro e o melhor do humano.
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30/10/2005
2
Quando criança, o amor já desejava
E sonhando construía meus enredos;
Tornar-me escritora eu almejava,
Ser poeta e espalhar os meus segredos.
Ser pura, secreta e desbragada:
Confessional pelo mais puro pudor,
Abrir o coração, e, alargada,
Conter o essencial do meu amor:
Aquilo que devora e me conserva
Jovem para sempre enquanto morro
Um pouco a cada dia que percorro.
E assim, da Natureza alegre serva
Manter do coração a chama eterna,
Heróica, ao sol acesa a vã lanterna.
Escolhi transcrever aqui este soneto, para sublinhar a notável auto-consciência de vocação e missão, que emergiu muito cedo nesta guria gaúcha que consegue ser autora e protagonista, criadora e criatura ao mesmo tempo; personagem e construtora de uma obra que se constitui do progressivo registro “secreto e público” de sua vida de amorosa às raias do erótico, e de notável lirismo freqüentemente sáfico. Estamos, a meu ver, diante de um fenômeno raro.
Mas voltemos aos contos deste volume. O amor que a autora dedica à sua terra, o Pampa gaúcho, chega a ser comovente e nos faz lembrar a Cathy Earnshaw (depois Cathy Linton), do “Morro dos Ventos Uivantes” da grande Emily Brönte, cuja paixão por sua charneca parecia superar até mesmo o amor por seu Heathcliff .
Trata-se de uma nobre estirpe essa, de artistas que conseguem cantar o seu cenário, o amor ao seu habitat natural, ao berço, à terra de suas raízes. Lembro-me, por exemplo, o quanto o aspecto mais interessante(sempre achei) da obra de Salvador Dali, a despeito de sua grande imaginação, é justamente o pano de fundo, o cenário de Port-Ligat, de sua Cataluña natal, que isso sim, pode nos comover na sua obra, em que Freud detectou sobretudo “consciente”, enquanto via na grande arte dos renascentistas e clássicos, a verdadeira pulsão inconsciente.
Assim também, comecei a perceber a importância do Pampa, dessa peculiar pradaria, com suas coxilhas e seus ventos (o pampeiro, o minuano e o haragano), e seus mitos fascinantes, na obra desta poetisa, embora isso não seja nada raro nos autores gaúchos, a começar pelo grande Érico Veríssimo. Uma paisagem poderosa como essa, cenário de célebres batalhas revolucionárias e da saga inesquecível de Anita e Giuseppe Garibaldi, paixão também desta nossa Alma, como de todos os gaúchos, escritores ou não. Essa paixão pela terra atinge até mesmo grandiosidade, entretanto, no romance “A Herança” de Alma Welt, que permanece inédito até o momento da escrita deste prefácio.
Todavia, o elemento inquietante, que chega a constituir um “pathos” na obra desta gaúcha, é sem dúvida a conotação sexual de tudo, a avassaladora libido que a move, que ela consegue justificar pela fusão com uma estética amorosa altamente legitimada pelo bom gosto, pela harmonia de sua escrita espontânea, sem rebuscamentos. Curiosamente, para uma mulher, quando sua narrativa esbarra numa situação de sexo, de “transa” como dizemos hoje em dia, ela prefere não se desviar ou simplesmente “sugerir” pudicamente, e detectamo-lhe um verdadeiro prazer na explicitude, na descrição pormenorizada dos lances até mesmo “performáticos” dessas relações. O singular, é que Alma, a despeito do seu próprio prazer quase masturbatório, consegue ser refinada, e talvez por ser pintora, altamente visualizável nestas cenas, mas sem mau gosto ou vulgaridade, conferindo a elas um certo encanto e, portanto, prazer literário e estético no leitor. Congratulo-me com ela, por essa capacidade, pois sempre me irritou, por exemplo, a hipocrisia do cinema americano que parece ter uma verdadeira ojeriza, ou temor pânico, da simples visão dos pêlos púbicos, masculinos e femininos, que eles jamais filmaram frontalmente em toda a história de Hollywood, embora sejam capazes de sugerir violentos estupros, frontais ou traseiros. Para mim, como para Alma Welt, chega a ser um mistério essa idiossincrasia dos americanos quanto aos pubic hair, os maravilhosos “pentelhos” que gostamos de exprimir assim, com ligeira vulgaridade desafiadora. A propósito, a própria Alma já se referiu, nalgum lugar de sua obra, aos seus próprios “pentelhos louros’’, creio que no magnífico conto “A Harpia”, do seu “Contos da Alma”, já publicado. Mas é fácil explicar esse timbre específico das cenas de sexo explícito na literatura de Alma Welt. Trata-se da absoluta falta de sentimento de culpa, portanto de malícia em relação ao sexo, que parece ser uma detestável herança judaico-cristã, que Alma não contém em sua alma, que me parece ser a da última “pagã” sobre a terra, desde que seu pai assim a criou, a despeito da mãe da guria, que era descendente açoriana e católica.
Mas voltando aos contos deste volume, uma delicadeza feminina num universo muito mais amplo que o que se convencionou chamar de feminino, se faz presente nesta autora, que nos parece, antes mesmo de ser mulher, ser artista e portanto universal por definição. Suas preocupações nunca são propriamente “domésticas ou maternais”, e muito menos “cosméticas”. Ela aborda a força do apelo da terra, de suas raízes telúricas, o amor cotidiano por sua própria arte, fruto de sua visão altamente poética da vida, e um tanto idealista também, derivando, suponho, do próprio “idealismo alemão” de sua herança cultural por via da estirpe paterna dos Welt, que apropriadamente simboliza o Mundo. Quanto à vertente materna, temos de Portugal e sua saudade, uma melancolia intermitente,e mais raramente algumas paixões dolorosas como os seus fados (vide o conto “Aline”, dos “Contos da Alma”). Não podemos, entretanto, esquecer que a descrição mais dolorosa de uma paixão infeliz jamais escrita na história da literatura, se encontra num livro exemplar do romantismo alemão, o maravilhoso e doentio “Os sofrimentos do jovem Werther”, de Goethe.
No entanto, e nisso consiste o fenômeno, dum modo geral a nossa autora é uma mulher alegre e feliz, possuidora até mesmo de um sutil senso de humor que aparece aqui e ali nos seu textos, que já foram compilados por mim, com sua autorização, é claro, num volume que denominamos justamente “Contos Humorísticos da Alma”.
