Nasci com privilégios e benesses
E por meu pai fui ensinada no meu lar
A bem pronunciar erres e esses
E até mesmo um pouco a solfejar...
Dei-me conta, só mais tarde disso tudo
E que não era geral e normativo,
A língua que eu falava era de estudo
E olhavam-me de esguelha com motivo.
Entre o despeito e a admiração,
Neste caminho estreito de dois pólos,
Eu estaria destinada à solidão
E no mundo a só sorrir, pouco falar,
Escolhendo então os versos, meus tijolos,
Pro meu castelo novamente edificar...
.
10/02/2018
sábado, 10 de fevereiro de 2018
terça-feira, 7 de novembro de 2017
Sobre a Esperança
Então perguntei ao meu Mestre: "Por quê Judas foi condenado à execração até os dias de hoje, se ele devolveu o dinheiro de sua delação e mostrou-se tão arrependido a ponto de se suicidar? Não me parece justo!" E o meu Mestre respondeu simplesmente: "Porque ele perdeu a esperança."
Não me conformei e insisti: "Mas, perder a esperança é um pecado assim tão grave?" E o Mestre respondeu: "O mais grave de todos..." (Alma Welt)
Não me conformei e insisti: "Mas, perder a esperança é um pecado assim tão grave?" E o Mestre respondeu: "O mais grave de todos..." (Alma Welt)
quinta-feira, 26 de outubro de 2017
A MARCA DA SERPENTE
"Ainda criança, vi pela primeira vez um touro cobrindo uma vaca, e confesso que fiquei muito chocada. Corri para os braços da Matilde, minha babá, que ria e me afagava a cabeleira ruiva. "Tolinha! (ela disse) Precisas conhecer os fatos da vida! Pensas que nasceste dos repolhos? Ou trazida pela cegonha?" E ria, ria...Não entendi nada, por muito tempo. Anos depois me ocorreu que o aprendizado sexual é de fundo traumático e entendi por esse prisma a estória de Adão e Eva, no Gênesis. Entretanto conheci muita gente que viveu estas coisas de maneira completamente diferente e talvez mais natural. Por incrível que pareça minha natureza fundamental permaneceu ingênua, malgrado todos os conhecimentos que adquiri através de muita leitura. Mas também por isso, meu erotismo, desencadeado a certa altura de minha juventude não incluiu a malícia, a marca da serpente... "
(Entrevista com Alma Welt)
(Entrevista com Alma Welt)
quarta-feira, 25 de outubro de 2017
O fogo e a Luz (de Alma Welt)
Para ser merecedora de minha alma,
Atenta à sua provisória condição
De empréstimo ao pobre coração,
Tentei mantê-la doce, pura e calma.
Quantas faltas, pecadilhos, devaneios,
Entretanto esta minha alma cometeu,
Alvo de tentações por tantos meios
Desde o fogo que ganhou de Prometeu.
Perdoai, Senhor, arcaica alegoria
(bem sei que a vossa Luz é que vigora)
Foi somente para efeito de poesia...
Pois se a alma num cárcere é encerrada,
A beleza que me foi dada por fora
Tornou bem mais amena a temporada...
Atenta à sua provisória condição
De empréstimo ao pobre coração,
Tentei mantê-la doce, pura e calma.
Quantas faltas, pecadilhos, devaneios,
Entretanto esta minha alma cometeu,
Alvo de tentações por tantos meios
Desde o fogo que ganhou de Prometeu.
Perdoai, Senhor, arcaica alegoria
(bem sei que a vossa Luz é que vigora)
Foi somente para efeito de poesia...
Pois se a alma num cárcere é encerrada,
A beleza que me foi dada por fora
Tornou bem mais amena a temporada...
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25/10/2017
25/10/2017
terça-feira, 24 de outubro de 2017
Carta da minha ex-diarista (de Alma Welt)
"Dona Alma, a melhor das patroinhas,
Escrevo estas mal traçadas linhas
Tão só para recordar e agradecer
O bom tempo que eu limpava o atelier."
"Depois que a senhora foi embora
A beleza se perdeu e não vigora,
Nunca mais deparei com ela de novo
Ou bem pouco vejo ela no meu povo."
"Dona Alma, me manda uma passagem
Que irei sem demora pra servi-la,
Por aqui já me sinto meio à margem..."
"Tenho saudade dos quadros, da poesia,
Que não tem nada assim aqui na Vila
E se aqui fico, fico seca e sem valia."
.
24/10/2017
Nota
Algumas "feminazes" ficaram indignadas com esta carta...
Escrevo estas mal traçadas linhas
Tão só para recordar e agradecer
O bom tempo que eu limpava o atelier."
"Depois que a senhora foi embora
A beleza se perdeu e não vigora,
Nunca mais deparei com ela de novo
Ou bem pouco vejo ela no meu povo."
"Dona Alma, me manda uma passagem
Que irei sem demora pra servi-la,
Por aqui já me sinto meio à margem..."
"Tenho saudade dos quadros, da poesia,
Que não tem nada assim aqui na Vila
E se aqui fico, fico seca e sem valia."
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24/10/2017
Nota
Algumas "feminazes" ficaram indignadas com esta carta...
domingo, 1 de outubro de 2017
"Desnudei-me em milhares de sonetos e centenas de crônicas e contos. Contei a minha saga num romance, e só fiz aumentar o meu mistério... Estranha maldição esta, de poeta, que me mantém tão solitária... Eu, que queria abraçar o mundo. Que queria que o mundo me abraçasse..." (entrevista com Alma Welt)
segunda-feira, 14 de agosto de 2017
"Quê ridícula presunção existe no poeta ou pensador que diz sempre "nós", que põe no coletivo ou generaliza seus sentimentos como sendo de toda a humanidade... Quanto a mim só me refiro a mim mesma, e proclamo a minha visão sem pretensões de exemplo e sem espírito de rebanho, sempre. Se outros se identificarem comigo, tanto melhor: terei uma parcela de humanidade, uma chance de universalidade. Se não, abanarão as cabeças e talvez dirão: "Pobre Alma solitária... Que intensidade doentia tinha essa moça..." (entrevista com Alma Welt)
terça-feira, 20 de dezembro de 2016
O rapaz do livro ( crônica de Alma Welt)
Um dia, quando eu era ainda guria, meu pai recebeu uma misteriosa visita, um jovem bem vestido e com um livro na mão. Meu pai, o levou imediatamente ao seu escritório, onde ficava (e ainda fica) sua imensa biblioteca. Meu pai trancou a porta, não deixando que eu presenciasse a conversa. Eu, muito curiosa, cheguei a colar o ouvido na porta, mas não pude distinguir as palavras. Afinal quando a porta se abriu, o rapaz saiu com o livro, parou na minha frente, me olhou, e disse: "Então, tu és a Alma?" - "Sim - eu disse- E tu quem és?" O rapaz demorou uns segundos e respondeu em voz baixa: "Sou teu irmão, mas infelizmente não nos veremos mais." Tocou-me o queixo levemente com a ponta dos dedos, virou as costas e saiu para montar seu cavalo e partir. Fiquei atônita e depois pensativa por alguns dias. Então, um dia perguntei ao meu pai: "É verdade, Vati, que aquele moço era meu... irmão? E meu pai contra-arguiu: "Como? Ele te disse isso?" Não, filha, não pode ser... Ele a mim disse ser um parente distante e que quis me conhecer pelo livro que escrevi, que apreciou e veio pedir o meu autógrafo. Agora você me deixou intrigado..." Quanto a mim, resolvi naquele instante que um dia resolveria aquele mistério, porque eu sabia que meu pai podia ignorar algo, mas jamais mentir...
Aos meus dezesseis anos minha mãe morreu, e depois de um período de sofrimento e remorsos, me senti livre para ir, de alguma forma em busca de meu meio-irmão perdido, de que me dei conta de que nem sequer sabia o nome. Mas perguntando ao meu pai ele se lembrou pois fizera uma dedicatória a ele no livro, o que o ajudou a lembrar: Bruno, e com alguma dificuldade o sobrenome, Álvares, certamente de sua mãe. Eu me lembrava de seu belo rosto, e na verdade, isso me atraíra e agora mais me motivava. Precisei de um ano e meio de pesquisas, começando por interrogar meu pai quanto ao seu passado, o que não chegou a ser constrangedor, devido à grande abertura que ele tinha comigo, pela nossa imensa afinidade. Então, um dia, já com dezoito anos, pude fazer uma viagem a Porto Alegre para encontrar o irmão que eu já sentia amar. Cheia de emoção, toquei afinal a campainha de um predinho de seis andares e ouvi uma voz feminina perguntando quem era. " Sou Alma", respondi, "quero falar com o Bruno". A porta se abriu com um zumbido, entrei e subi quatro andares pela escada. Ao chegar, a porta estava aberta e uma bela moça com um bebê no colo me recebeu com lágrimas nos olhos. Estendeu-me a mão e me abraçou com o bebê e tudo, soluçando. Eu tinha chegado tarde demais...
Letícia, era o seu nome, e depois do comovido abraço me fez entrar e sentar-me num modesto sofá. O bebê começou a chorar e ela o balançava e andava um pouco de um lado para o outro. Quando o bebê se acalmou ela o levou para o quarto, o colocou no berço e passado uns minutos voltou e sentou-se numa poltrona à minha frente. "Pois é, Alma... Bruno se foi..." E caiu em prantos novamente! Atônita eu perguntei: "Mas o que foi que aconteceu?". Letícia enxugou os olhos com as palmas das mãos, e disse: "Pra mim, é como se tivesse morrido... " Confesso que suspirei aliviada, Bruno estava vivo! Eu precisava saber o que estava acontecendo... aliás eu precisava saber tudo, desde o começo, pois na verdade eu não sabia nada. Não sabia de sua mãe e dele depois da aventura que meu pai acabou me contando alguns meses antes.O Vati me confessou que quando jovem tivera uma fase de boemia em Buenos Ayres e sendo um amante de ópera e frequentando o Teatro Colón acabara conhecendo uma soprano de coro, muito bela e tivera um caso fugaz com a moça. Quando o caso acabou, depois de alguns meses, por infidelidade de ambos, meu futuro pai voltou para o Vale do Itajaí onde se casou com minha mãe, Ana Morgado, da colônia açoriana, sua namorada de adolescência, e se aquietando, resolvido a ser fiel para o resto de sua vida. Muita água correu até meu pai mudar-se com minha mãe em final de gravidez para Novo Hamburgo, numa viagem de carro onde nasci na relva do acostamento, num parto natural em que meu pai foi o parteiro, cortando o cordão com um canivete suíço desinfetado com Steinhegger, numa despedida de meu pai a essa bebida, que ao que parece, o desviara bastante na juventude. Ele nada mais soube de sua breve amante, e minha mãe nunca soube dessa aventura de meu pai. Para ela a fase de Buenos Ayres era como uma um pouco longa despedida de solteiro de seu noivo. Mas... voltando àquele momento, eu precisava saber o que acontecera, já que meu irmão, ao que parecia, estava vivo e desaparecido...
Letícia, era o seu nome, e depois do comovido abraço me fez entrar e sentar-me num modesto sofá. O bebê começou a chorar e ela o balançava e andava um pouco de um lado para o outro. Quando o bebê se acalmou ela o levou para o quarto, o colocou no berço e passado uns minutos voltou e sentou-se numa poltrona à minha frente. "Pois é, Alma... Bruno se foi..." E caiu em prantos novamente! Atônita eu perguntei: "Mas o que foi que aconteceu?". Letícia enxugou os olhos com as palmas das mãos, e disse: "Pra mim, é como se tivesse morrido... " Confesso que suspirei aliviada, Bruno estava vivo! Eu precisava saber o que estava acontecendo... aliás eu precisava saber tudo, desde o começo, pois na verdade eu não sabia nada. Não sabia de sua mãe e dele depois da aventura que meu pai acabou me contando alguns meses antes.O Vati me confessou que quando jovem tivera uma fase de boemia em Buenos Ayres e sendo um amante de ópera e frequentando o Teatro Colón acabara conhecendo uma soprano de coro, muito bela e tivera um caso fugaz com a moça. Quando o caso acabou, depois de alguns meses, por infidelidade de ambos, meu futuro pai voltou para o Vale do Itajaí onde se casou com minha mãe, Ana Morgado, da colônia açoriana, sua namorada de adolescência, e se aquietando, resolvido a ser fiel para o resto de sua vida. Muita água correu até meu pai mudar-se com minha mãe em final de gravidez para Novo Hamburgo, numa viagem de carro onde nasci na relva do acostamento, num parto natural em que meu pai foi o parteiro, cortando o cordão com um canivete suíço desinfetado com Steinhegger, numa despedida de meu pai a essa bebida, que ao que parece, o desviara bastante na juventude. Ele nada mais soube de sua breve amante, e minha mãe nunca soube dessa aventura de meu pai. Para ela a fase de Buenos Ayres era como uma um pouco longa despedida de solteiro de seu noivo. Mas... voltando àquele momento, eu precisava saber o que acontecera, já que meu irmão, ao que parecia, estava vivo e desaparecido...
