Alma Welt
(Escritora)
08/01/1972, em Novo Hamburgo RS
20/01/2007 Estância Sta Gertrudes, Rosário do Sul RS
ALMA WELT (1972-2007) escritora gaúcha nascida em Novo Hamburgo, poeta lírica, grande sonetista (escreveu cerca de 700 belíssimos sonetos)*, deixou uma obra profícua e numerosa, constando de um romance autobiográfico inédito em quatro tomos denominado "A Herança" (dividido como quarteto com os seguintes títulos: A Herança, A Ara dos Pampas, O Sangue da Terra, A Vinha de Dioniso),e mais o romance entitulado "O Retorno dos Menestréis", ambientado no sertão nordestino de Pernambuco e Paraíba, numa mítica e divertida viagem a bordo do Pavão Misterioso. Tem ainda quatro livros de contos: Contos da Alma, publicado em 2004 pela Editora Palavras & Gestos(de São Paulo) e presente nas livrarias (vide google); Contos Pampianos da Alma, Contos Secretos da Alma, e "Lendas da Alma" (este uma coletânea de lendas poéticas de sua invenção, de caráter europeu, góticas e misteriosas, ilustradas com desenhos a cores por Guilherme de Faria. Além disso tem um livro de crônicas curtas(Crônicas da Alma). Sua obra poética, igualmente prolífica, conta com 49 livros de poesia, sendo 33 de sonetos (perfazendo cerca de 700 sonetos),e vem sendo publicada de maneira semi-artesanal, em folhetos dentro de uma caixa (Kit) de madeira, e ilustrados a cores com desenhos de Guilherme de Faria. As duas últimas obras poéticas que escreveu são: um notável drama lírico formado por 42 sonetos (cenas) encadeados,inspirado por sua paixão por uma aluna e denominado "Sonetos à Mayra"; e os "150 Sonetos Pampianos da Alma" escritos no seu último mês de vida. Parte considerável de sua obra está publicada no site literário "Leia Livro" (da Fundação Padre Anchieta, na Internet).
Alma Welt conseguiu extraordinário sucesso com suas obras na Internet, principalmente no site Recanto das Letras, num período de 7 meses, até a sua morte, com mais de 14.000 leituras e 1.500 comentários elogiosos vindos das mais diversas partes do Brasil e de Portugal. Entretanto, as circunstâncias de sua morte por suicídio no dia 20/01/2007, romanescas, causaram um imenso escândalo nesse site, por equívoco e intrigas, produzindo a suspeita de que se tratasse de um heterônimo, e resultando na sua inusitada e espantosa expulsão póstuma daquele site, e debates no seu Fórum, do tipo "Alma Welt existe? Alma Welt não existe?"
A autora, mulher jovem, belíssima e misteriosa, não se deixava fotografar, somente permitindo a divulgação de seus retratos em desenhos, gravuras e pinturas a óleo de Guilherme de Faria, seu "retatista autorizado", pintor paulista que a ilustrou, prefaciou, e editou, lançando-a no meio artístico paulistano a partir de 2001, quando a descobriu no seu auto-exílio paulistano, num ateliê de pintura estabelecido nos Jardins. As circunstância notáveis desse encontro providencial foram narradas por ela no seu conto entitulado "Anagramas", que pode ser encontrado na sua página no site Leia Livro da Internet.
Alma suicidou-se aos 35 anos por afogamento, na sua estância pampiana, no
auge de seu talento e beleza. Admirada pelo grande poeta Paulo Bomfim (que escreveu um prefácio para o próximo livro dela a ser publicado) e pelo famoso bibliófilo José Mindlin (que possui obras inéditas dela) começa agora a sua trajetória triunfante, como "a última grande lírica do século XX", Poeta e Musa ao mesmo tempo.
Nota da Lucia Welt:
*(escreveu cerca de 700 sonetos) - Depois de encontrada uma arca no sótão do casarão abarrotada de inéditos de minha irmã, a quantidade de sonetos ultrapassou a marca de 1.000)
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Comentários sobre:
Alma Welt Adicionar Comentário :
Alma Welt é, sem dúvida, o maior fenômeno literário das letras femininas deste país, no despontar do século XXI. Seu suicídio romanesco,no começo deste ano, permanece envolto em mistério. Pelo que eu soube, há suspeita de que ela pode ter sido assassinada. Sua sensualidade,apesar de sua pureza, parece tê-la tornado vítima de estupro em mais de uma ocasião.É uma terrível tragédia.O Brasil perdeu este ano a sua maior escritora e poeta surgida em tempos recentes. Felizmente a obra não morre, e podemos continuar a fruir de sua poesia aqui na Internet, no Leia Livro, que parece que sua irmã Lucia Welt está alimentando com textos inéditos da "Musa pampiana".
Por: Solange Lima
Muito bons os textos acima sobre a maravilhosa Alma Welt. Mas sinto que, apesar de fornecerem bastantes dados biográficos, não penetram na área propriamente crítica da literatura da
musa pampiana.
Fui uma das primeiras leitoras a descobrir e comentar os textos da poetisa, ressaltando a grandeza de sua prosa e poesia, principalmente
de seus sonetos, que estilisticamente têm uma grande assimilação do romantismo tanto quanto do parnasianismo, que ela chegou a homenagear como por exemplo no soneto n°9 de seus 150 Soneto s Pampianos, entitulado A Oferenda:
A Oferenda (de Alma Welt)
ou
O que me disse um vagalume
(dedico aos nossos grandes parnasianos,
de Olavo Bilac a Vicente de Carvalho)
9
Noite clara, a natureza em festa
Saúda-me feliz, aqui no meu jardim.
Um vagalume dança em minha testa
Dizendo: “Vem, me siga já, aqui, assim!”
“Vem comigo até o bom caramanchão
Onde podes exibir a tua alvura
Sem seres avistada por algum peão
Que te possa espreitar pra te ver nua...”
“Como num leito deita em teu vestido,
As pernas entreabertas, que na fenda,
Como uma pérola, talvez com um prurido
Pouso eu na concha que o Amor cultua,
Enquanto, minha Alma, em oferenda,
Abres teu corpo para a luz da lua!”
Notem o mesmo estro simbolista eromântico em essência, apresentado pelos melhores momentos do parnasianismo, acrescentado de uma nota erótica graciosa e delicada.
Aliás acho oportuno ressaltar o erotismo peculiar da autora ,que dedicou a esse filão muitas de suas melhores páginas. "Peculiar" porquanto Alma se distingue nessa área pela absoluta ausência de vulgaridade, e podemos dizer: com grande pureza e inocência como “un enfant de la nature” que desconhece o “pecado”, mesmo se ocasionalmente lança mão de uma leve malícia inocente quando quer conferir humor à cena. Vejamos:
Eu e os piratas
(dos 150 Sonetos Pampianos da Alma,
de Alma Welt)
Meu irmãozinho construiu embarcação
Toda de caixotes, pouco destra,
Com um cabo de vassoura e armação
Que pretendia ser a vela mestra.
E a arrastamos juntos ao laguinho
Da cascata, pra com ela navegarmos
Como piratas, eu com bigodinho,
Ele com a venda e os sarcasmos.
Mas eis que me vi numa enrascada,
Pois borrando meu bigode com o dedo
Ele disse: “Descobri o teu segredo!”
“Já que és mulher és cobiçada
E vais ficar pelada e com medo,
Pois serás de toda a marujada!”
Eis aí um bom exemplo dessa “malícia inocente” que capta o humor da cena pueril das lembranças de sua infância pampiana. É verdade que na sua série “Sonetos Luxuriosos”(vide no Leia Livro) Alma pega mais pesado, mas ainda assim, verificamos que tais sonetos derivam de um sentido picaresco só encontrados no período medieval tardio e na Renascença. Mas nada da grosseria de um Pietro Aretino que, esse sim,pornógrafo deslavado, seria um equivalente hoje em dia dos vídeos pornôs, em sua malícia e falta total de sutilezas, na sua obra homônima "Sonetti Lussuriosi”. Mas isso merece um estudo à parte. Quanto aos Sonetos Pampianos, Alma nessa série magistral que coroa a sua obra, parecia estar num surto febril de criatividade e inspiração produzindo de enfiada 150 sonetos primorosos e intensos, no seu último mês que culminou com o seu inesperado(?) suicídio. Na verdade foi uma morte anunciada: Alma deu sinais de alerta ou premeditação, que infelizmente passaram despercebidos por seus familiares, embora ela tivesse já sido internada há um ano atrás, numa
clínica lá no Sul, por surtos periódicos de angústia que chegavam a desorientá-la. Esses sinais me parecem agora detectáveis em sonetos como este:
Soneto de nostalgia
(dos Sonetos Pampianos da Alma, de Alma Welt)
Quanto fui amada em minha infância!...
Como viver então sem mais viver
O reino de encanto que era a estância
E alegria e beleza ainda manter
Se a alma deste pampa era o meu Vati
E seu piano mágico, polido,
Agora amargo como o coração do mate
E surdo como o verso com que lido?
Perdida do pomar do paraíso
Não só a inocência mais juízo,
Desço o rio de amor da minha mente
Que me mantém acesa e ainda viva
Nesta mansão que afunda lentamente
Como um barco bêbado à deriva...
Alma percebia os sinais de decadência de sua estância semi-abandonada, endividada e arruinada . Como poeta ela não poderia ser uma boa administradora do patrimônio deixado pelos seus avós. O endividamento já começara com seu pai, também ele artista. Entretanto não acredito ser essa a verdadeira causa da angústia ou depressão da nossa poetisa. A chave da sua tragédia pode ser encontrada nas entrelinhas de versos como este:
Os Sonhos da Razão
(“El sueño de la razón produces monstros” (Goya
Levantam-se na noite os meus sonhos
E me acordam febril e alvoroçada.
Não me embalam, não, não são risonhos
Meus sonhos de Poeta apaixonada!
Paixão da vida, a ânsia dos autores.
Da louca ilusão de eternidade,
Sonhos de grandeza, dos louvores,
Dos vôos sobre os tetos da cidade!
Ah!Ser o ideal que desejei:
Ser a alma aqui do Rio Grande
A musa que de mim me projetei!
Eu que necessito ser amada
E quero ser feliz além de grande,
Tudo quero, tudo, e tenho nada....
Infelizmente, em sua candura anímica Alma não pode perceber que já tinha tudo: beleza, talento, inspiração, grandeza.A insatisfação ou o excesso de sensibilidade a matou... sem que pudesse perceber em que ponto se encontrava, e que a fama já estava chegando, e com ela certamente glória que confessadamente almejava e que deixou para a posteridade.
(Leandra April)
Exertos de um longo ensaio sobre a poetisa Alma Welt a ser publicado.
Por: Leandra April
Alma Welt
1972-2007
Poetisa e escritora gaúcha, grande revelação recente das letras deste país, nasceu, segundo ela conta no seu romance autobiográfico A Herança (2005), num acostamento de estrada, na relva, a caminho de novo Hamburgo, pelas mãos de seu pai o médico, pianista e erudito, Werner Friedrich Welt, que fez ali mesmo o parto de sua esposa Ana Morgado, neta de imigrantes açorianos. Seus avós paternos eram os agricultores alemães Joachin e Frida Welt, que imigrados dos sudetos da Chekoslováquia antes da Segunda Grande Guerra, prosperaram primeiramente em longos anos de colônia agrícola alemã no Vale do Itajaí, região de Blumenau, em Santa Catarina. O avô de Alma iria adquirir uma estância gaúcha no extremo sul do país, onde plantaria um vinhedo pioneiro no Pampa, para produzir vinho, que era o seu sonho. Alma conta a saga de seus avós e de seus pais no seu romance A Herança, em quatro volumes. Quanto à sua avó Frida, vide o trecho “O Condestável Gottfried” nas sua página no Leia Livro.
Alma é a terceira filha do casal Werner e Ana, tendo um irmão mais novo um ano, Rudolf, que ela chamava pelo apelido de Rôdo e que é um personagem importante nos seus romances, contos, crônicas e poemas de caráter memorialístico. A paixão de Alma desde a infância por seu irmão caçula é tão intensa que chega a revelar um fundo incestuoso, todavia sublimado em literatura por um tom lírico que o justifica e mesmo chega a engrandecer. Todavia esse fato acarretaria um primeiro trauma na vida da guria dos pampas, pelo flagrante produzido por sua mãe numa singela cena de descoberta sexual infantil, sob a macieira querida do seu pomar, o que nos faz pensar numa metáfora da perda da inocência sob a arvore do paraíso, ou da Razão (a Ciência do Bem e do Mal). Aliás, toda a obra da escritora gaúcha é perspassada de alegorias, de simbolismos e mitos recorrentes, como esse da macieira primordial, o de Narciso e Eco, o de Perséfone, e o do fio de Ariadne e o Labirinto do Minotauro (vide as suas novelas "Perséfone" (o mito de Adèle D'Affry), "Narciso", e "Ariadne", no Leia Livro.
As duas irmãs de Alma: Solange Motersohn Welt, casada com Alberto (que ela chama o “borracho”) era a mais velha, que morreu assassinada por seu cunhado Geraldo, com quem havia fugido, e que era casado com Lúcia, a segunda irmã de Alma, que está hoje em dia empenhada em dar prosseguimento às publicações de sua irmã e em cuidar de sua herança literária e posteridade.
Alma era profundamente ligada ao seu pai, que ela, como seus irmãos, chamava de “Vati” ( pronuncia-se Fáti, "papai" em alemão) e que ela idolatrava de uma maneira igualmente exaltada, e que após a morte dele, produziu maravilhosos versos nostálgicos (vide o soneto “A carruagem”, que foi o último escrito por Alma (pertence à série "150 Sonetos Pampianos da Alma") e publicado no site Recanto das Letras, causando considerável comoção, com o anúncio de sua morte):
A Carruagem (de Alma Welt)
(150)
Um piano toca no salão!
Ah! e não fui eu que coloquei
Um cd ou um velho long-play,
Talvez seja o Vati, e então...
Ele voltou! Sim, ele me quer!
Vou ao seu encontro e sou mulher!
Sim, ele vai ver que agora sou
Pelo menos a guria que sonhou.
Olha, Vati, há muito não me vias,
Mas de verso em verso muito errei
Pelo mundo, a viajante que querias...
E agora, com toda esta bagagem,
Leva-me contigo, que eu irei
Quietinha, assim, na carruagem!
Depois de uma primeira infância urbana em Novo Hamburgo, Alma se transfere com a família para a estância de seus avós, no Pampa, situada entre Alegrete e Santana do Livramento, próxima a Rosário do Sul. A infância da Alma nos pampas, nessa estância cercada de um vinhedo que ela tornaria mítico em sua literatura (A Vinha de meu Pai, A vinha de Dioniso, etc,) é um dos temas recorrente de sua obra, e adquire um tom de grande lirismo e nostalgia, em que o cenário grandioso da pradaria, com suas coxilhas, um bosque, o seu pomar e uma pequena cascata em cujo poço de águas cristalinas Alma iria encontrar a sua morte, fazem dela também uma escritora pampiana de notável poder sugestivo de paisagem, mais do que descritiva.
Com a morte de seu adorado pai, que foi quem a criou no meio de sua biblioteca clássica em quatro línguas, como uma pequena pagã, longe da influência católica de sua esposa que não compreendia a filha, e que Alma chamava de maneira mítica, talvez subjetivamente pejorativa de “a Açoriana”, Alma profundamente chocada e transtornada, abandona a estância e se "auto-exila" (como ela dizia) estabelecendo um ateliê de pintura em São Paulo, nos Jardins, onde seria descoberta como pintora, mas principalmente como escritora inédita com grande bagagem de textos originais manuscritos que deslumbraram o artista Guilherme de Faria e que o fizeram dedicar-se desde esse dia de Julho de 2001, à sua divulgação nacional, lançando-a, prefaciando e ilustrando seus poemas, com tal entusiasmo e dedicação ( ele a considera sua última e definitiva Musa). Cabe aqui dizer, que por algum pacto entre ele e Alma (vide o conto Anagramas, dela, no site Leia Livro) ela não se deixaria mais fotografar em sua vida pública, somente aceitando a divulgação dos seus retratos feitos em desenho, gravura e óleo pelo artista paulista, o que talvez tenha motivado a suspeita ou o boato de que ela, Alma Welt, seria um heterônimo desse artista. A natureza misteriosa da “guria” produziu uma grande confusão, às raias do escândalo, que acabou por equívoco resultando na espantosa expulsão póstuma da escritora, do conhecido site literário onde ela vinha publicando há quase um ano com imenso sucesso, e já celebrada como uma diva das Letras, com uma legião crescente de admiradores e fãs. No entanto seus textos podem ainda ser acessados no site Leia Livro, que foi o seu berço na Internet. Lucia Welt está publicando ali, como continuidade, textos de sua irmã, inéditos ou já publicados anteriormente no outro site de que ela foi apagada.
Alma começa agora a sua verdadeira trajetória: póstuma, como toda grande arte costuma ser.
Por: Eliana Mattos
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
segunda-feira, 28 de julho de 2008
Algumas cartas de Lucia Welt ao poeta mineiro Claudio Bento
luciawv@ig.com.br" para poetabento
mostrar detalhes 19/06/07
Não, não, Bento.
Nada se quebrou. Apenas estive muito atarefada, aqui, com a minha hóspede e as crianças. A presença da doutora é muito gratificante, pois ela é sábia e adorável. Ela amava muito a Alma e confidenciou-me que esse amor fora mais do que a de uma médica por sua paciente ou mestra por sua discípula.Eu na verdade já sabia, poi tinha lido a crônica "Minha doutora Jensen", que a Alma publicou no Leia Livro (está lá).Eu aprendi a levar a sério tudo o que a Alma conta nos seus textos, pois ela se propunha a ser confessional, e absolutamente franca. Tudo o que ela conta aconteceu mesmo com ela. E se às vezes parece adquirir um tom mágico é por conta do seu olhar de poeta, e de seu romantismo inerente. Então, para falar francamente, eu sabia que Alma tinha tido um caso com a sua doutora. Mas isso não me surpreende, pois ninguém conseguia ficar imune ao fascínio da nossa musa. Ela dava vontade de pegar, de tocar, de beijar mesmo, de tê- la nos braços. Ela tinha a natureza das ninfas... Mas, Ah! Bento, acho que foi isso mesmo que a vitimou. Sua sensualidade inocente, seu encanto vital, despertava cobiça nos maus. Falamos sobre isso, eu e a doutora. Passeando na campina, até a colina da Alma, onde está o umbu "do enforcado", numa tarde línda, cheia de pássaros, a doutora, dizia que a Alma era a Psiqué rediviva, encarnava a própria Anima arquetípica, no sentido que Jung dava a ela, e que na verdade deriva mesmo da intuição grega. A Jensen dizia:
" Lucia, tua irmã veio à Terra, veio a nós, para exaltar a natureza feminina, para nos fazer mais mulheres, mais naturais e amorosas". Seu legado era claro para quem a visse e se estendeu mais longe pelo poder de sua poesia escrita. Mas ela era poesia viva, e nos comoveu a todos, que a vimos e tocamos. O artista Guilherme a desenhou na capa daquele livro como a própria Psiqué nos braços de Eros, por isso. Ela vivia sob a égide do Amor, e não dissimulava a profunda carnalidade da natureza do amor. Só os hipócritas tentam dissimular ou desvincular essa natureza, querendo sublimá-lo em uma pretensa espiritualidade sem corpo, ascética. Eu me sentiria uma deles, se não me rendesse, se não a tocasse, se não fruisse uma vez ao menos, de seus lábios e de seu corpo maravilhoso, divino".
Apesar, Bento, de eu saber daquela crônica e dela provavelmente presumir que eu a tinha lido, seu discurso não tinha o tom de auto-justificativa. A doutora está acima disso. Ela não arrepende de ter tocado e amado sua paciente, e chegou a dizer que isso a sustenta ainda hoje, e até retarda o seu envelhecimento, pois sonha eroticamente com a Alma todas as noite. Eu fiquei pasma, mas comovida, Bento, de ouvir isso, da doutora, de uma psiquiatra e uma mulher madura. Num momento uma borboleta pousou sobre seu ombro enquanto ela falava, e ela parou, comovida, e a colocou no seu dedo sem que ela fugisse e ficou olhando intensamente, com um brilho molhado nos olhos, e eu entendi que ela acreditou que era a Alma que viera tocá-la, beijá-la, de certa forma, pois isso aconteceu no momento em que ela fechava o seu discurso amoroso. Nós voltamos silenciosas e e emocionadas para o casarão e avistávamos de longe as crianças brincando no jardim da Alma, e a vida me pareceu tão bela... Bento, apesar... Patrícia com toda sua beleza de "ninfeta" correu para nós e nos abraçou a mim e à doutora com o mesmo carinho, que nós tivemos certeza de que Psiqué continua viva.
Não sei portanto, meu Bento, se devo continuar aquela investigação. Tenho medo de estragar este sentido da vida, que se fez tão claro ontem, naqueles momentos divinos.
Em breve te contarei mais.
Beijos
da tua Lucita
mostrar detalhes 19/06/07
Não, não, Bento.
Nada se quebrou. Apenas estive muito atarefada, aqui, com a minha hóspede e as crianças. A presença da doutora é muito gratificante, pois ela é sábia e adorável. Ela amava muito a Alma e confidenciou-me que esse amor fora mais do que a de uma médica por sua paciente ou mestra por sua discípula.Eu na verdade já sabia, poi tinha lido a crônica "Minha doutora Jensen", que a Alma publicou no Leia Livro (está lá).Eu aprendi a levar a sério tudo o que a Alma conta nos seus textos, pois ela se propunha a ser confessional, e absolutamente franca. Tudo o que ela conta aconteceu mesmo com ela. E se às vezes parece adquirir um tom mágico é por conta do seu olhar de poeta, e de seu romantismo inerente. Então, para falar francamente, eu sabia que Alma tinha tido um caso com a sua doutora. Mas isso não me surpreende, pois ninguém conseguia ficar imune ao fascínio da nossa musa. Ela dava vontade de pegar, de tocar, de beijar mesmo, de tê- la nos braços. Ela tinha a natureza das ninfas... Mas, Ah! Bento, acho que foi isso mesmo que a vitimou. Sua sensualidade inocente, seu encanto vital, despertava cobiça nos maus. Falamos sobre isso, eu e a doutora. Passeando na campina, até a colina da Alma, onde está o umbu "do enforcado", numa tarde línda, cheia de pássaros, a doutora, dizia que a Alma era a Psiqué rediviva, encarnava a própria Anima arquetípica, no sentido que Jung dava a ela, e que na verdade deriva mesmo da intuição grega. A Jensen dizia:
" Lucia, tua irmã veio à Terra, veio a nós, para exaltar a natureza feminina, para nos fazer mais mulheres, mais naturais e amorosas". Seu legado era claro para quem a visse e se estendeu mais longe pelo poder de sua poesia escrita. Mas ela era poesia viva, e nos comoveu a todos, que a vimos e tocamos. O artista Guilherme a desenhou na capa daquele livro como a própria Psiqué nos braços de Eros, por isso. Ela vivia sob a égide do Amor, e não dissimulava a profunda carnalidade da natureza do amor. Só os hipócritas tentam dissimular ou desvincular essa natureza, querendo sublimá-lo em uma pretensa espiritualidade sem corpo, ascética. Eu me sentiria uma deles, se não me rendesse, se não a tocasse, se não fruisse uma vez ao menos, de seus lábios e de seu corpo maravilhoso, divino".
Apesar, Bento, de eu saber daquela crônica e dela provavelmente presumir que eu a tinha lido, seu discurso não tinha o tom de auto-justificativa. A doutora está acima disso. Ela não arrepende de ter tocado e amado sua paciente, e chegou a dizer que isso a sustenta ainda hoje, e até retarda o seu envelhecimento, pois sonha eroticamente com a Alma todas as noite. Eu fiquei pasma, mas comovida, Bento, de ouvir isso, da doutora, de uma psiquiatra e uma mulher madura. Num momento uma borboleta pousou sobre seu ombro enquanto ela falava, e ela parou, comovida, e a colocou no seu dedo sem que ela fugisse e ficou olhando intensamente, com um brilho molhado nos olhos, e eu entendi que ela acreditou que era a Alma que viera tocá-la, beijá-la, de certa forma, pois isso aconteceu no momento em que ela fechava o seu discurso amoroso. Nós voltamos silenciosas e e emocionadas para o casarão e avistávamos de longe as crianças brincando no jardim da Alma, e a vida me pareceu tão bela... Bento, apesar... Patrícia com toda sua beleza de "ninfeta" correu para nós e nos abraçou a mim e à doutora com o mesmo carinho, que nós tivemos certeza de que Psiqué continua viva.
Não sei portanto, meu Bento, se devo continuar aquela investigação. Tenho medo de estragar este sentido da vida, que se fez tão claro ontem, naqueles momentos divinos.
Em breve te contarei mais.