Por ora, esta específica recolha contém os contos que se passam na “estância” pampiana da família, e mais raramente, no casarão natal de Alma em Novo Hamburgo onde Alma viveu até os nove anos, quando então mudou-se com os pais para a fazenda dos avós, no extremo sul, quase na fronteira com o Uruguai, entre Alegrete e Santana do Livramento. O cenário maravilhoso é visualizável nas rápidas pinceladas do texto sugestivo de Alma, como boa pintora-escritora. A propósito, parece existir um absurdo preconceito (como todos os preconceitos ) em nosso país, sobre pintores-escritores, ou escritores-pintores. O público parece não saber que são artes muito afins e que essa conjunção é muito mais comum na história das artes do que se pensa. Não cabe citar aqui a centena de exemplos célebres que me ocupei em colecionar por puro prazer. Na falarei sequer do grande William Blake, autor do célebre poema “The Tyger”, dos mais amados da literatura inglesa, exemplo clássico de poeta, gravador e aquarelista fenomenal e sui generis. Só quero citar no momento uma das belas páginas de pura literatura mágica, no único romance de Salvador Dalí, denominado “Faces Ocultas”, onde ele descreve magistralmente uma máscara ortopédica de couro, de reconstrução facial, sobre um rosto de piloto, destruído por um desastre aéreo, na primeira guerra, com suas primorosas costuras e cadarços, produzindo no leitor um prazer estético e literário indelével. Poucas vezes vi páginas assim tão bem escritas em qualquer escritor. Citarei, somente mais um exemplo: as páginas magistrais de descrição de uma súbita chuva à saída de uma festa, no começo do grande romance “O Amor nos Tempos do Cólera”, de Gabriel Garcia Marques, onde os convivas abrem seus guarda-chuvas protegendo seus pares numa espécie de coreografia cinematográfica de um verdadeiro Kurosawa latino e literário.
Quanto à Alma, já detectei páginas assim, magistrais, em sua prosa. São inúmeras, mas quero mencionar, deste volume, a página de diálogo da Alma com o padre fanático, no confessionário, no conto “O padre”; também a página final do conto “O adolescente”, bem como as do conto “A professora belga”, dos “Contos Secretos”, que me parece maravilhosamente hoffmaniano. Devo também frisar a persistência recorrente de sua paixão maior, confessada, ou melhor, cantada e celebrada, por seu próprio irmão Rôdo, paixão essa de caráter evidentemente incestuoso, da qual Alma não se compunge e parece mesmo se orgulhar. O amor de Alma por seu irmão, cantado assim por ela, chega a se universalizar, pela beleza de seu respaldo lírico, mais do que psicanalítico.
Prosseguindo, eu poderia citar inúmeros momentos de perfeição formal, nas páginas de Alma Welt. Mas serei eu suspeito? Eu me orgulho, como muitos já sabem, de ser o descobridor da obra da “guria”, e o nosso encontro providencial foi descrito por ela no conto “Anagramas”, que publiquei de forma artesanal, em folheto ilustrado por mim, conto criptológico e anagramático verdadeiramente iniciático, e que sugere a natureza misteriosa e providencial do nosso encontro, já no século XVII. Mas vou deixar essas referências para o leitor descobrir na leitura direta da própria Alma. É ela a “star”, cabe a ela as honras. E os holofotes.
Venha, Alma, mostre-se para nós, passeie e dispa-se para nós, no seu jardim, no pomar e nas pradarias do seu amado pampa. Dê-nos a sua branca beleza loura, austral ou nórdica, desnude-se, cavalgue, dance, pinte e ame, ofertando-nos sua intimidade com tanta generosidade, para nós fruirmos... e voltarmos a reverenciar o belo, o puro e o melhor do humano.
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30/10/2005
quarta-feira, 26 de março de 2008
Próxima apresentação da Banda Risses

Próxima apresentação da Banda Risses, no Clube Teodoro, na rua Teodoro Sampaio, nesta sexta feira, a partir das 21:30 horas. Entrada apenas R$5,00. A Banda Risses, através de seu compositor e vocalista João Roquer, vem musicando poemas da Alma e incluiu a canção "Quisera um jardim" ( J.Roquer- A.Welt) na abertura do seu show TERRA DESCONHECIDA.
sábado, 15 de março de 2008
Entrevista com ALMA WELT
CAFÉ LITERÁRIO entrevista a poetisa e musa gaúcha
Nosso repórter, escalado para entrevistar esse novo fenômeno da nossa literatura, a contista e poeta (além de pintora), Alma Welt, gaúcha radicada em São Paulo, voltou com um ar meio siderado, quase em estado de choque, e adentrou a nossa redação com um sugestivo assobio. Contou-nos que foi difícil, a princípio, deslanchar a entrevista, pois a beleza da moça é, no mínimo, perturbadora. Descreveu-nos uma mulher de 28 anos, alta, muito branca, loura “luminosamente” natural, “rasgados” olhos verdes. A perfeição de sua pele, sem uma única mancha ou sinal, despertou no nosso pobre repórter aquela comparação em desuso: “pele de alabastro”. Além disso, a boca da moça, seus lábios cheios na medida certa (há uma medida?) eram de uma beleza “hipnótica”, como seus olhos verdes (de gata?). Tivemos que calar o entusiasmo do nosso repórter, exigindo dele, logo, a entrevista por escrito. Suspeitamos que o infeliz está irremediavelmente apaixonado. Tivemos que mandá-lo pra casa mais cedo, pra tomar um banho frio. Mas vamos ao que interessa. A entrevista:
CL: Alma, posso chamá-la assim ? É o seu verdadeiro nome, estou certo? Lendo seus livros temos a impressão de ser um pseudônimo, de tão adequado ao seu conteúdo. Welt ( mundo, em alemão) nos remete ao Anima Mundi, de Jung. O que você tem a dizer sobre isso?
ALMA: Meu pai já era um admirador de Jung, desde sua juventude, e é possível que tenha pensado nele ao batizar-me com este nome, já que o nome de família é Welt. Meu pai esperava muito de mim, não sei bem porquê, já que sou a caçula apenas das mulheres. Tenho duas irmãs mais velhas e um irmão dois anos mais moço, Rodolfo (Rodo), que é o que mais aprecio, embora seja bem diferente de mim.
CL: Percebe-se isso no seu conto “O Testamento”, aliás, belíssimo. Mas a personalidade do rapaz parece apenas esboçada nesse conto. Para dizer a verdade, uma espécie de Dimítri Karamázov, muito sintetizado. É intencional essa analogia não explícita? Pois a sua própria figura, Alma, no conto nos remete ao irmão caçula Aliocha, enquanto o seu Monsenhor Ângelo é nitidamente o stáriets Zósima. Estou certo?
ALMA: Sim, sim. É possível. Mas foi um processo inconsciente. Não pensei nisso quando escrevi o conto. Talvez as semelhanças sejam devidas à estrutura arquetípica da própria estória e dos tipos humanos que a compõe. Quando se escreve assim como eu, num fluxo espontâneo e contínuo de inspiração, ocorre que os personagens, naturalmente, ocupam posições demarcadas, como peças num tabuleiro invisível existente na vida. Daí, também associarem meus contos à psicologia junguiana, que conheço pouco.
CL: Alma, no entanto é notável, na sua maneira de escrever, a presença de uma cultura livresca, assimilada. E surpreendentemente, da natureza clássica dessa cultura. Como você a adquiriu? Você é uma grande leitora?
ALMA: Bem, eu li alguns clássicos. Não foram tantos assim, mas os li bem. Posso dizer que conheço bem a Ilíada e a Odisséia de Homero, mas por traduções, é claro, além dos líricos gregos de Safo a Píndaro. Conheço a literatura de Dostoiéwski e de Edgar Allan Poe, além de Hoffmann, meus preferidos. Mas não cabe aqui citar todos os autores que li. Meu pai era um grande leitor. Um erudito. E tinha uma grande biblioteca em nossa casa, na estância. Aliás, essa biblioteca ainda existe, como tudo o mais em nossa casa, que permanece como ele a deixou, de uma maneira um pouco mórbida, na verdade.