Finalmente, Letícia se dispôs a contar o que acontecera com Bruno. Ela disse: "Estávamos vivendo bastante mal desde que o bebê nasceu. Faltava dinheiro, Bruno não ganhava o suficiente com seus escritos para um jornaleco, vivia insatisfeito, frustado, e brigávamos a todo momento. Foi então que apareceu aqui um rapaz que disse ser seu meio-irmão, um aventureiro cheio de charme e sedução, vivia do jogo de poker e viajava pelo mundo, de cassino em cassino e dizia ganhar fortunas.Exibia grandes rolos de notas." (Tive um arrepio! A descrição batia com o perfil de Rodo, meu irmão...) "Como se chamava esse guri?"- perguntei ansiosa. "Rudolph", ela disse. "Bruno estava hipnotizado e resolveu partir com ele, à aventura, para fazer fortuna com o poker, veja só... Seu desespero se juntara ao fascínio daquele demônio, que prometia ensinar todos os truques que lhe trariam fortuna e também o glamour de uma vida tão diferente deste pequeno apartamento e do nosso cotidiano. Não consegui convencê-lo de que aquilo tudo era um sonho. A Ferrari vermelha estacionada lá em baixo, à nossa porta, superava os meus argumentos. E ele, um dia se foi. Eles se foram juntos, e já faz um mês que não tenho notícias de Bruno. O tentador o levou... "
Eu estava estarrecida, Rudolph é o verdadeiro nome de Rodo, meu irmão, que cresceu junto comigo. Praticamente só eu o chamo assim desde crianças. Sua natureza de aventureiro e jogador só não foi considerada irresponsável pela família devido ao seu sucesso como jogador excepcional, mestre do blefe. Sim, por ser bem sucedido, isto é, ganhar muito dinheiro . Mas também devo dizer, por ter uma boa índole e um grande coração. E Isto eu podia testemunhar. Nada estava perdido. Não fora o demônio, fora um anjo destemido e aventureiro! Os irmãos estavam juntos! Eu ofegava, de alívio e alegria. Gritei de repente: "Letícia, nada temas! Teu Bruno voltará, com muito dinheiro! Eu sei, eu sei!" enquanto a abraçava, loucamente..."
a retaguarda, a testemunha, escrevendo, escrevendo. Eu mesma fui com Rodo por algum tempo pelos cassinos, em aventuras, perigosas às vezes, confesso. Mas ele me protegia como um anjo, e voltei sã e salva. Não era a minha verdadeira natureza, e renunciei a essa vida de aventuras. Mas se Bruno é um escritor, também renunciará, voltará. Não temos a natureza de pessoas de ação. O importante é que Rodo o protegerá daqui por diante, e a ti e ao teu bebê também. Eu garanto. Eu mesma quero protegê-los também, como meus novos irmãos. Aceitas? "
quinta-feira, 17 de novembro de 2016
"Qual a minha Intenção ao escrever? Na verdade vejo o público leitor como uma criança, no melhor sentido. Minha intenção é divertir e encantar, como uma contadora de estórias que não esconde seu próprio prazer em fazê-lo. Muito complexa para isso? Bem... minha alma é simples embora minha mente não o seja muito..." (entrevista com Alma Welt
segunda-feira, 25 de julho de 2016
"Quando criança ganhei de uma tia um álbum de diário com um fecho e pequeno cadeado, que à primeira vista adorei. Entretanto esse fecho logo me pareceu absurdo e frustrante para quem, como eu, queria tanto ser uma escritora e poetisa, isto é, alguém lida por todo mundo, se possível. Joguei fora o cadeado, meus segredos haveriam de nascer violados e para isso eu faria de cada leitor meu confidente: esse seria o tom de meu discurso poético e literário: eu seria uma despudorada e íntima confessional..." (Alma Welt)
terça-feira, 13 de outubro de 2015
terça-feira, 9 de junho de 2015
Biografia de Alma Welt (por Guilherme de Faria)
Alma Welt ( Alma Morgado Welt) - escritora gaúcha, poetisa, contista, cronista, romancista, compositora de hai kais e pensadora, nasceu em 8 de janeiro de 1972, a caminho de Novo Hamburgo. Sua mãe Ana Morgado Welt neta de portugueses açorianos deu à luz a Alma, sua terceira filha, no acostamento de uma estrada, na relva, já em terras gaúchas, pelas mãos de seu marido cirurgião médico e músico amador Werner Friedrich Welt, filho de agricultores imigrantes alemães vindos do Sudetos da Tchekoslováquia antes da segunda Guerra Mundial para a colônia alemã do Vale do Itajaí, Santa Catarina, região de Blumenau.
De partos e poentes (de Alma Welt)
929
Varanda, balcão nobre dos poentes,
Que me viu crescer com a reverência
Com que beijava as mãos benevolentes,
Prevendo de meu pai a rubra ausência,
O qual, por cuja força vim ao mundo,
Que era a minha luz, o rei sol vivo
Cujas mãos tiraram-me do fundo
De um ventre açoriano retentivo,
Na estrada deserta, quase selva,
Num anti picnic nada farto,
Minha mãe aberta sobre a relva...
E vem à minha mente, por instantes,
O vermelho do sangue do meu parto
Nas mãos abençoadas, tão distantes...
Alma passou seus primeiros oito anos num casarão adquirido por seu pai na cidade de Novo Hamburgo, RS, de tradicional colônia alemã. Alguns belíssimos contos e crônicas da Alma, reminiscências desses primeiros anos se passam nessa cidade e nesse casarão. Nessas obras já fica evidente a paixão da menina Alma por seu irmão mais novo Rodo (Rudolph Welt) companheiro inseparável de aventuras e descobertas, inclusive a do sexo. Das irmãs da Alma, Solange e Lucia, esta é a preferida e viria a ser a herdeira e divulgadora do espólio da poetisa, descoberto na famosa Arca da Alma, uma arca lotada de manuscritos inéditos da amada irmã, a cuja obra ela seria integralmente dedicada após a trágica morte prematura da Alma em 20/ 01/ 2007, aos 35 anos, na estância da família no Pampa riograndense. Lucia abriu a partir de 2007 e administra os mais de 60 blogs póstumos da extensa obra weltiana, publicando e comentando com grande erudição sobretudo os sonetos, a parte mais prolífica da produção da grande poetisa, que conta com perto de quatro mil sonetos já publicados desde então na Internet...
Aos oito anos da Alma, a família mudou-se para estância dos avós paternos, os agricultores alemães Joachim e Frida, que haviam plantado um vinhedo pioneiro em pleno Pampa, nalgum lugar no imenso triângulo entre Rosário do Sul, Alegrete e Santana do Livramento, numa antiga fazenda tradicional de gado, charque e mate, e mudaram seu nome de Estância Farroupilha para "Santa Gertrudes". Essa mudança geográfica seria decisiva no destino da futura poetisa, que amou tanto essa nova paisagem, o vetusto casarão, o jardim de sua avó, o pomar e o vinhedo, mas sobretudo a coxilha infinita batida pelo minuano, o próprio Pampa que ela incorporaria e mitificaria em sua poesia e prosa como sendo sua legítima raiz espiritual, de maneira espantosa e mesmo comovedora. Ela viria amiúde a se confundir poeticamente com os heróis da grande saga farroupilha, formando em imaginação um triângulo amoroso com Anita e Giuseppe Garibaldi, em sonetos gloriosos...
Na estância pampiana dos avós, Alma agora se encontrava no seu verdadeiro habitat. Sua trajetória poético-existencial pode ser acompanhada desde seu primeiro impacto com o cenário e a visão inicial do casarão num soneto prólogo que abre a sua série memorial que ela chamou de Sonetos Pampianos da Alma, da qual constam nada menos que mil e dois sonetos que lidos em sequência refazem a trajetória interior da poetisa, dos seus oito anos até a sua morte trágica e misteriosa aos 35 anos, no auge de sua beleza e talento. Essa espécie de autobiografia poética reproduz seus anseios, sonhos e devaneios e resulta mais verdadeira que uma biografia linear e circunstancial, tanto mais que existem na série inúmeros sonetos que são verdadeiras crônicas do seu cotidiano na estância, em quatorze versos rimados inclusive com diálogos saborosos e sucintos no espaço de dois tercetos, prodigiosos de habilidade e graça. Entretanto essa é apenas uma das inúmeras séries de sonetos da Poetisa, pois haveria a dos Metafísicos, dos Humorísticos, dos Sonetos Amorosos, dos Sonetos de Mistérios, dos Sonetos da Morte de Alma Welt, dos Sonetos do Rodo, dos Sonetos do Vati, dos Sonetos da Mutti, dos Sonetos da Matilde, dos Sonetos do Galdério (com l mesmo, nome próprio, do seu charreteiro), da Dança Macabra, dos Sonetos Eróticos da Alma... perfazendo um número aproximado de quatro mil sonetos fascinantes, sempre dodecassílabos alexandrinos com chave de ouro, portanto clássicos na forma embora modernos no espírito e extremamente originais como resultado, personalíssimos. Poderíamos atribuir essa modernidade ao fato da Alma ser uma moça do final do século XX e começo do XXI, se não fosse sua imensa cultura literária e o caráter atemporal de sua abordagem da vida, e de sua figura, em que pese um certo lirismo de base ou de fundo, herança do romantismo alemão de seus antepassados..
De partos e poentes (de Alma Welt)
929
Varanda, balcão nobre dos poentes,
Que me viu crescer com a reverência
Com que beijava as mãos benevolentes,
Prevendo de meu pai a rubra ausência,
O qual, por cuja força vim ao mundo,
Que era a minha luz, o rei sol vivo
Cujas mãos tiraram-me do fundo
De um ventre açoriano retentivo,
Na estrada deserta, quase selva,
Num anti picnic nada farto,
Minha mãe aberta sobre a relva...
E vem à minha mente, por instantes,
O vermelho do sangue do meu parto
Nas mãos abençoadas, tão distantes...
Alma passou seus primeiros oito anos num casarão adquirido por seu pai na cidade de Novo Hamburgo, RS, de tradicional colônia alemã. Alguns belíssimos contos e crônicas da Alma, reminiscências desses primeiros anos se passam nessa cidade e nesse casarão. Nessas obras já fica evidente a paixão da menina Alma por seu irmão mais novo Rodo (Rudolph Welt) companheiro inseparável de aventuras e descobertas, inclusive a do sexo. Das irmãs da Alma, Solange e Lucia, esta é a preferida e viria a ser a herdeira e divulgadora do espólio da poetisa, descoberto na famosa Arca da Alma, uma arca lotada de manuscritos inéditos da amada irmã, a cuja obra ela seria integralmente dedicada após a trágica morte prematura da Alma em 20/ 01/ 2007, aos 35 anos, na estância da família no Pampa riograndense. Lucia abriu a partir de 2007 e administra os mais de 60 blogs póstumos da extensa obra weltiana, publicando e comentando com grande erudição sobretudo os sonetos, a parte mais prolífica da produção da grande poetisa, que conta com perto de quatro mil sonetos já publicados desde então na Internet...