Beijos
da tua Lucita
"luciawv@ig.com.br" para poetabento
mostrar detalhes 25/06/07
Bento querido
Que gratificante saber que amaste o livro da Alma! E tens razão, sempre achei que daria um filme. E teria que ser filmado aqui mesmo no Pampa, e a locação de preferência a nossa estância, e este casarão assombrado... A propósito, é tudo verdade o que a Alma escreveu: ela encontrou mesmo a adega de nossos avós debaixo do casarão e é de dar medo, uma antiga senzala, que ficou oculta até de nossos pais, por capricho do avô Joachin que esperava deixar a safra para os netos ou bisnetos. Quanto à sua existência e aspecto, que história cruel e escabrosa essa do passado do nosso Brasil! E eu assisti ao julgamento da Alma! Sim, só que ela não colocou no livro o meu depoimento, por causa do meu marido que me chantageou com meus filhos para eu ficar fora do processo. Mas eu a apoiei por fora, de diversas maneiras. Tu notaste que a minha presença no livro é muito discreta? A Alma quiz poupar-me, sua intenção era boa, mas eu quase fiquei despeitada pois eu queria aparecer mais e melhor no livro dela (risos). Não, na verdade aquilo tudo foi terrível, pois culminou no assassinato de minha irmã Solange. No segundo volume do romance entitulado O Sangue da Terra, Alma conta coisas mais espantosas ainda ocorridas aqui. Ah! Bento, tu não imaginas: ela foi estuprada pelo meu ex-marido Geraldo, o assassino de nossa irmã! Não sei como a Alminha sobreviveu a isso tudo ainda por tanto tempo, lutando heroicamente para manter sua beleza e alegria... até que sucumbiu à depressão e foi internada. Mas ainda teve forças para se reerguer e fugir da clínica nas vésperas do Ano Novo, numa saga por essas estradas, de carona de caminhão para juntar-se às suas queridas crianças . Isso ela contou nas suas cartas à Andrea, das quais ela publicou algumas no Leia Livro e no Recanto. Mas eu encontrei, depois de sua morte, as cópias impressas de toda essa correspondência, que consiste em mais de cem e.mails, de parte a parte, produzindo um verdadeiro romance epistolar, espantoso, que se publicado comoveria o mundo. O problema é que é às vezes demasiado erótico e muito íntimo. Lendo, às vezes eu ruborisava até à raiz dos cabelos. Outras vezes chorava de emoção e pena pelo sofrimentos da minha amada irmã, naquela clínica (nossa intenção era boa) e naquelas estradas (descalça e vestida com o camisolão das internas) onde sua integridade física correu grandes perigos. Bento, tu não imaginas as coisas que minha irmãzinha viveu, e sofreu só por ser tão bela e desejável.Por ser tão cândida, apesar de uma suposta lucidez de intelectual. Ela no fundo era ingênua, na sua pureza intacta diante de um mundo mau. Ah! como eu queria protegê-la, como a uma filhinha... mas era impossível: ela estava atirada à vida e ao mundo.
Sabe, Bento, essa pureza, que era percebida pelo povo daqui do pampa, apezar dos episódios de nudez da Alma ao ar livre, foi transformada em uma espécie de nudez de Lady Godiva, a cavalo, mas galopante por aí afora, de noite. E para muitos, para além de um espectro assombrante, de uma pobre alma penada, começou a surgir uma corrente que quer fazer dela uma santinha, pois a notícia de sua suposta violação e assassinato vazou e começa a correr por aí. A primeira a incentivar essa visão e crença foi a própria Matilde, que fez um altar para a Alma no seu quarto, cheio de velas.
Ai, Bento! Eu só queria colocar a Alma no lugar que lhe cabe: a de grande escritora e poeta entre os maiores nomes das letras brasileiras. Só isso (e sei que um sonho imenso). Bem Bento, aqui estou eu a escrever um romance. Paro por aqui. Estou emocionada. Depois te conto mais sobre aquele delegado... agora não poderia.
Beijos
da Lucia
mostrar detalhes 25/06/07
Bento querido
Que gratificante saber que amaste o livro da Alma! E tens razão, sempre achei que daria um filme. E teria que ser filmado aqui mesmo no Pampa, e a locação de preferência a nossa estância, e este casarão assombrado... A propósito, é tudo verdade o que a Alma escreveu: ela encontrou mesmo a adega de nossos avós debaixo do casarão e é de dar medo, uma antiga senzala, que ficou oculta até de nossos pais, por capricho do avô Joachin que esperava deixar a safra para os netos ou bisnetos. Quanto à sua existência e aspecto, que história cruel e escabrosa essa do passado do nosso Brasil! E eu assisti ao julgamento da Alma! Sim, só que ela não colocou no livro o meu depoimento, por causa do meu marido que me chantageou com meus filhos para eu ficar fora do processo. Mas eu a apoiei por fora, de diversas maneiras. Tu notaste que a minha presença no livro é muito discreta? A Alma quiz poupar-me, sua intenção era boa, mas eu quase fiquei despeitada pois eu queria aparecer mais e melhor no livro dela (risos). Não, na verdade aquilo tudo foi terrível, pois culminou no assassinato de minha irmã Solange. No segundo volume do romance entitulado O Sangue da Terra, Alma conta coisas mais espantosas ainda ocorridas aqui. Ah! Bento, tu não imaginas: ela foi estuprada pelo meu ex-marido Geraldo, o assassino de nossa irmã! Não sei como a Alminha sobreviveu a isso tudo ainda por tanto tempo, lutando heroicamente para manter sua beleza e alegria... até que sucumbiu à depressão e foi internada. Mas ainda teve forças para se reerguer e fugir da clínica nas vésperas do Ano Novo, numa saga por essas estradas, de carona de caminhão para juntar-se às suas queridas crianças . Isso ela contou nas suas cartas à Andrea, das quais ela publicou algumas no Leia Livro e no Recanto. Mas eu encontrei, depois de sua morte, as cópias impressas de toda essa correspondência, que consiste em mais de cem e.mails, de parte a parte, produzindo um verdadeiro romance epistolar, espantoso, que se publicado comoveria o mundo. O problema é que é às vezes demasiado erótico e muito íntimo. Lendo, às vezes eu ruborisava até à raiz dos cabelos. Outras vezes chorava de emoção e pena pelo sofrimentos da minha amada irmã, naquela clínica (nossa intenção era boa) e naquelas estradas (descalça e vestida com o camisolão das internas) onde sua integridade física correu grandes perigos. Bento, tu não imaginas as coisas que minha irmãzinha viveu, e sofreu só por ser tão bela e desejável.Por ser tão cândida, apesar de uma suposta lucidez de intelectual. Ela no fundo era ingênua, na sua pureza intacta diante de um mundo mau. Ah! como eu queria protegê-la, como a uma filhinha... mas era impossível: ela estava atirada à vida e ao mundo.
Sabe, Bento, essa pureza, que era percebida pelo povo daqui do pampa, apezar dos episódios de nudez da Alma ao ar livre, foi transformada em uma espécie de nudez de Lady Godiva, a cavalo, mas galopante por aí afora, de noite. E para muitos, para além de um espectro assombrante, de uma pobre alma penada, começou a surgir uma corrente que quer fazer dela uma santinha, pois a notícia de sua suposta violação e assassinato vazou e começa a correr por aí. A primeira a incentivar essa visão e crença foi a própria Matilde, que fez um altar para a Alma no seu quarto, cheio de velas.
Ai, Bento! Eu só queria colocar a Alma no lugar que lhe cabe: a de grande escritora e poeta entre os maiores nomes das letras brasileiras. Só isso (e sei que um sonho imenso). Bem Bento, aqui estou eu a escrever um romance. Paro por aqui. Estou emocionada. Depois te conto mais sobre aquele delegado... agora não poderia.
Beijos
da Lucia
"luciawv@ig.com.br" para poetabento
mostrar detalhes 19/05/07
Caro Bento
Obrigada. Na verdade eu escrevo um pouco, esporadicamente, poemas e contos, que nunca me animei a tirar da gaveta. Alma é que era a artista da família. Aqui em casa todos e em casa todos a víamos como grande poeta desde a infância e ela era cultuada por nós por sua beleza e talento. Ah! Bento, tu não sabes o que era A Alma: a mais bela criança, depois a adolescente e então a mulher mais deslumbrante que jamais vi nesta vida. Eu cresci à sua idolatrada sombra, feliz por ser simplesmente a sua irmã mais velha e protetora contra Solange(quando podia) sua inimiga e perseguidora. No momento da morte da nossa irmã mais velha, nos braços de Alma, ela lhe pediu afinal perdão...
Ela era a preferida do Vati (nosso pai) que tomou a si o encargo de criá-la longe, até certo ponto, da influência católica de nossa mãe, que Alma chamava mítica e poeticamente de “a Açoriana”. Ele queria e conseguiu fazer de nossa irmã (caçula entre as mulheres) uma obra de arte viva, e começou, por alguma razão por educá-la como uma pequena pagã, sem o senso de pecado. O cristianismo só entrou em Alma pela via folklórica.
Quanto a mim eu era um tanto apagada em minha infância e adolescência, pois minha adoração me fazia somente observá-la e cultuá-la como uma pequena deusa. Ah! Bento, só de lembrar dela me vem lágrimas aos olhos, pois são memórias de tocante beleza, pois nossa Alminha era uma criatura predestinada, uma verdadeira princesa, nosso pai tinha razão... Ela nos comovia a todos, pois conseguia unir beleza e talento, candura e inteligência, meiguice e humor. E que poeta! Ai! Bento, choro e chorarei sempre a sua perda e me devotarei à grande obra que ela deixou, até o fim dos meus dias, compilando, digitando seus manuscritos inéditos e os organizando em livros que tentarei publicar. Não é fácil, pois não tenho conhecimento em editoras e sou um tanto inepta para coisas práticas. Sou apenas uma professora de História e Português. Além disso crio sozinha meus quatro filhos ( dois eram da Solange e eu fiquei com os orfãzinhos de pai e mãe, que agora são meus como os outros). Alma adorava seus sobrinho e era adorada por eles. Mas ela era como uma criança perto deles, companheira encantadora de brincadeiras e contadora de histórias e estórias. Eles ainda choram a sua morte, quando vêem algo que a evoca sua figura, sua memória. E me perguntam onde ela realmente está, pois lhes parece que ela está só encantada, temporariamente desaparecida, e que voltará um dia. E olha que já são adolescentes e pré-adolescentes! Mas eu mesma acho, às vezes, com o coração, que isso vai acontecer. Na verdade esta estância que ela tanto amava, permanece assombrada por ela. Bento, eu a vejo! Eu já vi várias vezes vagando pelo jardim de nossa mãe, pelo pomar de sua macieira sagrada, pelo bosque e pelo poço da cascata, onde ela morreu. Ela anda, pára e me olha tristemente e como se quisesse dizer algo. Mas segue e desaparece. Não posso contar isso para qualquer pessoa, pois poderão querer me internar também. Matilde também a viu, e as crianças parecem guardar um segredo e parecem sempre conspirando alguma coisa quando estão juntas aqui na estância nos fins de semana. Só não tenho medo porque Alma era um verdadeiro anjo, incapaz de fazer mal a quem que fosse, embora ela se achasse culpada (involuntarimente) do suicídio de um jovem padre em Rosário do Sul, na sua adolescência, numa fase em que experimentou ser católica sem conseguir sê-lo devido à sua formação. Ela contou isso em duas crônicas ( “O Padre”, e “A absolvição da Alma” (vide no Leia Livro).
Alma era hiper-sensível, e temo, à vezes que suas culpas imaginárias a tenham levado ao gesto extremo. Ou então, que a decadência de nossa estância, com seu abandono progressivo e suas dívidas imensas, que se acumulam desde o tempo do Vati, tenham lhe produzido uma angústia imensa pela perspectiva de perdermos sua terra amada e este casarão de nossa infância. Rôdo, nosso irmão é na verdade o nômade entre nós. E agora que saiu da internação pouco ficou por aqui e logo partiu novamente, nas suas andanças pelo mundo. Ele não suportou ficar aqui, algo me disse que ele também a viu vagando e que ela lhe falou algo que não quis revelar a mim. Bem ele está muito estranho, nunca mais será o mesmo, pois ele amava Alma acima de tudo,prativamente enlouqueceu, e quase não voltou a si após a morte de Alma.
Caro Bento estou tentando manter a obra da Alma presente, alimentando as páginas dela no Leia livro, mas está difícil, pois parece estar desorganizado e atrasado o setor Poesia, ali. Quero publicar ali os seus 150 sonetos Pampianos de três em três até o último poema “A Carruagem”, sua despedida deste mundo e que tanto comoveu os leitores do Recanto (300 leituras
em quatro dias) O conjunto, obra magistral e final da Alma, composta inteira no seu último mês de vida e que ela publicou no Recanto e foi apagada, com a sua estranhíssima expulsão póstuma daquele site. Meu sonho é publicar esta , e todas as obras da Alma em livro, de preferência, como obras completas de Alma Welt.
Hei de conseguir um dia, nem que leve o o resto dos meus dias. Alma bem o merece pois era um gênio literário, que só de sonetos deixou 700 e primorosos, Sua vida está ali,
em todos eles, como em tudo o que escrevia. Mas, ah! a síntese do soneto é
incomparável, no seu caso.
Bem ... Cláudio Bento, estendi-me de mais. Por ora fico por aqui. Vamos conversando.
Um abraço da Lucia.
PS. Alma tem um belíssimo livro de contos publicado no afinal de 2004, em São Paulo, entitulado
“Contos da Alma”, e que o grande poeta paulista Paulo Bomfim, de oitenta anos,
telefonou para o nosso amigo o grande artista plástico paulista Guilherme de Faria, que descobriu a Alma ( e a prefaciou lançou, e ilustrou) dizendo que foi “o mais belo livro que leu nas últimas décadas”, e que não parecia um livro escrito numa época como a nossa, de decadência literária. Que parecia escrito numa época de apogeu literário como o começo do século vinte” (palavras dele). Se quiseres eu enviarei a ti, de presente, pois encontrei vários exemplares no baú da Alma. Tu bem o mereces pois és um bom poeta e igualmente um intérprete da tua terra, que pareces tanto amar. Basta que me envies teu endereço e CEP, que o remeterei por correio comum. Sempre chega.
Responder Encaminhar
23/05/07
Caro Bento
Enviei a ti o livro da Alma, ontem pelo correio comum. Pode demorar uns dias a chegar.Estou em São Paulo para tratar de possíveis futuras edições dos textos da Alma com o Guilherme de Faria , que está ilustrando lindamente e publicando de forma artesanal os "Sonetos Pampianos da Alma" (há já um exemplar na Livraria Teixeira da alameda Lorena). Os livrinhos vem dentro de uma caixinha linda de madeira e têm ilustração a cores na capa de cada um (são doze) perfazendo os 150 ultimos escritos por ela e outros mais antigos, num total de mais de 200 sonetos que tem o pano de fundo do nosso Pampa. São uma riqueza, e não posso lê-los sem chorar (pela beleza e pela saudade). Gostaria que tu os conhecesse.
Quanto aos Contos da Alma, gostaria que tu acusasse recebimento quando chegar, e depois de teres lido me comunicasse as tuas impressões. Eu considero o livro belíssimo, e muitas pessoas que os leram também. São os contos da experiência paulistana de minha irmã, com exceção de um deles: "Na trilha dos Menestréis", lindo e emocionante, passado no nordeste, numa viagem que Alma fez a Olinda, quando já estava morando em São Paulo. Descobri que ela valorizava tanto esse conto ( que foi o que motivou o editor, que o leu, a publicar o livro) que escreveu um romance, "O Retorno dos Menestréis", muito erótico, belíssimo e divertido, e que é uma continuação do conto. Descobri que Alma o publicou inteiro em capítulos no Recanto das Letras, mas que foi apagado junto com suas páginas e seu Site de Escritor. Felizmente eu descobri um exemplar digitado e encadernado em espiral, na escrivaninha abarrotada da Alma. Li, chorei e ri muito.
Espero, caro poeta, que te encantes, comovas e te divirtas com as obras da tua colega, nossa querida Alma. Estando com seus livros eu a sinto perto de mim, e por isso os ando carregando para todo lado. É impressionante como ela está viva nos seus textos e poemas. Ela realmente pôs sua alma, sua beleza e seu coração neles.
Até mais
um abraço da Lucia
Cara Lúcia, bonito relato, acredito sim que uma pessoa amada mesmo pós-morte possa surgir no nosso campo de visão fazendo valer a força do espírito. Tente sim publicar as obras da Alma, sei que é difícil editoras que publicam poesia, mas tente, arrume uma maneira de publicar independente de editoras, meus livros são publicados assim, às próprias custas e em pequenas tiragens, essa é a luta do poeta no contexto literário atual. Gostaria muito de receber o livro de contos da Alma, meu endereço : Rua Buenópoles 33/306 - Cep. 31015-120 - Bairro Floresta - Belo Horizonte - MG. Ficarei esperando a beleza que deve ser o livro da Alma. Beijos do Bento.
mostrar detalhes 19/05/07
Caro Bento
Obrigada. Na verdade eu escrevo um pouco, esporadicamente, poemas e contos, que nunca me animei a tirar da gaveta. Alma é que era a artista da família. Aqui em casa todos e em casa todos a víamos como grande poeta desde a infância e ela era cultuada por nós por sua beleza e talento. Ah! Bento, tu não sabes o que era A Alma: a mais bela criança, depois a adolescente e então a mulher mais deslumbrante que jamais vi nesta vida. Eu cresci à sua idolatrada sombra, feliz por ser simplesmente a sua irmã mais velha e protetora contra Solange(quando podia) sua inimiga e perseguidora. No momento da morte da nossa irmã mais velha, nos braços de Alma, ela lhe pediu afinal perdão...
Ela era a preferida do Vati (nosso pai) que tomou a si o encargo de criá-la longe, até certo ponto, da influência católica de nossa mãe, que Alma chamava mítica e poeticamente de “a Açoriana”. Ele queria e conseguiu fazer de nossa irmã (caçula entre as mulheres) uma obra de arte viva, e começou, por alguma razão por educá-la como uma pequena pagã, sem o senso de pecado. O cristianismo só entrou em Alma pela via folklórica.
Quanto a mim eu era um tanto apagada em minha infância e adolescência, pois minha adoração me fazia somente observá-la e cultuá-la como uma pequena deusa. Ah! Bento, só de lembrar dela me vem lágrimas aos olhos, pois são memórias de tocante beleza, pois nossa Alminha era uma criatura predestinada, uma verdadeira princesa, nosso pai tinha razão... Ela nos comovia a todos, pois conseguia unir beleza e talento, candura e inteligência, meiguice e humor. E que poeta! Ai! Bento, choro e chorarei sempre a sua perda e me devotarei à grande obra que ela deixou, até o fim dos meus dias, compilando, digitando seus manuscritos inéditos e os organizando em livros que tentarei publicar. Não é fácil, pois não tenho conhecimento em editoras e sou um tanto inepta para coisas práticas. Sou apenas uma professora de História e Português. Além disso crio sozinha meus quatro filhos ( dois eram da Solange e eu fiquei com os orfãzinhos de pai e mãe, que agora são meus como os outros). Alma adorava seus sobrinho e era adorada por eles. Mas ela era como uma criança perto deles, companheira encantadora de brincadeiras e contadora de histórias e estórias. Eles ainda choram a sua morte, quando vêem algo que a evoca sua figura, sua memória. E me perguntam onde ela realmente está, pois lhes parece que ela está só encantada, temporariamente desaparecida, e que voltará um dia. E olha que já são adolescentes e pré-adolescentes! Mas eu mesma acho, às vezes, com o coração, que isso vai acontecer. Na verdade esta estância que ela tanto amava, permanece assombrada por ela. Bento, eu a vejo! Eu já vi várias vezes vagando pelo jardim de nossa mãe, pelo pomar de sua macieira sagrada, pelo bosque e pelo poço da cascata, onde ela morreu. Ela anda, pára e me olha tristemente e como se quisesse dizer algo. Mas segue e desaparece. Não posso contar isso para qualquer pessoa, pois poderão querer me internar também. Matilde também a viu, e as crianças parecem guardar um segredo e parecem sempre conspirando alguma coisa quando estão juntas aqui na estância nos fins de semana. Só não tenho medo porque Alma era um verdadeiro anjo, incapaz de fazer mal a quem que fosse, embora ela se achasse culpada (involuntarimente) do suicídio de um jovem padre em Rosário do Sul, na sua adolescência, numa fase em que experimentou ser católica sem conseguir sê-lo devido à sua formação. Ela contou isso em duas crônicas ( “O Padre”, e “A absolvição da Alma” (vide no Leia Livro).
Alma era hiper-sensível, e temo, à vezes que suas culpas imaginárias a tenham levado ao gesto extremo. Ou então, que a decadência de nossa estância, com seu abandono progressivo e suas dívidas imensas, que se acumulam desde o tempo do Vati, tenham lhe produzido uma angústia imensa pela perspectiva de perdermos sua terra amada e este casarão de nossa infância. Rôdo, nosso irmão é na verdade o nômade entre nós. E agora que saiu da internação pouco ficou por aqui e logo partiu novamente, nas suas andanças pelo mundo. Ele não suportou ficar aqui, algo me disse que ele também a viu vagando e que ela lhe falou algo que não quis revelar a mim. Bem ele está muito estranho, nunca mais será o mesmo, pois ele amava Alma acima de tudo,prativamente enlouqueceu, e quase não voltou a si após a morte de Alma.
Caro Bento estou tentando manter a obra da Alma presente, alimentando as páginas dela no Leia livro, mas está difícil, pois parece estar desorganizado e atrasado o setor Poesia, ali. Quero publicar ali os seus 150 sonetos Pampianos de três em três até o último poema “A Carruagem”, sua despedida deste mundo e que tanto comoveu os leitores do Recanto (300 leituras
em quatro dias) O conjunto, obra magistral e final da Alma, composta inteira no seu último mês de vida e que ela publicou no Recanto e foi apagada, com a sua estranhíssima expulsão póstuma daquele site. Meu sonho é publicar esta , e todas as obras da Alma em livro, de preferência, como obras completas de Alma Welt.
Hei de conseguir um dia, nem que leve o o resto dos meus dias. Alma bem o merece pois era um gênio literário, que só de sonetos deixou 700 e primorosos, Sua vida está ali,
em todos eles, como em tudo o que escrevia. Mas, ah! a síntese do soneto é
incomparável, no seu caso.
Bem ... Cláudio Bento, estendi-me de mais. Por ora fico por aqui. Vamos conversando.
Um abraço da Lucia.
PS. Alma tem um belíssimo livro de contos publicado no afinal de 2004, em São Paulo, entitulado
“Contos da Alma”, e que o grande poeta paulista Paulo Bomfim, de oitenta anos,
telefonou para o nosso amigo o grande artista plástico paulista Guilherme de Faria, que descobriu a Alma ( e a prefaciou lançou, e ilustrou) dizendo que foi “o mais belo livro que leu nas últimas décadas”, e que não parecia um livro escrito numa época como a nossa, de decadência literária. Que parecia escrito numa época de apogeu literário como o começo do século vinte” (palavras dele). Se quiseres eu enviarei a ti, de presente, pois encontrei vários exemplares no baú da Alma. Tu bem o mereces pois és um bom poeta e igualmente um intérprete da tua terra, que pareces tanto amar. Basta que me envies teu endereço e CEP, que o remeterei por correio comum. Sempre chega.
Responder Encaminhar
23/05/07
Caro Bento
Enviei a ti o livro da Alma, ontem pelo correio comum. Pode demorar uns dias a chegar.Estou em São Paulo para tratar de possíveis futuras edições dos textos da Alma com o Guilherme de Faria , que está ilustrando lindamente e publicando de forma artesanal os "Sonetos Pampianos da Alma" (há já um exemplar na Livraria Teixeira da alameda Lorena). Os livrinhos vem dentro de uma caixinha linda de madeira e têm ilustração a cores na capa de cada um (são doze) perfazendo os 150 ultimos escritos por ela e outros mais antigos, num total de mais de 200 sonetos que tem o pano de fundo do nosso Pampa. São uma riqueza, e não posso lê-los sem chorar (pela beleza e pela saudade). Gostaria que tu os conhecesse.
Quanto aos Contos da Alma, gostaria que tu acusasse recebimento quando chegar, e depois de teres lido me comunicasse as tuas impressões. Eu considero o livro belíssimo, e muitas pessoas que os leram também. São os contos da experiência paulistana de minha irmã, com exceção de um deles: "Na trilha dos Menestréis", lindo e emocionante, passado no nordeste, numa viagem que Alma fez a Olinda, quando já estava morando em São Paulo. Descobri que ela valorizava tanto esse conto ( que foi o que motivou o editor, que o leu, a publicar o livro) que escreveu um romance, "O Retorno dos Menestréis", muito erótico, belíssimo e divertido, e que é uma continuação do conto. Descobri que Alma o publicou inteiro em capítulos no Recanto das Letras, mas que foi apagado junto com suas páginas e seu Site de Escritor. Felizmente eu descobri um exemplar digitado e encadernado em espiral, na escrivaninha abarrotada da Alma. Li, chorei e ri muito.