CL: A propósito, Alma, nota-se uma grande nostalgia da casa paterna em certos poemas seus, que me lembram o tom leopardiano do “Vaghe stelle dell’Orsa”...sul paterno giardino scintillanti”.
ALMA: Sim, sim, é bastante arguta essa tua ilação. Realmente, eu mesma pensei nisso a posteriori.
CL: Seria Leopardi, também, uma das suas influências literárias?
ALMA: É possível. Mas não estou preocupada. Sempre se sofre influências da grande arte ao nosso redor. Mas creio que o importante é o timbre e o teor da assimilação dessas influências. Eu amo a literatura, bem como a Pintura e a Música clássicas, e vivo imersa num mar de referências que me sufocaria se não estivessem naturalmente digeridas. Elas me perspassam como os raios de sol atravessam a atmosfera, agindo sobre ela e aquecendo-a. Desculpa-me a imagem um tanto pretensiosa...
CL: Não, Alma, está perfeitamente expressa. Concordo com você . Percebe-se essa assimilação perfeita de sua herança cultural. Você não parece pedante em sua literatura, mesmo quando cita autores famosos como Nietzsche, por exemplo. Aliás, percebe-se que você o leu bastante, ou gosta muito dele. É certo isso? Fale-me da “alegria mais profunda que a dor”.
ALMA: Sim, devo reconhecer que Nietzsche me impressionou muito. Já era um preferido do meu pai., talvez por sua ascendência germânica. Tu notaste a aposta que faço na profundidade da alegria, que é o aspecto mais simpático de sua doutrina. Mas nada de super-homem, nem de “vontade de potência”. Essas coisas são perigosas, embora deva reconhecer que foram distorcidas em seu propósito inicial, pelos nazistas com a colaboração da irmã dele, Elisabeth. Meu pai me falava sobre isso. Devo frisar aqui que meu pai era aristocrático mas não nazista. Aliás, ele tinha horror ao nazi-fascismo, o que já não se pode dizer de seus pais, meus avós. Mas a leitura de Dostoiévski me despertou a simpatia pelos pobres, humilhados e ofendidos, e fui procurá-los também na literatura brasileira e os encontrei em Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, que li bastante. Aliás devo dizer, que também para mim, como para muita gente, o Grande Sertão: Veredas é o maior livro do mundo, junto com os Irmãos Karamásovi.
CL: É curioso, Alma, isso tudo vindo de uma escritora com apenas 28 anos. Você não é muito contemporânea, você sabia? E além disso, você acaba de dizer, em outras palavras, que conhece o povo e sua miséria através da literatura, quando basta olhar em torno, neste nosso país, para depararmos com a pobreza e seus horrores. O que você me diz disso?
ALMA: Tu não poderias esperar de mim que me metesse na periferia para conhecer o povo, mas andei na caatinga nordestina, e narrei isso num conto: “Na trilha dos menestréis”. E você deve levar em consideração a intuição do artista. Um poeta ou escritor não precisa ter estado na África para descrevê-la e contar maravilhosas aventuras passadas em seus desertos ou em suas savanas. Há grandes exemplos disso. Meu pai, quando criança, lia os contos de um escritor alemão provinciano que nunca saiu de sua aldeia na Bavária, e escrevia, antes da Segunda guerra, best-sellers populares ambientados no Far-West americano, estórias vívidas e verossímeis de índios pele-vermelhas e cowboys, que eram exportadas até para os Estados Unidos. Os americanos as adoravam. Poderia, também, citar o famoso poema de Emily Dickinson: I never saw a moor...( eu nunca vi uma charneca )... (bem posso imaginá-la).
CL: Mas, Alma, não quero que pareça uma crítica, que, afinal, não é minha função, mas você não usa o povo brasileiro, como material, ou mesmo pano de fundo, a não ser num ou dois contos seus, no “Meu pequeno vizinho”, lindo conto, e singelo, parecendo uma crônica, e no belíssimo “Na Trilha dos Menestréis” O seu Jeová, o negro do conto “A Harpia”, a meu ver a sua obra prima, é um tanto idealizado, embora se perceba que isso é intencional, dado o caráter simbólico do personagem, dentro de um conto que é, todo ele, uma magnífica alegoria. Mas, mesmo naqueles, você não focaliza propriamente a pobreza, a privação, e a injustiça da nossa monstruosa distribuição de renda.
ALMA: Realmente, CL, mas parece-me que tu estás me cobrando uma tomada de posição política, quando já fiz, há muito tempo, minha opção por uma tomada de posição filosófica. Estou interessada, sobretudo em temas psicológicos e essenciais da condição humana, como bem disse o meu prefaciador, o pintor e poeta Guilherme de Faria. Ele, nesse prefácio, enumera esses temas, segundo a sua visão bastante arguta.
CL: Mas, Alma, conte-nos, então, como você foi descoberta por um pintor famoso, que, recentemente, revelou-se poeta de cordel. Como você conheceu o Guilherme de Faria?
ALMA: Ah! Isso foi um encontro providencial, que contei no meu conto “Anagramas”. Ele é um amigo da grande gravadora Renina Katz que conheci um pouco antes e da qual fiz o primeiro anagrama.
CL: Sim, Alma, aquele espantoso anagrama em que aparece toda uma teogonia órfica. Admirável e instigante, lembro-me dele. Mas, continue.
ALMa: Pois é , Guilherme tendo tomado conhecimento através da Renina, do anagrama dela, feito por mim, e tendo tido um sonho enigmático, a princípio, procurou-me para que eu o ajudasse a desvendar esse sonho. Fiz o seu anagrama, que, afinal, foram cinco anagramas completos, que decifrados, explicaram o significado do seu sonho de maneira surpreendente até para mim. A partir disso tornamo-nos amigos.
CL: Perdoe-me a indiscrição, Alma, mas apenas amigos? O seu conto sugere muito mais, não é verdade? Não terá sido o começo de uma paixão?
ALMA: Realmente, não posso negar, mas prefiro não falar disso.
CL: Mas, Alma, eu insisto: você está apaixonada?
ALMA: Pode-se dizer que sim. Estou feliz. Ele é um homem maravilhoso, e um artista famoso, que tem apenas uma parcela de sua imensa obra conhecida do público. Além disso ele é um fantástico poeta de cordel, que escreve estórias profundas sobre o pano de fundo da caatinga nordestina, com espantosa autenticidade, visto não ser nordestino e nem sequer ter ascendentes nordestinos. Ele é paulista de 400 anos. O que mais uma vez comprova aquela tese da intuição do artista.
CL: Sim, estou disposto a concordar com você, Alma. E também a marcar uma entrevista com o Guilherme. Mas previno-a que farei perguntas indiscretas a ele, sobre você. Aceita?
ALMA ( rindo, e que bela risada ): Sim, CL, aceito. Sei que ele só dirá coisas bonitas a meu respeito.
CL: Quando você deu essa risada, agora, lembrei-me da gargalhada da Greta Garbo na Dama das Camélias, acompanhada de um glissando do piano que alguém tocava nessa cena (quando ela disse: “Pode ser o grande amor da minha vida! ) Você certamente viu esse filme...