Como escritora Alma Welt é essencialmente confessional, isto é, parte de sua experiência pessoal, de suas vivências reais e também devaneios e sonhos, como fonte de suas narrativas conquanto se escore numa cultura universal inegável, de fonte literária clássica beirando a erudição, graças ao fato de ter crescido à sombra da grande biblioteca de seu pai em quatro ou cinco idiomas. Alma se refere inúmeras vezes a essa biblioteca tão amada, que contava ainda com um piano de cauda Steinway onde seu pai, que ela e seus irmãos chamavam de Vati (pr. Fáti, papai em alemão, diminutivo de Vater, pai, pr, Fáter ) tocava muito bem os grandes compositores românticos, como Beethoven, Shumann, Lizst, Chopin, Scriabin, Dvorák, Grieg, etc, que Alma cresceu ouvindo desde pequena, quando se deitava sob o piano num pequeno tapete que seu Vati colocava ali para ela (ela escreveu mais de um soneto sobre isso). Werner Welt, homem de vasta cultura e experiência, sendo segunda geração no Brasil de uma família alemã de agricultores de linhagem antiga mas simples que prosperou no Brasi, foi estudar na Alemanha onde se formou em Medicina e circulou pela Europa antes de regressar a Blumenau com a ascensão do nazismo que lhe causou repugnância instintiva e do qual fugiu a tempo.
Alma teria a vida inteira uma profunda relação de amor com seu pai, que a compreendia e incentivava com orgulho seus dotes artísticos, ao contrário de sua mulher Ana Morgado, a Açoriana (como Alma a chamava com distanciamento) que embora muito bela, era apegada às convenções e tradições da respeitável família brasileira da época. Alma e a "Açoriana" nunca se entenderam e isso, na verdade causava grande dor à menina sensível, futura poetisa, que viria a escrever ínúmeros sonetos sobre essa dolorosa e conturbada relação mãe e filha. Alma conta no seu romance autobiográfico A Herança, que sua mãe a tirou do berço quando ainda bebê, escondida, e tomou uma charrete combinada com o charreteiro para levá-la a batizar em Igreja católica contra a vontade do marido, que, alertado a tempo, a perseguiu a cavalo até alcançá-la no caminho e retirar a criança dos braços da mãe, dizendo: "Esta é minha!" Ele, livre pensador, a criaria (segundo a Alma) como uma "pequena pagã"... "para não inocular-lhe o conceito odioso do pecado original". Alma cresceria cercada pelos mitos da Mitologia greco-romana e também do Walhalla (Thor, Odin e as Valkírias...) de seus ancestrais germânicos. A intenção confessa de seu pai era criar a Alma como uma obra de arte viva, ao mesmo tempo que uma artista. A beleza da menina ruiva, de rasgados olhos verdes, contribuía para essa fantasia logo corroborada por todos da família, e até pelos futuros empregados, os peões gaúchos da estância pampiana que em breve a receberia.Aos oito anos da Alma, a família mudou-se para estância dos avós paternos, os agricultores alemães Joachim e Frida, que haviam plantado um vinhedo pioneiro em pleno Pampa, nalgum lugar no imenso triângulo entre Rosário do Sul, Alegrete e Santana do Livramento, numa antiga fazenda tradicional de gado, charque e mate, e mudaram seu nome de Estância Farroupilha para "Santa Gertrudes". Essa mudança geográfica seria decisiva no destino da futura poetisa, que amou tanto essa nova paisagem, o vetusto casarão, o jardim de sua avó, o pomar e o vinhedo, mas sobretudo a coxilha infinita batida pelo minuano, o próprio Pampa que ela incorporaria e mitificaria em sua poesia e prosa como sendo sua legítima raiz espiritual, de maneira espantosa e mesmo comovedora. Ela viria amiúde a se confundir poeticamente com os heróis da grande saga farroupilha, formando em imaginação um triângulo amoroso com Anita e Giuseppe Garibaldi, em sonetos gloriosos...
Na estância pampiana dos avós, Alma agora se encontrava no seu verdadeiro habitat. Sua trajetória poético-existencial pode ser acompanhada desde seu primeiro impacto com o cenário e a visão inicial do casarão num soneto prólogo que abre a sua série memorial que ela chamou de Sonetos Pampianos da Alma, da qual constam nada menos que mil e dois sonetos que lidos em sequência refazem a trajetória interior da poetisa, dos seus oito anos até a sua morte trágica e misteriosa aos 35 anos, no auge de sua beleza e talento. Essa espécie de autobiografia poética reproduz seus anseios, sonhos e devaneios e resulta mais verdadeira que uma biografia linear e circunstancial, tanto mais que existem na série inúmeros sonetos que são verdadeiras crônicas do seu cotidiano na estância, em quatorze versos rimados inclusive com diálogos saborosos e sucintos no espaço de dois tercetos, prodigiosos de habilidade e graça. Entretanto essa é apenas uma das inúmeras séries de sonetos da Poetisa, pois haveria a dos Metafísicos, dos Humorísticos, dos Sonetos Amorosos, dos Sonetos de Mistérios, dos Sonetos da Morte de Alma Welt, dos Sonetos do Rodo, dos Sonetos do Vati, dos Sonetos da Mutti, dos Sonetos da Matilde, dos Sonetos do Galdério (com l mesmo, nome próprio, do seu charreteiro), da Dança Macabra, dos Sonetos Eróticos da Alma... perfazendo um número aproximado de quatro mil sonetos fascinantes, sempre dodecassílabos alexandrinos com chave de ouro, portanto clássicos na forma embora modernos no espírito e extremamente originais como resultado, personalíssimos. Poderíamos atribuir essa modernidade ao fato da Alma ser uma moça do final do século XX e começo do XXI, se não fosse sua imensa cultura literária e o caráter atemporal de sua abordagem da vida, e de sua figura, em que pese um certo lirismo de base ou de fundo, herança do romantismo alemão de seus antepassados..
Logo no primeiro ano da vida da Alma na Estância, é preciso destacar um evento que marcaria a sua psique e coração para o resto de sua vida. Alma e seu irmãozinho Rodo foram flagrados por sua mãe, a Açoriana, numa experiência sexo-amorosa debaixo de uma árvore do pomar. O casalzinho foi interrompido em sua pratica sexual canhestra, experimental, e nus foram agarrados pelos cabelos pela Mutti e arrastados pela trilha até o casarão, aos gritos e aos prantos, obrigados a cobrirem "suas vergonhas" (o que não fariam espontaneamente) e acompanhados à distância pelas gargalhadas dos peões. Jogados no assoalho do salão, diante do Vati, este, chocado com a atitude de sua esposa, reagiu: "Não os escandalizes, mulher! São crianças, curiosidade infantil, só isso! Nunca leste Freud, sua ignorante! " e voltando-se para a sua guria nuinha e em lágrimas, que soluçava aterrorizada, estendendo os braços disse ternamente: "Vem, minha princesa, com o papai"... enquanto a feroz Açoriana gritava: "Não os toques! Eles estão nús!"
No dia em que a Mutti nos flagrou (de Alma Welt)
(42)
No dia em que a Mutti nos flagrou
A mim e ao irmão em brincadeiras,
Pelos nossos cabelos arrastou
Entre peões e risadas zombeteiras.
Com a mãozinha, obrigada, eu cobria
As “vergonhas” ( o que não me ocorreria)
E fez-nos entrar no casarão
Para mais furibundo e atroz sermão.
Mas eis que o Vati, carinhoso
Disse: —Pára, mulher, assim não vai...
Criança é bichinho só curioso...
-Não a toques, vê, está pelada!
Gritava minha mãe ainda irada...
E ele: “Vem, minha princesa, com teu pai!"
No dia em que a Mutti nos flagrou (de Alma Welt)
(42)
No dia em que a Mutti nos flagrou
A mim e ao irmão em brincadeiras,
Pelos nossos cabelos arrastou
Entre peões e risadas zombeteiras.
Com a mãozinha, obrigada, eu cobria
As “vergonhas” ( o que não me ocorreria)
E fez-nos entrar no casarão
Para mais furibundo e atroz sermão.
Mas eis que o Vati, carinhoso
Disse: —Pára, mulher, assim não vai...
Criança é bichinho só curioso...
-Não a toques, vê, está pelada!
Gritava minha mãe ainda irada...
E ele: “Vem, minha princesa, com teu pai!"
Essa experiência nitidamente arquetípica equivaleria para a Poetisa à expulsão primordial do Éden, o paraíso terrestre que a estância dos avós, seu jardim, o pomar e a coxilha agora representavam para ela. Sua paixão pelo Pampa adquiriu a partir daquele momento a exasperação e a nostalgia da inocência perdida, e um atentado à sua harmonia que fariam dela a maior intérprete de uma poética gauchesca universal em tempos recentes, desde o grande Érico Veríssimo...
A Leste do Éden (de Alma Welt)
A guria que fui me é tão sagrada
Que olhando-a sempre me enterneço
Mas deploro como fui atormentada
Por uma culpa que sei que não mereço...
Por quê, meu Deus, escandalizam os guris
Sob a mais pura macieira do pomar
Como se acaso houvessem feito coisas vis
Quando estavam tão somente a brincar?
Falta aos adultos o verdadeiro humor,
É isso que lhes falta, me perdoem,
Se simplesmente não lhes faltar amor.
Quanto a mim, para abrandar a agonia
Dos gritos que na alma ainda me doem,
Vou-me ao leste do Éden da poesia...
Entretanto, esse incidente traumático aguçou a paixão dos dois irmãos, que agora se encontravam às escondidas, até que, finalmente denunciados por Solange, a irmã mais velha, na pré-adolescência foram separados pela Açoriana que convenceu seu marido a colocar Rodo num colégio interno, bem longe da irmã, em Porto Alegre. Alma sofreria intensamente com isso, e se poria, a partir de então num modo de espera romântico e de perpétua nostalgia. É quando começa a vagar diariamente pela coxilha, fortalecendo seus laços com a terra, seu amado pampa, escrevendo versos que a fariam uma legítima representante desse cenário especial, teatro de tanto sangue, de tantas guerras passadas e de uma nostalgia infinita de liberdade. Alma se revela desde então uma sonetista instintiva, se posso dizer assim, toda em dodecassílabos alexandrinos, mas nada parnasiana e sim original, moderna, conquanto de fundo romântico (um paradoxo), confessional e com notável pendor para a crônica, mesmo em quatorze versos.
Quanto ao Rodo, o menino voltaria sempre nas férias de Julho e de fim de ano, para a alegria e êxtase da Alma, quando então retomavam sua intensa e apaixonada relação, agora mais furtiva e hábil para despistar a vigilância da Açoriana. Entretanto, Rodo, que sempre demonstrara coragem e determinação, mais evidenciava seu espírito aventureiro. O casarão com seus cantos, porão e sótão, o jardim da avó Frida, o pomar e a coxilha, as proezas de laço e boleadeira dos peões gaúchos, os fandangos de galpão com suas eventuais rixas e peleias de faca, seus duelos de chula, as bravatas no fogo de chão e de mateio já não eram suficientes para ele que ansiava por aventuras maiores. Ele haveria de se tornar um cidadão do mundo, jogador profissional de pôquer, apaixonado por carros esporte e velocidade, circulando pelos cassinos da Europa e também da América do Sul, jogando sempre a dinheiro, às vezes em mesas perigosas, correndo grandes riscos. Sobre isso a Alma reservaria uma grande filão de sua poética, os "Sonetos do Rodo", desde 2007 num blog especial, onde ela se coloca poeticamente como uma "Penélope do Pano Verde" (como ela diz), sempre esperando a volta de seu Ulisses jogador, que, inescrupuloso, certa feita acabado seu dinheiro, cometeu um "descalabro": chegou a jogar numa mesa de gangsters, o casarão, a estância e o vinhedo, e depois a própria irmã, beldade ruiva da qual ele carregava consigo uma foto na carteira. Todavia sabemos que ele ganhou o jogo e ainda lucrou, livrando a Alma (cujos pais e avós já tinha morrido) de um destino desesperador. Sabemos disso pelo notável soneto que transcrevo aqui:
Quanto ao Rodo, o menino voltaria sempre nas férias de Julho e de fim de ano, para a alegria e êxtase da Alma, quando então retomavam sua intensa e apaixonada relação, agora mais furtiva e hábil para despistar a vigilância da Açoriana. Entretanto, Rodo, que sempre demonstrara coragem e determinação, mais evidenciava seu espírito aventureiro. O casarão com seus cantos, porão e sótão, o jardim da avó Frida, o pomar e a coxilha, as proezas de laço e boleadeira dos peões gaúchos, os fandangos de galpão com suas eventuais rixas e peleias de faca, seus duelos de chula, as bravatas no fogo de chão e de mateio já não eram suficientes para ele que ansiava por aventuras maiores. Ele haveria de se tornar um cidadão do mundo, jogador profissional de pôquer, apaixonado por carros esporte e velocidade, circulando pelos cassinos da Europa e também da América do Sul, jogando sempre a dinheiro, às vezes em mesas perigosas, correndo grandes riscos. Sobre isso a Alma reservaria uma grande filão de sua poética, os "Sonetos do Rodo", desde 2007 num blog especial, onde ela se coloca poeticamente como uma "Penélope do Pano Verde" (como ela diz), sempre esperando a volta de seu Ulisses jogador, que, inescrupuloso, certa feita acabado seu dinheiro, cometeu um "descalabro": chegou a jogar numa mesa de gangsters, o casarão, a estância e o vinhedo, e depois a própria irmã, beldade ruiva da qual ele carregava consigo uma foto na carteira. Todavia sabemos que ele ganhou o jogo e ainda lucrou, livrando a Alma (cujos pais e avós já tinha morrido) de um destino desesperador. Sabemos disso pelo notável soneto que transcrevo aqui:
O Rei dos Descalabros (de Alma Welt)
Acendam luzes, velas, candelabros,
Quero a casa em festa nesta noite!