Espero, caro poeta, que te encantes, comovas e te divirtas com as obras da tua colega, nossa querida Alma. Estando com seus livros eu a sinto perto de mim, e por isso os ando carregando para todo lado. É impressionante como ela está viva nos seus textos e poemas. Ela realmente pôs sua alma, sua beleza e seu coração neles.
Até mais
um abraço da Lucia
Cara Lúcia, bonito relato, acredito sim que uma pessoa amada mesmo pós-morte possa surgir no nosso campo de visão fazendo valer a força do espírito. Tente sim publicar as obras da Alma, sei que é difícil editoras que publicam poesia, mas tente, arrume uma maneira de publicar independente de editoras, meus livros são publicados assim, às próprias custas e em pequenas tiragens, essa é a luta do poeta no contexto literário atual. Gostaria muito de receber o livro de contos da Alma, meu endereço : Rua Buenópoles 33/306 - Cep. 31015-120 - Bairro Floresta - Belo Horizonte - MG. Ficarei esperando a beleza que deve ser o livro da Alma. Beijos do Bento.
domingo, 4 de maio de 2008
Carta (e.mail) de Lucia de 4 de Maio de 2007 ao poeta Claudio Bento

"Ofélia" ou A morte de Alma Welt (I) - óleo s/ tela de Guilherme de Faria, 100x140cm, coleção Elisa Nazarian, São Roque, SP, Brasil
(Rememorando, publico aqui a primeira carta que escrevi ao grande poeta mineiro do Vale do Jequitinhonha, Cláudio Bento, em resposta à sua primeira mensagem à Alma por pensá-la ainda viva, e que deu início a nossa intensa amizade e correspondência que dura até hoje.
É necessário esclarecer, por outro lado, que alguns meses depois dessa carta, começaram investigações da parte de um delegado, aqui na nossa estância, que apontavam para uma outra interpretação sobre a a morte de minha irmã, com indícios de um possível assassinato, o que certamente não nos consola...
(Lucia Welt)
Caro poeta Bento
Tragicamente minha irmã suicidou-se no dia 20/01 deste ano, afogando-se no laguinho da cascata da nossa estância aqui no Rio Grande (Alma nadava muito bem). Era um sábado ela saiu de manhãzinha e não voltou para o almoço. Eu estava em Alegrete
onde moro com meus quatro filhos. Nosso irmão Rôdo, Matilde nossa cozinheira e governanta, antiga babá de Alma, seu irmão Galdério, nosso charreteiro, jardineiro e "faz-tudo", e a doutora Jensen, psiquiatra e amiga da Alma, que estava aqui pela segunda vez, de férias, preocupados saíram para procurá-la nos lugares que ela mais amava, aqui na estância. Afinal encontraram seu vestido branco sobre uma pedra, nas margens do "poço" (como ela dizia) da cascata. Como Alma tinha o hábito desde guria de banhar-se nua ali, pensaram estar ela por perto ou mergulhada. Chamara-na diversas vezes, e nada. Então Rôdo subiu numa pedra mais alta e avistou na água cristalina, flutuando como um espectro, há dois palmos da superfície, ancorada por uma grande pedra amarrada ao seu pescoço, o corpo alvo de minha irmã e seus longos cabelos louros esparzidos. Rôdo gritou o seu nome, mergulhou vestido e tirando a corda de seu pescoço voltou com ela, nadando e gritando, gritando ( tudo isso me foi contado depois pela Matilde em grande desconsolo). Rôdo a colocou sobre uma pedra e tentou fazer respiração boca a boca, mas era tarde. Diante da realidade ele deu um imenso grito e desmaiou, quando voltou a si estava como louco e está desde então internado ( eu o visito três vezes por semana, ele chora, delira, monologa poeticamente seu amor pela Alma, e eu saio arrasada) na mesma clínica onde Alma esteve duas vezes, a última há um ano, quando conheceu a doutora Jensen que se afeiçoou a ela e a admirava como todos nós. A doutora chorou e até hoje chora, como senão fosse uma médica. Ah! Bento, minha irmã era mais bela e poética pessoa que conheci nesta vida. Era mesmo uma princesa. O Vati (papai) a criou desde guriazinha como uma obra de arte viva (como ele dizia), como uma pequena pagã, sob a égide dos deuses e deusas da Mitologia grega, da germânica (do Walhalla) e dos numes do pampa (Alma dizia que era devota do Negrinho do Pastoreio... Ai! ), e longe da influência católica de nossa mãe decendente de açorianos. Matilde que é também muito católica acha que isso tudo é que foi a desgraça da sua guria, enchendo a sua cabeça de sonhos, devaneios e delírios. Mas eu sei que minha irmã era visceralmente poeta,
e ela nos encantava desde pequena com seu talento e sua beleza. Ela era bela por dentro e por fora de uma maneira extrema. Ela nos comovia, e olhá-la e ouvi-la freqüentemente me deixava com os olhos marejados. Rôdo a adorava.
Ele a amava de uma maneira exaltada, e agora temo por ele. Alma era uma romântica e me fazia pensar numa guria do século retrasado, apesar de ser moderna em muitas coisas, principalmente em sua liberdade sexual, que ela celebrou nos seus textos eróticos que a principio me chocavam. Agora eu os admiro pela sua beleza e... pureza.
Mas recentemente eu venho encontrando verdadeiras chaves nos seus textos, que se não justificam, pelo menos explicam o seu gesto extremo.
Alma anunciou ou anteviu a sua morte. Percebe-se isso na seqüência dos seus magníficos Sonetos Pampianos que ela compôs num surto espantoso de inspiração, 150 num único mês que culminou com a sua morte. Eu os estou republicando no Leia Livro, de três em três, já que eles foram apagados do Recanto das Letras onde elas os publicou todos à medida que os ia compondo, com grande repercussão entre os poetas. Mas, pasme: Alma foi expulsa daquele site e seu cadastro cancelado, por intriga de "poetas" invejosos, que lançaram o boato de que Alma Welt seria o pseudônimo de alguém, e que por isso a notícia (chocante para muitos) de sua morte seria falsa.
Veja que absurdo, Bento. Houve um enorme escândalo, com gente mesquinha e falsa vociferando contra a "impostora". Houve até um debate no Fórum daquele site, do tipo: "Alma Welt existe? Alma Welt não existe?" A verdade é que minha irmã estava ( e está famosa pelo menos na Internet)e isso é o começo de sua glória póstuma, que ela bem merece.
Outra coisa: descobri recentemente um trecho de um romance inédito da Alma, "A Ara dos Pampas" em que ela revela algo que me estarreceu: a violência por ela sofrida em São Paulo, por ocasião da desmontagem de seu ateliê, para vir com Aline definitivamente de volta para a estância. Acabo de publicar esse trecho chocante, denominado "O estupro", porque encontrei uma anotação a lápis nessa página do original revelando a sua intençãode publicá-lo no site Recanto das Letras, sem tê-lo feito, entretanto. Alma era uma escritora confessional e achava que não deveria esconder nada de seus leitores. Agora eu a compreendo e admiro também por essa coragem. Mas por outro lado esse fato escabroso e traumatizante pode estar também na base do desesperado gesto de minha pobre irmã. Teria ela sido marcada em sua alma ou em seu coração por essa violência revoltante? Teria a sua violação produzido uma seqüela de depressão persistente? Não sei... Quanto a mim, não sou poeta, e nem sequer escritora, mas como tenho consciência da grandeza do talento da minha amada e sofrida irmã, estou disposta a dedicar-me cada vez mais à sua glória póstuma, na medida dos meus parcos e limitados recursos, correspondendo-me com os poetas amigos fiéis da Alma, que não a renegaram como alguns, e com os novos admiradores, poetas como tu. E tratando de compilar, digitar manuscritos da Alma e publicá-los no Leia Livro, enquanto não consigo uma editora que se interesse por suas "obras completas". Hei de conseguir um dia...
Bah! Guri! Estendi-me muito. Será que estou querendo ser um dia uma escritora também? Nunca chegaria aos pés da nossa Alminha, poeta predestinada, que certamente foi perdoada pelo bom Deus, que deve amar os Artistas...
Por ora, e sempre à sua disposição para esclarecimentos
um abraço
da Lucia
_________________________________
CARTA DO POETA CLAUDIO BENTO À LUCIA:
Lúcia, fico consternado com o que aconteceu com tão grande poeta, poetas não morrem, estão sempre eternizados nos seus versos, nas suas palavras, sua alma e seu espírito estarão sempre junto a nós. E você também é poeta ? O que aconteceu com a Alma ?
Espero tornar-se seu amigo para que possamos externar tudo de bom que o coração mandar. Um grande abraço.
Claudio Bento
terça-feira, 8 de abril de 2008
A última vez que Alma esteve aqui (crônica de Guilherme de Faria
Estou me tornando um velho solitário. Entre meus livros, telas e papéis, pintura e desenhos, componho os meus cordéis com paixão e assim continuo em contato com o mundo. Continuo ilustrando os poemas que Alma me envia pela Internet e montando seus livrinhos, que apresentamos em kits de madeira, pra leitores especiais, que percebem a preciosidade dessa espécie artesanal de edição da grande poetisa.
Mas, quando Alma Welt se digna a visitar-me, isto é, trazer pessoalmente seus poemas e romances para eu ilustrar e prefaciar, minha solidão se ilumina. Eu renovo meus sonhos por mais muitos meses.
Alma esteve aqui, ontem. Ainda estou embargado. A "guria" está mais bela do que nunca. E como é meiga e carinhosa! Ela chegou no fim da tarde, e depois de um profundo abraço (ah! o abraço perfumado da Alma!) começamos imediatamente a conferir nossas produções (as dela muito superiores e prolíferas) e a fazer planos.
A certa altura Alma pegou o violão e cantou, com sua linda voz macia e sussurrante a composição que a sua nova amiga Kibsel fez para um soneto seu e também a de seu amigo músico, o João Roquer, para um poema seu de verso livre. Coisas lindas!
Ficamos tantas horas conversando e declamando nossos poemas, que ficou tarde e e eu sugeri que ela dormisse aqui. Minha mulher está viajando para Minas e tudo estava muito propício. A guria hesitou, claro, com escrúpulos. Mas exausta aceitou, já que tenho um sumiê no escritório, em que eu poderia dormir, oferecendo-lhe a minha cama.
Vocês, caros leitores do Recanto, já imaginaram a minha tortura. Não preguei o olho a noite toda. Esta mulher magnífica, que já tive o privilégio de ter nos braços há alguns anos atrás, e por um ano inteiro, agora inacessível, por tudo, pelo rumo que a vida tomou...
Levantei-me muitas vezes para ir à cozinha beliscar bolachas doces e beber coca-cola light, para não engordar... ai de mim!
Até que, na alta madrugada, não resisti mais e aproximei-me da porta e abri-a com cuidado, só para observá-la adormecida. Minha alma precisava disso.
Alma estava nua e descoberta (como seu costume no verão) adormecida, eu percebi, pela luz da lua que entrava pela janela semi-aberta. Não resisti, acendi a luz cofiando em que ela não despertaria. E Alma não acordou!
Eu pude, meus amigos, ficar ali por pelo menos quinze minutos, diante do leito, contemplando esta escultura viva do mais puro mármore de Carrara. Sua perfeição inacreditável, seus seios pequenos, redondos, parecendo virginais, de bicos cor de rosa, seu ventre de alabastro, de suave curva terminando num montículo de pelos dourados encimando os lábios descobertos e levemente rosados de sua vulva perfeita como uma concha perfumada(eu confesso que a auri com minhas narinas bem perto). Suas pernas compridas, magníficas, ligeiramente abertas expunham esse tesouro, e eu pude ver que estava úmida de agradáveis sonhos, que escorriam cristalinos para os lençóis (jamais os lavarei). Seus pés delicados, estreitos, compridos, de pura seda, com dedos longos e nobres, o segundo mais comprido que o primeiro como o das estátuas gregas. Seus lábios de rosa, entreabertos, suas pálpebras de seda, seus cabelos dourados, luminosos, esparzidos...
Amigos, eu chorava e... não percebia.
A beleza feminina, nesse nível, comove, e eu creio que me nutro dela desde o nosso primeiro encontro.
Alma parece saber disso. Ela sabe, e veio me presentear, agora eu vejo. Veio alimentar de beleza o amigo que lentamente envelhece...
Guilherme de Faria
08/11/2006
Mas, quando Alma Welt se digna a visitar-me, isto é, trazer pessoalmente seus poemas e romances para eu ilustrar e prefaciar, minha solidão se ilumina. Eu renovo meus sonhos por mais muitos meses.
Alma esteve aqui, ontem. Ainda estou embargado. A "guria" está mais bela do que nunca. E como é meiga e carinhosa! Ela chegou no fim da tarde, e depois de um profundo abraço (ah! o abraço perfumado da Alma!) começamos imediatamente a conferir nossas produções (as dela muito superiores e prolíferas) e a fazer planos.
A certa altura Alma pegou o violão e cantou, com sua linda voz macia e sussurrante a composição que a sua nova amiga Kibsel fez para um soneto seu e também a de seu amigo músico, o João Roquer, para um poema seu de verso livre. Coisas lindas!
Ficamos tantas horas conversando e declamando nossos poemas, que ficou tarde e e eu sugeri que ela dormisse aqui. Minha mulher está viajando para Minas e tudo estava muito propício. A guria hesitou, claro, com escrúpulos. Mas exausta aceitou, já que tenho um sumiê no escritório, em que eu poderia dormir, oferecendo-lhe a minha cama.
Vocês, caros leitores do Recanto, já imaginaram a minha tortura. Não preguei o olho a noite toda. Esta mulher magnífica, que já tive o privilégio de ter nos braços há alguns anos atrás, e por um ano inteiro, agora inacessível, por tudo, pelo rumo que a vida tomou...
Levantei-me muitas vezes para ir à cozinha beliscar bolachas doces e beber coca-cola light, para não engordar... ai de mim!
Até que, na alta madrugada, não resisti mais e aproximei-me da porta e abri-a com cuidado, só para observá-la adormecida. Minha alma precisava disso.
Alma estava nua e descoberta (como seu costume no verão) adormecida, eu percebi, pela luz da lua que entrava pela janela semi-aberta. Não resisti, acendi a luz cofiando em que ela não despertaria. E Alma não acordou!
Eu pude, meus amigos, ficar ali por pelo menos quinze minutos, diante do leito, contemplando esta escultura viva do mais puro mármore de Carrara. Sua perfeição inacreditável, seus seios pequenos, redondos, parecendo virginais, de bicos cor de rosa, seu ventre de alabastro, de suave curva terminando num montículo de pelos dourados encimando os lábios descobertos e levemente rosados de sua vulva perfeita como uma concha perfumada(eu confesso que a auri com minhas narinas bem perto). Suas pernas compridas, magníficas, ligeiramente abertas expunham esse tesouro, e eu pude ver que estava úmida de agradáveis sonhos, que escorriam cristalinos para os lençóis (jamais os lavarei). Seus pés delicados, estreitos, compridos, de pura seda, com dedos longos e nobres, o segundo mais comprido que o primeiro como o das estátuas gregas. Seus lábios de rosa, entreabertos, suas pálpebras de seda, seus cabelos dourados, luminosos, esparzidos...
Amigos, eu chorava e... não percebia.
A beleza feminina, nesse nível, comove, e eu creio que me nutro dela desde o nosso primeiro encontro.
Alma parece saber disso. Ela sabe, e veio me presentear, agora eu vejo. Veio alimentar de beleza o amigo que lentamente envelhece...
Guilherme de Faria
08/11/2006
segunda-feira, 7 de abril de 2008
Prefácio aos Contos Pampianos, de Alma Welt, por Guilherme de Faria
Eis aqui uma recolha de contos de Alma Welt, que são propriamente pampianos, isto, é cujas estórias, tramas e pensamentos se originaram no cenário natural, ou “habitat’ desta bela gaúcha, muitos deles referentes a períodos de sua infância e adolescência. Foram pinçados por mim, do conjunto do que ela denominou seus “Contos Secretos”, e alguns, dos chamados “Contos Proibidos de Alma Welt”, estórias que poderiam ser escabrosas, pelo seu teor erótico muito íntimo, contendo pequenas perversões sexuais da autora, que não sabemos realmente se imaginárias ou reais, mas às quais ela consegue tornar atraentes, com a sua candura e liberdade encantadoras. Me refiro aos contos sodomitas, e aos urofílicos. Alma, no entanto, a despeito de suas extremas confissões, ou por isso mesmo, permanece essa figura enigmática, pelo conjunto raro e riquíssimo de dons, a começar pela sua sensibilidade delicada, de mulher-artista, ao mesmo tempo de grande amorosa. Não podemos esquecer de sua condição de poetisa de grande estro lírico, capaz de sonetos primorosos, alguns dos mais belos da nossa língua portuguesa, a meu ver. Vejam por exemplo isto, um soneto quase camoniano pelas oposições e paradoxos como no famoso soneto do mestre (“Amor é chama que arde sem se ver...”), uma bela profissão de fé que se encontra no ciclo narrativo que ela denominou “Sonetos Secretos”:
2
Quando criança, o amor já desejava
E sonhando construía meus enredos;
Tornar-me escritora eu almejava,
Ser poeta e espalhar os meus segredos.
Ser pura, secreta e desbragada:
Confessional pelo mais puro pudor,
Abrir o coração, e, alargada,
Conter o essencial do meu amor:
Aquilo que devora e me conserva
Jovem para sempre enquanto morro
Um pouco a cada dia que percorro.
E assim, da Natureza alegre serva
Manter do coração a chama eterna,
Heróica, ao sol acesa a vã lanterna.
Escolhi transcrever aqui este soneto, para sublinhar a notável auto-consciência de vocação e missão, que emergiu muito cedo nesta guria gaúcha que consegue ser autora e protagonista, criadora e criatura ao mesmo tempo; personagem e construtora de uma obra que se constitui do progressivo registro “secreto e público” de sua vida de amorosa às raias do erótico, e de notável lirismo freqüentemente sáfico. Estamos, a meu ver, diante de um fenômeno raro.
Mas voltemos aos contos deste volume. O amor que a autora dedica à sua terra, o Pampa gaúcho, chega a ser comovente e nos faz lembrar a Cathy Earnshaw (depois Cathy Linton), do “Morro dos Ventos Uivantes” da grande Emily Brönte, cuja paixão por sua charneca parecia superar até mesmo o amor por seu Heathcliff .
Trata-se de uma nobre estirpe essa, de artistas que conseguem cantar o seu cenário, o amor ao seu habitat natural, ao berço, à terra de suas raízes. Lembro-me, por exemplo, o quanto o aspecto mais interessante(sempre achei) da obra de Salvador Dali, a despeito de sua grande imaginação, é justamente o pano de fundo, o cenário de Port-Ligat, de sua Cataluña natal, que isso sim, pode nos comover na sua obra, em que Freud detectou sobretudo “consciente”, enquanto via na grande arte dos renascentistas e clássicos, a verdadeira pulsão inconsciente.
Assim também, comecei a perceber a importância do Pampa, dessa peculiar pradaria, com suas coxilhas e seus ventos (o pampeiro, o minuano e o haragano), e seus mitos fascinantes, na obra desta poetisa, embora isso não seja nada raro nos autores gaúchos, a começar pelo grande Érico Veríssimo. Uma paisagem poderosa como essa, cenário de célebres batalhas revolucionárias e da saga inesquecível de Anita e Giuseppe Garibaldi, paixão também desta nossa Alma, como de todos os gaúchos, escritores ou não. Essa paixão pela terra atinge até mesmo grandiosidade, entretanto, no romance “A Herança” de Alma Welt, que permanece inédito até o momento da escrita deste prefácio.
Todavia, o elemento inquietante, que chega a constituir um “pathos” na obra desta gaúcha, é sem dúvida a conotação sexual de tudo, a avassaladora libido que a move, que ela consegue justificar pela fusão com uma estética amorosa altamente legitimada pelo bom gosto, pela harmonia de sua escrita espontânea, sem rebuscamentos. Curiosamente, para uma mulher, quando sua narrativa esbarra numa situação de sexo, de “transa” como dizemos hoje em dia, ela prefere não se desviar ou simplesmente “sugerir” pudicamente, e detectamo-lhe um verdadeiro prazer na explicitude, na descrição pormenorizada dos lances até mesmo “performáticos” dessas relações. O singular, é que Alma, a despeito do seu próprio prazer quase masturbatório, consegue ser refinada, e talvez por ser pintora, altamente visualizável nestas cenas, mas sem mau gosto ou vulgaridade, conferindo a elas um certo encanto e, portanto, prazer literário e estético no leitor. Congratulo-me com ela, por essa capacidade, pois sempre me irritou, por exemplo, a hipocrisia do cinema americano que parece ter uma verdadeira ojeriza, ou temor pânico, da simples visão dos pêlos púbicos, masculinos e femininos, que eles jamais filmaram frontalmente em toda a história de Hollywood, embora sejam capazes de sugerir violentos estupros, frontais ou traseiros. Para mim, como para Alma Welt, chega a ser um mistério essa idiossincrasia dos americanos quanto aos pubic hair, os maravilhosos “pentelhos” que gostamos de exprimir assim, com ligeira vulgaridade desafiadora. A propósito, a própria Alma já se referiu, nalgum lugar de sua obra, aos seus próprios “pentelhos louros’’, creio que no magnífico conto “A Harpia”, do seu “Contos da Alma”, já publicado. Mas é fácil explicar esse timbre específico das cenas de sexo explícito na literatura de Alma Welt. Trata-se da absoluta falta de sentimento de culpa, portanto de malícia em relação ao sexo, que parece ser uma detestável herança judaico-cristã, que Alma não contém em sua alma, que me parece ser a da última “pagã” sobre a terra, desde que seu pai assim a criou, a despeito da mãe da guria, que era descendente açoriana e católica.
Mas voltando aos contos deste volume, uma delicadeza feminina num universo muito mais amplo que o que se convencionou chamar de feminino, se faz presente nesta autora, que nos parece, antes mesmo de ser mulher, ser artista e portanto universal por definição. Suas preocupações nunca são propriamente “domésticas ou maternais”, e muito menos “cosméticas”. Ela aborda a força do apelo da terra, de suas raízes telúricas, o amor cotidiano por sua própria arte, fruto de sua visão altamente poética da vida, e um tanto idealista também, derivando, suponho, do próprio “idealismo alemão” de sua herança cultural por via da estirpe paterna dos Welt, que apropriadamente simboliza o Mundo. Quanto à vertente materna, temos de Portugal e sua saudade, uma melancolia intermitente,e mais raramente algumas paixões dolorosas como os seus fados (vide o conto “Aline”, dos “Contos da Alma”). Não podemos, entretanto, esquecer que a descrição mais dolorosa de uma paixão infeliz jamais escrita na história da literatura, se encontra num livro exemplar do romantismo alemão, o maravilhoso e doentio “Os sofrimentos do jovem Werther”, de Goethe.
No entanto, e nisso consiste o fenômeno, dum modo geral a nossa autora é uma mulher alegre e feliz, possuidora até mesmo de um sutil senso de humor que aparece aqui e ali nos seu textos, que já foram compilados por mim, com sua autorização, é claro, num volume que denominamos justamente “Contos Humorísticos da Alma”.
Por ora, esta específica recolha contém os contos que se passam na “estância” pampiana da família, e mais raramente, no casarão natal de Alma em Novo Hamburgo onde Alma viveu até os nove anos, quando então mudou-se com os pais para a fazenda dos avós, no extremo sul, quase na fronteira com o Uruguai, entre Alegrete e Santana do Livramento. O cenário maravilhoso é visualizável nas rápidas pinceladas do texto sugestivo de Alma, como boa pintora-escritora. A propósito, parece existir um absurdo preconceito (como todos os preconceitos ) em nosso país, sobre pintores-escritores, ou escritores-pintores. O público parece não saber que são artes muito afins e que essa conjunção é muito mais comum na história das artes do que se pensa. Não cabe citar aqui a centena de exemplos célebres que me ocupei em colecionar por puro prazer. Na falarei sequer do grande William Blake, autor do célebre poema “The Tyger”, dos mais amados da literatura inglesa, exemplo clássico de poeta, gravador e aquarelista fenomenal e sui generis. Só quero citar no momento uma das belas páginas de pura literatura mágica, no único romance de Salvador Dalí, denominado “Faces Ocultas”, onde ele descreve magistralmente uma máscara ortopédica de couro, de reconstrução facial, sobre um rosto de piloto, destruído por um desastre aéreo, na primeira guerra, com suas primorosas costuras e cadarços, produzindo no leitor um prazer estético e literário indelével. Poucas vezes vi páginas assim tão bem escritas em qualquer escritor. Citarei, somente mais um exemplo: as páginas magistrais de descrição de uma súbita chuva à saída de uma festa, no começo do grande romance “O Amor nos Tempos do Cólera”, de Gabriel Garcia Marques, onde os convivas abrem seus guarda-chuvas protegendo seus pares numa espécie de coreografia cinematográfica de um verdadeiro Kurosawa latino e literário.