ALMA: Sim, e lisonjeia-me a tua comparação. Nunca tinha pensado em ter qualquer semelhança com ela.
CL: Sim, Alma, há, e impressionante. Não que vocês se pareçam fisicamente. Ma, o timbre de suas feminilidades, e a presença. Bem, não quero encabulá-la.
ALMA: Obrigada, CL. Tu és gentil. Mas, longe de mim...
CL: Vamos então, mudar de assunto. Você reparou que nenhuma vez você cita a televisão ou sequer um aparelho desses nos seus contos? Não é insólita essa omissão, numa época como a nossa?
ALMA: Não, não mesmo. Como disse, estou interessada no essencial. Mas, infelizmente, não é verdade que eu não cite a televisão nenhuma vez. Citei-a, uma única vez, até agora, no conto “O Violino de Mozart” onde a personagem (eu mesma) vê o seu amado Gino numa entrevista na televisão. Mas eu poderia passar sem essa. Seria até mais interessante a omissão total desse veículo, como para tornar os meus contos mais atemporais. Além disso, a televisão já é suficientemente falada e discutida.
CL: Mas, Alma, sejamos sinceros, se a Globo, por exemplo, quisesse um texto seu para um caso especial, ou para o Brava Gente, você não aceitaria?
ALMA: Aceitaria, claro. Nenhum momento fiz qualquer crítica a essa mídia, e eu mesma já derramei muitas lágrimas com algumas novelas ou mini-séries. A sua versão do Grande Sertão: Veredas em mini-série foi admirável. Bem com O Primo Basílio e Os Maias. Gostei muito, também, das versões para a televisão das peças do grande Ariano Suassuna: O Auto da Compadecida e A Mulher Vestida de Sol. Foram primorosas e endossadas pelo próprio autor, segundo se soube.
CL: Então, Alma, mudemos mais uma vez de assunto. Já que você tem opiniões bem definidas sobre tudo, ou quase tudo. Estou enganado?
ALMA (rindo): Não estás enganado. Quando se tem uma visão do mundo, os detalhes técnicos, podem às vezes não importar. Se tu me perguntares sobre petróleo, vou logo dizendo que emporcalhou o mundo, e não adiantará tu me falares nos grandes interesses das grandes companhias e a relação desses interesses com a economia mundial. Trata-se a meu ver, de um combustível obsoleto e poluidor, que poderia há muito tempo ter sido substituído pelo hidrogênio, retirado da água do mar, fonte inesgotável, ou ainda pela energia elétrica através de baterias giroscópicas. Bastava para isso, vontade política, ou mesmo uma superação da chamada estupidez humana.
CL: Alma, você agora me surpreendeu. Então você tem opiniões técnicas e políticas, ou pelo menos ecológicas. Vejo que por aí há um veio a ser explorado.
ALMA: Não, prefiro que não, se tu não te importares. Sinto-me quase infantil quando falo dessas coisas. Sou apenas teórica e um tanto idealista nesse campo, e não gosto me sentir assim, já que não atuo de maneira prática nessa área. Sou apenas uma artista: pintora e poetisa.
CL: Sim, Alma, você é uma das últimas a aceitar esse epíteto: “poetisa”, que soa como uma coisa antiga, da época das “diseuses” e de Florbela Spanca, ou mais tardar de Cecília Meirelles, com quem, aliás, a sua poesia tem um visível parentesco. Você as aprecia?
ALMA: Sim, muito. Florbela Spanca especialmente, pela intensidade de sua paixão. Mas ela tem um tom mórbido e ressentido contra a vida, com o qual não me identifico. Ela me soa como uma mulher apaixonada e delirante, mas infeliz. Enquanto que eu sou apaixonada e feliz, apesar de algumas quedas, acidentes de percurso. Mas até hoje sempre subi, sempre saí do buraco, para alcançar novamente a alegria, sem a qual não poderia viver.
CL: Sabe, Alma, esse é o aspecto que mais me impressionou no seus contos e nos seus poemas. Essa aposta na alegria. Confesso que antes de conhecer a sua obra, eu não acreditava que a alegria desse muito assunto. Acreditava naquele axioma: “os povos felizes não têm história”. Mas você me fez ver uma certa profundidade e riqueza na alegria e na felicidade, e entender aquele verso de Nietzsche que você cita; “ a alegria é mais profunda que a dor”. Devo agradecer a você por isso. Mas ainda tenho a curiosidade de saber , como uma moça tão sensível como você, a julgar pelos seus textos, e mesmo pela sua pintura, pode ser feliz num mundo como o nosso. Percebe-se nos seus contos que você derrama lágrimas a torto e à direito, que você é muito chorona. Estou certo?
ALMA(sorrindo): Sim, é verdade. Derramo lágrimas com facilidade, mas se você reparar bem, quase sempre por comoção com a beleza, com o amor , com a arte. Lágrimas de felicidade, na maioria das vezes. Um sentimento do mundo que inclui, em mim, uma aposta na beleza e na grandeza do Homem. Não sou uma pessimista, e me comovo positivamente com o ser humano. E convivo intensamente com os deuses.
CL: Sim, Alma, é espantoso, nos seus textos como você parece conviver com eles, dentro de você, embora de maneira psicanalítica, como é possível na nossa época. Mas percebe-se que você se relaciona de maneira perturbadora, para você mesma, com suas supostas encarnações passadas, às quais você parece temer ou reagir, o que aumenta o mistério e o suspense de alguns contos como aquela maravilhosa “ Trilogia de Adèle”. Será isso uma técnica literária para fisgar o leitor? eu me pergunto.
ALMA: Se isso é uma pergunta, só posso lhe dizer, que sou absolutamente sincera, na minha arte. E sobretudo expontânea. Meu texto é fluente, nada premeditado, e penso que por isso posso incorrer freqüentemente numa certa ingenuidade. Não descarto essa possibilidade, disso que o meu prefaciador , o Guilherme chamou de “candura”. Mas, que eu saiba, ela é uma virtude, como ele muito bem colocou. Não devo me envergonhar dela, mesmo sendo uma escritora, não é mesmo?
CL: Bem, queria agora mudar o rumo da nossa conversa para abordar um aspecto que me intriga em sua literatura: o caráter sensual e mesmo erótico, freqüentemente explícito de alguns contos e poemas seus. Quero comentá-los porque eles me agradam. Vejo em você, sob este aspecto, uma alma pagã, bastante livre no domínio sexual, embora assombrada por outros espectros, como a sombra do mal, difusa, e a presença de encarnações passadas, nem sempre bem recebidas, e sim temidas.
ALMA: Surpreende-me essa tua captação tão arguta de um aspecto tão íntimo da minha natureza literária (e pessoal também, claro). E já que tu queres falar disso, posso apenas dizer que essa liberdade, mais do que assumida, é inerente à minha natureza, de maneira instintiva, desde a minha infância, para escândalo da minha mãe, que quis de todo modo reprimi-la, sem conseguir, claro. Eu falo sobre isso no meu conto “As Férias da Infância da Alma”, dos Novos Contos. Devo dizer que gosto muito do erotismo e considero que ainda não me dediquei a ele, verdadeiramente, na literatura. É possível que eu ainda escreva um livro de contos realmente erótico.