Alguns o chamam “rei dos descalabros”,
Mas peço, não me impeçam que me afoite.
Quero a casa em festa nesta noite!
Alguns o chamam “rei dos descalabros”,
Mas peço, não me impeçam que me afoite.
Jogou a nossa estância... mas ganhou!
Até este casarão trocou em fichas.
Com sua própria irmã ele dobrou
E uma fortuna fez, de velhas rixas...
Até este casarão trocou em fichas.
Com sua própria irmã ele dobrou
E uma fortuna fez, de velhas rixas...
Para saudar o aventureiro, acenderei!
Vou esperá-lo na varanda com champanhe,
Não o censurarei... Deus me acompanhe!
Vou esperá-lo na varanda com champanhe,
Não o censurarei... Deus me acompanhe!
Para não ser comedida com o sortudo,
Ao abraçá-lo forte, esquecerei
Ter jogado minha carne, alma, e tudo...
..............................................
Chegou a vez da Alma estudar fora e a adolescente foi estudar Literatura na Alemanha, permanecendo na Europa por seis anos. Por suas cartas sabemos que Alma viajou por inúmeros países, visitando sobretudo museus de Arte e monumentos históricos, casa de artistas, bibliotecas e castelos. Entretanto, estranhamente não temos registro de nenhum poema ou texto literário de seu período europeu. Uma curiosidade: em toda a obra da Alma só consta uma novela que se passa em Paris, de um período da Alma já adulta e como pintora. Trata-se da novela Marcello, da trilogia Mítica de Alma Welt, correspondente ao mito de Perséfone que rege essa emocionante relato, cheio de suspense, inspirado pela visão de uma escultura de bronze da belle-époque que Alma descobriu num nicho do Grand Foyer do Opéra de Paris. Fora esse exemplo tardio, não temos mais nenhuma história, conto, crônica ou romance dela que se passe fora do Brasil. Temos sim obras que se passam em outros estados que não o Rio Grande do Sul. É particularmente notável o seu período paulistano, e o conto e romance que se passam em Olinda e depois no Sertão de Pernambuco e também da Paraíba ( Na trilha dos Menestréis) seguido de um retorno a esses sertões no romance humorístico O Retorno dos Menestréis.
Dos notáveis doze contos publicados em 2004 com o título CONTOS DA ALMA, de Alma Welt (pela Editora Palavras & Gestos, de São Paulo), do seu período paulistano, há uma curiosidade: o conto esotérico Anagramas, em que a Alma conta como nos conhecemos, no seu apartamento nos Jardins da Paulicéia, quando a visitei para conhecê-la e para que fizesse o anagrama de meu nome, depois de ter visto o fantástico anagrama que ela fez do nome da grande gravadora minha amiga Renina Katz, que revela uma teogonia órfica secreta que desvenda o significado arquetípico das obras aparentemente abstratas daquela grande artista gráfica. Entretanto esse conto, encontrável no Google, foi retirado da coletânea pela editora por ter sido considerado tão erudito e obscuro na sua primeira parte, a análise da teogonia surgida, que assustaria os leitores. Todavia, considero esse conto a chave para um futuro entendimento da relação da Alma Welt comigo, seu descobridor e lançador em São Paulo, e agora seu biógrafo.
A propósito, eu não poderia deixar de expor aqui a minha impressão pessoal da mulher Alma Welt, de sua pessoa e figura física. Devo dizer que antes de visitá-la, eu estava muito inquieto, apesar de Renina estranhamente não ter feito nenhum comentário sobre sua figura (logo eu saberia porquê). Quando, tremendamente impressionado pelo anagrama que ela fizera da Renina e que esta me mostrara em sua caderneta de esboços, durante uma conversa na gráfica Ymagos sobre anagramas, por ensejo de um comentário meu sobre o irônico anagrama de Salvador Dali, "Avida Dollars", feito por André Breton, pedi a ela o telefone da anagramista, e dias depois ao ligar, ouvindo uma voz muito doce, aveludada, baixa, com ligeiro sotaque gaúcho, nada exuberante, discreta, eu não podia fazer idéia do que me esperava. Eu disse a ela que vira o espantoso anagrama que ela fizera do nome da Renina e que há dias eu tinha tido um sonho enigmático em que me vira numa situação inusitada e em outra época, séculos atrás, e não me sentindo apto a decifrar eu mesmo as intrigantes imagens, me ocorrera pedir a ela que fizesse o anagrama de meu nome, o qual, eu intuía, desvelaria o significado do meu sonho. Alma foi reticente, parecia não querer me conhecer, muito menos se comprometer em fazer o anagrama de um estranho. Após uns minutos de conversa ela baixou a guarda e aceitou me receber, marcando dia e hora para o encontro em seu apartamento-ateliê nos Jardins. No dia e hora marcados estava eu na portaria de seu prédio (por incrível coincidência na minha mesma rua Oscar Freire, uns quarteirões adiante) tendo o porteiro se comunicado com ela pelo interfone, e com sua permissão de subir fui me enchendo de expectativa. Quando no seu andar a porta do elevador se abriu e me deparei com ela com a porta aberta na soleira do seu ap me esperando, tive um choque e meus olhos se encheram de água... EU ESTAVA DIANTE DA MULHER MAIS BELA DO MUNDO! Helena de Tróia rediviva!
Vendo-me paralisado, embargado de emoção, ela pegou-me pela mão e me introduziu ao seu ateliê que era a grande sala de sua residência, vazia, muito branca, sem móveis mas com inúmeras telas encostadas nas paredes, um cavalete bastante manchado de tinta e uma mesinha rolante com as tintas, uma paleta saturada e pincéis. No meio da sala havia uma pilha de cadernos espiralados e álbuns e apenas uma cadeira de lona dessas de diretor de cinema. Ela mansamente me fez sentar e com seu vestido indiano longo e descalça ajoelhou-se aos meus pés enquanto acariciava minha mão. Demorei um pouco a perceber que ela me perguntava se eu queria um copo d'água, um suco de laranja ou um café, enquanto me olhava com um olhar terno mas no qual eu percebi um longínquo fio de ironia...
CONTINUA
Ao abraçá-lo forte, esquecerei
Ter jogado minha carne, alma, e tudo...
..............................................
Chegou a vez da Alma estudar fora e a adolescente foi estudar Literatura na Alemanha, permanecendo na Europa por seis anos. Por suas cartas sabemos que Alma viajou por inúmeros países, visitando sobretudo museus de Arte e monumentos históricos, casa de artistas, bibliotecas e castelos. Entretanto, estranhamente não temos registro de nenhum poema ou texto literário de seu período europeu. Uma curiosidade: em toda a obra da Alma só consta uma novela que se passa em Paris, de um período da Alma já adulta e como pintora. Trata-se da novela Marcello, da trilogia Mítica de Alma Welt, correspondente ao mito de Perséfone que rege essa emocionante relato, cheio de suspense, inspirado pela visão de uma escultura de bronze da belle-époque que Alma descobriu num nicho do Grand Foyer do Opéra de Paris. Fora esse exemplo tardio, não temos mais nenhuma história, conto, crônica ou romance dela que se passe fora do Brasil. Temos sim obras que se passam em outros estados que não o Rio Grande do Sul. É particularmente notável o seu período paulistano, e o conto e romance que se passam em Olinda e depois no Sertão de Pernambuco e também da Paraíba ( Na trilha dos Menestréis) seguido de um retorno a esses sertões no romance humorístico O Retorno dos Menestréis.
Dos notáveis doze contos publicados em 2004 com o título CONTOS DA ALMA, de Alma Welt (pela Editora Palavras & Gestos, de São Paulo), do seu período paulistano, há uma curiosidade: o conto esotérico Anagramas, em que a Alma conta como nos conhecemos, no seu apartamento nos Jardins da Paulicéia, quando a visitei para conhecê-la e para que fizesse o anagrama de meu nome, depois de ter visto o fantástico anagrama que ela fez do nome da grande gravadora minha amiga Renina Katz, que revela uma teogonia órfica secreta que desvenda o significado arquetípico das obras aparentemente abstratas daquela grande artista gráfica. Entretanto esse conto, encontrável no Google, foi retirado da coletânea pela editora por ter sido considerado tão erudito e obscuro na sua primeira parte, a análise da teogonia surgida, que assustaria os leitores. Todavia, considero esse conto a chave para um futuro entendimento da relação da Alma Welt comigo, seu descobridor e lançador em São Paulo, e agora seu biógrafo.
A propósito, eu não poderia deixar de expor aqui a minha impressão pessoal da mulher Alma Welt, de sua pessoa e figura física. Devo dizer que antes de visitá-la, eu estava muito inquieto, apesar de Renina estranhamente não ter feito nenhum comentário sobre sua figura (logo eu saberia porquê). Quando, tremendamente impressionado pelo anagrama que ela fizera da Renina e que esta me mostrara em sua caderneta de esboços, durante uma conversa na gráfica Ymagos sobre anagramas, por ensejo de um comentário meu sobre o irônico anagrama de Salvador Dali, "Avida Dollars", feito por André Breton, pedi a ela o telefone da anagramista, e dias depois ao ligar, ouvindo uma voz muito doce, aveludada, baixa, com ligeiro sotaque gaúcho, nada exuberante, discreta, eu não podia fazer idéia do que me esperava. Eu disse a ela que vira o espantoso anagrama que ela fizera do nome da Renina e que há dias eu tinha tido um sonho enigmático em que me vira numa situação inusitada e em outra época, séculos atrás, e não me sentindo apto a decifrar eu mesmo as intrigantes imagens, me ocorrera pedir a ela que fizesse o anagrama de meu nome, o qual, eu intuía, desvelaria o significado do meu sonho. Alma foi reticente, parecia não querer me conhecer, muito menos se comprometer em fazer o anagrama de um estranho. Após uns minutos de conversa ela baixou a guarda e aceitou me receber, marcando dia e hora para o encontro em seu apartamento-ateliê nos Jardins. No dia e hora marcados estava eu na portaria de seu prédio (por incrível coincidência na minha mesma rua Oscar Freire, uns quarteirões adiante) tendo o porteiro se comunicado com ela pelo interfone, e com sua permissão de subir fui me enchendo de expectativa. Quando no seu andar a porta do elevador se abriu e me deparei com ela com a porta aberta na soleira do seu ap me esperando, tive um choque e meus olhos se encheram de água... EU ESTAVA DIANTE DA MULHER MAIS BELA DO MUNDO! Helena de Tróia rediviva!
Vendo-me paralisado, embargado de emoção, ela pegou-me pela mão e me introduziu ao seu ateliê que era a grande sala de sua residência, vazia, muito branca, sem móveis mas com inúmeras telas encostadas nas paredes, um cavalete bastante manchado de tinta e uma mesinha rolante com as tintas, uma paleta saturada e pincéis. No meio da sala havia uma pilha de cadernos espiralados e álbuns e apenas uma cadeira de lona dessas de diretor de cinema. Ela mansamente me fez sentar e com seu vestido indiano longo e descalça ajoelhou-se aos meus pés enquanto acariciava minha mão. Demorei um pouco a perceber que ela me perguntava se eu queria um copo d'água, um suco de laranja ou um café, enquanto me olhava com um olhar terno mas no qual eu percebi um longínquo fio de ironia...