Quanto à Alma, já detectei páginas assim, magistrais, em sua prosa. São inúmeras, mas quero mencionar, deste volume, a página de diálogo da Alma com o padre fanático, no confessionário, no conto “O padre”; também a página final do conto “O adolescente”, bem como as do conto “A professora belga”, dos “Contos Secretos”, que me parece maravilhosamente hoffmaniano. Devo também frisar a persistência recorrente de sua paixão maior, confessada, ou melhor, cantada e celebrada, por seu próprio irmão Rôdo, paixão essa de caráter evidentemente incestuoso, da qual Alma não se compunge e parece mesmo se orgulhar. O amor de Alma por seu irmão, cantado assim por ela, chega a se universalizar, pela beleza de seu respaldo lírico, mais do que psicanalítico.
Prosseguindo, eu poderia citar inúmeros momentos de perfeição formal, nas páginas de Alma Welt. Mas serei eu suspeito? Eu me orgulho, como muitos já sabem, de ser o descobridor da obra da “guria”, e o nosso encontro providencial foi descrito por ela no conto “Anagramas”, que publiquei de forma artesanal, em folheto ilustrado por mim, conto criptológico e anagramático verdadeiramente iniciático, e que sugere a natureza misteriosa e providencial do nosso encontro, já no século XVII. Mas vou deixar essas referências para o leitor descobrir na leitura direta da própria Alma. É ela a “star”, cabe a ela as honras. E os holofotes.
Venha, Alma, mostre-se para nós, passeie e dispa-se para nós, no seu jardim, no pomar e nas pradarias do seu amado pampa. Dê-nos a sua branca beleza loura, austral ou nórdica, desnude-se, cavalgue, dance, pinte e ame, ofertando-nos sua intimidade com tanta generosidade, para nós fruirmos... e voltarmos a reverenciar o belo, o puro e o melhor do humano.
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30/10/2005
2
Quando criança, o amor já desejava
E sonhando construía meus enredos;
Tornar-me escritora eu almejava,
Ser poeta e espalhar os meus segredos.
Ser pura, secreta e desbragada:
Confessional pelo mais puro pudor,
Abrir o coração, e, alargada,
Conter o essencial do meu amor:
Aquilo que devora e me conserva
Jovem para sempre enquanto morro
Um pouco a cada dia que percorro.
E assim, da Natureza alegre serva
Manter do coração a chama eterna,
Heróica, ao sol acesa a vã lanterna.
Escolhi transcrever aqui este soneto, para sublinhar a notável auto-consciência de vocação e missão, que emergiu muito cedo nesta guria gaúcha que consegue ser autora e protagonista, criadora e criatura ao mesmo tempo; personagem e construtora de uma obra que se constitui do progressivo registro “secreto e público” de sua vida de amorosa às raias do erótico, e de notável lirismo freqüentemente sáfico. Estamos, a meu ver, diante de um fenômeno raro.
Mas voltemos aos contos deste volume. O amor que a autora dedica à sua terra, o Pampa gaúcho, chega a ser comovente e nos faz lembrar a Cathy Earnshaw (depois Cathy Linton), do “Morro dos Ventos Uivantes” da grande Emily Brönte, cuja paixão por sua charneca parecia superar até mesmo o amor por seu Heathcliff .
Trata-se de uma nobre estirpe essa, de artistas que conseguem cantar o seu cenário, o amor ao seu habitat natural, ao berço, à terra de suas raízes. Lembro-me, por exemplo, o quanto o aspecto mais interessante(sempre achei) da obra de Salvador Dali, a despeito de sua grande imaginação, é justamente o pano de fundo, o cenário de Port-Ligat, de sua Cataluña natal, que isso sim, pode nos comover na sua obra, em que Freud detectou sobretudo “consciente”, enquanto via na grande arte dos renascentistas e clássicos, a verdadeira pulsão inconsciente.
Assim também, comecei a perceber a importância do Pampa, dessa peculiar pradaria, com suas coxilhas e seus ventos (o pampeiro, o minuano e o haragano), e seus mitos fascinantes, na obra desta poetisa, embora isso não seja nada raro nos autores gaúchos, a começar pelo grande Érico Veríssimo. Uma paisagem poderosa como essa, cenário de célebres batalhas revolucionárias e da saga inesquecível de Anita e Giuseppe Garibaldi, paixão também desta nossa Alma, como de todos os gaúchos, escritores ou não. Essa paixão pela terra atinge até mesmo grandiosidade, entretanto, no romance “A Herança” de Alma Welt, que permanece inédito até o momento da escrita deste prefácio.
Todavia, o elemento inquietante, que chega a constituir um “pathos” na obra desta gaúcha, é sem dúvida a conotação sexual de tudo, a avassaladora libido que a move, que ela consegue justificar pela fusão com uma estética amorosa altamente legitimada pelo bom gosto, pela harmonia de sua escrita espontânea, sem rebuscamentos. Curiosamente, para uma mulher, quando sua narrativa esbarra numa situação de sexo, de “transa” como dizemos hoje em dia, ela prefere não se desviar ou simplesmente “sugerir” pudicamente, e detectamo-lhe um verdadeiro prazer na explicitude, na descrição pormenorizada dos lances até mesmo “performáticos” dessas relações. O singular, é que Alma, a despeito do seu próprio prazer quase masturbatório, consegue ser refinada, e talvez por ser pintora, altamente visualizável nestas cenas, mas sem mau gosto ou vulgaridade, conferindo a elas um certo encanto e, portanto, prazer literário e estético no leitor. Congratulo-me com ela, por essa capacidade, pois sempre me irritou, por exemplo, a hipocrisia do cinema americano que parece ter uma verdadeira ojeriza, ou temor pânico, da simples visão dos pêlos púbicos, masculinos e femininos, que eles jamais filmaram frontalmente em toda a história de Hollywood, embora sejam capazes de sugerir violentos estupros, frontais ou traseiros. Para mim, como para Alma Welt, chega a ser um mistério essa idiossincrasia dos americanos quanto aos pubic hair, os maravilhosos “pentelhos” que gostamos de exprimir assim, com ligeira vulgaridade desafiadora. A propósito, a própria Alma já se referiu, nalgum lugar de sua obra, aos seus próprios “pentelhos louros’’, creio que no magnífico conto “A Harpia”, do seu “Contos da Alma”, já publicado. Mas é fácil explicar esse timbre específico das cenas de sexo explícito na literatura de Alma Welt. Trata-se da absoluta falta de sentimento de culpa, portanto de malícia em relação ao sexo, que parece ser uma detestável herança judaico-cristã, que Alma não contém em sua alma, que me parece ser a da última “pagã” sobre a terra, desde que seu pai assim a criou, a despeito da mãe da guria, que era descendente açoriana e católica.
Mas voltando aos contos deste volume, uma delicadeza feminina num universo muito mais amplo que o que se convencionou chamar de feminino, se faz presente nesta autora, que nos parece, antes mesmo de ser mulher, ser artista e portanto universal por definição. Suas preocupações nunca são propriamente “domésticas ou maternais”, e muito menos “cosméticas”. Ela aborda a força do apelo da terra, de suas raízes telúricas, o amor cotidiano por sua própria arte, fruto de sua visão altamente poética da vida, e um tanto idealista também, derivando, suponho, do próprio “idealismo alemão” de sua herança cultural por via da estirpe paterna dos Welt, que apropriadamente simboliza o Mundo. Quanto à vertente materna, temos de Portugal e sua saudade, uma melancolia intermitente,e mais raramente algumas paixões dolorosas como os seus fados (vide o conto “Aline”, dos “Contos da Alma”). Não podemos, entretanto, esquecer que a descrição mais dolorosa de uma paixão infeliz jamais escrita na história da literatura, se encontra num livro exemplar do romantismo alemão, o maravilhoso e doentio “Os sofrimentos do jovem Werther”, de Goethe.
No entanto, e nisso consiste o fenômeno, dum modo geral a nossa autora é uma mulher alegre e feliz, possuidora até mesmo de um sutil senso de humor que aparece aqui e ali nos seu textos, que já foram compilados por mim, com sua autorização, é claro, num volume que denominamos justamente “Contos Humorísticos da Alma”.
Por ora, esta específica recolha contém os contos que se passam na “estância” pampiana da família, e mais raramente, no casarão natal de Alma em Novo Hamburgo onde Alma viveu até os nove anos, quando então mudou-se com os pais para a fazenda dos avós, no extremo sul, quase na fronteira com o Uruguai, entre Alegrete e Santana do Livramento. O cenário maravilhoso é visualizável nas rápidas pinceladas do texto sugestivo de Alma, como boa pintora-escritora. A propósito, parece existir um absurdo preconceito (como todos os preconceitos ) em nosso país, sobre pintores-escritores, ou escritores-pintores. O público parece não saber que são artes muito afins e que essa conjunção é muito mais comum na história das artes do que se pensa. Não cabe citar aqui a centena de exemplos célebres que me ocupei em colecionar por puro prazer. Na falarei sequer do grande William Blake, autor do célebre poema “The Tyger”, dos mais amados da literatura inglesa, exemplo clássico de poeta, gravador e aquarelista fenomenal e sui generis. Só quero citar no momento uma das belas páginas de pura literatura mágica, no único romance de Salvador Dalí, denominado “Faces Ocultas”, onde ele descreve magistralmente uma máscara ortopédica de couro, de reconstrução facial, sobre um rosto de piloto, destruído por um desastre aéreo, na primeira guerra, com suas primorosas costuras e cadarços, produzindo no leitor um prazer estético e literário indelével. Poucas vezes vi páginas assim tão bem escritas em qualquer escritor. Citarei, somente mais um exemplo: as páginas magistrais de descrição de uma súbita chuva à saída de uma festa, no começo do grande romance “O Amor nos Tempos do Cólera”, de Gabriel Garcia Marques, onde os convivas abrem seus guarda-chuvas protegendo seus pares numa espécie de coreografia cinematográfica de um verdadeiro Kurosawa latino e literário.
Quanto à Alma, já detectei páginas assim, magistrais, em sua prosa. São inúmeras, mas quero mencionar, deste volume, a página de diálogo da Alma com o padre fanático, no confessionário, no conto “O padre”; também a página final do conto “O adolescente”, bem como as do conto “A professora belga”, dos “Contos Secretos”, que me parece maravilhosamente hoffmaniano. Devo também frisar a persistência recorrente de sua paixão maior, confessada, ou melhor, cantada e celebrada, por seu próprio irmão Rôdo, paixão essa de caráter evidentemente incestuoso, da qual Alma não se compunge e parece mesmo se orgulhar. O amor de Alma por seu irmão, cantado assim por ela, chega a se universalizar, pela beleza de seu respaldo lírico, mais do que psicanalítico.
Prosseguindo, eu poderia citar inúmeros momentos de perfeição formal, nas páginas de Alma Welt. Mas serei eu suspeito? Eu me orgulho, como muitos já sabem, de ser o descobridor da obra da “guria”, e o nosso encontro providencial foi descrito por ela no conto “Anagramas”, que publiquei de forma artesanal, em folheto ilustrado por mim, conto criptológico e anagramático verdadeiramente iniciático, e que sugere a natureza misteriosa e providencial do nosso encontro, já no século XVII. Mas vou deixar essas referências para o leitor descobrir na leitura direta da própria Alma. É ela a “star”, cabe a ela as honras. E os holofotes.
Venha, Alma, mostre-se para nós, passeie e dispa-se para nós, no seu jardim, no pomar e nas pradarias do seu amado pampa. Dê-nos a sua branca beleza loura, austral ou nórdica, desnude-se, cavalgue, dance, pinte e ame, ofertando-nos sua intimidade com tanta generosidade, para nós fruirmos... e voltarmos a reverenciar o belo, o puro e o melhor do humano.
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30/10/2005
quarta-feira, 26 de março de 2008
Próxima apresentação da Banda Risses

Próxima apresentação da Banda Risses, no Clube Teodoro, na rua Teodoro Sampaio, nesta sexta feira, a partir das 21:30 horas. Entrada apenas R$5,00. A Banda Risses, através de seu compositor e vocalista João Roquer, vem musicando poemas da Alma e incluiu a canção "Quisera um jardim" ( J.Roquer- A.Welt) na abertura do seu show TERRA DESCONHECIDA.
sábado, 15 de março de 2008
Entrevista com ALMA WELT
CAFÉ LITERÁRIO entrevista a poetisa e musa gaúcha
Nosso repórter, escalado para entrevistar esse novo fenômeno da nossa literatura, a contista e poeta (além de pintora), Alma Welt, gaúcha radicada em São Paulo, voltou com um ar meio siderado, quase em estado de choque, e adentrou a nossa redação com um sugestivo assobio. Contou-nos que foi difícil, a princípio, deslanchar a entrevista, pois a beleza da moça é, no mínimo, perturbadora. Descreveu-nos uma mulher de 28 anos, alta, muito branca, loura “luminosamente” natural, “rasgados” olhos verdes. A perfeição de sua pele, sem uma única mancha ou sinal, despertou no nosso pobre repórter aquela comparação em desuso: “pele de alabastro”. Além disso, a boca da moça, seus lábios cheios na medida certa (há uma medida?) eram de uma beleza “hipnótica”, como seus olhos verdes (de gata?). Tivemos que calar o entusiasmo do nosso repórter, exigindo dele, logo, a entrevista por escrito. Suspeitamos que o infeliz está irremediavelmente apaixonado. Tivemos que mandá-lo pra casa mais cedo, pra tomar um banho frio. Mas vamos ao que interessa. A entrevista:
CL: Alma, posso chamá-la assim ? É o seu verdadeiro nome, estou certo? Lendo seus livros temos a impressão de ser um pseudônimo, de tão adequado ao seu conteúdo. Welt ( mundo, em alemão) nos remete ao Anima Mundi, de Jung. O que você tem a dizer sobre isso?
ALMA: Meu pai já era um admirador de Jung, desde sua juventude, e é possível que tenha pensado nele ao batizar-me com este nome, já que o nome de família é Welt. Meu pai esperava muito de mim, não sei bem porquê, já que sou a caçula apenas das mulheres. Tenho duas irmãs mais velhas e um irmão dois anos mais moço, Rodolfo (Rodo), que é o que mais aprecio, embora seja bem diferente de mim.
CL: Percebe-se isso no seu conto “O Testamento”, aliás, belíssimo. Mas a personalidade do rapaz parece apenas esboçada nesse conto. Para dizer a verdade, uma espécie de Dimítri Karamázov, muito sintetizado. É intencional essa analogia não explícita? Pois a sua própria figura, Alma, no conto nos remete ao irmão caçula Aliocha, enquanto o seu Monsenhor Ângelo é nitidamente o stáriets Zósima. Estou certo?
ALMA: Sim, sim. É possível. Mas foi um processo inconsciente. Não pensei nisso quando escrevi o conto. Talvez as semelhanças sejam devidas à estrutura arquetípica da própria estória e dos tipos humanos que a compõe. Quando se escreve assim como eu, num fluxo espontâneo e contínuo de inspiração, ocorre que os personagens, naturalmente, ocupam posições demarcadas, como peças num tabuleiro invisível existente na vida. Daí, também associarem meus contos à psicologia junguiana, que conheço pouco.
CL: Alma, no entanto é notável, na sua maneira de escrever, a presença de uma cultura livresca, assimilada. E surpreendentemente, da natureza clássica dessa cultura. Como você a adquiriu? Você é uma grande leitora?
ALMA: Bem, eu li alguns clássicos. Não foram tantos assim, mas os li bem. Posso dizer que conheço bem a Ilíada e a Odisséia de Homero, mas por traduções, é claro, além dos líricos gregos de Safo a Píndaro. Conheço a literatura de Dostoiéwski e de Edgar Allan Poe, além de Hoffmann, meus preferidos. Mas não cabe aqui citar todos os autores que li. Meu pai era um grande leitor. Um erudito. E tinha uma grande biblioteca em nossa casa, na estância. Aliás, essa biblioteca ainda existe, como tudo o mais em nossa casa, que permanece como ele a deixou, de uma maneira um pouco mórbida, na verdade.
CL: A propósito, Alma, nota-se uma grande nostalgia da casa paterna em certos poemas seus, que me lembram o tom leopardiano do “Vaghe stelle dell’Orsa”...sul paterno giardino scintillanti”.
ALMA: Sim, sim, é bastante arguta essa tua ilação. Realmente, eu mesma pensei nisso a posteriori.
CL: Seria Leopardi, também, uma das suas influências literárias?
ALMA: É possível. Mas não estou preocupada. Sempre se sofre influências da grande arte ao nosso redor. Mas creio que o importante é o timbre e o teor da assimilação dessas influências. Eu amo a literatura, bem como a Pintura e a Música clássicas, e vivo imersa num mar de referências que me sufocaria se não estivessem naturalmente digeridas. Elas me perspassam como os raios de sol atravessam a atmosfera, agindo sobre ela e aquecendo-a. Desculpa-me a imagem um tanto pretensiosa...
CL: Não, Alma, está perfeitamente expressa. Concordo com você . Percebe-se essa assimilação perfeita de sua herança cultural. Você não parece pedante em sua literatura, mesmo quando cita autores famosos como Nietzsche, por exemplo. Aliás, percebe-se que você o leu bastante, ou gosta muito dele. É certo isso? Fale-me da “alegria mais profunda que a dor”.
ALMA: Sim, devo reconhecer que Nietzsche me impressionou muito. Já era um preferido do meu pai., talvez por sua ascendência germânica. Tu notaste a aposta que faço na profundidade da alegria, que é o aspecto mais simpático de sua doutrina. Mas nada de super-homem, nem de “vontade de potência”. Essas coisas são perigosas, embora deva reconhecer que foram distorcidas em seu propósito inicial, pelos nazistas com a colaboração da irmã dele, Elisabeth. Meu pai me falava sobre isso. Devo frisar aqui que meu pai era aristocrático mas não nazista. Aliás, ele tinha horror ao nazi-fascismo, o que já não se pode dizer de seus pais, meus avós. Mas a leitura de Dostoiévski me despertou a simpatia pelos pobres, humilhados e ofendidos, e fui procurá-los também na literatura brasileira e os encontrei em Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, que li bastante. Aliás devo dizer, que também para mim, como para muita gente, o Grande Sertão: Veredas é o maior livro do mundo, junto com os Irmãos Karamásovi.
CL: É curioso, Alma, isso tudo vindo de uma escritora com apenas 28 anos. Você não é muito contemporânea, você sabia? E além disso, você acaba de dizer, em outras palavras, que conhece o povo e sua miséria através da literatura, quando basta olhar em torno, neste nosso país, para depararmos com a pobreza e seus horrores. O que você me diz disso?
ALMA: Tu não poderias esperar de mim que me metesse na periferia para conhecer o povo, mas andei na caatinga nordestina, e narrei isso num conto: “Na trilha dos menestréis”. E você deve levar em consideração a intuição do artista. Um poeta ou escritor não precisa ter estado na África para descrevê-la e contar maravilhosas aventuras passadas em seus desertos ou em suas savanas. Há grandes exemplos disso. Meu pai, quando criança, lia os contos de um escritor alemão provinciano que nunca saiu de sua aldeia na Bavária, e escrevia, antes da Segunda guerra, best-sellers populares ambientados no Far-West americano, estórias vívidas e verossímeis de índios pele-vermelhas e cowboys, que eram exportadas até para os Estados Unidos. Os americanos as adoravam. Poderia, também, citar o famoso poema de Emily Dickinson: I never saw a moor...( eu nunca vi uma charneca )... (bem posso imaginá-la).
CL: Mas, Alma, não quero que pareça uma crítica, que, afinal, não é minha função, mas você não usa o povo brasileiro, como material, ou mesmo pano de fundo, a não ser num ou dois contos seus, no “Meu pequeno vizinho”, lindo conto, e singelo, parecendo uma crônica, e no belíssimo “Na Trilha dos Menestréis” O seu Jeová, o negro do conto “A Harpia”, a meu ver a sua obra prima, é um tanto idealizado, embora se perceba que isso é intencional, dado o caráter simbólico do personagem, dentro de um conto que é, todo ele, uma magnífica alegoria. Mas, mesmo naqueles, você não focaliza propriamente a pobreza, a privação, e a injustiça da nossa monstruosa distribuição de renda.
ALMA: Realmente, CL, mas parece-me que tu estás me cobrando uma tomada de posição política, quando já fiz, há muito tempo, minha opção por uma tomada de posição filosófica. Estou interessada, sobretudo em temas psicológicos e essenciais da condição humana, como bem disse o meu prefaciador, o pintor e poeta Guilherme de Faria. Ele, nesse prefácio, enumera esses temas, segundo a sua visão bastante arguta.
CL: Mas, Alma, conte-nos, então, como você foi descoberta por um pintor famoso, que, recentemente, revelou-se poeta de cordel. Como você conheceu o Guilherme de Faria?
ALMA: Ah! Isso foi um encontro providencial, que contei no meu conto “Anagramas”. Ele é um amigo da grande gravadora Renina Katz que conheci um pouco antes e da qual fiz o primeiro anagrama.
CL: Sim, Alma, aquele espantoso anagrama em que aparece toda uma teogonia órfica. Admirável e instigante, lembro-me dele. Mas, continue.
ALMa: Pois é , Guilherme tendo tomado conhecimento através da Renina, do anagrama dela, feito por mim, e tendo tido um sonho enigmático, a princípio, procurou-me para que eu o ajudasse a desvendar esse sonho. Fiz o seu anagrama, que, afinal, foram cinco anagramas completos, que decifrados, explicaram o significado do seu sonho de maneira surpreendente até para mim. A partir disso tornamo-nos amigos.
CL: Perdoe-me a indiscrição, Alma, mas apenas amigos? O seu conto sugere muito mais, não é verdade? Não terá sido o começo de uma paixão?
ALMA: Realmente, não posso negar, mas prefiro não falar disso.
CL: Mas, Alma, eu insisto: você está apaixonada?
ALMA: Pode-se dizer que sim. Estou feliz. Ele é um homem maravilhoso, e um artista famoso, que tem apenas uma parcela de sua imensa obra conhecida do público. Além disso ele é um fantástico poeta de cordel, que escreve estórias profundas sobre o pano de fundo da caatinga nordestina, com espantosa autenticidade, visto não ser nordestino e nem sequer ter ascendentes nordestinos. Ele é paulista de 400 anos. O que mais uma vez comprova aquela tese da intuição do artista.
CL: Sim, estou disposto a concordar com você, Alma. E também a marcar uma entrevista com o Guilherme. Mas previno-a que farei perguntas indiscretas a ele, sobre você. Aceita?
ALMA ( rindo, e que bela risada ): Sim, CL, aceito. Sei que ele só dirá coisas bonitas a meu respeito.
CL: Quando você deu essa risada, agora, lembrei-me da gargalhada da Greta Garbo na Dama das Camélias, acompanhada de um glissando do piano que alguém tocava nessa cena (quando ela disse: “Pode ser o grande amor da minha vida! ) Você certamente viu esse filme...
ALMA: Sim, e lisonjeia-me a tua comparação. Nunca tinha pensado em ter qualquer semelhança com ela.
CL: Sim, Alma, há, e impressionante. Não que vocês se pareçam fisicamente. Ma, o timbre de suas feminilidades, e a presença. Bem, não quero encabulá-la.
ALMA: Obrigada, CL. Tu és gentil. Mas, longe de mim...
CL: Vamos então, mudar de assunto. Você reparou que nenhuma vez você cita a televisão ou sequer um aparelho desses nos seus contos? Não é insólita essa omissão, numa época como a nossa?
ALMA: Não, não mesmo. Como disse, estou interessada no essencial. Mas, infelizmente, não é verdade que eu não cite a televisão nenhuma vez. Citei-a, uma única vez, até agora, no conto “O Violino de Mozart” onde a personagem (eu mesma) vê o seu amado Gino numa entrevista na televisão. Mas eu poderia passar sem essa. Seria até mais interessante a omissão total desse veículo, como para tornar os meus contos mais atemporais. Além disso, a televisão já é suficientemente falada e discutida.
CL: Mas, Alma, sejamos sinceros, se a Globo, por exemplo, quisesse um texto seu para um caso especial, ou para o Brava Gente, você não aceitaria?
ALMA: Aceitaria, claro. Nenhum momento fiz qualquer crítica a essa mídia, e eu mesma já derramei muitas lágrimas com algumas novelas ou mini-séries. A sua versão do Grande Sertão: Veredas em mini-série foi admirável. Bem com O Primo Basílio e Os Maias. Gostei muito, também, das versões para a televisão das peças do grande Ariano Suassuna: O Auto da Compadecida e A Mulher Vestida de Sol. Foram primorosas e endossadas pelo próprio autor, segundo se soube.
CL: Então, Alma, mudemos mais uma vez de assunto. Já que você tem opiniões bem definidas sobre tudo, ou quase tudo. Estou enganado?
ALMA (rindo): Não estás enganado. Quando se tem uma visão do mundo, os detalhes técnicos, podem às vezes não importar. Se tu me perguntares sobre petróleo, vou logo dizendo que emporcalhou o mundo, e não adiantará tu me falares nos grandes interesses das grandes companhias e a relação desses interesses com a economia mundial. Trata-se a meu ver, de um combustível obsoleto e poluidor, que poderia há muito tempo ter sido substituído pelo hidrogênio, retirado da água do mar, fonte inesgotável, ou ainda pela energia elétrica através de baterias giroscópicas. Bastava para isso, vontade política, ou mesmo uma superação da chamada estupidez humana.