CL: Como Anaïs Nin, por exemplo? Você leu o seu “Delta de Vênus”?
ALMA: Sim, mas achei insatisfatório. O meu livro será mais explícito e escabroso, espero.
CL: Puxa, estou curioso e ansioso para lê-lo (risos). Mas diga-me, Alma, você leu o Marquês de Sade? Você o cita, num certo conto, mas de maneira sumária e genérica.
ALMA: Sim, eu li o Marquês. Mas o seu “120 Dias de Sodoma” eu joguei fora. Aquilo era sórdido demais e me chocou. Quanto aos outros livros como Justine, Filosofia da Alcova, O Marido Complacente, etc, apreciei certos aspectos. Mas realmente, não é o meu favorito. Prefiro, por exemplo Choderlos de Laclos, do “Ligações Perigosas”.
CL: E Henry Miller, você o leu?
ALMA: Sim, e gosto muito dele, mas não justamente das suas descrições eróticas que são muito grosseiras com a figura da mulher. Compreendo a revolta de June, contada por Anaïs Nin no seu maravilhoso Diário. June, aquela linda mulher queria, e merecia ser verdadeiramente tratada como musa, e Henry se recusava a isso. E ele suspeitava que ela se prostituíra para arranjar-lhe o dinheiro da viagem para a França. Ora, isso não importava, ou fazia dela, no mínimo uma espécie de “prostituta santa”, que ele não soube apreciar. Era um terrível machista, no fundo. Já Anaïs, sim, soube apreciar o mistério da beleza tão grande daquela mulher, a ponto de apaixonar-se por ela, de maneira mais profunda e sensível do que ele. Mas parece que ela acabou também rejeitada pela June, depois de um breve caso entre as duas, interrompendo uma maravilhosa cena de cama.
CL: Alma, a propósito, você escreveu um livro de poemas sáficos, como você diz, o “Narcísicas”, de surpreendente lirismo para os nossos tempos. Soa na verdade, como uma poetisa grega antiga, dos tempos da musa de Mitilene. E depois, o seu livro de Sonetos repete a descrição dessa paixão, mas de outra forma, aliás muito interessante, pela progressão da estória através da seqüência
dos sonetos. Eu pergunto: essa estória é real? Aconteceu com você? Aline existe?
ALMA: Não gostaria de falar sobre isso, mais do que já falei na própria poesia, nas Narcísicas, e nos Sonetos. Foi um caso muito doloroso, mas que eu contarei também num conto, que aliás, já estou escrevendo.
CL: Mas, Alma, seus leitores vão querer saber um pouco mais, desde já, sobre essa misteriosa Aline. Você não poderia comentar alguma coisa sobre ela?
ALMA: Já que tu insistes, direi apenas que esse caso quase me derrubou. Entreguei-me demais a esse amor, como os leitores poderão perceber nos meus poemas, e isso quase me foi fatal. Ela retirou-se, subitamente, da minha vida, o que me tirou o chão e o alento. Desci muito fundo, no inferno da alma, e tive que fazer um esforço muito grande para subir. Mas não renego nada. Saí afinal mais fortalecida , ou pelo menos calejada.
CL: Alma, essa sua experiência rendeu belíssimos versos de amor, de um lirismo incomum na poesia contemporânea, a meu ver. Confesso que disputei esta entrevista, justamente pela admiração que esses versos me causaram.
ALMA: Fico gratificada e comovida com isso. Mas se penso novamente nesse caso e nesses versos ponho-me a chorar. Vamos mudar de assunto, sim?
CL: Está bem, que pena... Eu poderia perguntar-lhe ainda tanta coisa, mas nosso espaço está chegando ao fim. Fale-me daquele insólito livro de poemas
“Amar Humores”. Como você o concebeu?
ALMA: Bem, o que tu queres realmente saber? A minha motivação? O humor misturado ao erotismo, de uma ótica feminina, claro. E satirizando, às vezes, a ótica masculina. É um alvo talvez um pouco difícil, e posso não ter conseguido. Mas é um texto espontâneo como todos os meus textos. Confio muito no que jorra da minha intuição. E aquilo sou eu, como, aliás, todos os meus poemas, contos e pinturas. Só posso falar de mim mesma, mas fazendo-o assim, de peito aberto, tenho a esperança de ser compreendida por outras mulheres e mesmo pelos homens. Só se pode ser universal, a partir da nossa aldeia, do nosso bairro, do nosso quarteirão, quer dizer, da nossa pele. Não é, mais ou menos, o que dizia Nelson Rodrigues? De qualquer maneira quero falar de mim, de minhas experiências amorosas e até mesmo eróticas, pois o ato de escrever já me basta. Eu sei que é narcisismo, e daí? Isso me dá imensa satisfação e isso por si, já me justificaria perante mim mesma. Mas, se há um editor e leitores, então, meu exibicionismo fica ainda mais legitimado, não achas?
CL: Eis aí uma declaração franca e perturbadora. Mas, na verdade, posso dizer, sem ser um crítico literário, que a qualidade dos seus textos o justificam plenamente, para além da necessidade confessional que você mesma declara haver neles. Certamente haverá muitos leitores e fãs. Eu mesmo já sou um deles. Nossa entrevista chegou ao fim. Posso dar-lhe um beijo?
ALMA: Sim, tu és doce, afinal...
17/03/2003
Nosso repórter, escalado para entrevistar esse novo fenômeno da nossa literatura, a contista e poeta (além de pintora), Alma Welt, gaúcha radicada em São Paulo, voltou com um ar meio siderado, quase em estado de choque, e adentrou a nossa redação com um sugestivo assobio. Contou-nos que foi difícil, a princípio, deslanchar a entrevista, pois a beleza da moça é, no mínimo, perturbadora. Descreveu-nos uma mulher de 28 anos, alta, muito branca, loura “luminosamente” natural, “rasgados” olhos verdes. A perfeição de sua pele, sem uma única mancha ou sinal, despertou no nosso pobre repórter aquela comparação em desuso: “pele de alabastro”. Além disso, a boca da moça, seus lábios cheios na medida certa (há uma medida?) eram de uma beleza “hipnótica”, como seus olhos verdes (de gata?). Tivemos que calar o entusiasmo do nosso repórter, exigindo dele, logo, a entrevista por escrito. Suspeitamos que o infeliz está irremediavelmente apaixonado. Tivemos que mandá-lo pra casa mais cedo, pra tomar um banho frio. Mas vamos ao que interessa. A entrevista:
CL: Alma, posso chamá-la assim ? É o seu verdadeiro nome, estou certo? Lendo seus livros temos a impressão de ser um pseudônimo, de tão adequado ao seu conteúdo. Welt ( mundo, em alemão) nos remete ao Anima Mundi, de Jung. O que você tem a dizer sobre isso?
ALMA: Meu pai já era um admirador de Jung, desde sua juventude, e é possível que tenha pensado nele ao batizar-me com este nome, já que o nome de família é Welt. Meu pai esperava muito de mim, não sei bem porquê, já que sou a caçula apenas das mulheres. Tenho duas irmãs mais velhas e um irmão dois anos mais moço, Rodolfo (Rodo), que é o que mais aprecio, embora seja bem diferente de mim.