CONTINUA
segunda-feira, 25 de maio de 2015
"Ouvi o caso de uma senhora, que toda vez que perguntavam a ela como ia, ela suspirava e exclamava: "Vai-se vivendo!..." Ela passou a vida inteira só respondendo assim. E morreu. Não sei o significado desta estória, mas suspeito que a tal senhora mal viveu ou viveu mal, porque lhe faltava entusiasmo. Que é a única condição "sine qua non"..." (Alma Welt)
Um segredo de meu pai (crônica de Alma Welt)
"Após a morte de meu Vati, fugi da estância, exilei-me muito longe, na cidade de São Paulo por quatro longos anos. No retorno passei a investigar no casarão, mais precisamente na biblioteca e escritório, as pegadas de meu pai, sua vida secreta de que eu suspeitava, seus segredos... Descobri na sua correspondência uma carta dele a um amigo, que revelava que ele tinha pelo menos uma outra filha de uma relação antiga, a qual ele nunca mencionou e que foi criada longe de nós pela mãe. Depois do choque tratei de por-me em campo para encontrar essa minha irmã. A primeira pessoa que interroguei foi, naturalmente, a nossa fiel Matilde, uruguaia de origem e nossa cozinheira, antiga na família e que fora minha babá. Matilde então disse: "Alma, esperei pacientemente este dia, porque prometi ao teu pai manter segredo durante sua vida, e que só revelaria a ti se fosse interpelada a esse respeito. Tua irmã é filha de uma cigana com quem teu pai viveu uma tumultuada paixão quando jovem. Não estranhavas que teu pai deixasse que os ciganos acampassem reiteradas vezes aqui na estância, para indignação dos estancieiros vizinhos, sempre ali junto do bosque? Tu os visitava desde guria, provavelmente conheceste tua irmã sem saber..." Arrepiei-me toda... Rafisa! Minha estranha atração por aquela bela e enigmática cigana! Nossa mútua fascinação, nossa inefável química... nosso amor! Só podia ser ela! Entretanto, nômade que era, minha irmã estava sumida no mundo." (Alma Welt)
quarta-feira, 18 de março de 2015
A ANTI-PASTORA
"Sei que as pessoas, de um modo geral, querem ouvir ou ler pensamentos edificantes, que as ajudem a viver melhor, a enfrentar seus medos. A eterna "auto- ajuda", confundida com filosofia. Entretanto, como poeta, eu não poderia fazer esse papel de pastora: tenho tanto horror ao espírito de rebanho, quanto aos lobos. Quê fazer então? Ser, talvez, uma anti-pastora: incentivar as pessoas a se desgarrarem, isto é, terem uma autonomia de pensamento que cause estranheza aos lobos e aos pastores, e os afaste..." (entrevista com Alma Welt)
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
"Tenho mais pena dos que perderam a Felicidade do que dos que nunca a tiveram. Os primeiros são trágicos, os segundos são patéticos. Quanto a mim mesma, ganho e perco a minha felicidade a cada momento, dependendo de como penso nela. Suponho que nisso consiste o poeta: um ser mental, que as pessoas pensam ser puro coração..." (entrevista com Alma Welt)
"Quando guria, na estância, caí do balanço que havia na figueira do nosso pomar, bati a cabeça e desmaiei. Depois disso, no leito, enquanto convalescia comecei a escrever belos versos. Minha mãe, pragmática, dizia que a queda me deixou de miolo mole. Mas meu pai carinhosamente argumentou que isso acontecia porque eu fora expulsa do Paraíso, e precisava recordá-lo..." (entrevista com Alma Welt)
"Dizem os biógrafos que o grande pintor Jean-Baptiste Camille Corot era um homem muito puro e generoso. Era feliz, tinha sucesso e ganhava muito dinheiro com sua arte, mas ajudava os amigos pobres. Comprou uma casinha para Daumier que vivia quase na miséria com mulher e filhos, para ele não pagar mais aluguel. No leito de morte, Corot disse as mais belas últimas palavras que um artista poderia dizer: "Espero que no Céu haja pintura..." (Alma Welt)
"Uma vez perguntei a um velho sábio, meu amigo: "Se Judas se arrependeu de sua traição, a ponto de se suicidar, por quê então foi tão cruelmente condenado e execrado pelos homens, e pela História?" E o velho respondeu: "Porque perdeu a esperança. Aquele que perde a esperança abala o seu vizinho... " (Alma Welt)
"Depois que os americanos atiraram a bomba atômica sobre Hiroshima e Nagazaky, plenamente conscientes do que ocorreria, já que tinham feito testes, terminou para sempre a legitimidade e ingenuidade do "sonho americano". Ninguém mais acredita. Nem eles mesmos. Mas alguém me perguntou: "Alma, então como eles conseguiram fazer um filme tão ingênuo e maravilhoso como "Cantando na Chuva", já nos anos 50? E o belo "PicNic"... e tantos outros filmes românticos?" Eu pensei em responder: "Não sei. Talvez fossem as "possibilidades extensivas" no dizer de Oswald Spengler, na sua " A Decadência do Ocidente"... Mas calei-me para não parecer pedante." (entrevista com Alma Welt)
"Depois do Holocausto, a humanidade perdeu a crença na sua suposta superioridade e elevação. Tornou-se mais cínica ainda, talvez para não cair no que hoje chamamos de "baixa auto-estima", e poder seguir com relativa altivez. Mas temo que ficou desmoralizada para sempre. Confesso que eu mesma evito o quanto possa o contato muito próximo com o ser humano comum, de rebanho, aquele que serve de exemplo da "banalidade do Mal", no dizer da Hannah Arendt, e só me relaciono com amigos eleitos." (entrevista com Alma Welt)
segunda-feira, 15 de setembro de 2014
quarta-feira, 20 de agosto de 2014
terça-feira, 19 de agosto de 2014
sábado, 19 de julho de 2014
segunda-feira, 7 de julho de 2014
quarta-feira, 30 de abril de 2014
"Sempre senti que a cada verso me construo. Por isso não pude parar. Sou uma criatura em permanente processo, em permanente edificação como a Babel dos homens. E como a Torre, também desmoronando e subindo no centro da algaravia do mundo. Mas esse é o destino do Poeta, patético e resoluto arquiteto das palavras, tão destruidor quanto construtor..." (Alma Welt)
"Uma vez, quando ainda criança em Novo Hamburgo (antes de nos mudarmos para o Pampa), um guri da vizinhança me beijou nos lábios à força. Fiquei tão perturbada e em conflito, com sentimentos e pensamentos tão ambíguos dentro de mim, que creio que essa contradição permanece até hoje. Sinto e penso uma coisa e seu contrário ao mesmo tempo. E isso seria doloroso, se não tivesse se transformado em Poesia..." (entrevista com Alma Welt)
terça-feira, 29 de abril de 2014
A Travessia (II) (de Alma Welt)
Quero que meus derradeiros pensamentos
Sejam todos para a Arte tão amada,
Que não foi pra mim apenas bons momentos
Porém todo o sentido da jornada.
Se meu rosto revelou-se nos meus versos
Então vivi a estória verdadeira
A que ocorre em duplos universos
Sem jamais perder a face corriqueira.
E assim na superfície de um espelho
Que se abriu para mim qual Mar Vermelho
Vi passar a minha vida refletida.
Em quatro mil sonetos belos desfilei
Na superfície aberta, desmedida,
Abismo em que pra achar-me atravessei...
Quero que meus derradeiros pensamentos
Sejam todos para a Arte tão amada,
Que não foi pra mim apenas bons momentos
Porém todo o sentido da jornada.
Se meu rosto revelou-se nos meus versos
Então vivi a estória verdadeira
A que ocorre em duplos universos
Sem jamais perder a face corriqueira.
E assim na superfície de um espelho
Que se abriu para mim qual Mar Vermelho
Vi passar a minha vida refletida.
Em quatro mil sonetos belos desfilei
Na superfície aberta, desmedida,
Abismo em que pra achar-me atravessei...
domingo, 23 de março de 2014
"Uma vez me perguntaram qual o sentido geral da minha obra, como eu resumiria a minha mensagem, se isso for possível. Sim, é possível. Eu diria que a minha obra é a procura incessante da beleza que vence a morte, e que está semioculta, camuflada no caos da vida. Nessa procura lanço mão de tudo, inclusive da ironia e do humor. Mas confesso que muitas vezes não consigo disfarçar meu desespero..." (entrevista com Alma Welt)
"Admiro as pessoas simples que não questionam a vida e a vivem como ela vem, pronta, dentro das normas do seu meio e cultura... Infelizmente me falta essa humildade, mas como ainda não fui propriamente castigada, creio que Deus tem sido condescendente com a minha natureza de poeta, especulativa, rebelde, inconformada com a existência da Morte..." (entrevista com Alma Welt)
quinta-feira, 20 de março de 2014
"Alguém poderia me acusar de possuir um ego desmedido, já que quase sempre falo de mim. Mas como poderia falar do mundo e da vida sem meu ponto de vista e de apoio, sem mim mesma? Sou humana e sou mulher, mas sobretudo poeta, portanto com autoridade. Acredito que falando de mim, falo do Mundo. Mas vou lhes contar um segredo: essa hipótese de crítica partiu de mim mesma. Ninguém, na verdade, levantou a mim essa questão. Apenas não sei se por descaso ou por aceitação..." (entrevista com Alma Welt)
quinta-feira, 13 de março de 2014
"Quando muito jovem, voltando para casa depois de um passeio pela coxilha ouvi o som do piano de meu pai tocando um peça de Chopin. Um certo trecho daquela música maravilhosa me deu a súbita consciência de minha própria alma romântica. Nunca mais a reneguei, apesar da minha tendência inata à ironia, que muito tempo depois percebi ser um ingrediente não desprezado pelos melhores românticos, sobretudo os alemães, meus antepassados..." (entrevista com Alma Welt)
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
"Quando guria, entrei pela primeira vez, e sozinha, na casa da família de um peão aqui da estância. Embora ainda criança percebi a deferência e a fidalguia da recepção. Fui tratada como uma Infanta, isto é, uma princesa, a filha mesma do rei. Mas não estranhei e creio que comportei-me como tal, com uma nobreza infantil que me acompanharia para sempre. Afinal, eu era hóspede do mundo e lhe devia retribuir à altura..." (Alma Welt)
domingo, 9 de fevereiro de 2014
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
"No meu Pampa casamento para uma mulher ainda significa servir a um homem para o resto da vida. Ainda guria percebi a tempo e para desgosto de minha mãe, a incompatiblidade entre o exercício pleno da literatura e o casamento. Tornei-me para ela uma espécie de perdida, de réproba, de desterrada em nossa própria casa. Não duvido que isso possa ser o que a matou. Sempre se é livre às custas de alguém..., disse Albert Camus.* O desgosto que lhe causei é ainda um grande peso que carrego, e o preço que paguei pela minha liberdade literária e poética. Tenho um pouco de vergonha de dizer: eu seria livre, mas nunca mais feliz..." (entrevista com Alma Welt)
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Nota
* "Sempre se é livre às custas de alguém." - Camus colocou estas palavras na boca do tirano Calígula, na sua peça homônima.
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Nota
* "Sempre se é livre às custas de alguém." - Camus colocou estas palavras na boca do tirano Calígula, na sua peça homônima.