CL: Alma, você agora me surpreendeu. Então você tem opiniões técnicas e políticas, ou pelo menos ecológicas. Vejo que por aí há um veio a ser explorado.
ALMA: Não, prefiro que não, se tu não te importares. Sinto-me quase infantil quando falo dessas coisas. Sou apenas teórica e um tanto idealista nesse campo, e não gosto me sentir assim, já que não atuo de maneira prática nessa área. Sou apenas uma artista: pintora e poetisa.
CL: Sim, Alma, você é uma das últimas a aceitar esse epíteto: “poetisa”, que soa como uma coisa antiga, da época das “diseuses” e de Florbela Spanca, ou mais tardar de Cecília Meirelles, com quem, aliás, a sua poesia tem um visível parentesco. Você as aprecia?
ALMA: Sim, muito. Florbela Spanca especialmente, pela intensidade de sua paixão. Mas ela tem um tom mórbido e ressentido contra a vida, com o qual não me identifico. Ela me soa como uma mulher apaixonada e delirante, mas infeliz. Enquanto que eu sou apaixonada e feliz, apesar de algumas quedas, acidentes de percurso. Mas até hoje sempre subi, sempre saí do buraco, para alcançar novamente a alegria, sem a qual não poderia viver.
CL: Sabe, Alma, esse é o aspecto que mais me impressionou no seus contos e nos seus poemas. Essa aposta na alegria. Confesso que antes de conhecer a sua obra, eu não acreditava que a alegria desse muito assunto. Acreditava naquele axioma: “os povos felizes não têm história”. Mas você me fez ver uma certa profundidade e riqueza na alegria e na felicidade, e entender aquele verso de Nietzsche que você cita; “ a alegria é mais profunda que a dor”. Devo agradecer a você por isso. Mas ainda tenho a curiosidade de saber , como uma moça tão sensível como você, a julgar pelos seus textos, e mesmo pela sua pintura, pode ser feliz num mundo como o nosso. Percebe-se nos seus contos que você derrama lágrimas a torto e à direito, que você é muito chorona. Estou certo?
ALMA(sorrindo): Sim, é verdade. Derramo lágrimas com facilidade, mas se você reparar bem, quase sempre por comoção com a beleza, com o amor , com a arte. Lágrimas de felicidade, na maioria das vezes. Um sentimento do mundo que inclui, em mim, uma aposta na beleza e na grandeza do Homem. Não sou uma pessimista, e me comovo positivamente com o ser humano. E convivo intensamente com os deuses.
CL: Sim, Alma, é espantoso, nos seus textos como você parece conviver com eles, dentro de você, embora de maneira psicanalítica, como é possível na nossa época. Mas percebe-se que você se relaciona de maneira perturbadora, para você mesma, com suas supostas encarnações passadas, às quais você parece temer ou reagir, o que aumenta o mistério e o suspense de alguns contos como aquela maravilhosa “ Trilogia de Adèle”. Será isso uma técnica literária para fisgar o leitor? eu me pergunto.
ALMA: Se isso é uma pergunta, só posso lhe dizer, que sou absolutamente sincera, na minha arte. E sobretudo expontânea. Meu texto é fluente, nada premeditado, e penso que por isso posso incorrer freqüentemente numa certa ingenuidade. Não descarto essa possibilidade, disso que o meu prefaciador , o Guilherme chamou de “candura”. Mas, que eu saiba, ela é uma virtude, como ele muito bem colocou. Não devo me envergonhar dela, mesmo sendo uma escritora, não é mesmo?
CL: Bem, queria agora mudar o rumo da nossa conversa para abordar um aspecto que me intriga em sua literatura: o caráter sensual e mesmo erótico, freqüentemente explícito de alguns contos e poemas seus. Quero comentá-los porque eles me agradam. Vejo em você, sob este aspecto, uma alma pagã, bastante livre no domínio sexual, embora assombrada por outros espectros, como a sombra do mal, difusa, e a presença de encarnações passadas, nem sempre bem recebidas, e sim temidas.
ALMA: Surpreende-me essa tua captação tão arguta de um aspecto tão íntimo da minha natureza literária (e pessoal também, claro). E já que tu queres falar disso, posso apenas dizer que essa liberdade, mais do que assumida, é inerente à minha natureza, de maneira instintiva, desde a minha infância, para escândalo da minha mãe, que quis de todo modo reprimi-la, sem conseguir, claro. Eu falo sobre isso no meu conto “As Férias da Infância da Alma”, dos Novos Contos. Devo dizer que gosto muito do erotismo e considero que ainda não me dediquei a ele, verdadeiramente, na literatura. É possível que eu ainda escreva um livro de contos realmente erótico.
CL: Como Anaïs Nin, por exemplo? Você leu o seu “Delta de Vênus”?
ALMA: Sim, mas achei insatisfatório. O meu livro será mais explícito e escabroso, espero.
CL: Puxa, estou curioso e ansioso para lê-lo (risos). Mas diga-me, Alma, você leu o Marquês de Sade? Você o cita, num certo conto, mas de maneira sumária e genérica.
ALMA: Sim, eu li o Marquês. Mas o seu “120 Dias de Sodoma” eu joguei fora. Aquilo era sórdido demais e me chocou. Quanto aos outros livros como Justine, Filosofia da Alcova, O Marido Complacente, etc, apreciei certos aspectos. Mas realmente, não é o meu favorito. Prefiro, por exemplo Choderlos de Laclos, do “Ligações Perigosas”.
CL: E Henry Miller, você o leu?
ALMA: Sim, e gosto muito dele, mas não justamente das suas descrições eróticas que são muito grosseiras com a figura da mulher. Compreendo a revolta de June, contada por Anaïs Nin no seu maravilhoso Diário. June, aquela linda mulher queria, e merecia ser verdadeiramente tratada como musa, e Henry se recusava a isso. E ele suspeitava que ela se prostituíra para arranjar-lhe o dinheiro da viagem para a França. Ora, isso não importava, ou fazia dela, no mínimo uma espécie de “prostituta santa”, que ele não soube apreciar. Era um terrível machista, no fundo. Já Anaïs, sim, soube apreciar o mistério da beleza tão grande daquela mulher, a ponto de apaixonar-se por ela, de maneira mais profunda e sensível do que ele. Mas parece que ela acabou também rejeitada pela June, depois de um breve caso entre as duas, interrompendo uma maravilhosa cena de cama.
CL: Alma, a propósito, você escreveu um livro de poemas sáficos, como você diz, o “Narcísicas”, de surpreendente lirismo para os nossos tempos. Soa na verdade, como uma poetisa grega antiga, dos tempos da musa de Mitilene. E depois, o seu livro de Sonetos repete a descrição dessa paixão, mas de outra forma, aliás muito interessante, pela progressão da estória através da seqüência
dos sonetos. Eu pergunto: essa estória é real? Aconteceu com você? Aline existe?
ALMA: Não gostaria de falar sobre isso, mais do que já falei na própria poesia, nas Narcísicas, e nos Sonetos. Foi um caso muito doloroso, mas que eu contarei também num conto, que aliás, já estou escrevendo.
CL: Mas, Alma, seus leitores vão querer saber um pouco mais, desde já, sobre essa misteriosa Aline. Você não poderia comentar alguma coisa sobre ela?
ALMA: Já que tu insistes, direi apenas que esse caso quase me derrubou. Entreguei-me demais a esse amor, como os leitores poderão perceber nos meus poemas, e isso quase me foi fatal. Ela retirou-se, subitamente, da minha vida, o que me tirou o chão e o alento. Desci muito fundo, no inferno da alma, e tive que fazer um esforço muito grande para subir. Mas não renego nada. Saí afinal mais fortalecida , ou pelo menos calejada.
CL: Alma, essa sua experiência rendeu belíssimos versos de amor, de um lirismo incomum na poesia contemporânea, a meu ver. Confesso que disputei esta entrevista, justamente pela admiração que esses versos me causaram.
ALMA: Fico gratificada e comovida com isso. Mas se penso novamente nesse caso e nesses versos ponho-me a chorar. Vamos mudar de assunto, sim?
CL: Está bem, que pena... Eu poderia perguntar-lhe ainda tanta coisa, mas nosso espaço está chegando ao fim. Fale-me daquele insólito livro de poemas
“Amar Humores”. Como você o concebeu?
ALMA: Bem, o que tu queres realmente saber? A minha motivação? O humor misturado ao erotismo, de uma ótica feminina, claro. E satirizando, às vezes, a ótica masculina. É um alvo talvez um pouco difícil, e posso não ter conseguido. Mas é um texto espontâneo como todos os meus textos. Confio muito no que jorra da minha intuição. E aquilo sou eu, como, aliás, todos os meus poemas, contos e pinturas. Só posso falar de mim mesma, mas fazendo-o assim, de peito aberto, tenho a esperança de ser compreendida por outras mulheres e mesmo pelos homens. Só se pode ser universal, a partir da nossa aldeia, do nosso bairro, do nosso quarteirão, quer dizer, da nossa pele. Não é, mais ou menos, o que dizia Nelson Rodrigues? De qualquer maneira quero falar de mim, de minhas experiências amorosas e até mesmo eróticas, pois o ato de escrever já me basta. Eu sei que é narcisismo, e daí? Isso me dá imensa satisfação e isso por si, já me justificaria perante mim mesma. Mas, se há um editor e leitores, então, meu exibicionismo fica ainda mais legitimado, não achas?
CL: Eis aí uma declaração franca e perturbadora. Mas, na verdade, posso dizer, sem ser um crítico literário, que a qualidade dos seus textos o justificam plenamente, para além da necessidade confessional que você mesma declara haver neles. Certamente haverá muitos leitores e fãs. Eu mesmo já sou um deles. Nossa entrevista chegou ao fim. Posso dar-lhe um beijo?
ALMA: Sim, tu és doce, afinal...
17/03/2003
Nosso repórter, escalado para entrevistar esse novo fenômeno da nossa literatura, a contista e poeta (além de pintora), Alma Welt, gaúcha radicada em São Paulo, voltou com um ar meio siderado, quase em estado de choque, e adentrou a nossa redação com um sugestivo assobio. Contou-nos que foi difícil, a princípio, deslanchar a entrevista, pois a beleza da moça é, no mínimo, perturbadora. Descreveu-nos uma mulher de 28 anos, alta, muito branca, loura “luminosamente” natural, “rasgados” olhos verdes. A perfeição de sua pele, sem uma única mancha ou sinal, despertou no nosso pobre repórter aquela comparação em desuso: “pele de alabastro”. Além disso, a boca da moça, seus lábios cheios na medida certa (há uma medida?) eram de uma beleza “hipnótica”, como seus olhos verdes (de gata?). Tivemos que calar o entusiasmo do nosso repórter, exigindo dele, logo, a entrevista por escrito. Suspeitamos que o infeliz está irremediavelmente apaixonado. Tivemos que mandá-lo pra casa mais cedo, pra tomar um banho frio. Mas vamos ao que interessa. A entrevista:
CL: Alma, posso chamá-la assim ? É o seu verdadeiro nome, estou certo? Lendo seus livros temos a impressão de ser um pseudônimo, de tão adequado ao seu conteúdo. Welt ( mundo, em alemão) nos remete ao Anima Mundi, de Jung. O que você tem a dizer sobre isso?
ALMA: Meu pai já era um admirador de Jung, desde sua juventude, e é possível que tenha pensado nele ao batizar-me com este nome, já que o nome de família é Welt. Meu pai esperava muito de mim, não sei bem porquê, já que sou a caçula apenas das mulheres. Tenho duas irmãs mais velhas e um irmão dois anos mais moço, Rodolfo (Rodo), que é o que mais aprecio, embora seja bem diferente de mim.
CL: Percebe-se isso no seu conto “O Testamento”, aliás, belíssimo. Mas a personalidade do rapaz parece apenas esboçada nesse conto. Para dizer a verdade, uma espécie de Dimítri Karamázov, muito sintetizado. É intencional essa analogia não explícita? Pois a sua própria figura, Alma, no conto nos remete ao irmão caçula Aliocha, enquanto o seu Monsenhor Ângelo é nitidamente o stáriets Zósima. Estou certo?
ALMA: Sim, sim. É possível. Mas foi um processo inconsciente. Não pensei nisso quando escrevi o conto. Talvez as semelhanças sejam devidas à estrutura arquetípica da própria estória e dos tipos humanos que a compõe. Quando se escreve assim como eu, num fluxo espontâneo e contínuo de inspiração, ocorre que os personagens, naturalmente, ocupam posições demarcadas, como peças num tabuleiro invisível existente na vida. Daí, também associarem meus contos à psicologia junguiana, que conheço pouco.
CL: Alma, no entanto é notável, na sua maneira de escrever, a presença de uma cultura livresca, assimilada. E surpreendentemente, da natureza clássica dessa cultura. Como você a adquiriu? Você é uma grande leitora?
ALMA: Bem, eu li alguns clássicos. Não foram tantos assim, mas os li bem. Posso dizer que conheço bem a Ilíada e a Odisséia de Homero, mas por traduções, é claro, além dos líricos gregos de Safo a Píndaro. Conheço a literatura de Dostoiéwski e de Edgar Allan Poe, além de Hoffmann, meus preferidos. Mas não cabe aqui citar todos os autores que li. Meu pai era um grande leitor. Um erudito. E tinha uma grande biblioteca em nossa casa, na estância. Aliás, essa biblioteca ainda existe, como tudo o mais em nossa casa, que permanece como ele a deixou, de uma maneira um pouco mórbida, na verdade.
CL: A propósito, Alma, nota-se uma grande nostalgia da casa paterna em certos poemas seus, que me lembram o tom leopardiano do “Vaghe stelle dell’Orsa”...sul paterno giardino scintillanti”.
ALMA: Sim, sim, é bastante arguta essa tua ilação. Realmente, eu mesma pensei nisso a posteriori.
CL: Seria Leopardi, também, uma das suas influências literárias?
ALMA: É possível. Mas não estou preocupada. Sempre se sofre influências da grande arte ao nosso redor. Mas creio que o importante é o timbre e o teor da assimilação dessas influências. Eu amo a literatura, bem como a Pintura e a Música clássicas, e vivo imersa num mar de referências que me sufocaria se não estivessem naturalmente digeridas. Elas me perspassam como os raios de sol atravessam a atmosfera, agindo sobre ela e aquecendo-a. Desculpa-me a imagem um tanto pretensiosa...
CL: Não, Alma, está perfeitamente expressa. Concordo com você . Percebe-se essa assimilação perfeita de sua herança cultural. Você não parece pedante em sua literatura, mesmo quando cita autores famosos como Nietzsche, por exemplo. Aliás, percebe-se que você o leu bastante, ou gosta muito dele. É certo isso? Fale-me da “alegria mais profunda que a dor”.
ALMA: Sim, devo reconhecer que Nietzsche me impressionou muito. Já era um preferido do meu pai., talvez por sua ascendência germânica. Tu notaste a aposta que faço na profundidade da alegria, que é o aspecto mais simpático de sua doutrina. Mas nada de super-homem, nem de “vontade de potência”. Essas coisas são perigosas, embora deva reconhecer que foram distorcidas em seu propósito inicial, pelos nazistas com a colaboração da irmã dele, Elisabeth. Meu pai me falava sobre isso. Devo frisar aqui que meu pai era aristocrático mas não nazista. Aliás, ele tinha horror ao nazi-fascismo, o que já não se pode dizer de seus pais, meus avós. Mas a leitura de Dostoiévski me despertou a simpatia pelos pobres, humilhados e ofendidos, e fui procurá-los também na literatura brasileira e os encontrei em Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, que li bastante. Aliás devo dizer, que também para mim, como para muita gente, o Grande Sertão: Veredas é o maior livro do mundo, junto com os Irmãos Karamásovi.
CL: É curioso, Alma, isso tudo vindo de uma escritora com apenas 28 anos. Você não é muito contemporânea, você sabia? E além disso, você acaba de dizer, em outras palavras, que conhece o povo e sua miséria através da literatura, quando basta olhar em torno, neste nosso país, para depararmos com a pobreza e seus horrores. O que você me diz disso?
ALMA: Tu não poderias esperar de mim que me metesse na periferia para conhecer o povo, mas andei na caatinga nordestina, e narrei isso num conto: “Na trilha dos menestréis”. E você deve levar em consideração a intuição do artista. Um poeta ou escritor não precisa ter estado na África para descrevê-la e contar maravilhosas aventuras passadas em seus desertos ou em suas savanas. Há grandes exemplos disso. Meu pai, quando criança, lia os contos de um escritor alemão provinciano que nunca saiu de sua aldeia na Bavária, e escrevia, antes da Segunda guerra, best-sellers populares ambientados no Far-West americano, estórias vívidas e verossímeis de índios pele-vermelhas e cowboys, que eram exportadas até para os Estados Unidos. Os americanos as adoravam. Poderia, também, citar o famoso poema de Emily Dickinson: I never saw a moor...( eu nunca vi uma charneca )... (bem posso imaginá-la).
CL: Mas, Alma, não quero que pareça uma crítica, que, afinal, não é minha função, mas você não usa o povo brasileiro, como material, ou mesmo pano de fundo, a não ser num ou dois contos seus, no “Meu pequeno vizinho”, lindo conto, e singelo, parecendo uma crônica, e no belíssimo “Na Trilha dos Menestréis” O seu Jeová, o negro do conto “A Harpia”, a meu ver a sua obra prima, é um tanto idealizado, embora se perceba que isso é intencional, dado o caráter simbólico do personagem, dentro de um conto que é, todo ele, uma magnífica alegoria. Mas, mesmo naqueles, você não focaliza propriamente a pobreza, a privação, e a injustiça da nossa monstruosa distribuição de renda.
ALMA: Realmente, CL, mas parece-me que tu estás me cobrando uma tomada de posição política, quando já fiz, há muito tempo, minha opção por uma tomada de posição filosófica. Estou interessada, sobretudo em temas psicológicos e essenciais da condição humana, como bem disse o meu prefaciador, o pintor e poeta Guilherme de Faria. Ele, nesse prefácio, enumera esses temas, segundo a sua visão bastante arguta.
CL: Mas, Alma, conte-nos, então, como você foi descoberta por um pintor famoso, que, recentemente, revelou-se poeta de cordel. Como você conheceu o Guilherme de Faria?
ALMA: Ah! Isso foi um encontro providencial, que contei no meu conto “Anagramas”. Ele é um amigo da grande gravadora Renina Katz que conheci um pouco antes e da qual fiz o primeiro anagrama.
CL: Sim, Alma, aquele espantoso anagrama em que aparece toda uma teogonia órfica. Admirável e instigante, lembro-me dele. Mas, continue.
ALMa: Pois é , Guilherme tendo tomado conhecimento através da Renina, do anagrama dela, feito por mim, e tendo tido um sonho enigmático, a princípio, procurou-me para que eu o ajudasse a desvendar esse sonho. Fiz o seu anagrama, que, afinal, foram cinco anagramas completos, que decifrados, explicaram o significado do seu sonho de maneira surpreendente até para mim. A partir disso tornamo-nos amigos.
CL: Perdoe-me a indiscrição, Alma, mas apenas amigos? O seu conto sugere muito mais, não é verdade? Não terá sido o começo de uma paixão?
ALMA: Realmente, não posso negar, mas prefiro não falar disso.
CL: Mas, Alma, eu insisto: você está apaixonada?
ALMA: Pode-se dizer que sim. Estou feliz. Ele é um homem maravilhoso, e um artista famoso, que tem apenas uma parcela de sua imensa obra conhecida do público. Além disso ele é um fantástico poeta de cordel, que escreve estórias profundas sobre o pano de fundo da caatinga nordestina, com espantosa autenticidade, visto não ser nordestino e nem sequer ter ascendentes nordestinos. Ele é paulista de 400 anos. O que mais uma vez comprova aquela tese da intuição do artista.
CL: Sim, estou disposto a concordar com você, Alma. E também a marcar uma entrevista com o Guilherme. Mas previno-a que farei perguntas indiscretas a ele, sobre você. Aceita?
ALMA ( rindo, e que bela risada ): Sim, CL, aceito. Sei que ele só dirá coisas bonitas a meu respeito.
CL: Quando você deu essa risada, agora, lembrei-me da gargalhada da Greta Garbo na Dama das Camélias, acompanhada de um glissando do piano que alguém tocava nessa cena (quando ela disse: “Pode ser o grande amor da minha vida! ) Você certamente viu esse filme...
ALMA: Sim, e lisonjeia-me a tua comparação. Nunca tinha pensado em ter qualquer semelhança com ela.
CL: Sim, Alma, há, e impressionante. Não que vocês se pareçam fisicamente. Ma, o timbre de suas feminilidades, e a presença. Bem, não quero encabulá-la.
ALMA: Obrigada, CL. Tu és gentil. Mas, longe de mim...
CL: Vamos então, mudar de assunto. Você reparou que nenhuma vez você cita a televisão ou sequer um aparelho desses nos seus contos? Não é insólita essa omissão, numa época como a nossa?
ALMA: Não, não mesmo. Como disse, estou interessada no essencial. Mas, infelizmente, não é verdade que eu não cite a televisão nenhuma vez. Citei-a, uma única vez, até agora, no conto “O Violino de Mozart” onde a personagem (eu mesma) vê o seu amado Gino numa entrevista na televisão. Mas eu poderia passar sem essa. Seria até mais interessante a omissão total desse veículo, como para tornar os meus contos mais atemporais. Além disso, a televisão já é suficientemente falada e discutida.
CL: Mas, Alma, sejamos sinceros, se a Globo, por exemplo, quisesse um texto seu para um caso especial, ou para o Brava Gente, você não aceitaria?
ALMA: Aceitaria, claro. Nenhum momento fiz qualquer crítica a essa mídia, e eu mesma já derramei muitas lágrimas com algumas novelas ou mini-séries. A sua versão do Grande Sertão: Veredas em mini-série foi admirável. Bem com O Primo Basílio e Os Maias. Gostei muito, também, das versões para a televisão das peças do grande Ariano Suassuna: O Auto da Compadecida e A Mulher Vestida de Sol. Foram primorosas e endossadas pelo próprio autor, segundo se soube.
CL: Então, Alma, mudemos mais uma vez de assunto. Já que você tem opiniões bem definidas sobre tudo, ou quase tudo. Estou enganado?
ALMA (rindo): Não estás enganado. Quando se tem uma visão do mundo, os detalhes técnicos, podem às vezes não importar. Se tu me perguntares sobre petróleo, vou logo dizendo que emporcalhou o mundo, e não adiantará tu me falares nos grandes interesses das grandes companhias e a relação desses interesses com a economia mundial. Trata-se a meu ver, de um combustível obsoleto e poluidor, que poderia há muito tempo ter sido substituído pelo hidrogênio, retirado da água do mar, fonte inesgotável, ou ainda pela energia elétrica através de baterias giroscópicas. Bastava para isso, vontade política, ou mesmo uma superação da chamada estupidez humana.
CL: Alma, você agora me surpreendeu. Então você tem opiniões técnicas e políticas, ou pelo menos ecológicas. Vejo que por aí há um veio a ser explorado.
ALMA: Não, prefiro que não, se tu não te importares. Sinto-me quase infantil quando falo dessas coisas. Sou apenas teórica e um tanto idealista nesse campo, e não gosto me sentir assim, já que não atuo de maneira prática nessa área. Sou apenas uma artista: pintora e poetisa.
CL: Sim, Alma, você é uma das últimas a aceitar esse epíteto: “poetisa”, que soa como uma coisa antiga, da época das “diseuses” e de Florbela Spanca, ou mais tardar de Cecília Meirelles, com quem, aliás, a sua poesia tem um visível parentesco. Você as aprecia?
ALMA: Sim, muito. Florbela Spanca especialmente, pela intensidade de sua paixão. Mas ela tem um tom mórbido e ressentido contra a vida, com o qual não me identifico. Ela me soa como uma mulher apaixonada e delirante, mas infeliz. Enquanto que eu sou apaixonada e feliz, apesar de algumas quedas, acidentes de percurso. Mas até hoje sempre subi, sempre saí do buraco, para alcançar novamente a alegria, sem a qual não poderia viver.
CL: Sabe, Alma, esse é o aspecto que mais me impressionou no seus contos e nos seus poemas. Essa aposta na alegria. Confesso que antes de conhecer a sua obra, eu não acreditava que a alegria desse muito assunto. Acreditava naquele axioma: “os povos felizes não têm história”. Mas você me fez ver uma certa profundidade e riqueza na alegria e na felicidade, e entender aquele verso de Nietzsche que você cita; “ a alegria é mais profunda que a dor”. Devo agradecer a você por isso. Mas ainda tenho a curiosidade de saber , como uma moça tão sensível como você, a julgar pelos seus textos, e mesmo pela sua pintura, pode ser feliz num mundo como o nosso. Percebe-se nos seus contos que você derrama lágrimas a torto e à direito, que você é muito chorona. Estou certo?