CL: Percebe-se isso no seu conto “O Testamento”, aliás, belíssimo. Mas a personalidade do rapaz parece apenas esboçada nesse conto. Para dizer a verdade, uma espécie de Dimítri Karamázov, muito sintetizado. É intencional essa analogia não explícita? Pois a sua própria figura, Alma, no conto nos remete ao irmão caçula Aliocha, enquanto o seu Monsenhor Ângelo é nitidamente o stáriets Zósima. Estou certo?
ALMA: Sim, sim. É possível. Mas foi um processo inconsciente. Não pensei nisso quando escrevi o conto. Talvez as semelhanças sejam devidas à estrutura arquetípica da própria estória e dos tipos humanos que a compõe. Quando se escreve assim como eu, num fluxo espontâneo e contínuo de inspiração, ocorre que os personagens, naturalmente, ocupam posições demarcadas, como peças num tabuleiro invisível existente na vida. Daí, também associarem meus contos à psicologia junguiana, que conheço pouco.
CL: Alma, no entanto é notável, na sua maneira de escrever, a presença de uma cultura livresca, assimilada. E surpreendentemente, da natureza clássica dessa cultura. Como você a adquiriu? Você é uma grande leitora?
ALMA: Bem, eu li alguns clássicos. Não foram tantos assim, mas os li bem. Posso dizer que conheço bem a Ilíada e a Odisséia de Homero, mas por traduções, é claro, além dos líricos gregos de Safo a Píndaro. Conheço a literatura de Dostoiéwski e de Edgar Allan Poe, além de Hoffmann, meus preferidos. Mas não cabe aqui citar todos os autores que li. Meu pai era um grande leitor. Um erudito. E tinha uma grande biblioteca em nossa casa, na estância. Aliás, essa biblioteca ainda existe, como tudo o mais em nossa casa, que permanece como ele a deixou, de uma maneira um pouco mórbida, na verdade.
CL: A propósito, Alma, nota-se uma grande nostalgia da casa paterna em certos poemas seus, que me lembram o tom leopardiano do “Vaghe stelle dell’Orsa”...sul paterno giardino scintillanti”.
ALMA: Sim, sim, é bastante arguta essa tua ilação. Realmente, eu mesma pensei nisso a posteriori.
CL: Seria Leopardi, também, uma das suas influências literárias?
ALMA: É possível. Mas não estou preocupada. Sempre se sofre influências da grande arte ao nosso redor. Mas creio que o importante é o timbre e o teor da assimilação dessas influências. Eu amo a literatura, bem como a Pintura e a Música clássicas, e vivo imersa num mar de referências que me sufocaria se não estivessem naturalmente digeridas. Elas me perspassam como os raios de sol atravessam a atmosfera, agindo sobre ela e aquecendo-a. Desculpa-me a imagem um tanto pretensiosa...
CL: Não, Alma, está perfeitamente expressa. Concordo com você . Percebe-se essa assimilação perfeita de sua herança cultural. Você não parece pedante em sua literatura, mesmo quando cita autores famosos como Nietzsche, por exemplo. Aliás, percebe-se que você o leu bastante, ou gosta muito dele. É certo isso? Fale-me da “alegria mais profunda que a dor”.
ALMA: Sim, devo reconhecer que Nietzsche me impressionou muito. Já era um preferido do meu pai., talvez por sua ascendência germânica. Tu notaste a aposta que faço na profundidade da alegria, que é o aspecto mais simpático de sua doutrina. Mas nada de super-homem, nem de “vontade de potência”. Essas coisas são perigosas, embora deva reconhecer que foram distorcidas em seu propósito inicial, pelos nazistas com a colaboração da irmã dele, Elisabeth. Meu pai me falava sobre isso. Devo frisar aqui que meu pai era aristocrático mas não nazista. Aliás, ele tinha horror ao nazi-fascismo, o que já não se pode dizer de seus pais, meus avós. Mas a leitura de Dostoiévski me despertou a simpatia pelos pobres, humilhados e ofendidos, e fui procurá-los também na literatura brasileira e os encontrei em Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, que li bastante. Aliás devo dizer, que também para mim, como para muita gente, o Grande Sertão: Veredas é o maior livro do mundo, junto com os Irmãos Karamásovi.
CL: É curioso, Alma, isso tudo vindo de uma escritora com apenas 28 anos. Você não é muito contemporânea, você sabia? E além disso, você acaba de dizer, em outras palavras, que conhece o povo e sua miséria através da literatura, quando basta olhar em torno, neste nosso país, para depararmos com a pobreza e seus horrores. O que você me diz disso?
ALMA: Tu não poderias esperar de mim que me metesse na periferia para conhecer o povo, mas andei na caatinga nordestina, e narrei isso num conto: “Na trilha dos menestréis”. E você deve levar em consideração a intuição do artista. Um poeta ou escritor não precisa ter estado na África para descrevê-la e contar maravilhosas aventuras passadas em seus desertos ou em suas savanas. Há grandes exemplos disso. Meu pai, quando criança, lia os contos de um escritor alemão provinciano que nunca saiu de sua aldeia na Bavária, e escrevia, antes da Segunda guerra, best-sellers populares ambientados no Far-West americano, estórias vívidas e verossímeis de índios pele-vermelhas e cowboys, que eram exportadas até para os Estados Unidos. Os americanos as adoravam. Poderia, também, citar o famoso poema de Emily Dickinson: I never saw a moor...( eu nunca vi uma charneca )... (bem posso imaginá-la).
CL: Mas, Alma, não quero que pareça uma crítica, que, afinal, não é minha função, mas você não usa o povo brasileiro, como material, ou mesmo pano de fundo, a não ser num ou dois contos seus, no “Meu pequeno vizinho”, lindo conto, e singelo, parecendo uma crônica, e no belíssimo “Na Trilha dos Menestréis” O seu Jeová, o negro do conto “A Harpia”, a meu ver a sua obra prima, é um tanto idealizado, embora se perceba que isso é intencional, dado o caráter simbólico do personagem, dentro de um conto que é, todo ele, uma magnífica alegoria. Mas, mesmo naqueles, você não focaliza propriamente a pobreza, a privação, e a injustiça da nossa monstruosa distribuição de renda.
ALMA: Realmente, CL, mas parece-me que tu estás me cobrando uma tomada de posição política, quando já fiz, há muito tempo, minha opção por uma tomada de posição filosófica. Estou interessada, sobretudo em temas psicológicos e essenciais da condição humana, como bem disse o meu prefaciador, o pintor e poeta Guilherme de Faria. Ele, nesse prefácio, enumera esses temas, segundo a sua visão bastante arguta.
CL: Mas, Alma, conte-nos, então, como você foi descoberta por um pintor famoso, que, recentemente, revelou-se poeta de cordel. Como você conheceu o Guilherme de Faria?
ALMA: Ah! Isso foi um encontro providencial, que contei no meu conto “Anagramas”. Ele é um amigo da grande gravadora Renina Katz que conheci um pouco antes e da qual fiz o primeiro anagrama.
CL: Sim, Alma, aquele espantoso anagrama em que aparece toda uma teogonia órfica. Admirável e instigante, lembro-me dele. Mas, continue.