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
"Se eu tivesse que revelar um profundo segredo sobre mim mesma, eu começaria por dizer que há algo estranho em meu caráter ou personalidade: eu penso uma coisa e o contrário sobre a mesma coisa, sempre. Assim é sobre tudo o que vejo, sinto ou vivencio. Não terei personalidade alguma? Provavelmente não. Mas me consola pensar, como John Keats, que essa é a natureza do poeta: não ter si mesmo. A identidade demasiado forte das coisas e pessoas me aniquila. Ao olhar uma estrela, sou a estrela; ao olhar uma árvore, sou a árvore, uma criança, a criança; um velho, o velho. Sim, mas o pior é mesmo a ambigüidade, os contrários simultâneos, os paradoxos da visão subjetiva. Como posso então viver em sociedade? Bem... não vivo. Não sou um ser social. Comunico-me com o mundo, isto é, com as pessoas, através da minha poesia. E nos raros momentos de sociabilidade, dissimulo pela astúcia o monstro psicológico que na verdade sou. Só o que me salva do crime é o meu amor pela generosidade e pela beleza. Talvez também pela grandeza, a verdadeira, a interior..." ( entrevista com Alma Welt)
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
"Quando guria, eu era mimada por todos, menos por minha mãe. Agora creio que isso resultou num equilíbrio, num moderador. Chego mesmo a creditar a isso a minha poesia. Uma certa carência? Não descarto essa possibilidade. Devo a ela, talvez, o vago tom lírico e nostálgico dos meus textos. Na verdade a minha poesia nasce de uma expulsão. Da perda de um paraíso e da necessidade de sua reconquista..." (entrevista com Alma Welt)
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
"Já se perguntaram por quê na Renascença houveram tantos gênios na pintura? É o seguinte: o aspirante a pintor ingressava ainda criança no ateliê de um grande mestre e começava varrendo o chão. Depois de duas décadas como aprendiz do ofício, passava a colaborador do mestre se este o apreciasse. Para se estabelecer por sua vez como pintor, montar ateliê e poder receber encomendas, precisava ter seu talento e desempenho reconhecidos pela Guilda, isto é, pelos outros pintores estabelecidos e reconhecidos como grandes mestres..." (entrevista com Alma Welt)
"Pressinto que em breve chegará para mim o tempo da sabedoria e não terei mais o que dizer. Me calarei finalmente quando isso acontecer... Mas espero fazer jus ao belo tempo da contemplação plena, sorrindo ao olhar meu ingênuo passado de presunção, poemas e pensares. Também talvez alguma tagarelice..." (entrevista com Alma Welt)
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
"Quando o Guilherme de Faria me descobriu em sua alma como modelo recorrente em seus desenhos, Galatéia que sou esperei o momento de cristalizar-me em palavras e ganhei vida própria. Mas não pude me afastar dele, sou presa de meu próprio estratagema: preciso de sua benevolência e de sua fé, pois não tenho um corpo materializado. Sim, tudo em mim é verdadeiro, só não sou de carne e osso..." (das "Confissões de um Heterônimo", de Alma Welt)
sábado, 13 de julho de 2013
"Meu pai, o "Vati", como eu o chamava, era ateu e não deixou minha mãe, a "Açoriana", batizar-me. Criou-me como uma pequena pagã, cercada das estórias de deuses e mitos, com a intenção de moldar-me como uma obra de arte clássica. Entretanto, como era um erudito e fundamentamente um romântico alemão, disse-me um dia: "Alma, não desprezes os que sonham com o Céu. Afinal esse sonho criou grandes obras que podemos reverenciar, e que foram feitas por artistas profundamente devotos. Quem somos nós para menosprezá-los? A ingenuidade, em sua pureza, cria mundos sublimes que o simples medo não logra construir. Quisera eu ter a fé de tão grandes artistas... " (Alma Welt)
domingo, 7 de julho de 2013
As doze badaladas da meia-noite
"Nada mais sinistro do que as doze badaladas da meia-noite no antigo relógio de pêndulo da sala do velho casarão de nossa estância. Guria, eu ficava acordada aguardando-as na esperança de rever meus fantasmas prediletos: Bento Gonçalves, Netto, Anita e o italiano... E eles me apareciam às vezes, acreditem ou não. Mas também surgiam alguns intrusos que presumo saíam da minha própria sombra. Se esse era um preço difícil de pagar, tudo isso me dava a medida da misteriosa alma humana, que seria a matéria viva da minha poesia...” (entrevista com Alma Welt)
domingo, 3 de fevereiro de 2013
"Dei-me conta pela primeira vez, ainda guria, do ridículo de nos darmos muita importância, quando um conhecido de meu pai, nos visitando, em conversa à mesa declarou: "Não gosto de Beethoven." Meu pai imediatamente retrucou: "Meu amigo, não gostares de Beethoven não fica mal para ele. Só fica mal para ti." (Alma Welt)
sábado, 26 de janeiro de 2013
sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
"Minha varanda é meu observatório da vida. Não me reconheço alienada por ser intrinsecamente romântica. Os livros dos grandes foram e ainda são a minha janela para o mundo. Quem pode negar sua acuidade e sabedoria? E a poesia? Se "quanto mais poético mais verdadeiro", como disse Novalis, quem me poderá cobrar realismo e mesmo "pé na terra"? Os jornais, a televisão, sim, são importantes para quem não lê o que realmente importa. Não me falem de coisas práticas, muito menos de política, esportes, futebol... não estou interessada nas coisas que começam e terminam em si mesmas. Nesse caso prefiro as flores, os pássaros..." (entrevista com Alma Welt)
"Um crítico e filósofo acadêmico me perguntou o que faço pelo próximo, pelos desvalidos, pela educação dos pobres, pela ecologia, etc... Respondi que não sou tão arrogante para acreditar que posso fazer muita coisa além de escrever poemas e tentar dá-los aos meus semelhantes, mas que podia reconhecer em mim mesma um grande respeito e até carinho para com todos e tudo o que me cerca. Mais que isso, realmente, não podia dizer... Talvez eu mereça mesmo o desprezo que esse crítico estava planejando me dar..." (Alma Welt)
“Não tive formação religiosa. Fui criada por meu pai numa espécie de “experiência de paganismo”, em contato com a Natureza e com os mitos gregos, os deuses e os arquétipos, e até mesmo as fadarias germânicas e celtas. Minha formação foi essencialmente literária. Entretanto no final da adolescência descobri o cristianismo e mesmo o catolicismo, através da arte sacra. Tantos grandes artistas pintando com tanta devoção obras magníficas representando a vida de Cristo ou compondo magníficas e poéticas orações e missas, me comoveram e abalaram minha crença nos deuses e nas fadas. Tantas e tão grandes inteligências e sensibilidades não poderiam estar enganadas. E fui me convertendo lentamente, como os séculos do Ocidente o foram...” (entrevista com Alma Welt)
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
Minha mãe, a Açoriana, e Matilde, nossa ex babá, temiam que a dedicação à
Literatura me tornasse uma solteirona, e me ofereciam ostensivamente aos filhos
de estancieiros vizinhos que nos visitavam. Elas elogiavam exageradamente minha
beleza na frente deles, o que me constrangia. Eu percebia que estava à venda. O
que me salvava da revolta e do ressentimento era o senso de humor incentivado
pelo Vati (papai). Tornei-me cínica sem vulgaridade graças a ele, à sua
sabedoria..." (entrevista com Alma Welt)
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
"Sinto que não completei dentro de mim a relação com minha mãe, relação que foi truncada por um trauma. Depois perdi a possiblidade de fechamento do ciclo, com sua perda aos meus 16 anos. Em compensação tive a plenitude de um pai amoroso e culto, incentivador da minha arte. Um verdadeiro esteio da minha poesia. Conversando sobre isso com o Guilherme de Faria, ele me disse que com ele foi exatamente o contrário..." (entrevista com Alma Welt)
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
"Uma jornalista de Porto Alegre veio me entrevistar aqui na estância. Mostrei a ela a biblioteca de meu pai, seu piano Steinway, a varanda, o jardim, o pomar, a macieira do meu exílio e... depois fomos cavalgar na coxilha. Pouco falei. Convidei-a a passar a noite no casarão para ver meus fantasmas. Ao amanhecer ela disse estar apta a escrever um longo artigo, senão uma biografia. Ao despedir-se beijou-me nos lábios. Senti que ela iria escrever poesia. Um pequeno poema que resumiria tudo..." (Alma Welt)
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
"No final dos anos 50 começou a invasão da cultura americana no Brasil, expulsando a cultura francesa que nos dominava. A ponta de lança dessa nova cultura dominante era Hollywood, difícil de resistir. Que crianças resistiriam ao faroeste, ao chicletes, à coca-cola, os quadrinhos e os super-heróis? E aos gangsters, então, com todo aquele glamour?" (Alma Welt)
"Eu prefiro ver o artista um tanto à parte da sociedade, pela isenção que isso lhe acarreta, do que inserido socialmente e portanto comprometido com o Sistema. Sei que isso constitui uma postura "romântica", mas que certamente incorpora os "malditos", esplêndidos artistas marginais e solitários. Eu mesma assim me considero e pago um alto preço por isso com a dificuldade de publicar meus livros e poemas fora da Internet..." (entrevista com Alma Welt)
domingo, 8 de julho de 2012
"É preciso muita humildade para envelhecer. Não sei se a terei. Mas não pintarei o cabelo, não o cortarei nem prenderei. Não pintarei os lábios de minha boca emurchecida. Prefiro me transformar numa bruxa picaresca como a minha avó Frida, e morrer com uma grande e última casquinada... " (entrevista com Alma Welt)
quarta-feira, 23 de maio de 2012
"Tendo um nome como o meu, não seria necessário nem coerente eu adotar outra religião senão o culto de minha própria anima poética. Assim, erigi-me como Musa de mim mesma e minha religião é o meu ego assumido em plena transcendência literária. Estranho? Não! Todo poeta que se preze deve cultuar a sua alma privilegiada. Não há maior religiosidade, nem humildade..." ( Alma Welt)
segunda-feira, 21 de maio de 2012
"Como pensadora e poeta, sou o contrário de qualquer patrão ou líder: nunca me verão dizendo às pessoas o que elas devem fazer. Meus pensamentos não têm esse teor. Aliás não posso conceber que se faça isso. Cada um que faça de si o que bem lhe aprouver, e arque ou não com as consequências. Neste "ou não" está a minha coerência..." (Alma Welt)
terça-feira, 1 de maio de 2012
A Gula pela Vida
"Vivi intensamente, tanto pelo intelecto como pelos sentimentos. Posso então afirmar que extraí o sumo da vida. Entretanto, como os gulosos, devo confessar que nada me saciou. Quis sempre mais... e a mim mesma me surpreende que não tenha me tornado uma adicta, senão pela vida mesma..." (Alma Welt)
O Patrimônio Imaterial
"Congratulo-me comigo mesma, pois embora eu tenha nascido no seio de uma família abastada, cultivei um patrimônio totalmente imaterial, que é a minha bagagem cultural, literária, e de grande riqueza de memória afetiva. Agora que vejo o expólio material da minha família entrar em decadência, correndo o risco de se perder, vejo que eu estava certa: não me sinto na verdade empobrecer." (entrevista com Alma Welt)
quinta-feira, 26 de abril de 2012
A Idade de Ouro
"Isto pode soar delirante ou mesmo pretensioso, mas considero que vivi dentro de mim, em realidade psíquica e existencial, integralmente as quatro Idades da Humanidade segundo a concepção grega antiga: A Idade do Ouro, da Prata, do Bronze e do Ferro. Mas me detive ao meu bel-prazer na Idade do Ouro, e fiz de mim mesma minha heroína. Esta foi minha prerrogativa de Poeta e Musa de mim mesma. E meu nome é Alma Welt."
domingo, 15 de abril de 2012
O mundo é mágico...