ALMA(sorrindo): Sim, é verdade. Derramo lágrimas com facilidade, mas se você reparar bem, quase sempre por comoção com a beleza, com o amor , com a arte. Lágrimas de felicidade, na maioria das vezes. Um sentimento do mundo que inclui, em mim, uma aposta na beleza e na grandeza do Homem. Não sou uma pessimista, e me comovo positivamente com o ser humano. E convivo intensamente com os deuses.
CL: Sim, Alma, é espantoso, nos seus textos como você parece conviver com eles, dentro de você, embora de maneira psicanalítica, como é possível na nossa época. Mas percebe-se que você se relaciona de maneira perturbadora, para você mesma, com suas supostas encarnações passadas, às quais você parece temer ou reagir, o que aumenta o mistério e o suspense de alguns contos como aquela maravilhosa “ Trilogia de Adèle”. Será isso uma técnica literária para fisgar o leitor? eu me pergunto.
ALMA: Se isso é uma pergunta, só posso lhe dizer, que sou absolutamente sincera, na minha arte. E sobretudo expontânea. Meu texto é fluente, nada premeditado, e penso que por isso posso incorrer freqüentemente numa certa ingenuidade. Não descarto essa possibilidade, disso que o meu prefaciador , o Guilherme chamou de “candura”. Mas, que eu saiba, ela é uma virtude, como ele muito bem colocou. Não devo me envergonhar dela, mesmo sendo uma escritora, não é mesmo?
CL: Bem, queria agora mudar o rumo da nossa conversa para abordar um aspecto que me intriga em sua literatura: o caráter sensual e mesmo erótico, freqüentemente explícito de alguns contos e poemas seus. Quero comentá-los porque eles me agradam. Vejo em você, sob este aspecto, uma alma pagã, bastante livre no domínio sexual, embora assombrada por outros espectros, como a sombra do mal, difusa, e a presença de encarnações passadas, nem sempre bem recebidas, e sim temidas.
ALMA: Surpreende-me essa tua captação tão arguta de um aspecto tão íntimo da minha natureza literária (e pessoal também, claro). E já que tu queres falar disso, posso apenas dizer que essa liberdade, mais do que assumida, é inerente à minha natureza, de maneira instintiva, desde a minha infância, para escândalo da minha mãe, que quis de todo modo reprimi-la, sem conseguir, claro. Eu falo sobre isso no meu conto “As Férias da Infância da Alma”, dos Novos Contos. Devo dizer que gosto muito do erotismo e considero que ainda não me dediquei a ele, verdadeiramente, na literatura. É possível que eu ainda escreva um livro de contos realmente erótico.
CL: Como Anaïs Nin, por exemplo? Você leu o seu “Delta de Vênus”?
ALMA: Sim, mas achei insatisfatório. O meu livro será mais explícito e escabroso, espero.
CL: Puxa, estou curioso e ansioso para lê-lo (risos). Mas diga-me, Alma, você leu o Marquês de Sade? Você o cita, num certo conto, mas de maneira sumária e genérica.
ALMA: Sim, eu li o Marquês. Mas o seu “120 Dias de Sodoma” eu joguei fora. Aquilo era sórdido demais e me chocou. Quanto aos outros livros como Justine, Filosofia da Alcova, O Marido Complacente, etc, apreciei certos aspectos. Mas realmente, não é o meu favorito. Prefiro, por exemplo Choderlos de Laclos, do “Ligações Perigosas”.
CL: E Henry Miller, você o leu?
ALMA: Sim, e gosto muito dele, mas não justamente das suas descrições eróticas que são muito grosseiras com a figura da mulher. Compreendo a revolta de June, contada por Anaïs Nin no seu maravilhoso Diário. June, aquela linda mulher queria, e merecia ser verdadeiramente tratada como musa, e Henry se recusava a isso. E ele suspeitava que ela se prostituíra para arranjar-lhe o dinheiro da viagem para a França. Ora, isso não importava, ou fazia dela, no mínimo uma espécie de “prostituta santa”, que ele não soube apreciar. Era um terrível machista, no fundo. Já Anaïs, sim, soube apreciar o mistério da beleza tão grande daquela mulher, a ponto de apaixonar-se por ela, de maneira mais profunda e sensível do que ele. Mas parece que ela acabou também rejeitada pela June, depois de um breve caso entre as duas, interrompendo uma maravilhosa cena de cama.
CL: Alma, a propósito, você escreveu um livro de poemas sáficos, como você diz, o “Narcísicas”, de surpreendente lirismo para os nossos tempos. Soa na verdade, como uma poetisa grega antiga, dos tempos da musa de Mitilene. E depois, o seu livro de Sonetos repete a descrição dessa paixão, mas de outra forma, aliás muito interessante, pela progressão da estória através da seqüência
dos sonetos. Eu pergunto: essa estória é real? Aconteceu com você? Aline existe?
ALMA: Não gostaria de falar sobre isso, mais do que já falei na própria poesia, nas Narcísicas, e nos Sonetos. Foi um caso muito doloroso, mas que eu contarei também num conto, que aliás, já estou escrevendo.
CL: Mas, Alma, seus leitores vão querer saber um pouco mais, desde já, sobre essa misteriosa Aline. Você não poderia comentar alguma coisa sobre ela?
ALMA: Já que tu insistes, direi apenas que esse caso quase me derrubou. Entreguei-me demais a esse amor, como os leitores poderão perceber nos meus poemas, e isso quase me foi fatal. Ela retirou-se, subitamente, da minha vida, o que me tirou o chão e o alento. Desci muito fundo, no inferno da alma, e tive que fazer um esforço muito grande para subir. Mas não renego nada. Saí afinal mais fortalecida , ou pelo menos calejada.
CL: Alma, essa sua experiência rendeu belíssimos versos de amor, de um lirismo incomum na poesia contemporânea, a meu ver. Confesso que disputei esta entrevista, justamente pela admiração que esses versos me causaram.
ALMA: Fico gratificada e comovida com isso. Mas se penso novamente nesse caso e nesses versos ponho-me a chorar. Vamos mudar de assunto, sim?
CL: Está bem, que pena... Eu poderia perguntar-lhe ainda tanta coisa, mas nosso espaço está chegando ao fim. Fale-me daquele insólito livro de poemas
“Amar Humores”. Como você o concebeu?
ALMA: Bem, o que tu queres realmente saber? A minha motivação? O humor misturado ao erotismo, de uma ótica feminina, claro. E satirizando, às vezes, a ótica masculina. É um alvo talvez um pouco difícil, e posso não ter conseguido. Mas é um texto espontâneo como todos os meus textos. Confio muito no que jorra da minha intuição. E aquilo sou eu, como, aliás, todos os meus poemas, contos e pinturas. Só posso falar de mim mesma, mas fazendo-o assim, de peito aberto, tenho a esperança de ser compreendida por outras mulheres e mesmo pelos homens. Só se pode ser universal, a partir da nossa aldeia, do nosso bairro, do nosso quarteirão, quer dizer, da nossa pele. Não é, mais ou menos, o que dizia Nelson Rodrigues? De qualquer maneira quero falar de mim, de minhas experiências amorosas e até mesmo eróticas, pois o ato de escrever já me basta. Eu sei que é narcisismo, e daí? Isso me dá imensa satisfação e isso por si, já me justificaria perante mim mesma. Mas, se há um editor e leitores, então, meu exibicionismo fica ainda mais legitimado, não achas?
CL: Eis aí uma declaração franca e perturbadora. Mas, na verdade, posso dizer, sem ser um crítico literário, que a qualidade dos seus textos o justificam plenamente, para além da necessidade confessional que você mesma declara haver neles. Certamente haverá muitos leitores e fãs. Eu mesmo já sou um deles. Nossa entrevista chegou ao fim. Posso dar-lhe um beijo?
ALMA: Sim, tu és doce, afinal...
17/03/2003
quinta-feira, 6 de março de 2008
Próxima apresentação da Banda Risses

Folder realizado pelo desenhista Renato Adriano de apresentação do magnífico show Terra Desconhecida, da Banda Risses que inclui um poema da Alma (Quisera um jardim) musicado e cantado pelo compositor e vocalista da banda João Roquer.
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PREFÁCIO AOS “CONTOS DA ALMA”, de ALMA WELT
(por GUILHERME DE FARIA)
Ser convocado pelo destino, a esta altura da vida, para ser o descobridor do fenômeno Alma Welt, e mesmo seu modesto prefaciador, é algo inesperado e honroso demais para mim.
Esta moça gaúcha, (seu nome, verdadeiro, me remete imediatamente a Jung e sua “Anima Mundi” ), neta de alemães, que se fixaram no sul (por parte de pai), e de portugueses açorianos por parte de mãe, pode-se dizer que suas origens são rurais, embora tenha tido uma educação bastante cosmopolita, tendo inclusive estudado na Europa. Seu pai, que era médico, herdou uma estancia na extrema fronteira sul do país, que ainda está na família, hoje administrada pelo seu irmão mais moço, Rodolfo, que ela chama, carinhosamente, Rodo ( vide o conto “O Testamento” ).Órfã de mãe desde a adolescência, percebe-se a extrema importância do pai ( homem culto) em sua infância e em toda a sua formação. Há quatro anos mudou-se, sozinha, para São Paulo, onde montou ateliê nos Jardins, em cujas “passarelas” é vista eventualmente, passeando sua natural elegância, e freqüentemente confundida com alguma modelo. Acontece ela ser muitas vezes abordada por fotógrafos e agentes da moda. Não é preciso dizer que a moça se desvencilha deles, graciosamente. Alma tem horror à futilidade do mundo “fashion”, e cativou-me, simultaneamente, pela sua beleza e por seu talento. Vi nela, imediatamente, aquelas características raras, como, por exemplo, das musas-pintoras do Surrealismo ( Frida Kahlo, Leonor Fini, Leonora Carrington, Valentine Hugo, Remedios Varo, Lee Miller, Kay Sage, Dorothea Tanning, Eileen Agar, e outras): beleza física, mistério, sensualidade contida, um certo hieratismo de presença, e uma grande reserva no trato pessoal, fruto, talvez, de um natural orgulho e consciência de seus dons. Mas, Ah! sua doçura, uma candura mesmo, indisfarçável, nada comum àquelas outras divas, me derrotou completamente. Confesso que tive de fazer um certo esforço inicial para concentrar-me em sua obra, pictórica e literária, pois meus olhos pediam sua beleza e detinham-se, teimosos, neste aspecto, que, aliás me parece importante. Estou convencido, desde sempre, que a beleza física é, não somente um dom, mas uma virtude, a ser cultivada, através não somente do seu culto, tão antigo, mas da disciplina interior, que consiste numa sintonia fina, persistente, na elevação de pensamento, generosidade de coração, e abertura intelectual e anímica. Sim, Alma Welt, minha descoberta (ela me permitiu que assim a ela me refira), tem tudo isso. Seus contos, o revelam e me fascinam cada vez mais, bem como seus poemas, tão femininos. Como não poderia deixar de ser, diriam alguns. Não. Há mulheres escritoras que não são tão femininas.,
No entanto, a despeito de sua ostensiva feminilidade, Alma Welt tem as características básicas da universalidade em sua visão do mundo e do ser humano: uma profunda empatia com os seus personagens, profundidade de captação de seu psicologismo, autenticidade de descrição de atitudes e diálogos, e verossimilhança de situações de cunho realista, apesar da evidente tendência ao simbologismo arquetípico, que, ao meu ver, enriquece seu texto conferindo certa transcendência às suas estórias e ao seus poemas. Seus contos e poesias, sempre de tom confessional, autobiográfico ou memorial, mesmo quando as situações são imaginárias, revelam uma razoável bagagem cultural, literária e mesmo musical, clássica, cujo gosto herdou de seu pai. ( Alma ama a música de câmara e a ópera ), o que não deixa de ser surpreendente, sendo ela uma moça de apenas 28 anos. Suas referências a autores, pintores, músicos, etc., são oportunas e bem fundamentadas, revelando até uma certa originalidade de aproximação. Nesse sentido, há também, verdadeiros “achados” em suas poesias, como aquele: “Arte é isso: milagre atrás do truque”. Ou ainda: “da humanidade presta o que resta”. E mais, aquele quase aforismo: “ O talento faz o que quer, o gênio faz o que pode”.
Entre outras tantas, tais coisas me causam admiração, vindas de uma mulher (perdoem-me o machismo) mas é realmente inesperado tal tipo de pensamento vindo do seu sexo. Mas é preciso voltar à realidade da absoluta igualdade potencial dos sexos quanto à profundidade intelectual e até mesmo quanto à possível psique comum aos dois sexos. Há mesmo quem nunca acreditou em qualquer diferença dos sexos nesse campo. Mas ironicamente, não são justamente, os autores mais citados por Alma Welt, como Nietzsche, por exemplo, um notório misógeno intelectual, apesar de sua paixão por sua irmã e por Lou Andreas Salomé . Mas a autora não está preocupada com esse aspecto do pensamento do filósofo alemão. Percebe-se que Alma elegeu sobretudo a sua afirmação da Alegria, “mais profunda que a dor”, contraface da melancolia do Romantismo alemão, que é o aspecto mais simpático de sua doutrina, tão desvirtuada pelo nazismo com a colaboração justamente de sua irmã, Elizabeth Foster Nietzsche. Mas não cabe aqui uma crítica ao grande filósofo. Cabe ressaltar a ausência de postura política nas obras de Alma Welt, se é que isso é possível em qualquer autor. Em compensação enxergo nela posturas filosóficas, o que é um pouco diferente. Em certos momentos ela elege o Tao, com sua filosofia do eterno fluir, e da não intervenção no fluxo natural das coisas. Noutros momentos, como na “A Harpia”, a meu ver a sua obra-prima, nota-se o seu horror à violência contraposto a aceitação da existência de “atavismos” ( como ela diz ) cruéis, que nitidamente a fascinam. Mas justamente em certas contradições e ambigüidades repousa o elemento de mistério que se insinua sutilmente na obra desta autora. Por trás de todas as suas atitudes de heroína, ou protagonista de suas próprias estórias, imaginárias ou não (certos contos têm nitidamente um caráter de crônica, enquanto outros são quase delirantes, e outros ainda, romanescos, quase de folhetim ), nota-se a presença dominante de uma libido poderosa impulsionando os atos e os pensamentos da autora-personagem.
Mulher tremendamente sensual, livre, pela sua alma de artista, a autora tem aquelas características de Anima, apontadas por Jung em certas mulheres. Mas, como esse campo é enigmático e até mesmo perturbador! Onde reside o mistério da feminilidade, daquilo que Goethe chamava “o eterno feminino”, e que Jung julgou desvendar, com a sua teoria da Anima?
A propósito, uma das coisas mais intrigantes a esse respeito está na afirmação do próprio Jung, de que a Anima pode ser encontrada, ou melhor dizendo, projetada, não só em musas sublimes como Beatriz, de Dante, e Laura, de Petrarca, quanto na mais vulgar heroína de novela de TV, por ser uma natureza básica de certas mulheres, que possuem “às vezes, por causa do seu próprio vazio” esta capacidade de absorver a projeção. Mas, não. Aqui trata-se de uma escritora-poeta-pintora. Musa no velho estilo, clássico, da palavra, Alma Welt permite um aprofundamento em seu pensamento poético, em camadas, substratos, entrelinhas, ilações, muito simbolismo, e sobretudo, uso apropriado de arquétipos gregos, oportuno como recurso expressivo. Oriundos, alguns, da Odisséia de Homero ( como , por exemplo a teia de Penélope, no seu conto “A Teia de Guarnerius”, e recorrente também em vários de seus poemas. Certos temas obsessivos, como esse, bem como o de Narciso, dão o que pensar, pelo menos no tocante à psique da própria autora.
Mas devo evitar a tentação da psicanálise. Trata-se aqui da obra e seu resultado artístico bem como de sua estrutura técnica. À propósito, ela recorre a metáforas de sentido geral nos poemas e nos contos e nunca a metáforas de linguagem, tão comuns na poesia moderna, e freqüentemente tão vazias, como herança espúria do pior aspecto do Surrealismo, o non-sense arrogante e obrigatório do automatismo. Alma Welt, não. Usa, ao contrário, uma linguagem direta, coloquial, embora elevada (quando recorre a uma vulgaridade, ela o faz por graça, autodenunciando-se em seguida com o charme do falso pudor deliberado, deixando pois ressoar aquele “deslize” de conduta. Nesses pequenos momentos ela revela sua contemporaneidade, do contrário poderíamos localizar sua personalidade e suas estórias em qualquer século, do XIX para trás. E isso é o que mais me intriga numa autora tão jovem: sua atemporalidade numa época tão datável como a nossa, de cujo pano de fundo caótico, de misérias e horrores sociais, ela consegue passar ao largo, sem dar, no entanto, a sensação de qualquer alienação. É que a moça parece estar preocupada somente com o essencial da condição humana, como a dor de existir, a alegria redentora, a paixão pela beleza, a fidelidade à arte, o amor, o erotismo, a sujeição erótica voluntária , a crueldade inconsciente, a atração intelectual pelo grotesco, a paixão visceral, o medo insidioso e difuso, a repulsa (por omissão) à vulgaridade do homem comum, e o reconhecimento implícito da sacralidade da vida Estas são as características de sua personalidade literária, portanto, suponho, da sua alma. É bem sintomática a sua frase no conto “O Testamento” : “...salva por princípio, livre do pecado original do dinheiro, eternamente criança e feliz na minha suave dor de viver amando a vida e a beleza”. Eis aí, a meu ver uma belíssima e cândida profissão de fé. Não é a toa que ela cita num outro conto, as últimas belas palavras de Corot, no seu leito de morte: “Espero que no Céu haja pintura”. Todas as suas escolhas revelam a sua visão afinal positiva, da vida, eu diria mesmo, seu invencível otimismo. Quem poderia convencer a essa criatura tão dotada, no alto de sua beleza física e anímica, de que a vida não é bela , ou que isto aqui é um vale de lágrimas? Eu não quereria fazer isso, pois a sua alegria é justamente pagã, e sintomaticamente ela não invoca senão “ meu Deus da arte e da Vida”, o que soa como um deus pessoal, misterioso e invejável. Alma fez a escolha da alegria, com inabalável fé na Arte, que essa sim, nitidamente ela erige em religião. Possui uma candura nada simplória, e uma ironia sutil, nada sarcástica. Quando atacada ou espicaçada por algum eventual adversário, ela se vale de um curioso recurso: faz-se passar por ingênua, mas adicionando uma pitada de ambigüidade, o que confunde o contendor, que “já não sabe se está diante uma simplória total ou de uma irônica mais sutil que ele próprio.” Em seguida ela mesma, modestamente, lembra o leitor de que “a ironia é a arma dos fracos.”
Dum modo geral ela mantém uma constante nobreza de postura, que lhe é inata ( há pessoas que são naturalmente nobres, e isso nada tem a ver com condição social ou econômica, e outras, que infelizmente são pangarés da alma...)
Na sua obra prima “A Harpia”, a meu ver, Alma revela-se em toda a sua profundidade e na riqueza de significados simbólicos inerentes não só aos personagens, que sob um ponto de vista junguiano, poderiam , por exemplo, ser associados à Anima ( a própria Alma Welt), como personagem narradora e protagonista), à persona ou Ego (Antônio), à mediação Ego-Self (o negro Jeová ), à Sombra (a Harpia), e finalmente, à decomposição da Anima em duas de suas naturezas: Anima-Sofia (mulher sábia, ela mesma, Alma) e Anima-Helena (de Tróia), mulher belíssima, ou mesmo Eva (mulher primordial ), na figura da personagem Chiara.
Mas, isso é matéria de especulação e precisaria ser melhor desenvolvida. Deixo portanto aos analistas jungianos de plantão, a quem gostaria de poder convocar e que poderiam eventualmente corrigir-me em meu esboço de análise, um tanto intuitiva.
Mas aproveito para alertá-los de que a verdadeira obra de arte , como disse uma vez um psicanalista artista, é da natureza do analista, e não do analisando. Ela, a obra de arte, é que analisa a vida, o homem e as relações humanas, e não o contrário. A tentativa demasiado empenhada em dissecá-la em sua estrutura e significados, e até mesmo truques técnicos, seria portanto uma usurpação. Mas, na verdade, não precisamos nos preocupar: as obras de arte sempre sobreviveram ao bisturi dos críticos e dos cientificistas que acreditam ser ela uma espécie de ciência que se pode aprender ou ensinar, decodificando-a.
O mistério continua. Alma Welt é agora esse mistério. Confiram-lhe a aparente simplicidade, e o encanto dessa heroína-narradora que surgiu nessa nossa época de caos espiritual, senão de decadência. Impávida em sua pureza inata e ao mesmo tempo escolhida, ela restaura, a meu ver, valores da beleza, da sensualidade plena, mas elevada, e sobretudo da inteligência sensível. “Hay que ser inteligente, pero sin perder la candura jamás” eu diria, parafraseando o Che, e pensando nesta Alma.
São Paulo, 12 de Dezembro de 2002
GUILHERME DE FARIA
terça-feira, 4 de março de 2008
Meu perfil (cordel de Alma Welt)
Acabo de encontrar este perfil da Alma, perdido na montanha de seus textos, dentro da arca de sua obra inédita. Este curioso poema narrativo auto-biográfico, que ela classificou de "cordel", me faz crer que ela pensava em abrir seu blog e que não teve tempo. Infelizmente também o poema parece ter ficado inacabado, interrompido... (Lucia Welt)
Meu perfil (cordel de Alma Welt)
Em berço de terra pura
Pois à margem de uma estrada,
Conquanto de mãe apeada
De uma bela viatura,
Meu pai colheu-me com a mão
Sem luvas de cirurgião
(que sendo médico e artista
escolheu ser pianista)
E num parto de perigo
Arrancou o seu cadarço
Pra amarrar o meu umbigo
Cortado com um estilhaço
De garrafa de Calvados
Que quebrou com um trompaço
Ficando os cordões molhados,
E também rompendo o laço
Com a bela Açoriana
Que nunca logrou reter-me
Por mais que tivesse gana
De ao seu ventre devolver-me.
Então nesta bela estância
Dos meus avós vinhateiros
Vivi minha bela infância
E meus sonhos verdadeiros
Que eram de viver solta
Junto de companheiros
Que estavam à minha volta:
Os meus deuses derradeiros,
E o mais belo querubim
Que era Rodo, irmão amado
A quem Ananque, a do Fado
Quis fazer-me amar assim.
Meu pai, a quem chamo Vati
Tomou-me então pra criar
Destinada a ser um Vate,
Pagã, sem jamais pecar.
Para isso resgatou-me
Dos braços da Açoriana
Que me levaria à Santana
E da charrete tirou-me
Pra não me deixar batizar
E nem mesmo ouvir falar
De “pecado original”
Ou outro pecado que tal.
E assim vivi neste prado
No jardim, no casarão,
E no meu pomar sagrado
Da árvore do coração,
Sim, a ARA, macieira
Que gravei com o canivete
Do meu querido pivete
E sua flecha certeira...
E no pomar-paraíso
Sob a árvore sagrada
Fui um dia encontrada
Nuazinha e sem juízo
Por minha mãe furibunda
Que puxando-me os cabelos
E fustigando-me a bunda
Me interrompeu os desvelos...
Meu perfil (cordel de Alma Welt)
Em berço de terra pura
Pois à margem de uma estrada,
Conquanto de mãe apeada
De uma bela viatura,
Meu pai colheu-me com a mão
Sem luvas de cirurgião
(que sendo médico e artista
escolheu ser pianista)
E num parto de perigo
Arrancou o seu cadarço
Pra amarrar o meu umbigo
Cortado com um estilhaço
De garrafa de Calvados
Que quebrou com um trompaço
Ficando os cordões molhados,
E também rompendo o laço
Com a bela Açoriana
Que nunca logrou reter-me
Por mais que tivesse gana
De ao seu ventre devolver-me.
Então nesta bela estância
Dos meus avós vinhateiros
Vivi minha bela infância
E meus sonhos verdadeiros
Que eram de viver solta
Junto de companheiros
Que estavam à minha volta:
Os meus deuses derradeiros,
E o mais belo querubim
Que era Rodo, irmão amado
A quem Ananque, a do Fado
Quis fazer-me amar assim.
Meu pai, a quem chamo Vati
Tomou-me então pra criar
Destinada a ser um Vate,
Pagã, sem jamais pecar.
Para isso resgatou-me
Dos braços da Açoriana
Que me levaria à Santana
E da charrete tirou-me
Pra não me deixar batizar
E nem mesmo ouvir falar
De “pecado original”
Ou outro pecado que tal.
E assim vivi neste prado
No jardim, no casarão,
E no meu pomar sagrado
Da árvore do coração,
Sim, a ARA, macieira
Que gravei com o canivete
Do meu querido pivete
E sua flecha certeira...