ALMa: Pois é , Guilherme tendo tomado conhecimento através da Renina, do anagrama dela, feito por mim, e tendo tido um sonho enigmático, a princípio, procurou-me para que eu o ajudasse a desvendar esse sonho. Fiz o seu anagrama, que, afinal, foram cinco anagramas completos, que decifrados, explicaram o significado do seu sonho de maneira surpreendente até para mim. A partir disso tornamo-nos amigos.
CL: Perdoe-me a indiscrição, Alma, mas apenas amigos? O seu conto sugere muito mais, não é verdade? Não terá sido o começo de uma paixão?
ALMA: Realmente, não posso negar, mas prefiro não falar disso.
CL: Mas, Alma, eu insisto: você está apaixonada?
ALMA: Pode-se dizer que sim. Estou feliz. Ele é um homem maravilhoso, e um artista famoso, que tem apenas uma parcela de sua imensa obra conhecida do público. Além disso ele é um fantástico poeta de cordel, que escreve estórias profundas sobre o pano de fundo da caatinga nordestina, com espantosa autenticidade, visto não ser nordestino e nem sequer ter ascendentes nordestinos. Ele é paulista de 400 anos. O que mais uma vez comprova aquela tese da intuição do artista.
CL: Sim, estou disposto a concordar com você, Alma. E também a marcar uma entrevista com o Guilherme. Mas previno-a que farei perguntas indiscretas a ele, sobre você. Aceita?
ALMA ( rindo, e que bela risada ): Sim, CL, aceito. Sei que ele só dirá coisas bonitas a meu respeito.
CL: Quando você deu essa risada, agora, lembrei-me da gargalhada da Greta Garbo na Dama das Camélias, acompanhada de um glissando do piano que alguém tocava nessa cena (quando ela disse: “Pode ser o grande amor da minha vida! ) Você certamente viu esse filme...
ALMA: Sim, e lisonjeia-me a tua comparação. Nunca tinha pensado em ter qualquer semelhança com ela.
CL: Sim, Alma, há, e impressionante. Não que vocês se pareçam fisicamente. Ma, o timbre de suas feminilidades, e a presença. Bem, não quero encabulá-la.
ALMA: Obrigada, CL. Tu és gentil. Mas, longe de mim...
CL: Vamos então, mudar de assunto. Você reparou que nenhuma vez você cita a televisão ou sequer um aparelho desses nos seus contos? Não é insólita essa omissão, numa época como a nossa?
ALMA: Não, não mesmo. Como disse, estou interessada no essencial. Mas, infelizmente, não é verdade que eu não cite a televisão nenhuma vez. Citei-a, uma única vez, até agora, no conto “O Violino de Mozart” onde a personagem (eu mesma) vê o seu amado Gino numa entrevista na televisão. Mas eu poderia passar sem essa. Seria até mais interessante a omissão total desse veículo, como para tornar os meus contos mais atemporais. Além disso, a televisão já é suficientemente falada e discutida.
CL: Mas, Alma, sejamos sinceros, se a Globo, por exemplo, quisesse um texto seu para um caso especial, ou para o Brava Gente, você não aceitaria?
ALMA: Aceitaria, claro. Nenhum momento fiz qualquer crítica a essa mídia, e eu mesma já derramei muitas lágrimas com algumas novelas ou mini-séries. A sua versão do Grande Sertão: Veredas em mini-série foi admirável. Bem com O Primo Basílio e Os Maias. Gostei muito, também, das versões para a televisão das peças do grande Ariano Suassuna: O Auto da Compadecida e A Mulher Vestida de Sol. Foram primorosas e endossadas pelo próprio autor, segundo se soube.
CL: Então, Alma, mudemos mais uma vez de assunto. Já que você tem opiniões bem definidas sobre tudo, ou quase tudo. Estou enganado?
ALMA (rindo): Não estás enganado. Quando se tem uma visão do mundo, os detalhes técnicos, podem às vezes não importar. Se tu me perguntares sobre petróleo, vou logo dizendo que emporcalhou o mundo, e não adiantará tu me falares nos grandes interesses das grandes companhias e a relação desses interesses com a economia mundial. Trata-se a meu ver, de um combustível obsoleto e poluidor, que poderia há muito tempo ter sido substituído pelo hidrogênio, retirado da água do mar, fonte inesgotável, ou ainda pela energia elétrica através de baterias giroscópicas. Bastava para isso, vontade política, ou mesmo uma superação da chamada estupidez humana.
CL: Alma, você agora me surpreendeu. Então você tem opiniões técnicas e políticas, ou pelo menos ecológicas. Vejo que por aí há um veio a ser explorado.
ALMA: Não, prefiro que não, se tu não te importares. Sinto-me quase infantil quando falo dessas coisas. Sou apenas teórica e um tanto idealista nesse campo, e não gosto me sentir assim, já que não atuo de maneira prática nessa área. Sou apenas uma artista: pintora e poetisa.
CL: Sim, Alma, você é uma das últimas a aceitar esse epíteto: “poetisa”, que soa como uma coisa antiga, da época das “diseuses” e de Florbela Spanca, ou mais tardar de Cecília Meirelles, com quem, aliás, a sua poesia tem um visível parentesco. Você as aprecia?
ALMA: Sim, muito. Florbela Spanca especialmente, pela intensidade de sua paixão. Mas ela tem um tom mórbido e ressentido contra a vida, com o qual não me identifico. Ela me soa como uma mulher apaixonada e delirante, mas infeliz. Enquanto que eu sou apaixonada e feliz, apesar de algumas quedas, acidentes de percurso. Mas até hoje sempre subi, sempre saí do buraco, para alcançar novamente a alegria, sem a qual não poderia viver.
CL: Sabe, Alma, esse é o aspecto que mais me impressionou no seus contos e nos seus poemas. Essa aposta na alegria. Confesso que antes de conhecer a sua obra, eu não acreditava que a alegria desse muito assunto. Acreditava naquele axioma: “os povos felizes não têm história”. Mas você me fez ver uma certa profundidade e riqueza na alegria e na felicidade, e entender aquele verso de Nietzsche que você cita; “ a alegria é mais profunda que a dor”. Devo agradecer a você por isso. Mas ainda tenho a curiosidade de saber , como uma moça tão sensível como você, a julgar pelos seus textos, e mesmo pela sua pintura, pode ser feliz num mundo como o nosso. Percebe-se nos seus contos que você derrama lágrimas a torto e à direito, que você é muito chorona. Estou certo?
ALMA(sorrindo): Sim, é verdade. Derramo lágrimas com facilidade, mas se você reparar bem, quase sempre por comoção com a beleza, com o amor , com a arte. Lágrimas de felicidade, na maioria das vezes. Um sentimento do mundo que inclui, em mim, uma aposta na beleza e na grandeza do Homem. Não sou uma pessimista, e me comovo positivamente com o ser humano. E convivo intensamente com os deuses.
CL: Sim, Alma, é espantoso, nos seus textos como você parece conviver com eles, dentro de você, embora de maneira psicanalítica, como é possível na nossa época. Mas percebe-se que você se relaciona de maneira perturbadora, para você mesma, com suas supostas encarnações passadas, às quais você parece temer ou reagir, o que aumenta o mistério e o suspense de alguns contos como aquela maravilhosa “ Trilogia de Adèle”. Será isso uma técnica literária para fisgar o leitor? eu me pergunto.