"O mundo é mágico para aqueles que assim o acreditam. Nisto consiste o "pensamento mágico", que dá à luz as melhores criações da mente humana, como as invenções benignas e sobretudo a Arte. Quem não for capaz de pensar magicamente não será capaz de fazer Arte. Não se enganem: somos magos e pagamos alto preço por isso..." (Alma Welt)
segunda-feira, 9 de abril de 2012
A Propósito de Esporas (de Alma Welt)
"Não permiti jamais a presença de esporas nas botas dos "gauchos" aqui da estância. Os que insistiam foram ameaçados de demissão e desistiram. Mas confesso que foi difícil, no começo, fazê-los internalizarem o conceito que há por trás disso, pois eles achavam que mesmo usando esporas eles amavam seus "pingos". A crueldade é quase sempre fruto da ignorância. Se não é... é pior ainda." (Alma Welt)
domingo, 1 de abril de 2012
Os Falsos Sonhos
"Vocês já repararam num tipo de sonho que ocorre com frequência em nosso sono noturno, absolutamente banal, realista, mesquinho, sobre trivialidades muitas vezes técnicas, afinal idiotas, e que parece podermos conduzir sem levar a bom termo? Eu os chamo de "falsos sonhos"... Nitidamente sem nenhum caráter simbólico, somente sua finalidade permanece misteriosa. Entretanto se passam no inconsciente pois vão se evolando também, como os sonhos interessantes, ao acordarmos, e se dissipam. Não conseguimos mais lembrar do que se tratava, restando somente a impressão de sua absoluta falta de propósito. Nunca ouvi menção a eles nos tratados de psicologia, e eu hesitaria, por vergonha, em levá-los a um psicanalista, se o tivesse. Imagino que um analista diria que os estou subestimando e que deveria me esforçar para lembrá-los e trazê-los às sessões, e que os estou recalcando justamente por sua importância... Mas não. Creio que o nosso inconsciente também armazena bobagens, futilidades. Sua riqueza é como ouro no cascalho." (Alma Welt
Os Segredos da História
"A cada um de nós é dado descobrir segredos da História Humana que estão guardados num lugar recôndido de nosso cérebro como uma herança cultural inconsciente. Mas isso teoricamente, pois somente alguns de nós conseguimos acessar esse cofre secreto e precioso, por predisposição ou dom desenvolvido de profundo mergulho interior. Sim, porque alguns desses segredos podem ser fatais ou enlouquecedores. Desconfio que os hospícios estão cheios desses mergulhadores..." (Alma Welt)
Nossa Época
"Pensando bem... a nossa época tem tudo, acumulou o conhecimento de quase toda a História da humanidade, e pela pesquisa vem preenchendo gradativamente as lacunas. Tornamos a comunicação eletrônica imediata e miraculosa, via satélite. Temos a fantástica Internet. Democratizamos a cultura e podemos ouvir e ver toda espécie de shows de música, concertos, óperas, balés, espetáculos. As editoras de livros proliferaram como nunca. Os clássicos ainda são editados. E filmes, filmes espantosos, em que grandes epópeias e mitos se tornaram visíveis e quase verossímeis. Só nos falta a inocência para acreditar nesses mitos arquetípicos, enfim... nos heróis e nos deuses. Isso se perdeu. Estamos mais pobres, cercados de riquezas..." (Alma Welt)
A Nossa Era
As características negativas de nossa Era, tão apontadas, também as enxergo. No entanto não me identifico com nenhuma delas, pois não sou uma pessoa desta época, sou completamente anacrônica: poeta de dois mundos, um tanto atrás e um tanto à frente... (Alma Welt)
quarta-feira, 21 de março de 2012
Realismo
Todo realismo é um tanto pessimista. Eu acho muita graça nas chamadas "Leis de Murphy", justamente por serem criação de um americano, portanto nascidas no seio de uma sociedade que consagrou o Americam Dream e o Happy End. Quanto a mim, sonhadora do real, também acredito que as coisas só dão certo quando não houver a mínima probabilidade de darem errado. Por isso não baseio minha vida em apostas. Se sou poeta é porque não posso deixar de cantar, mesmo sabendo que certamente morrerei arruinada. (entrevista com Alma Welt)
terça-feira, 20 de março de 2012
O Milésimo Soneto
"Quando escrevi o meu milésimo soneto, as coisas começaram a ficar claras para mim. Eu tinha um "corpo de obra", poderia agora prosseguir com o peso de uma bagagem considerável, que me dava um autoridade sobre meu próprio mundo. Eu podia enxergar com nitidez o que eu própria tinha a dizer. E era uma visão de mundo baseada no amor da Natureza através de sua fusão com a cultura clássica, com os acalentados mitos de meu coração, mas também de minha alma. Eu própria tinha me tornado, com legitimidade, a minha anima e minha própria Musa. Eu não era mais o meu simples eu. Como ser humano eu tinha me tornado universal e portanto simbólica. Podia começar a ser lida, sem pudor, sem arrependimentos de amadora. Podia, como se diz, "peitar" o mundo..." (entrevista com Alma Welt)
segunda-feira, 5 de março de 2012
sábado, 3 de março de 2012
Sobre a Mitanálise Junguiana (por Alma Welt)
"A meu ver a chave para o entendimento da Mitanálise Junguiana está no fato de que na verdade não existe uma análise individual. Toda a humanidade está sendo analizada na nossa pessoa no momento da sessão psicanalítica. E é isso que interessa: os arquétipos universais atuantes no nosso "inconsciente coletivo". Toda dor humana só é relevante se tiver uma equivalência simbólica no plano universal. Do contrário é apenas birra, mimo, ou capricho fútil..." (Alma Welt)
Guilherme de Faria disse:
A consequência dessa constatação da Alma é a conclusão de que a "individuação" em Jung é, paradoxalmente, uma "universalização". Eis aí também a chave para o entendimento da poesia da Alma Welt, expressa principalmente nos seus sonetos. Todas as suas experiências pessoais, suas analogias, seus devaneios e anseios, suas angústias principalmente, são universais, simbólicas e arquetípicas. E por isso compartilháveis por todos, homens e mulheres de qualquer parte do mundo. O seu Pampa, sim, é somente uma metáfora para o conceito de "fim de mundo", ou começo dele, nosso território primordial após a expulsão do Paraíso, nosso exílio em solidão no seio da própria Natureza... nosso Leste do Éden.
Guilherme de Faria disse:
A consequência dessa constatação da Alma é a conclusão de que a "individuação" em Jung é, paradoxalmente, uma "universalização". Eis aí também a chave para o entendimento da poesia da Alma Welt, expressa principalmente nos seus sonetos. Todas as suas experiências pessoais, suas analogias, seus devaneios e anseios, suas angústias principalmente, são universais, simbólicas e arquetípicas. E por isso compartilháveis por todos, homens e mulheres de qualquer parte do mundo. O seu Pampa, sim, é somente uma metáfora para o conceito de "fim de mundo", ou começo dele, nosso território primordial após a expulsão do Paraíso, nosso exílio em solidão no seio da própria Natureza... nosso Leste do Éden.
sábado, 25 de fevereiro de 2012
Os frutos do meu pomar ( Alma Welt)
"Que imenso privilégio é poder viver neste Pampa, que é onde o Mundo começou, e poder atirar daqui mesmo meus poemas para o mundo! É como se eles estivessem sendo colhidos pelos meus leitores, como eu mesma colho os frutos do meu pomar..." (entrevista com Alma Welt)
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
A mão para o soneto ( depoimento de Alma Welt)
"Perguntam-me por quê escolhi o soneto como minha forma de expressão poética principal, a ponto de ter escrito mais de dois mil deles, coisa nunca feita por nenhum outro poeta no mundo. Eu respondo que não é somente por que tenho pressa de registrar minhas idéias, mas porque o soneto tem vida própria e se escreve sozinho com uma facilidade misteriosa em minhas mãos, mesmo se atendo às regras de métrica, rima e chave de ouro. Julgaram que minha resposta fosse cabotina, porque o soneto é uma forma clássica de certa dificuldade... mas garanto que como sou preguiçosa, tendo descoberto que tenho mão para o soneto, como os bons cozinheiros têm mão para o sal, quando comecei não pude parar mais. E através deles passei a limpo a minha vida..." (Alma Welt)
domingo, 5 de fevereiro de 2012
PREFÁCIO às CRÔNICAS DA ALMA, de Alma Welt
(por Guilherme de Faria)
Eis-nos aqui a publicar as Crônicas que Alma Welt considerava até a pouco, impublicáveis (pelo menos em jornal ). Aliás, nunca passou pela cabeça da nossa autora, o papel de jornalista. Suas crônicas têm o caráter íntimo e confessional de quase toda a sua produção( excetuadas as “Lendas da Alma”, e os ciclos de poemas “O Circo” e “A Ciranda dos Animais”, editados pelas minhas artesanais “Edições do Pavão Misterioso”.
É perturbador, no entanto, o fato de que quanto mais a nossa autora se expõe, com a sensualidade e explicitude que lhe é característica, em sua obra, mais ela se esconde pessoalmente, mais se reserva, numa condição de verdadeiro exílio social., o que consideramos, sinceramente, no mínimo um desperdício, dada a excepcional beleza física da “guria” ( como ela diz) que descobrimos, vinda do sul, e como que degredada nestes Jardins, de São Paulo, amiúde derramando lágrimas pelo Pampa e sua estância praticamente abandonada. “O casarão batido pelo minuano, recusa-se a afundar...”, ela diz lindamente num poema seu.
Não pensem os leitores que não tenho insistido para a nossa musa sair da toca. Estou começando a ser acusado de ciumento da minha descoberta, e “enrustidor”. Alma tem recusado amáveis convites de casais que se tornaram seus fãs, pela sua literatura, para almoços e jantares em sua homenagem, e que o fazem por meu intermédio. Em vão. Estou quase desistindo: trata-se já de uma fobia.
No entanto ( e isso é surpreendente), nossa autora está longe de ser uma pessoa triste, ou uma poetisa melancólica. Como nos seus textos, que são ela mesma, direta e coloquial, Alma celebra a “Alegria mais profunda do que a dor”, apreendida do Zaratustra de Nietzsche, que seu pai cultuava e que lhe passou tão cedo, dando-lhe essa diretriz filosófica inspiradora, bem como a linguagem simples e direta com que se expressa em prosa e poesia, com tanto lirismo, herdeira que é, legítima, do romantismo alemão, ainda que o faça tardiamente, nesse final caótico de século XX, e início do XXI, em nossa chamada Era Digital. A propósito, estou inclinado a rotular sua literatura de “neo-romântica”, uma vez que Alma Welt vem me provando a validade e a beleza desse verdadeiro movimento de uma autora só, que é ela mesma.
“NEO-ROMANTISMO”, é isso! Está lançado o movimento, se podemos assim dizê-lo. Conte comigo Alma, você já me cooptou, com a profundidade de sua redescoberta da beleza possível, no cotidiano, pelo seu enfoque generoso, desprovido de quaisquer ressentimentos, pela sua escolha da alegria, da liberdade sexual plena, pela capacidade de entrega a suas elevadas paixões por homens e mulheres, com igual intensidade. Pelo seu renovado culto da Arte pela arte, por sua corajosa afirmação da escolha do prazer e da felicidade.
Não esqueço, no entanto, o fato de que, sendo ela uma pintora e poeta, hipersensível, contém, também um componente melancólico, que, aliás, lhe doa seus momentos mais líricos, nos seus ciclos de sonetos que têm aquela característica única no mundo da literatura, de contar estórias, em suas seqüencias corretas. Confesso, pois, que a dor que detecto, sob a bela capa da alegria da nossa musa, me comove mais que tudo.
Alma não esquece, profunda que é, a fugacidade de tudo, a presença constante do fantasma próximo ou longínquo da Morte, a simples dor de existir, coexistente com a alegria e o prazer. Dessa dubiedade nasce o mistério que perpassa as suas narrativas. Uma espécie de suspense difuso, Hoffmanniano, que nos surpreende, uma vez que ela evita o “triller’, e quaisquer mirabolâncias folhetinescas, mantendo-se sempre no terreno da psicologia sutil, de um rico monólogo interior cheio de paradoxos.
A aparente simplicidade de sua linguagem, não esconde, no entanto, os vestígios de uma cultura superior, e mesmo fragmentos de uma erudição, surpreendente, que ela procura disfarçar por discrição, ou para melhor fazer-se entender. É sintomático o fato, contado por ela, da impressão que lhe causou a frase de Nietzsche, citada por seu pai, quando ela era ainda criança: “Há poetas que turvam suas águas para parecerem profundas’’. Essa máxima iria funcionar para ela como uma sábia diretriz, evitando turvar, tanto em sua poesia quanto em sua prosa.
Quanto ao universo em que cresceu, pode-se dizer privilegiado em sua dupla natureza cosmopolita e rural, ao mesmo tempo, naquela estância gaúcha de sua infância e primeira juventude, com o piano de cauda tocado belamente pelo seu pai, filho de alemães, cirurgião e literato, com sua imensa biblioteca clássica, que ele ensinou sua filha predileta a amar. O mundo que ela iria abordar em sua literatura, seria no entanto, o de um cotidiano urbano, paulistano, do seu ateliê nos Jardins, mas dessa perspectiva sutil de quem apreendeu cedo a captar o sentido profundo do dia-a-dia quando desvelado pela visão da esteta, hedonista e humanitária ao mesmo tempo, enfim, humanista.
Comove-nos o seu cândido epicurismo, que procura disfarçar a tendência às lágrimas de amor e dor, de comoção pelo ser humano tão amado por ela, a ponto de privilegiar somente a sua beleza e possibilidade de pureza ideais. Poderíamos dizer que Alma seria ,assim, a última herdeira do Idealismo alemão.
Estou, naturalmente, pensando no conjunto de toda a sua já considerável obra, com trinta livros de poemas e pelo menos cinco de contos e novelas.