E no pomar-paraíso
Sob a árvore sagrada
Fui um dia encontrada
Nuazinha e sem juízo
Por minha mãe furibunda
Que puxando-me os cabelos
E fustigando-me a bunda
Me interrompeu os desvelos...
quinta-feira, 24 de janeiro de 2008
Alma Welt
(Escritora)
08/01/1972, em Novo Hamburgo RS
20/01/2007 Estância Sta Gertrudes, Rosário do Sul RS
( Texto biográfico extraido do site Netsaber,da Internet)
ALMA WELT (1972-2007) escritora gaúcha nascida em Novo Hamburgo, poeta lírica, grande sonetista (escreveu cerca de 700 belíssimos sonetos), deixou uma obra profícua e numerosa, constando de um romance autobiográfico inédito em quatro tomos denominado "A Herança" (dividido como quarteto com os seguintes títulos: A Herança, A Ara dos Pampas, O Sangue da Terra, A Vinha de Dioniso),e mais o romance entitulado "O Retorno dos Menestréis", ambientado no sertão nordestino de Pernambuco e Paraíba, numa mítica e divertida viagem a bordo do Pavão Misterioso. Tem ainda quatro livros de contos: Contos da Alma, publicado em 2004 pela Editora Palavras & Gestos(de São Paulo) e presente nas livrarias (vide google); Contos Pampianos da Alma, Contos Secretos da Alma, e "Lendas da Alma" (este uma coletânea de lendas poéticas de sua invenção, de caráter europeu, góticas e misteriosas, ilustradas com desenhos a cores por Guilherme de Faria. Além disso tem um livro de crônicas curtas(Crônicas da Alma). Sua obra poética, igualmente prolífica, conta com 49 livros de poesia, sendo 33 de sonetos (perfazendo cerca de 700 sonetos),e vem sendo publicada de maneira semi-artesanal, em folhetos dentro de uma caixa (Kit) de madeira, e ilustrados a cores com desenhos de Guilherme de Faria. As duas últimas obras poéticas que escreveu são: um notável drama lírico formado por 42 sonetos (cenas) encadeados,inspirado por sua paixão por uma aluna e denominado "Sonetos à Mayra"; e os "150 Sonetos Pampianos da Alma" escritos no seu último mês de vida. Parte considerável de sua obra está publicada no site literário "Leia Livro" (da Fundação Padre Anchieta, na Internet).
Alma Welt conseguiu extraordinário sucesso com suas obras na Internet, principalmente no site Recanto das Letras, num período de 7 meses, até a sua morte, com mais de 14.000 leituras e 1.500 comentários elogiosos vindos das mais diversas partes do Brasil e de Portugal. Entretanto, as circunstâncias de sua morte por suicídio no dia 20/01/2007, romanescas, causaram um imenso escândalo nesse site, por equívoco e intrigas, produzindo a suspeita de que se tratasse de um heterônimo, e resultando na sua inusitada e espantosa expulsão póstuma daquele site, e debates no seu Fórum, do tipo "Alma Welt existe? Alma Welt não existe?"
A autora, mulher jovem, belíssima e misteriosa, não se deixava fotografar, somente permitindo a divulgação de seus retratos em desenhos, gravuras e pinturas a óleo de Guilherme de Faria, seu "retatista autorizado", pintor paulista que a ilustrou, prefaciou, e editou, lançando-a no meio artístico paulistano a partir de 2001, quando a descobriu no seu auto-exílio paulistano, num ateliê de pintura estabelecido nos Jardins. As circunstância notáveis desse encontro providencial foram narradas por ela no seu conto entitulado "Anagramas", que pode ser encontrado na sua página no site Leia Livro da Internet.
Alma suicidou-se aos 35 anos por afogamento, na sua estância pampiana, no
auge de seu talento e beleza. Admirada pelo grande poeta Paulo Bomfim (que escreveu um prefácio para o próximo livro dela a ser publicado) e pelo famoso bibliófilo José Mindlin (que possui obras inéditas dela) começa agora a sua trajetória triunfante, como "a última grande lírica do século XX", Poeta e Musa ao mesmo tempo.
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Comentários sobre:
Alma Welt Adicionar Comentário
Alma Welt é, sem dúvida, o maior fenômeno literário das letras femininas deste país, no despontar do século XXI. Seu suicídio romanesco,no começo deste ano, permanece envolto em mistério. Pelo que eu soube, há suspeita de que ela pode ter sido assassinada. Sua sensualidade,apesar de sua pureza, parece tê-la tornado vítima de estupro em mais de uma ocasião.É uma terrível tragédia.O Brasil perdeu este ano a sua maior escritora e poeta surgida em tempos recentes. Felizmente a obra não morre, e podemos continuar a fruir de sua poesia aqui na Internet, no Texto Livre, que parece que sua irmã Lucia Welt está alimentando com textos inéditos da "Musa pampiana".
Por: Solange Lima
Muito bons os textos acima sobre a maravilhosa Alma Welt. Mas sinto que, apesar de fornecerem bastantes dados biográficos, não penetram na área propriamente crítica da literatura da
musa pampiana.
Fui uma das primeiras leitoras a descobrir e comentar os textos da poetisa, ressaltando a grandeza de sua prosa e poesia, principalmente
de seus sonetos, que estilisticamente têm uma grande assimilação do romantismo tanto quanto do parnasianismo, que ela chegou a homenagear como por exemplo no soneto n°9 de seus 150 Soneto s Pampianos, entitulado A Oferenda:
A Oferenda (de Alma Welt)
ou
"O que me disse um vagalume"
(dedico aos nossos grandes parnasianos,
de Olavo Bilac a Vicente de Carvalho)
9
Noite clara, a natureza em festa
Saúda-me feliz, aqui no meu jardim.
Um vagalume dança em minha testa
Dizendo: “Vem, me siga já, aqui, assim!”
“Vem comigo até o bom caramanchão
Onde podes exibir a tua alvura
Sem seres avistada por algum peão
Que te possa espreitar pra te ver nua...”
“Como num leito deita em teu vestido,
As pernas entreabertas, que na fenda,
Como uma pérola, talvez com um prurido
Pouso eu na concha que o Amor cultua,
Enquanto, minha Alma, em oferenda,
Abres teu corpo para a luz da lua!”
Notem o mesmo estro simbolista eromântico em essência, apresentado pelos melhores momentos do parnasianismo, acrescentado de uma nota erótica graciosa e delicada.
Aliás acho oportuno ressaltar o erotismo peculiar da autora ,que dedicou a esse filão muitas de suas melhores páginas. "Peculiar" porquanto Alma se distingue nessa área pela absoluta ausência de vulgaridade, e podemos dizer: com grande pureza e inocência como “un enfant de la nature” que desconhece o “pecado”, mesmo se ocasionalmente lança mão de uma leve malícia inocente quando quer conferir humor à cena. Vejamos:
Eu e os piratas
(dos 150 Sonetos Pampianos da Alma,
de Alma Welt)
Meu irmãozinho construiu embarcação
Toda de caixotes, pouco destra,
Com um cabo de vassoura e armação
Que pretendia ser a vela mestra.
E a arrastamos juntos ao laguinho
Da cascata, pra com ela navegarmos
Como piratas, eu com bigodinho,
Ele com a venda e os sarcasmos.
Mas eis que me vi numa enrascada,
Pois borrando meu bigode com o dedo
Ele disse: “Descobri o teu segredo!”
“Já que és mulher és cobiçada
E vais ficar pelada e com medo,
Pois serás de toda a marujada!”
Eis aí um bom exemplo dessa “malícia inocente” que capta o humor da cena pueril das lembranças de sua infância pampiana. É verdade que na sua série “Sonetos Luxuriosos”(vide no Leia Livro) Alma pega mais pesado, mas ainda assim, verificamos que tais sonetos derivam de um sentido picaresco só encontrados no período medieval tardio e na Renascença. Mas nada da grosseria de um Pietro Aretino que, esse sim,pornógrafo deslavado, seria um equivalente hoje em dia dos vídeos pornôs, em sua malícia e falta total de sutilezas, na sua obra homônima "Sonetti Lussuriosi”. Mas isso merece um estudo à parte. Quanto aos Sonetos Pampianos, Alma nessa série magistral que coroa a sua obra, parecia estar num surto febril de criatividade e inspiração produzindo de enfiada 150 sonetos primorosos e intensos, no seu último mês que culminou com o seu inesperado(?) suicídio. Na verdade foi uma morte anunciada: Alma deu sinais de alerta ou premeditação, que infelizmente passaram despercebidos por seus familiares, embora ela tivesse já sido internada há um ano atrás, numa
clínica lá no Sul, por surtos periódicos de angústia que chegavam a desorientá-la. Esses sinais me parecem agora detectáveis em sonetos como este:
Soneto de nostalgia
(dos Sonetos Pampianos da Alma, de Alma Welt)
Quanto fui amada em minha infância!...
Como viver então sem mais viver
O reino de encanto que era a estância
E alegria e beleza ainda manter
Se a alma deste pampa era o meu Vati
E seu piano mágico, polido,
Agora amargo como o coração do mate
E surdo como o verso com que lido?
Perdida do pomar do paraíso
Não só a inocência mais juízo,
Desço o rio de amor da minha mente
Que me mantém acesa e ainda viva
Nesta mansão que afunda lentamente
Como um barco bêbado à deriva...
Alma percebia os sinais de decadência de sua estância semi-abandonada, endividada e arruinada . Como poeta ela não poderia ser uma boa administradora do patrimônio deixado pelos seus avós. O endividamento já começara com seu pai, também ele artista. Entretanto não acredito ser essa a verdadeira causa da angústia ou depressão da nossa poetisa. A chave da sua tragédia pode ser encontrada nas entrelinhas de versos como este:
Os Sonhos da Razão
(“El sueño de la razón produces monstros” (Goya
Levantam-se na noite os meus sonhos
E me acordam febril e alvoroçada.
Não me embalam, não, não são risonhos
Meus sonhos de Poeta apaixonada!
Paixão da vida, a ânsia dos autores.
Da louca ilusão de eternidade,
Sonhos de grandeza, dos louvores,
Dos vôos sobre os tetos da cidade!
Ah!Ser o ideal que desejei:
Ser a alma aqui do Rio Grande
A musa que de mim me projetei!
Eu que necessito ser amada
E quero ser feliz além de grande,
Tudo quero, tudo, e tenho nada....
Infelizmente, em sua candura anímica Alma não pode perceber que já tinha tudo: beleza, talento, inspiração, grandeza.A insatisfação ou o excesso de sensibilidade a matou... sem que pudesse perceber em que ponto se encontrava, e que a fama já estava chegando, e com ela certamente glória que confessadamente almejava e que deixou para a posteridade.
(Leandra April)
Exertos de um longo ensaio sobre a poetisa Alma Welt a ser publicado.
Por: Leandra April
Alma Welt
1972-2007
Poetisa e escritora gaúcha, grande revelação recente das letras deste país, nasceu, segundo ela conta no seu romance autobiográfico A Herança (2005), num acostamento de estrada, na relva, a caminho de novo Hamburgo, pelas mãos de seu pai o médico, pianista e erudito, Werner Friedrich Welt, que fez ali mesmo o parto de sua esposa Ana Morgado, neta de imigrantes açorianos. Seus avós paternos eram os agricultores alemães Joachin e Frida Welt, que imigrados dos sudetos da Chekoslováquia antes da Segunda Grande Guerra, prosperaram primeiramente em longos anos de colônia agrícola alemã no Vale do Itajaí, região de Blumenau, em Santa Catarina. O avô de Alma iria adquirir uma estância gaúcha no extremo sul do país, onde plantaria um vinhedo pioneiro no Pampa, para produzir vinho, que era o seu sonho. Alma conta a saga de seus avós e de seus pais no seu romance A Herança, em quatro volumes. Quanto à sua avó Frida, vide o trecho “O Condestável Gottfried” nas sua página no Leia Livro.
Alma é a terceira filha do casal Werner e Ana, tendo um irmão mais novo um ano, Rudolf, que ela chamava pelo apelido de Rôdo e que é um personagem importante nos seus romances, contos, crônicas e poemas de caráter memorialístico. A paixão de Alma desde a infância por seu irmão caçula é tão intensa que chega a revelar um fundo incestuoso, todavia sublimado em literatura por um tom lírico que o justifica e mesmo chega a engrandecer. Todavia esse fato acarretaria um primeiro trauma na vida da guria dos pampas, pelo flagrante produzido por sua mãe numa singela cena de descoberta sexual infantil, sob a macieira querida do seu pomar, o que nos faz pensar numa metáfora da perda da inocência sob a arvore do paraíso, ou da Razão (a Ciência do Bem e do Mal). Aliás, toda a obra da escritora gaúcha é perspassada de alegorias, de simbolismos e mitos recorrentes, como esse da macieira primordial, o de Narciso e Eco, o de Perséfone, e o do fio de Ariadne e o Labirinto do Minotauro (vide as suas novelas "Perséfone" (o mito de Adèle D'Affry), "Narciso", e "Ariadne", no Leia Livro.
As duas irmãs de Alma: Solange Motersohn Welt, casada com Alberto (que ela chama o “borracho”) era a mais velha, que morreu assassinada por seu cunhado Geraldo, com quem havia fugido, e que era casado com Lúcia, a segunda irmã de Alma, que está hoje em dia empenhada em dar prosseguimento às publicações de sua irmã e em cuidar de sua herança literária e posteridade.
Alma era profundamente ligada ao seu pai, que ela, como seus irmãos, chamava de “Vati” ( pronuncia-se Fáti, "papai" em alemão) e que ela idolatrava de uma maneira igualmente exaltada, e que após a morte dele, produziu maravilhosos versos nostálgicos (vide o soneto “A carruagem”, que foi o último escrito por Alma (pertence à série "150 Sonetos Pampianos da Alma") e publicado no site Recanto das Letras, causando considerável comoção, com o anúncio de sua morte):
A Carruagem (de Alma Welt)
(150)
Um piano toca no salão!
Ah! e não fui eu que coloquei
Um cd ou um velho long-play,
Talvez seja o Vati, e então...
Ele voltou! Sim, ele me quer!
Vou ao seu encontro e sou mulher!
Sim, ele vai ver que agora sou
Pelo menos a guria que sonhou.
Olha, Vati, há muito não me vias,
Mas de verso em verso muito errei
Pelo mundo, a viajante que querias...
E agora, com toda esta bagagem,
Leva-me contigo, que eu irei
Quietinha, assim, na carruagem!
Depois de uma primeira infância urbana em Novo Hamburgo, Alma se transfere com a família para a estância de seus avós, no Pampa, situada entre Alegrete e Santana do Livramento, próxima a Rosário do Sul. A infância da Alma nos pampas, nessa estância cercada de um vinhedo que ela tornaria mítico em sua literatura (A Vinha de meu Pai, A vinha de Dioniso, etc,) é um dos temas recorrente de sua obra, e adquire um tom de grande lirismo e nostalgia, em que o cenário grandioso da pradaria, com suas coxilhas, um bosque, o seu pomar e uma pequena cascata em cujo poço de águas cristalinas Alma iria encontrar a sua morte, fazem dela também uma escritora pampiana de notável poder sugestivo de paisagem, mais do que descritiva.
Com a morte de seu adorado pai, que foi quem a criou no meio de sua biblioteca clássica em quatro línguas, como uma pequena pagã, longe da influência católica de sua esposa que não compreendia a filha, e que Alma chamava de maneira mítica, talvez subjetivamente pejorativa de “a Açoriana”, Alma profundamente chocada e transtornada, abandona a estância e se "auto-exila" (como ela dizia) estabelecendo um ateliê de pintura em São Paulo, nos Jardins, onde seria descoberta como pintora, mas principalmente como escritora inédita com grande bagagem de textos originais manuscritos que deslumbraram o artista Guilherme de Faria e que o fizeram dedicar-se desde esse dia de Julho de 2001, à sua divulgação nacional, lançando-a, prefaciando e ilustrando seus poemas, com tal entusiasmo e dedicação ( ele a considera sua última e definitiva Musa). Cabe aqui dizer, que por algum pacto entre ele e Alma (vide o conto Anagramas, dela, no site Leia Livro) ela não se deixaria mais fotografar em sua vida pública, somente aceitando a divulgação dos seus retratos feitos em desenho, gravura e óleo pelo artista paulista, o que talvez tenha motivado a suspeita ou o boato de que ela, Alma Welt, seria um heterônimo desse artista. A natureza misteriosa da “guria” produziu uma grande confusão, às raias do escândalo, que acabou por equívoco resultando na espantosa expulsão póstuma da escritora, do conhecido site literário onde ela vinha publicando há quase um ano com imenso sucesso, e já celebrada como uma diva das Letras, com uma legião crescente de admiradores e fãs. No entanto seus textos podem ainda ser acessados no site Leia Livro, que foi o seu berço na Internet. Lucia Welt está publicando ali, como continuidade, textos de sua irmã, inéditos ou já publicados anteriormente no outro site de que ela foi apagada.
Alma começa agora a sua verdadeira trajetória: póstuma, como toda grande arte costuma ser.
Eliana Mattos
___________________________________________
Comentário do poeta gaúcho Rogério Sivério de Farias, a um dos SONETOS PAMPIANOS DA ALMA
(Eu, Lucia Welt, tanscrevo aqui os comentários do poeta gaúcho encontrados aqui mesmo num soneto da Alma e que motivaram em seguida a minha agradecida carta a ele publicada mais abaixo à guisa de prefácio aos Sonetos Pampianos da Alma):
Rogério Silvério de Farias disse...
Como sou grande o suficiente para reconhecer meus erros, posso dizer que a polêmica escritora Alma Welt foi alvo de minha indignação e revolta injustificadas. No entanto, hoje, após raciocionar, refletir muito, penso que reconheço a grandeza desta misteriosa escritora. O que acontece no RL acontece em nossa vida cotidiana. E de forma muito mais cruel. Ocorre que este fenômeno literário chamado Alma Welt despertou a ira e a inveja por ser ela uma personalidade misteriosa e livre das convenções sociais sub-pirilâmpicas, nosferáticas, sombriáticas. PENSO QUE EU MESMO, NO MEU EGOÍSMO, FIQUEI COM RAIVA DA ALMA. Reconheço que fiquei desconfiado de sua morte. Mas hoje, não tão tacanho como na época de seu falecimento, me sinto apto a dizer que ela realizou uma obra literária de valor, embora não agrade, em algumas partes, a certos poetas e escritores, devido a ousadia das palavras da Alma. É complicado tentar entender a Alma. Mas todos sabemos, no fundo, que a Alma é imortal!Pretendo publicar em meu blog algo sobre ela, quando tiver mais tempo. Acontece que me correspondi com a Alma e, como pessoa, nunca vi maldade nela. Apesar de reconhecer que fui, em certo sentido, ingrato ao não compreender a sua morte e o seu ato irrefletido. Meus escritores favoritos, Robert E. Howard, Jack London, outros, todos cometeram o suicídio. Parece-me que na antiga grécia, se nao me equivoco, cortar os pulsos e suicidar era um ato nobre; ocorre que esta mentalidade judaico-cristã, que parece querer queimar no inferno os suicidas, me parece uma besteira. O ser humano tem sim o direito de pôr fim à sua vida e coroar sua obra e existência de forma heróica. Morrer de velhice ou por uma bandeira numa guerra me parece mais heresia que o suicídio. O que ocorreu comigo no Recanto me parece ter sido uma grande lição. A gente, que quer voar no alto, tem que voar sozinho. Para criar algo novo, é preciso estar no alto. Eu tenho um poema em meu blog chamado ENTERREM MEU CORAÇÃO SONHADOR NO ALTO DA MONTANHA DA SOLIDÃO, no qual penso que expressei essa característica artística dos grandes poetas. Um abraço.www.rogerio.k6.com.br
15/7/07 1:21 PM
rogério silvério disse...
Reconheço a grandeza da Alma! Tenho um poema que bem poderia ser dedicado a ela, está no meu blog, chama-se ENTERREM MEU CORAÇAO SONHADOR NO ALTO DA MONTANHA DA SOLIDÃO.
Eu acredito na imortalidade da Alma.
15/7/07 1:23 PM
16/10/2007
Carta de Lucia Welt ao Rogério Sivério de Farias, à guisa de PREFÁCIO AOS SONETOS PAMPIANOS DA ALMA
(Carta de Lucia Welt ao Rogério Sivério de Farias, o Poeta das Sombras do Sul, carta esta que na ocasião ele publicou no seu blog cancelado depois por ele por motivo desconhecido e que para mim ainda é um mistério, pois ele alcançara grande sucesso com seu textos inquietos, irreverentes e apaixonados).
Ó confrade Rogério (da Confraria dos Poetas Banidos), minha irmã também amava aquele site (Recanto das Letras) mas quem sofreu duplamente com isso foi o Guilherme de Faria, que além de tê-la como sua "descoberta" e última e definitiva musa, foi cassado juntamente com a Alma pois cismaram que minha irmã (pasme!) era (ou é) um heterônimo seu. Às vezes me pergunto se Alma sofreria com isso se tivesse acontecido com ela em vida, pois ela era surpreendente e tinha um enorme senso de humor. É dela aquela expressão " interconfetismo", que ouvi de sua boca a respeito daquele site. Mas a julgar pelo número enorme de trabalhos que ela publicou ali ( 513) ela devia ter algum amor ou apego ao RL, que lhe permitiu ficar conhecida nacionalmente e até em Portugal (mais de 14.000 leituras em 10 meses, 2000 delas só na semana de escândalo que se seguiu à sua morte). Mas a verdade é que os editores daquele site foram fracos pois sucumbiram à pressão dos invejosos e hipócritas que forçaram a sua expulsão como se morrer fosse um crime, e não uma tragédia. Se ela fosse um heterônimo, seria igualmente revoltante e desprezivel a atitude deles, pois então um autor não tem o direito de matar o seu personagem? Bem... sabemos que todas às vezes que isso aconteceu na história da literatura os autores assassinos foram apedrejados pelos leitores revoltados. Basta lembrar o caso do Conan Doyle que recebeu milhares de cartas de dasaforos quando o seu célebre Sherlock Holmes morreu nas cataratas lutando com o seu arqui-inimigo o doutor Moriarty. O autor arrependido (ou acovardado, não sei) achou melhor ressucitá-lo, fazendo-o ter sobrevivido surprendentemente e reaparecendo para a alegria do doutor Watson e dos leitores fiéis. Ah! Quisera num mundo mágico poder fazer isso com a Alma. Mas parece que a realidade pode ser pior do que pensávamos, pois corre agora aqui na região a suspeita levantada por um delegado de que Alma não se matou, mais foi assassinada, depois de violada! Não, não quero acreditar nisso. Ai! Roger, a dor não terá fim...
Mas... quanto ao Recanto não lamente, querido Roger( se é que o faz) por ter sido expulso, pois é uma glória, como já comentamos, pois os grandes não se adaptam a panelinhas e muito menos a cabresto. E se a expulsão for acompanhada de escândalo, tanto melhor, pois é sinal de sucesso. Os chamados "succès d'escandale" dos franceses, sempre foram provocados por obras de valor duradouro, pois revolucionárias e chocantes estavam à frente da sua época, como bem o disseste a respeito da Alma.
A verdade é que os grandes autores são solitários e não são bem vistos dentro de confrarias, pois logo despertam a inveja, a incompreensão ou o despeito dos confrades. E na pior das hipóteses os artistas seriam pavões de belas caudas que as abrem para impressionar as fêmeas, e juntados num cercado vão certamente se bicar. Ah! A natureza humana dos pavões...
Roger querido, tenho freqüentado teu site e o acho divertidíssimo e interessante. Percebo também a tua angústia, que o faz ser tão inquieto, como a Alma o era, tornando-a muito visível e visada em sua nudez física e espiritual que acabou incitando a agressão dos fracos, feios ou despeitados. E dos lobos em pele de cordeiro...
No caso da Alma há também um outro fator: ela era adorável, superior, meiga e... dadivosa. Dava seu talento mas também sua beleza e seu corpo generoso e excitante. Sua liberdade e candura fizeram-na afinal uma espécie de Geni (do Chico Buarque), a quem aqueles que desfrutaram de suas dádivas, ao vê-la entregar-se ao inimigo comum ( no caso dela a própria Morte) para salvá-los ou redimi-los, resolveram apedrejar e "jogar bosta".
Querido, espero mais visitas suas lá nos blogs dela, pois não paro de publicar todos os dias um soneto novo. Descobri que minha irmã deve ter escrito mesmo uns mil sonetos ( e não 700 como eu pensava) pois a arca que descobri dela no nosso sótão é uma cornucópia de surpresas. Acabo de publicar um soneto desconhecido dela entitulado "A plenitude da Alma", que pela data deve pertencer à série pampiana, e contém mais uma chave para entender o seu espírito, e a mensagem de sua obra, que descubro monumental ao mesmo tempo que intimista (contradição em termos).
Quanto à tua saudade da grande Alma, tu me comoveste, mas veja, seu espírito está vivo entre nós na sua obra imortal. Não é para isso que serve a Arte, para sobreviver à morte? Mas reconheço: lendo-a todos os dias para publicá-la, eu a sinto tão viva, Roger, que morro de saudades de tocá-la, olhar a sua beleza e seu olhar. E de abraçar, sentir o calor, e beijar a mais bela e doce criatura que passou por este mundo e me deu a honra de nascer sua irmã.
Fica com um beijo meu pelo menos, ó poeta solitário das sombras do sul.