ALMA: Se isso é uma pergunta, só posso lhe dizer, que sou absolutamente sincera, na minha arte. E sobretudo expontânea. Meu texto é fluente, nada premeditado, e penso que por isso posso incorrer freqüentemente numa certa ingenuidade. Não descarto essa possibilidade, disso que o meu prefaciador , o Guilherme chamou de “candura”. Mas, que eu saiba, ela é uma virtude, como ele muito bem colocou. Não devo me envergonhar dela, mesmo sendo uma escritora, não é mesmo?
CL: Bem, queria agora mudar o rumo da nossa conversa para abordar um aspecto que me intriga em sua literatura: o caráter sensual e mesmo erótico, freqüentemente explícito de alguns contos e poemas seus. Quero comentá-los porque eles me agradam. Vejo em você, sob este aspecto, uma alma pagã, bastante livre no domínio sexual, embora assombrada por outros espectros, como a sombra do mal, difusa, e a presença de encarnações passadas, nem sempre bem recebidas, e sim temidas.
ALMA: Surpreende-me essa tua captação tão arguta de um aspecto tão íntimo da minha natureza literária (e pessoal também, claro). E já que tu queres falar disso, posso apenas dizer que essa liberdade, mais do que assumida, é inerente à minha natureza, de maneira instintiva, desde a minha infância, para escândalo da minha mãe, que quis de todo modo reprimi-la, sem conseguir, claro. Eu falo sobre isso no meu conto “As Férias da Infância da Alma”, dos Novos Contos. Devo dizer que gosto muito do erotismo e considero que ainda não me dediquei a ele, verdadeiramente, na literatura. É possível que eu ainda escreva um livro de contos realmente erótico.
CL: Como Anaïs Nin, por exemplo? Você leu o seu “Delta de Vênus”?
ALMA: Sim, mas achei insatisfatório. O meu livro será mais explícito e escabroso, espero.
CL: Puxa, estou curioso e ansioso para lê-lo (risos). Mas diga-me, Alma, você leu o Marquês de Sade? Você o cita, num certo conto, mas de maneira sumária e genérica.
ALMA: Sim, eu li o Marquês. Mas o seu “120 Dias de Sodoma” eu joguei fora. Aquilo era sórdido demais e me chocou. Quanto aos outros livros como Justine, Filosofia da Alcova, O Marido Complacente, etc, apreciei certos aspectos. Mas realmente, não é o meu favorito. Prefiro, por exemplo Choderlos de Laclos, do “Ligações Perigosas”.
CL: E Henry Miller, você o leu?
ALMA: Sim, e gosto muito dele, mas não justamente das suas descrições eróticas que são muito grosseiras com a figura da mulher. Compreendo a revolta de June, contada por Anaïs Nin no seu maravilhoso Diário. June, aquela linda mulher queria, e merecia ser verdadeiramente tratada como musa, e Henry se recusava a isso. E ele suspeitava que ela se prostituíra para arranjar-lhe o dinheiro da viagem para a França. Ora, isso não importava, ou fazia dela, no mínimo uma espécie de “prostituta santa”, que ele não soube apreciar. Era um terrível machista, no fundo. Já Anaïs, sim, soube apreciar o mistério da beleza tão grande daquela mulher, a ponto de apaixonar-se por ela, de maneira mais profunda e sensível do que ele. Mas parece que ela acabou também rejeitada pela June, depois de um breve caso entre as duas, interrompendo uma maravilhosa cena de cama.
CL: Alma, a propósito, você escreveu um livro de poemas sáficos, como você diz, o “Narcísicas”, de surpreendente lirismo para os nossos tempos. Soa na verdade, como uma poetisa grega antiga, dos tempos da musa de Mitilene. E depois, o seu livro de Sonetos repete a descrição dessa paixão, mas de outra forma, aliás muito interessante, pela progressão da estória através da seqüência
dos sonetos. Eu pergunto: essa estória é real? Aconteceu com você? Aline existe?
ALMA: Não gostaria de falar sobre isso, mais do que já falei na própria poesia, nas Narcísicas, e nos Sonetos. Foi um caso muito doloroso, mas que eu contarei também num conto, que aliás, já estou escrevendo.
CL: Mas, Alma, seus leitores vão querer saber um pouco mais, desde já, sobre essa misteriosa Aline. Você não poderia comentar alguma coisa sobre ela?
ALMA: Já que tu insistes, direi apenas que esse caso quase me derrubou. Entreguei-me demais a esse amor, como os leitores poderão perceber nos meus poemas, e isso quase me foi fatal. Ela retirou-se, subitamente, da minha vida, o que me tirou o chão e o alento. Desci muito fundo, no inferno da alma, e tive que fazer um esforço muito grande para subir. Mas não renego nada. Saí afinal mais fortalecida , ou pelo menos calejada.
CL: Alma, essa sua experiência rendeu belíssimos versos de amor, de um lirismo incomum na poesia contemporânea, a meu ver. Confesso que disputei esta entrevista, justamente pela admiração que esses versos me causaram.
ALMA: Fico gratificada e comovida com isso. Mas se penso novamente nesse caso e nesses versos ponho-me a chorar. Vamos mudar de assunto, sim?
CL: Está bem, que pena... Eu poderia perguntar-lhe ainda tanta coisa, mas nosso espaço está chegando ao fim. Fale-me daquele insólito livro de poemas
“Amar Humores”. Como você o concebeu?
ALMA: Bem, o que tu queres realmente saber? A minha motivação? O humor misturado ao erotismo, de uma ótica feminina, claro. E satirizando, às vezes, a ótica masculina. É um alvo talvez um pouco difícil, e posso não ter conseguido. Mas é um texto espontâneo como todos os meus textos. Confio muito no que jorra da minha intuição. E aquilo sou eu, como, aliás, todos os meus poemas, contos e pinturas. Só posso falar de mim mesma, mas fazendo-o assim, de peito aberto, tenho a esperança de ser compreendida por outras mulheres e mesmo pelos homens. Só se pode ser universal, a partir da nossa aldeia, do nosso bairro, do nosso quarteirão, quer dizer, da nossa pele. Não é, mais ou menos, o que dizia Nelson Rodrigues? De qualquer maneira quero falar de mim, de minhas experiências amorosas e até mesmo eróticas, pois o ato de escrever já me basta. Eu sei que é narcisismo, e daí? Isso me dá imensa satisfação e isso por si, já me justificaria perante mim mesma. Mas, se há um editor e leitores, então, meu exibicionismo fica ainda mais legitimado, não achas?
CL: Eis aí uma declaração franca e perturbadora. Mas, na verdade, posso dizer, sem ser um crítico literário, que a qualidade dos seus textos o justificam plenamente, para além da necessidade confessional que você mesma declara haver neles. Certamente haverá muitos leitores e fãs. Eu mesmo já sou um deles. Nossa entrevista chegou ao fim. Posso dar-lhe um beijo?
ALMA: Sim, tu és doce, afinal...
17/03/2003
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