Mas voltando a estas Crônicas, percebo que nelas a fronteira do conto é tênue, e embora tratem de acontecimentos e pessoas reais que cruzaram a vida e o universo interior desta Alma, é possível que existam nelas a contribuição da fantasia de caráter insólito e ao mesmo tempo realista desta sonhadora do verossímil, que sempre apostou na poeticidade inerente aos seres e às coisas deste mundo.
E é isso o que mais me comove nesta Alma, sua candura invencível, a coerência de sua visão humanista, pois que segue acreditando sobretudo na beleza e até mesmo na grandeza do ser humano, pelo menos em seus termos ideais, como ela mesma diz.
Mas então, o que é que a afasta da definição precipitada de “naïve”? Sua argúcia (eu responderia), e uma velada ironia que aparece vez por outra, e da qual ela não abusa. E a legitimidade de uma visão profunda, que captura o belo, onde quer que ele se encontre, inclusive em situações eventualmente grotescas, a verdadeira definição de humor. Mas sobretudo pela capacidade suprema, de poeta, de captar a alegoria, o sentido maior, simbólico, dos acontecimentos aparentemente banais do seu cotidiano, que é o de todos nós.
FIM
GUILHERME DE FARIA
São Paulo, 1/07/2004
Eis-nos aqui a publicar as Crônicas que Alma Welt considerava até a pouco, impublicáveis (pelo menos em jornal ). Aliás, nunca passou pela cabeça da nossa autora, o papel de jornalista. Suas crônicas têm o caráter íntimo e confessional de quase toda a sua produção( excetuadas as “Lendas da Alma”, e os ciclos de poemas “O Circo” e “A Ciranda dos Animais”, editados pelas minhas artesanais “Edições do Pavão Misterioso”.
É perturbador, no entanto, o fato de que quanto mais a nossa autora se expõe, com a sensualidade e explicitude que lhe é característica, em sua obra, mais ela se esconde pessoalmente, mais se reserva, numa condição de verdadeiro exílio social., o que consideramos, sinceramente, no mínimo um desperdício, dada a excepcional beleza física da “guria” ( como ela diz) que descobrimos, vinda do sul, e como que degredada nestes Jardins, de São Paulo, amiúde derramando lágrimas pelo Pampa e sua estância praticamente abandonada. “O casarão batido pelo minuano, recusa-se a afundar...”, ela diz lindamente num poema seu.
Não pensem os leitores que não tenho insistido para a nossa musa sair da toca. Estou começando a ser acusado de ciumento da minha descoberta, e “enrustidor”. Alma tem recusado amáveis convites de casais que se tornaram seus fãs, pela sua literatura, para almoços e jantares em sua homenagem, e que o fazem por meu intermédio. Em vão. Estou quase desistindo: trata-se já de uma fobia.
No entanto ( e isso é surpreendente), nossa autora está longe de ser uma pessoa triste, ou uma poetisa melancólica. Como nos seus textos, que são ela mesma, direta e coloquial, Alma celebra a “Alegria mais profunda do que a dor”, apreendida do Zaratustra de Nietzsche, que seu pai cultuava e que lhe passou tão cedo, dando-lhe essa diretriz filosófica inspiradora, bem como a linguagem simples e direta com que se expressa em prosa e poesia, com tanto lirismo, herdeira que é, legítima, do romantismo alemão, ainda que o faça tardiamente, nesse final caótico de século XX, e início do XXI, em nossa chamada Era Digital. A propósito, estou inclinado a rotular sua literatura de “neo-romântica”, uma vez que Alma Welt vem me provando a validade e a beleza desse verdadeiro movimento de uma autora só, que é ela mesma.
“NEO-ROMANTISMO”, é isso! Está lançado o movimento, se podemos assim dizê-lo. Conte comigo Alma, você já me cooptou, com a profundidade de sua redescoberta da beleza possível, no cotidiano, pelo seu enfoque generoso, desprovido de quaisquer ressentimentos, pela sua escolha da alegria, da liberdade sexual plena, pela capacidade de entrega a suas elevadas paixões por homens e mulheres, com igual intensidade. Pelo seu renovado culto da Arte pela arte, por sua corajosa afirmação da escolha do prazer e da felicidade.
Não esqueço, no entanto, o fato de que, sendo ela uma pintora e poeta, hipersensível, contém, também um componente melancólico, que, aliás, lhe doa seus momentos mais líricos, nos seus ciclos de sonetos que têm aquela característica única no mundo da literatura, de contar estórias, em suas seqüencias corretas. Confesso, pois, que a dor que detecto, sob a bela capa da alegria da nossa musa, me comove mais que tudo.
Alma não esquece, profunda que é, a fugacidade de tudo, a presença constante do fantasma próximo ou longínquo da Morte, a simples dor de existir, coexistente com a alegria e o prazer. Dessa dubiedade nasce o mistério que perpassa as suas narrativas. Uma espécie de suspense difuso, Hoffmanniano, que nos surpreende, uma vez que ela evita o “triller’, e quaisquer mirabolâncias folhetinescas, mantendo-se sempre no terreno da psicologia sutil, de um rico monólogo interior cheio de paradoxos.
A aparente simplicidade de sua linguagem, não esconde, no entanto, os vestígios de uma cultura superior, e mesmo fragmentos de uma erudição, surpreendente, que ela procura disfarçar por discrição, ou para melhor fazer-se entender. É sintomático o fato, contado por ela, da impressão que lhe causou a frase de Nietzsche, citada por seu pai, quando ela era ainda criança: “Há poetas que turvam suas águas para parecerem profundas’’. Essa máxima iria funcionar para ela como uma sábia diretriz, evitando turvar, tanto em sua poesia quanto em sua prosa.
Quanto ao universo em que cresceu, pode-se dizer privilegiado em sua dupla natureza cosmopolita e rural, ao mesmo tempo, naquela estância gaúcha de sua infância e primeira juventude, com o piano de cauda tocado belamente pelo seu pai, filho de alemães, cirurgião e literato, com sua imensa biblioteca clássica, que ele ensinou sua filha predileta a amar. O mundo que ela iria abordar em sua literatura, seria no entanto, o de um cotidiano urbano, paulistano, do seu ateliê nos Jardins, mas dessa perspectiva sutil de quem apreendeu cedo a captar o sentido profundo do dia-a-dia quando desvelado pela visão da esteta, hedonista e humanitária ao mesmo tempo, enfim, humanista.
Comove-nos o seu cândido epicurismo, que procura disfarçar a tendência às lágrimas de amor e dor, de comoção pelo ser humano tão amado por ela, a ponto de privilegiar somente a sua beleza e possibilidade de pureza ideais. Poderíamos dizer que Alma seria ,assim, a última herdeira do Idealismo alemão.
Estou, naturalmente, pensando no conjunto de toda a sua já considerável obra, com trinta livros de poemas e pelo menos cinco de contos e novelas.
Mas voltando a estas Crônicas, percebo que nelas a fronteira do conto é tênue, e embora tratem de acontecimentos e pessoas reais que cruzaram a vida e o universo interior desta Alma, é possível que existam nelas a contribuição da fantasia de caráter insólito e ao mesmo tempo realista desta sonhadora do verossímil, que sempre apostou na poeticidade inerente aos seres e às coisas deste mundo.
E é isso o que mais me comove nesta Alma, sua candura invencível, a coerência de sua visão humanista, pois que segue acreditando sobretudo na beleza e até mesmo na grandeza do ser humano, pelo menos em seus termos ideais, como ela mesma diz.
Mas então, o que é que a afasta da definição precipitada de “naïve”? Sua argúcia (eu responderia), e uma velada ironia que aparece vez por outra, e da qual ela não abusa. E a legitimidade de uma visão profunda, que captura o belo, onde quer que ele se encontre, inclusive em situações eventualmente grotescas, a verdadeira definição de humor. Mas sobretudo pela capacidade suprema, de poeta, de captar a alegoria, o sentido maior, simbólico, dos acontecimentos aparentemente banais do seu cotidiano, que é o de todos nós.
FIM
GUILHERME DE FARIA
São Paulo, 1/07/2004
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
"A atitude adversa de minha mãe, Ana Morgado, a Açoriana; da Matilde minha babá e de Solange, minha irmã mais velha, em relação à minha poesia e mesmo à minha liberdade resultaram estimulantes para mim. Ser poeta representava então um desafio, como deve ser. Do contrário, a facilidade, a aprovação e o aplauso do Vati, meu pai, de Rodo meu irmão e de Lucia minha irmã, e até do meu fiel Galdério, meu charreteiro, e factotum aqui da estância, me teriam amolecido, estragado, mimado. Afinal, eu era a princesa, o que por si só é poesia, não se espera das princesas uma obra profunda. O ser supera o fazer. Pensando assim, agora posso compreender meus primeiros adversários, e não mais duvidar do seu amor. Está tudo certo, minha biografia é perfeita. Mas qual biografia não é, se tudo é Destino?" (Entrevista com Alma Welt)
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
" Eu nunca encontrei ninguém que amasse tanto a Poesia quanto eu. Sei que existem essas pessoas, mas por alguma razão não fizeram parte das minhas relações. Eu sentiria uma grande solidão poética, não fossem meus grandes pares do passado. Bem, talvez eu esteja sendo injusta, na verdade teve o Guilherme de Faria, meu descobridor em São Paulo. Mas suspeito que ele, sendo pintor, me amou primeiramente pela minha beleza, me fazendo posar nua para ele a todo momento. Logo ele que nunca precisou de modelo..." (entrevista com Alma Welt)
"Por alguma razão, inexplicável, escolhi desde cedo o soneto para confessar-me, contar tudo, registrar meu dia a dia mental e mesmo circunstancial, para sonhar e até para divertir-me. Sei que houveram grandes sonetistas no mundo, e ainda os há... que também usaram o soneto para fins confessionais, que os quatorze versos muito se prestam para isso. Mas duvido que eles se tenham construido através deles como eu, que já não os distingo de mim mesma. Se queimassem minha Arca, eu deixaria de existir. Creio que cairia fulminada, como uma irreversível Fênix..." (entrevista com Alma Welt)
"Quando eu era guria, minha babá Matilde me dizia que nós morávamos no Fim do Mundo, que aqui o o vento fazia a curva e voltava, que para além do horizonte, lá no fim da coxilha, não havia mais nada. Apesar de aprender Geografia, afetivamente continuei a sentir-me uma espécie de fronteiriça, uma guardião da fronteira do Mundo com o Nada. Sim, eu sempre tive um pé no Abismo, e isso, somente isso, explica a minha poesia..." (Alma Welt)
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
"Que jornada gloriosa é a vida! Sim, a vida comum, a vida de qualquer um! Existirmos e perseverarmos contra toda a expectativa da consciência profunda, que não nos abandona senão aparentemente... Caminharmos firmes, embora lentamente, em direção ao abismo! Que coragem básica é preciso para se estar vivo e caminhar. O ser humano, por ser consciente, é necessariamente um herói. Não falem mal do ser humano na minha frente!" (Alma Welt)
"Fui criada na Antroposofia, corrente humanista adotada por meu pai pelo menos em sua pedagogia. Me lembro que fiquei muito intrigada e divertida quando adolescente, com a afirmação do Dr. Rudolf Steiner no seu livro iniciático "A Crônica do Akasha", de que os macacos são seres humanos que involuiram, e não o contrário. Tenho observado sinais dessa possibilidade no homem em suas piores manifestações de massa..." (entrevista com Alma Welt)
"Aqui em casa, já me diagnosticaram como louca, ou no mínimo, "maluca". Meu entusiasmo pela vida me leva a fazer coisas doidas, a agir às vezes como uma "histérica", por excesso de arrebatamento. Corro, subo nas coisas, nas mesas e nos muros, me desnudo e saio pela coxilha em disparada, a pé ou a cavalo... sim, nua como vim ao mundo! Às vezes grito, de alegria, de pura alegria de beleza! Bem, já me internaram uma vez... Mas foi no polo oposto, estava perdida de mim e vagava no bosque, balbuciando, em farrapos. Sim, às vezes tenho medo de mim..." (Alma Welt)
"Se me sinto muito perdida ou frustrada e uma criança está por perto, estou salva. A criança não é um projeto de adulto, esse é o seu mistério e encanto. É o ser mais completo em si mesmo, que nos ensina a plenitude, a essência e a beleza do momento. Eu a observo brincando, ou simplesmente olho dentro dos seus olhos e... me apaziguo." (Alma Welt)
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