Um abraço pampiano da Alma
através desta pequenina Lucia
(Escritora)
08/01/1972, em Novo Hamburgo RS
20/01/2007 Estância Sta Gertrudes, Rosário do Sul RS
( Texto biográfico extraido do site Netsaber,da Internet)
ALMA WELT (1972-2007) escritora gaúcha nascida em Novo Hamburgo, poeta lírica, grande sonetista (escreveu cerca de 700 belíssimos sonetos), deixou uma obra profícua e numerosa, constando de um romance autobiográfico inédito em quatro tomos denominado "A Herança" (dividido como quarteto com os seguintes títulos: A Herança, A Ara dos Pampas, O Sangue da Terra, A Vinha de Dioniso),e mais o romance entitulado "O Retorno dos Menestréis", ambientado no sertão nordestino de Pernambuco e Paraíba, numa mítica e divertida viagem a bordo do Pavão Misterioso. Tem ainda quatro livros de contos: Contos da Alma, publicado em 2004 pela Editora Palavras & Gestos(de São Paulo) e presente nas livrarias (vide google); Contos Pampianos da Alma, Contos Secretos da Alma, e "Lendas da Alma" (este uma coletânea de lendas poéticas de sua invenção, de caráter europeu, góticas e misteriosas, ilustradas com desenhos a cores por Guilherme de Faria. Além disso tem um livro de crônicas curtas(Crônicas da Alma). Sua obra poética, igualmente prolífica, conta com 49 livros de poesia, sendo 33 de sonetos (perfazendo cerca de 700 sonetos),e vem sendo publicada de maneira semi-artesanal, em folhetos dentro de uma caixa (Kit) de madeira, e ilustrados a cores com desenhos de Guilherme de Faria. As duas últimas obras poéticas que escreveu são: um notável drama lírico formado por 42 sonetos (cenas) encadeados,inspirado por sua paixão por uma aluna e denominado "Sonetos à Mayra"; e os "150 Sonetos Pampianos da Alma" escritos no seu último mês de vida. Parte considerável de sua obra está publicada no site literário "Leia Livro" (da Fundação Padre Anchieta, na Internet).
Alma Welt conseguiu extraordinário sucesso com suas obras na Internet, principalmente no site Recanto das Letras, num período de 7 meses, até a sua morte, com mais de 14.000 leituras e 1.500 comentários elogiosos vindos das mais diversas partes do Brasil e de Portugal. Entretanto, as circunstâncias de sua morte por suicídio no dia 20/01/2007, romanescas, causaram um imenso escândalo nesse site, por equívoco e intrigas, produzindo a suspeita de que se tratasse de um heterônimo, e resultando na sua inusitada e espantosa expulsão póstuma daquele site, e debates no seu Fórum, do tipo "Alma Welt existe? Alma Welt não existe?"
A autora, mulher jovem, belíssima e misteriosa, não se deixava fotografar, somente permitindo a divulgação de seus retratos em desenhos, gravuras e pinturas a óleo de Guilherme de Faria, seu "retatista autorizado", pintor paulista que a ilustrou, prefaciou, e editou, lançando-a no meio artístico paulistano a partir de 2001, quando a descobriu no seu auto-exílio paulistano, num ateliê de pintura estabelecido nos Jardins. As circunstância notáveis desse encontro providencial foram narradas por ela no seu conto entitulado "Anagramas", que pode ser encontrado na sua página no site Leia Livro da Internet.
Alma suicidou-se aos 35 anos por afogamento, na sua estância pampiana, no
auge de seu talento e beleza. Admirada pelo grande poeta Paulo Bomfim (que escreveu um prefácio para o próximo livro dela a ser publicado) e pelo famoso bibliófilo José Mindlin (que possui obras inéditas dela) começa agora a sua trajetória triunfante, como "a última grande lírica do século XX", Poeta e Musa ao mesmo tempo.
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Comentários sobre:
Alma Welt Adicionar Comentário
Alma Welt é, sem dúvida, o maior fenômeno literário das letras femininas deste país, no despontar do século XXI. Seu suicídio romanesco,no começo deste ano, permanece envolto em mistério. Pelo que eu soube, há suspeita de que ela pode ter sido assassinada. Sua sensualidade,apesar de sua pureza, parece tê-la tornado vítima de estupro em mais de uma ocasião.É uma terrível tragédia.O Brasil perdeu este ano a sua maior escritora e poeta surgida em tempos recentes. Felizmente a obra não morre, e podemos continuar a fruir de sua poesia aqui na Internet, no Texto Livre, que parece que sua irmã Lucia Welt está alimentando com textos inéditos da "Musa pampiana".
Por: Solange Lima
Muito bons os textos acima sobre a maravilhosa Alma Welt. Mas sinto que, apesar de fornecerem bastantes dados biográficos, não penetram na área propriamente crítica da literatura da
musa pampiana.
Fui uma das primeiras leitoras a descobrir e comentar os textos da poetisa, ressaltando a grandeza de sua prosa e poesia, principalmente
de seus sonetos, que estilisticamente têm uma grande assimilação do romantismo tanto quanto do parnasianismo, que ela chegou a homenagear como por exemplo no soneto n°9 de seus 150 Soneto s Pampianos, entitulado A Oferenda:
A Oferenda (de Alma Welt)
ou
"O que me disse um vagalume"
(dedico aos nossos grandes parnasianos,
de Olavo Bilac a Vicente de Carvalho)
9
Noite clara, a natureza em festa
Saúda-me feliz, aqui no meu jardim.
Um vagalume dança em minha testa
Dizendo: “Vem, me siga já, aqui, assim!”
“Vem comigo até o bom caramanchão
Onde podes exibir a tua alvura
Sem seres avistada por algum peão
Que te possa espreitar pra te ver nua...”
“Como num leito deita em teu vestido,
As pernas entreabertas, que na fenda,
Como uma pérola, talvez com um prurido
Pouso eu na concha que o Amor cultua,
Enquanto, minha Alma, em oferenda,
Abres teu corpo para a luz da lua!”
Notem o mesmo estro simbolista eromântico em essência, apresentado pelos melhores momentos do parnasianismo, acrescentado de uma nota erótica graciosa e delicada.
Aliás acho oportuno ressaltar o erotismo peculiar da autora ,que dedicou a esse filão muitas de suas melhores páginas. "Peculiar" porquanto Alma se distingue nessa área pela absoluta ausência de vulgaridade, e podemos dizer: com grande pureza e inocência como “un enfant de la nature” que desconhece o “pecado”, mesmo se ocasionalmente lança mão de uma leve malícia inocente quando quer conferir humor à cena. Vejamos:
Eu e os piratas
(dos 150 Sonetos Pampianos da Alma,
de Alma Welt)
Meu irmãozinho construiu embarcação
Toda de caixotes, pouco destra,
Com um cabo de vassoura e armação
Que pretendia ser a vela mestra.
E a arrastamos juntos ao laguinho
Da cascata, pra com ela navegarmos
Como piratas, eu com bigodinho,
Ele com a venda e os sarcasmos.
Mas eis que me vi numa enrascada,
Pois borrando meu bigode com o dedo
Ele disse: “Descobri o teu segredo!”
“Já que és mulher és cobiçada
E vais ficar pelada e com medo,
Pois serás de toda a marujada!”
Eis aí um bom exemplo dessa “malícia inocente” que capta o humor da cena pueril das lembranças de sua infância pampiana. É verdade que na sua série “Sonetos Luxuriosos”(vide no Leia Livro) Alma pega mais pesado, mas ainda assim, verificamos que tais sonetos derivam de um sentido picaresco só encontrados no período medieval tardio e na Renascença. Mas nada da grosseria de um Pietro Aretino que, esse sim,pornógrafo deslavado, seria um equivalente hoje em dia dos vídeos pornôs, em sua malícia e falta total de sutilezas, na sua obra homônima "Sonetti Lussuriosi”. Mas isso merece um estudo à parte. Quanto aos Sonetos Pampianos, Alma nessa série magistral que coroa a sua obra, parecia estar num surto febril de criatividade e inspiração produzindo de enfiada 150 sonetos primorosos e intensos, no seu último mês que culminou com o seu inesperado(?) suicídio. Na verdade foi uma morte anunciada: Alma deu sinais de alerta ou premeditação, que infelizmente passaram despercebidos por seus familiares, embora ela tivesse já sido internada há um ano atrás, numa
clínica lá no Sul, por surtos periódicos de angústia que chegavam a desorientá-la. Esses sinais me parecem agora detectáveis em sonetos como este:
Soneto de nostalgia
(dos Sonetos Pampianos da Alma, de Alma Welt)
Quanto fui amada em minha infância!...
Como viver então sem mais viver
O reino de encanto que era a estância
E alegria e beleza ainda manter
Se a alma deste pampa era o meu Vati
E seu piano mágico, polido,
Agora amargo como o coração do mate
E surdo como o verso com que lido?
Perdida do pomar do paraíso
Não só a inocência mais juízo,
Desço o rio de amor da minha mente
Que me mantém acesa e ainda viva
Nesta mansão que afunda lentamente
Como um barco bêbado à deriva...
Alma percebia os sinais de decadência de sua estância semi-abandonada, endividada e arruinada . Como poeta ela não poderia ser uma boa administradora do patrimônio deixado pelos seus avós. O endividamento já começara com seu pai, também ele artista. Entretanto não acredito ser essa a verdadeira causa da angústia ou depressão da nossa poetisa. A chave da sua tragédia pode ser encontrada nas entrelinhas de versos como este:
Os Sonhos da Razão
(“El sueño de la razón produces monstros” (Goya
Levantam-se na noite os meus sonhos
E me acordam febril e alvoroçada.
Não me embalam, não, não são risonhos
Meus sonhos de Poeta apaixonada!
Paixão da vida, a ânsia dos autores.
Da louca ilusão de eternidade,
Sonhos de grandeza, dos louvores,
Dos vôos sobre os tetos da cidade!
Ah!Ser o ideal que desejei:
Ser a alma aqui do Rio Grande
A musa que de mim me projetei!
Eu que necessito ser amada
E quero ser feliz além de grande,
Tudo quero, tudo, e tenho nada....
Infelizmente, em sua candura anímica Alma não pode perceber que já tinha tudo: beleza, talento, inspiração, grandeza.A insatisfação ou o excesso de sensibilidade a matou... sem que pudesse perceber em que ponto se encontrava, e que a fama já estava chegando, e com ela certamente glória que confessadamente almejava e que deixou para a posteridade.
(Leandra April)
Exertos de um longo ensaio sobre a poetisa Alma Welt a ser publicado.
Por: Leandra April
Alma Welt
1972-2007
Poetisa e escritora gaúcha, grande revelação recente das letras deste país, nasceu, segundo ela conta no seu romance autobiográfico A Herança (2005), num acostamento de estrada, na relva, a caminho de novo Hamburgo, pelas mãos de seu pai o médico, pianista e erudito, Werner Friedrich Welt, que fez ali mesmo o parto de sua esposa Ana Morgado, neta de imigrantes açorianos. Seus avós paternos eram os agricultores alemães Joachin e Frida Welt, que imigrados dos sudetos da Chekoslováquia antes da Segunda Grande Guerra, prosperaram primeiramente em longos anos de colônia agrícola alemã no Vale do Itajaí, região de Blumenau, em Santa Catarina. O avô de Alma iria adquirir uma estância gaúcha no extremo sul do país, onde plantaria um vinhedo pioneiro no Pampa, para produzir vinho, que era o seu sonho. Alma conta a saga de seus avós e de seus pais no seu romance A Herança, em quatro volumes. Quanto à sua avó Frida, vide o trecho “O Condestável Gottfried” nas sua página no Leia Livro.
Alma é a terceira filha do casal Werner e Ana, tendo um irmão mais novo um ano, Rudolf, que ela chamava pelo apelido de Rôdo e que é um personagem importante nos seus romances, contos, crônicas e poemas de caráter memorialístico. A paixão de Alma desde a infância por seu irmão caçula é tão intensa que chega a revelar um fundo incestuoso, todavia sublimado em literatura por um tom lírico que o justifica e mesmo chega a engrandecer. Todavia esse fato acarretaria um primeiro trauma na vida da guria dos pampas, pelo flagrante produzido por sua mãe numa singela cena de descoberta sexual infantil, sob a macieira querida do seu pomar, o que nos faz pensar numa metáfora da perda da inocência sob a arvore do paraíso, ou da Razão (a Ciência do Bem e do Mal). Aliás, toda a obra da escritora gaúcha é perspassada de alegorias, de simbolismos e mitos recorrentes, como esse da macieira primordial, o de Narciso e Eco, o de Perséfone, e o do fio de Ariadne e o Labirinto do Minotauro (vide as suas novelas "Perséfone" (o mito de Adèle D'Affry), "Narciso", e "Ariadne", no Leia Livro.
As duas irmãs de Alma: Solange Motersohn Welt, casada com Alberto (que ela chama o “borracho”) era a mais velha, que morreu assassinada por seu cunhado Geraldo, com quem havia fugido, e que era casado com Lúcia, a segunda irmã de Alma, que está hoje em dia empenhada em dar prosseguimento às publicações de sua irmã e em cuidar de sua herança literária e posteridade.
Alma era profundamente ligada ao seu pai, que ela, como seus irmãos, chamava de “Vati” ( pronuncia-se Fáti, "papai" em alemão) e que ela idolatrava de uma maneira igualmente exaltada, e que após a morte dele, produziu maravilhosos versos nostálgicos (vide o soneto “A carruagem”, que foi o último escrito por Alma (pertence à série "150 Sonetos Pampianos da Alma") e publicado no site Recanto das Letras, causando considerável comoção, com o anúncio de sua morte):
A Carruagem (de Alma Welt)
(150)
Um piano toca no salão!
Ah! e não fui eu que coloquei
Um cd ou um velho long-play,
Talvez seja o Vati, e então...
Ele voltou! Sim, ele me quer!
Vou ao seu encontro e sou mulher!
Sim, ele vai ver que agora sou
Pelo menos a guria que sonhou.
Olha, Vati, há muito não me vias,
Mas de verso em verso muito errei
Pelo mundo, a viajante que querias...
E agora, com toda esta bagagem,
Leva-me contigo, que eu irei
Quietinha, assim, na carruagem!
Depois de uma primeira infância urbana em Novo Hamburgo, Alma se transfere com a família para a estância de seus avós, no Pampa, situada entre Alegrete e Santana do Livramento, próxima a Rosário do Sul. A infância da Alma nos pampas, nessa estância cercada de um vinhedo que ela tornaria mítico em sua literatura (A Vinha de meu Pai, A vinha de Dioniso, etc,) é um dos temas recorrente de sua obra, e adquire um tom de grande lirismo e nostalgia, em que o cenário grandioso da pradaria, com suas coxilhas, um bosque, o seu pomar e uma pequena cascata em cujo poço de águas cristalinas Alma iria encontrar a sua morte, fazem dela também uma escritora pampiana de notável poder sugestivo de paisagem, mais do que descritiva.
Com a morte de seu adorado pai, que foi quem a criou no meio de sua biblioteca clássica em quatro línguas, como uma pequena pagã, longe da influência católica de sua esposa que não compreendia a filha, e que Alma chamava de maneira mítica, talvez subjetivamente pejorativa de “a Açoriana”, Alma profundamente chocada e transtornada, abandona a estância e se "auto-exila" (como ela dizia) estabelecendo um ateliê de pintura em São Paulo, nos Jardins, onde seria descoberta como pintora, mas principalmente como escritora inédita com grande bagagem de textos originais manuscritos que deslumbraram o artista Guilherme de Faria e que o fizeram dedicar-se desde esse dia de Julho de 2001, à sua divulgação nacional, lançando-a, prefaciando e ilustrando seus poemas, com tal entusiasmo e dedicação ( ele a considera sua última e definitiva Musa). Cabe aqui dizer, que por algum pacto entre ele e Alma (vide o conto Anagramas, dela, no site Leia Livro) ela não se deixaria mais fotografar em sua vida pública, somente aceitando a divulgação dos seus retratos feitos em desenho, gravura e óleo pelo artista paulista, o que talvez tenha motivado a suspeita ou o boato de que ela, Alma Welt, seria um heterônimo desse artista. A natureza misteriosa da “guria” produziu uma grande confusão, às raias do escândalo, que acabou por equívoco resultando na espantosa expulsão póstuma da escritora, do conhecido site literário onde ela vinha publicando há quase um ano com imenso sucesso, e já celebrada como uma diva das Letras, com uma legião crescente de admiradores e fãs. No entanto seus textos podem ainda ser acessados no site Leia Livro, que foi o seu berço na Internet. Lucia Welt está publicando ali, como continuidade, textos de sua irmã, inéditos ou já publicados anteriormente no outro site de que ela foi apagada.
Alma começa agora a sua verdadeira trajetória: póstuma, como toda grande arte costuma ser.
Eliana Mattos
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Comentário do poeta gaúcho Rogério Sivério de Farias, a um dos SONETOS PAMPIANOS DA ALMA
(Eu, Lucia Welt, tanscrevo aqui os comentários do poeta gaúcho encontrados aqui mesmo num soneto da Alma e que motivaram em seguida a minha agradecida carta a ele publicada mais abaixo à guisa de prefácio aos Sonetos Pampianos da Alma):
Rogério Silvério de Farias disse...
Como sou grande o suficiente para reconhecer meus erros, posso dizer que a polêmica escritora Alma Welt foi alvo de minha indignação e revolta injustificadas. No entanto, hoje, após raciocionar, refletir muito, penso que reconheço a grandeza desta misteriosa escritora. O que acontece no RL acontece em nossa vida cotidiana. E de forma muito mais cruel. Ocorre que este fenômeno literário chamado Alma Welt despertou a ira e a inveja por ser ela uma personalidade misteriosa e livre das convenções sociais sub-pirilâmpicas, nosferáticas, sombriáticas. PENSO QUE EU MESMO, NO MEU EGOÍSMO, FIQUEI COM RAIVA DA ALMA. Reconheço que fiquei desconfiado de sua morte. Mas hoje, não tão tacanho como na época de seu falecimento, me sinto apto a dizer que ela realizou uma obra literária de valor, embora não agrade, em algumas partes, a certos poetas e escritores, devido a ousadia das palavras da Alma. É complicado tentar entender a Alma. Mas todos sabemos, no fundo, que a Alma é imortal!Pretendo publicar em meu blog algo sobre ela, quando tiver mais tempo. Acontece que me correspondi com a Alma e, como pessoa, nunca vi maldade nela. Apesar de reconhecer que fui, em certo sentido, ingrato ao não compreender a sua morte e o seu ato irrefletido. Meus escritores favoritos, Robert E. Howard, Jack London, outros, todos cometeram o suicídio. Parece-me que na antiga grécia, se nao me equivoco, cortar os pulsos e suicidar era um ato nobre; ocorre que esta mentalidade judaico-cristã, que parece querer queimar no inferno os suicidas, me parece uma besteira. O ser humano tem sim o direito de pôr fim à sua vida e coroar sua obra e existência de forma heróica. Morrer de velhice ou por uma bandeira numa guerra me parece mais heresia que o suicídio. O que ocorreu comigo no Recanto me parece ter sido uma grande lição. A gente, que quer voar no alto, tem que voar sozinho. Para criar algo novo, é preciso estar no alto. Eu tenho um poema em meu blog chamado ENTERREM MEU CORAÇÃO SONHADOR NO ALTO DA MONTANHA DA SOLIDÃO, no qual penso que expressei essa característica artística dos grandes poetas. Um abraço.www.rogerio.k6.com.br
15/7/07 1:21 PM
rogério silvério disse...
Reconheço a grandeza da Alma! Tenho um poema que bem poderia ser dedicado a ela, está no meu blog, chama-se ENTERREM MEU CORAÇAO SONHADOR NO ALTO DA MONTANHA DA SOLIDÃO.
Eu acredito na imortalidade da Alma.
15/7/07 1:23 PM
16/10/2007
Carta de Lucia Welt ao Rogério Sivério de Farias, à guisa de PREFÁCIO AOS SONETOS PAMPIANOS DA ALMA
(Carta de Lucia Welt ao Rogério Sivério de Farias, o Poeta das Sombras do Sul, carta esta que na ocasião ele publicou no seu blog cancelado depois por ele por motivo desconhecido e que para mim ainda é um mistério, pois ele alcançara grande sucesso com seu textos inquietos, irreverentes e apaixonados).
Ó confrade Rogério (da Confraria dos Poetas Banidos), minha irmã também amava aquele site (Recanto das Letras) mas quem sofreu duplamente com isso foi o Guilherme de Faria, que além de tê-la como sua "descoberta" e última e definitiva musa, foi cassado juntamente com a Alma pois cismaram que minha irmã (pasme!) era (ou é) um heterônimo seu. Às vezes me pergunto se Alma sofreria com isso se tivesse acontecido com ela em vida, pois ela era surpreendente e tinha um enorme senso de humor. É dela aquela expressão " interconfetismo", que ouvi de sua boca a respeito daquele site. Mas a julgar pelo número enorme de trabalhos que ela publicou ali ( 513) ela devia ter algum amor ou apego ao RL, que lhe permitiu ficar conhecida nacionalmente e até em Portugal (mais de 14.000 leituras em 10 meses, 2000 delas só na semana de escândalo que se seguiu à sua morte). Mas a verdade é que os editores daquele site foram fracos pois sucumbiram à pressão dos invejosos e hipócritas que forçaram a sua expulsão como se morrer fosse um crime, e não uma tragédia. Se ela fosse um heterônimo, seria igualmente revoltante e desprezivel a atitude deles, pois então um autor não tem o direito de matar o seu personagem? Bem... sabemos que todas às vezes que isso aconteceu na história da literatura os autores assassinos foram apedrejados pelos leitores revoltados. Basta lembrar o caso do Conan Doyle que recebeu milhares de cartas de dasaforos quando o seu célebre Sherlock Holmes morreu nas cataratas lutando com o seu arqui-inimigo o doutor Moriarty. O autor arrependido (ou acovardado, não sei) achou melhor ressucitá-lo, fazendo-o ter sobrevivido surprendentemente e reaparecendo para a alegria do doutor Watson e dos leitores fiéis. Ah! Quisera num mundo mágico poder fazer isso com a Alma. Mas parece que a realidade pode ser pior do que pensávamos, pois corre agora aqui na região a suspeita levantada por um delegado de que Alma não se matou, mais foi assassinada, depois de violada! Não, não quero acreditar nisso. Ai! Roger, a dor não terá fim...
Mas... quanto ao Recanto não lamente, querido Roger( se é que o faz) por ter sido expulso, pois é uma glória, como já comentamos, pois os grandes não se adaptam a panelinhas e muito menos a cabresto. E se a expulsão for acompanhada de escândalo, tanto melhor, pois é sinal de sucesso. Os chamados "succès d'escandale" dos franceses, sempre foram provocados por obras de valor duradouro, pois revolucionárias e chocantes estavam à frente da sua época, como bem o disseste a respeito da Alma.
A verdade é que os grandes autores são solitários e não são bem vistos dentro de confrarias, pois logo despertam a inveja, a incompreensão ou o despeito dos confrades. E na pior das hipóteses os artistas seriam pavões de belas caudas que as abrem para impressionar as fêmeas, e juntados num cercado vão certamente se bicar. Ah! A natureza humana dos pavões...
Roger querido, tenho freqüentado teu site e o acho divertidíssimo e interessante. Percebo também a tua angústia, que o faz ser tão inquieto, como a Alma o era, tornando-a muito visível e visada em sua nudez física e espiritual que acabou incitando a agressão dos fracos, feios ou despeitados. E dos lobos em pele de cordeiro...
No caso da Alma há também um outro fator: ela era adorável, superior, meiga e... dadivosa. Dava seu talento mas também sua beleza e seu corpo generoso e excitante. Sua liberdade e candura fizeram-na afinal uma espécie de Geni (do Chico Buarque), a quem aqueles que desfrutaram de suas dádivas, ao vê-la entregar-se ao inimigo comum ( no caso dela a própria Morte) para salvá-los ou redimi-los, resolveram apedrejar e "jogar bosta".
Querido, espero mais visitas suas lá nos blogs dela, pois não paro de publicar todos os dias um soneto novo. Descobri que minha irmã deve ter escrito mesmo uns mil sonetos ( e não 700 como eu pensava) pois a arca que descobri dela no nosso sótão é uma cornucópia de surpresas. Acabo de publicar um soneto desconhecido dela entitulado "A plenitude da Alma", que pela data deve pertencer à série pampiana, e contém mais uma chave para entender o seu espírito, e a mensagem de sua obra, que descubro monumental ao mesmo tempo que intimista (contradição em termos).
Quanto à tua saudade da grande Alma, tu me comoveste, mas veja, seu espírito está vivo entre nós na sua obra imortal. Não é para isso que serve a Arte, para sobreviver à morte? Mas reconheço: lendo-a todos os dias para publicá-la, eu a sinto tão viva, Roger, que morro de saudades de tocá-la, olhar a sua beleza e seu olhar. E de abraçar, sentir o calor, e beijar a mais bela e doce criatura que passou por este mundo e me deu a honra de nascer sua irmã.
Fica com um beijo meu pelo menos, ó poeta solitário das sombras do sul.
Um abraço pampiano da Alma
através desta pequenina Lucia
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